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Sobre o VAR, sua interferência ao jogo e a crítica à tecnologia

Gabriel Said 13 de outubro de 2021
VAR no futebol
A sala do VAR. Foto: Reprodução CBF

O tema do árbitro de vídeo (VAR) talvez seja o favorito aqui nessa coluna, já que esta será a quarta vez que aparece por aqui. Retomo ao assunto do VAR não só porque acho que o debate seja rico, mas também por achar necessário voltar regularmente pelo VAR estar em constante transformação.

O que pretendo fazer aqui é apontar, da forma mais resumida que eu conseguir, os dois principais problemas gerais que vejo cercando o VAR. Eles variam desde questões envolvendo o jogo até a maneira como boa parte do debate sobre o tema é feito, mas diria que ambos os pontos são gerais.

O primeiro ponto é sobre o problema da imagem, através do quê Guy Debord chama de sociedade do espetáculo (2003). Como é um tema que já tratei aqui no Ludo, aproveito para deixar aqui os links para os três textos anteriores: o primeiro é O VAR é burro, o segundo é O VAR, o espetáculo e algumas das suas contradições, o terceiro é O Processo no futebol moderno. O segundo ponto tem a ver com a pós-modernidade, especificamente com a noção de progresso e uma crítica ao objetivismo, que é a valorização daquilo que é objetivo em detrimento ao subjetivo.


Existe mais de um futebol. Em diferentes campos que estudam este esporte podemos ver as mais diferentes distinções, como a separação entre tradicional, moderno e pós-moderno usada por Richard Giulianotti (GIULIANOTTI, 2002) para seus estudos histórico-sociológicos; as matrizes bricolada, espetacularizada, comunitária e escolar usadas por Arlei Sander Damo (DAMO, 2005) em sua abordagem etnográfica; é comum ouvirmos sobre futebol ultrapassado ou moderno nos programas televisivos; e por aí vai. Trago aqui apenas mais uma forma de categorizar, pegando emprestado termos de Jacques Lacan (1953) – mas sem usá-los necessariamente no mesmo sentido – são eles o simbólico, real e imaginário. O argumento no texto será construído através das relações entre estas categorias.

Futebol simbólico: Este tem a ver com os significados que as relações dão a determinado símbolo, linguagem, etc. O elemento em si não tem sentido e só o terá a partir das suas relações com outros elementos. Os exemplos podem ser a relação do torcedor com seu clube do coração e também o que diferencia a mão intencional da não intencional.

Futebol real: É aquele que vem da experiência empírica, subjetiva do esporte através da participação direta, ou seja, jogando ou torcendo na arquibancada. É importante notar que, por vir da subjetividade humana, não necessariamente se trata do fato concreto, mas que ainda assim é de alguma forma, harmonioso e com sentido na sua experiência.

Futebol imaginário: Este eu poderia chamar espetacularizado, mas como me refiro especificamente na relação entre os indivíduos com o futebol achei melhor evitar o outro termo pois ele se refere a algo mais amplo, envolvendo até a superestrutura econômica do esporte. O futebol imaginário não é uma oposição ao real, mas vem da relação mediada por um agente espetacularizador, sendo a TV e a internet os mais fortes hoje em dia. Resumindo, poderia dizer que o futebol imaginário é aquele que existe a partir dos meios de comunicação e redes sociais e suas narrativas que são construídas com alguma intenção ou, às vezes, espontaneamente.

Ao menos desde que a primeira competição de futebol, ainda no século XIX, as três categorias existem e se relacionam, muitas vezes em conflito. Portanto, o conflito entre o futebol real e imaginário não é novo, mas o VAR impõe um impasse na relação a partir do momento que o futebol imaginário começa a interferir diretamente no real. Enquanto antes eram feitas as críticas anteriores e posteriores ao jogo, ou até mesmo durante, mas sem interferência, o uso do vídeo como assistente é uma maneira de trazer o imaginário para disputar espaço que pertencia originalmente ao simbólico e real.

O futebol espetacularizado – que costuma entrar na classificação de “futebol moderno” para movimentos torcedores – é, como falei, algo mais complexo e com caráter bem econômico por trás. Apesar de afetar os campos simbólico e real, a espetacularização arregaça mesmo as mangas é no campo imaginário pelo controle alienante das imagens, que a indústria do entretenimento visa explorar ao máximo. Coisas e eventos insignificantes podem parecer colossais, basta uma boa manipulação de imagens, talvez alguns efeitos especiais e as palavras certas para construir uma bela narrativa.

Vamos ao futebol com super zoom, câmera lenta, pause e a linha de impedimento. Todos efeitos que, combinados com as dezenas de câmeras espalhadas pelos estádios e comentaristas (inclusive de arbitragem) formam uma combinação para a arbitragem do jogo também virar parte do espetáculo ao vivo. Todos estes citados são frutos do futebol imaginário. Até mesmo a linha de impedimento, já que não existe uma linha digital in loco. Ela é a representação visual criada pela televisão da Regra 11, do impedimento.

Com a invasão da TV ao jogo, todos no campo vivem uma experiência de Big Brother, com todos os seus movimentos sendo observados por uma entidade que tudo vê à distância. Essa nova realidade ao mesmo tempo que promete ser libertadora para os de campo, em particular os árbitros, ela tem se mostrado na verdade um problema que torna os do campo reféns das imagens, ou em outras palavras, o real-simbólico refém do imaginário.

Para tentar facilitar, foi criado uma diferenciação do valor de lances. Os lances mais importantes e nos quais o VAR tem praticamente total liberdade de interferir, é nos chamados “lances capitais”. Existe uma problemática ao tentar definir a priori o valor dos lances. Pense: uma falta a cerca de 30 metros não é considerada lance capital, mas e se o gol se originar dela? Imagine que essa falta foi mal marcada e assim um time marcou o seu gol. Pois foi assim que a França abriu o placar na final da Copa do Mundo de 2018 contra a Croácia. Outro exemplo aconteceu na partida entre Colônia e Greuther Fürth no dia 1º de outubro de 2021, quando uma marcação errada de lateral no meio de campo aos 7 minutos de jogo gerou o gol da equipe do Greuther Fürth. Menos mal para o Colônia, que virou o placar e ganhou a partida. A Croácia não teve a mesma sorte.

A partida de futebol é um jogo contínuo, diferentemente do beisebol que tem várias paradas. No futebol todos os lances estão intrinsecamente interligados como uma malha de fios que se atravessam pelas suas itinerações, dando forma ao jogo enquanto ele acontece (INGOLD, Trazendo as coisas de volta à vida, 2012), portanto só é possível fazer qualquer tentativa de quantificar as ações do jogo a posteriori. Sobre isso, Hudson Martins já escreveu muito bem.

Ao não construir um ambiente que permita a intromissão do imaginário de forma que não perturbe a harmonia do real-simbólico, qualquer intromissão do VAR tem o potencial de se tornar uma experiência traumática ao jogo, minando a autoridade do árbitro em campo, estressando os jogadores e público, quebrando o ritmo da partida e sem necessariamente gerar um resultado socialmente considerado justo – embora a arbitragem possa considerar.

Na Copa do Mundo de Futsal 2021 na Lituânia o vídeo foi utilizado também, mas, ao invés de Video Assistant Referee, presenciamos o Video Support (VS). A principal diferença está onde parte a iniciativa para recorrer ao vídeo. Enquanto o futebol tem no vídeo mais um árbitro auxiliar “acompanhando cada momento da partida em um monitor de televisão”, como a FIFA descreveu, o VS só é utilizado quando é solicitado por um dos treinadores, por um sistema de desafios.

Vamos agora ao segundo ponto a partir da provocação de que o impedimento não é necessariamente objetivo. É óbvio, mas importante ressaltar que não me refiro de impedimentos por vários centímetros, talvez até metros. Também não vou cair na armadilha de especular quantos centímetros seriam toleráveis justamente pelo pressuposto que levantei; da falta de objetividade. Para desenvolver o argumento tenho a sorte de poder usar uma noção já conhecida e muito usada no futebol – mas que anda em desuso – que é o de “mesma linha”, que reside no campo simbólico. Além disso, como a própria regra 11 esclarece: estar em posição de impedimento não constitui infração”. Vamos explorar a partir daí.

A “mesma linha” no futebol não se refere a estar milimetricamente na mesma linha imaginária. A noção era quando a diferença da distância entre o atacante e o penúltimo defensor até a linha de fundo era tão pequena que socialmente era aceita a continuação do lance, favorecendo o ataque. O contexto é o que faz a diferença. A margem de tolerância era uma construção simbólica a partir das relações que o contexto específico daquele lance, indo então para a aplicação – ou não – do impedimento no campo real, podendo gerar insatisfação pela decisão da arbitragem, mas mantendo num geral a harmonia pelos elementos em jogo serem os que pertencem a ele. A intromissão da TV (imaginário) causa o mal-estar. É importante notar que o erro, que faz parte do real, por pior que seja, é de jogo. Não confunda essa afirmação com condescendência ao erro, até porque o VAR se mostra todas as semanas estar longe de ser solução para erro. Na discussão de redução do erro, é o método que está sendo discutido.

No futebol moderno, reflexo de seu tempo, clubes e jogadores são negociados como coisas em um mercado de ações, os clubes se valem somente pelos títulos, valor da equipe e afins  enquanto os jogadores são melhores ou piores a partir de suas estatísticas. Tudo é quantificado, objetivo. Objetivismo esse que, por exemplo, fez Neymar ganhar péssima nota no Sofascore em um dos seus melhores jogos. Os treinadores melhor avaliados pela imprensa são os caracterizados como “modernos”, por conta de uma maior valoração dos conhecimentos objetivos e analíticos em detrimento aos saberes empíricos, estes, vistos como ultrapassados e “sem ideia”. Nas leis do jogo, isso se reflete pela rejeição à interpretação, tornando lances como a infração de mão, algumas decisões sobre a cor do cartão e também alguns impedimentos serem uma dor de cabeça.

Um dos maiores problemas acerca do VAR é justamente a falsa noção que o uso de mais tecnologia e mais objetivismo nas análises é algo necessariamente bom o tempo todo, justificando até uma mudança radical de paradigma sobre o esporte porque o velho, nessa lógica, deve dar lugar ao novo. Esperar crônicas esportivas como as de Nelson Rodrigues ou Eduardo Galeano nos tempos modernos talvez seja pedir demais. Hoje em dia vale muito mais saber as mais diferentes estatísticas, a porcentagem de posse de bola, total de desarmes, finalizações e qualquer outro valor quantificável. Não há mais espaço para os bandeirinhas artilheiros, Gravatinha, Sobrenatural de Almeida, mas curiosamente, parecem sobrar idiotas da objetividade.

A modernidade exige esses sistemas não mediados por pessoas, ou mediados, desde que controlados por peritos conhecedores de dados quantificados e capazes de manipular informações brutas quantificáveis. Anthony Giddens ao tratar os sistemas peritos ou abstratos escreve que “a natureza das instituições modernas está profundamente ligada ao mecanismo de confiança em sistemas abstratos” (Giddens, 1991, p. 77). Isto é, se tornou mais fácil acreditar que qualquer dificuldade ou problema que o VAR ou outros sistemas abstratos possam ter seja por um erro humano do que falha do próprio sistema.

A hipervalorizarão da objetividade – que paradoxalmente é também abstrata – cresce na mesma medida da repulsa a tudo que é subjetivo ou interpretativo. Em tese, é mais fácil lidar com as coisas objetivas. Quer dizer, até por exemplo, tentar determinar o quê é mão e o que não é. Interpretação essa que parece mudar a cada poucos meses, indicando a incerteza para interpretar essa regra objetivamente. De fato, determinar como objetivas coisas que não dependem do empirismo e subjetividade é muito mais fácil: ver se a bola entrou ou não, quem fez a falta ou onde foi a falta é fácil e não gera problemas ao VAR. Os problemas estão na determinação da cor do cartão em alguns lances, marcação de mão e impedimento. Nestes casos, a regra pode parecer ser clara, mas como se tratam de interações entre o real e simbólico, quando tentam remover o contexto da interpretação ou enquadrá-lo em um manual protocolar, a regra começa a ficar nebulosa.

A interferência do futebol imaginário no futebol real é um caminho sem volta. A Copa do Mundo de Futsal e seu VS pode ter indicado uma solução melhor para o grande impasse que a arbitragem de futebol encara. A defesa cega ao VAR, ao seu protocolo usando o “erro humano” como bengala para qualquer problema não vai levar a lugar nenhum. O sentimento do torcedor sobre o quê é justo/bom e injusto/ruim, também é importante para esta discussão que, em alguns momentos parece tentar se fechar para um público maior alegando clubismo, terraplanismo (ser contra tecnologia) ou qualquer coisa que desqualifique opiniões contrárias. Exatamente pelo futebol também pertencer ao campo simbólico e, mais importante, ser uma ótima representação da vida, que alguns lances – mesmo que errados pela regra – como o gol da Mano de Dios de Maradona em 1986 contra a Inglaterra e tantos outros que foram e outros que não foram, são preenchidos de significados e compõe a história do futebol. A objetividade é fundamental para abordar o futebol de uma forma cada vez melhor, mas é importante também não deixar de aproveitar as subversões de Galeanos, Diegos e Manés.

Bibliografia

Damo, A. S. Do dom à profissão. Uma etnografia do futebol de espetáculo a partir da formação de jogadores no Brasil e na França. Porto Alegre, 2007.

Debord, G. (2003). A Sociedade do Espetáculo. Projeto Periferia.

Giddens, A. (1991). As consequências da modernidade. São Paulo: Editora UNESP.

Giulianotti, R. (2002). Sociologia do futebol: dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidões. São Paulo: Nova Alexandria.

Ingold, T. Da transmissão de representações à educação da atenção. Educação, 6-25, 2010.

Ingold, T. Trazendo as coisas de volta à vida. Horizontes Antropológicos, 25-44, 2012.

Lacan, J. (8 de Julho de 1953). O simbólico, o imaginário e o real. Conferência de 8 de julho de 1953 na Sociedade Francesa de Psicanálise. Acesso em 26 de Setembro de 2021.

Martins, H. Sobre o árbitro de vídeo: uma crítica necessária. Universidade do Futebol, 2019.

Video support to debut at FIFA Futsal World Cup Lithuania 2021. Acesso em 3 de Outubro de 2021

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Gabriel Said

Said joga na defesa, é fã de Diego Armando Maradona e assim como Eduardo Galeano, é um mendigo do bom futebol. Sou formado em Sociologia na UFF, mestrando em Antropologia pela UFF e aluno da ATFA. Participo do grupo de Futebol e Cultura, do LEME/UERJ; do grupo de Futebol e Humanidades da Universidade do Futebol e do NEPESS, da UFF. Escrevo a coluna Danúbio Azul no Ludopédio e também escrevo para a Universidade do Futebol (https://universidadedofutebol.com.br/author/gabrielsaid/). E-mail: [email protected]

Como citar

SAID, Gabriel. Sobre o VAR, sua interferência ao jogo e a crítica à tecnologia. Ludopédio, São Paulo, v. 148, n. 21, 2021.
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