04.3

Sobre os campeonatos estaduais e os pontos corridos

Sérgio Settani Giglio 15 de outubro de 2009

A rivalidade entre os times de futebol no Brasil foi construída ao longo de muitos anos nos confrontos entre os clubes de uma mesma cidade e, posteriormente, entre times do próprio Estado. O Campeonato Brasileiro, com o objetivo de integrar o país surgiu em 1971, portanto, um ano após a conquista do tricampeonato da Copa do Mundo de 1970 pela seleção.

Atualmente, os Estaduais perderam um pouco de espaço no cenário futebolístico, mas foi graças a ele que as maiores rivalidades do país foram criadas. Os maiores clássicos são estabelecidos em âmbito local, como por exemplo, em São Paulo, com Palmeiras x Corinthians, SAN-SÃO entre Santos e São Paulo; ou o famoso Flamengo e Fluminense, conhecido como FLA x FLU; temos também Bahia e Vitória com o BA-VI; sem falar no GRE-NAL, entre Grêmio e Internacional. Esses são apenas alguns exemplos para ilustrar como a dinâmica do futebol foi construída a partir de relações que aconteciam dentro de um espaço menor, a cidade. Claro que tempos depois, com um campeonato inter-regional (por exemplo: o extinto Torneio Rio-São Paulo) ou nacional (Campeonato Brasileiro), novas rivalidades são criadas (e para alguns forjadas), mas nada comparado com a rivalidade entre times de uma mesma localidade.

Algumas pessoas consideram que o fim dos Estaduais é necessária para atender a nova dinâmica da globalização. O jornalista Juca Kfouri sempre crítico em suas colunas é um dos que defendem a extinção dos Estaduais, ou melhor, como ele mesmo diz:

Eu não sou pela extinção dos Estaduais. Quero mais que eles durem a temporada inteira. Eu sou contra que os clubes grandes participem dos Estaduais. Prefiro vê-los na disputa dos mais interessantes torneios regionais, como o Rio-São Paulo, por exemplo, muito melhor como aperitivo da temporada e para avaliar as condições técnicas de cada time (KFOURI, 2007).

Será que um Campeonato Rio-São Paulo teria um nível técnico melhor do que encontramos nos Estaduais? É verdade que depois de muitos anos, os times do Rio de Janeiro parecem estar melhor estruturados do que em outros anos e com jogadores importantes em seus elencos.

Ainda nessa polêmica o mesmo Kfouri entende que gastar energia com jogos ditos “menores” não acrescenta em nada para os times grandes. Para ele, o risco é maior do que o benefício em disputar tais partidas:

(….) não é muito diferente a situação dos grandes clubes diante de adversários que nada acrescentam aos seus currículos, a não ser a humilhação. Perde-se dinheiro como o Botafogo perdeu, expõe-se craques que valem fortunas em gramados e estádios sem condições, arrisca-se a invasões fruto de justas indignações mal extravasadas e não se acrescenta nada nem mesmo quando se ganha, posto que a vitória, nesses casos, é mera obrigação (KFOURI, 1998).

Já outro jornalista do mesmo veículo de comunicação discorda de seu colega de trabalho. Ele afirma:

Ao contrário do que o Juca costuma argumentar, os Estaduais parecem-me interessantes para os clubes grandes. Servem como uma espécie de pré-temporada, em que os times podem ganhar entrosamento de jogo ao mesmo tempo em que são testados. Um campeonato compacto e bem organizado, com duração de pouco mais de dois meses, é um excelente início de temporada (TORERO, 2007).

Aqueles que defendem o fim dos Estaduais justificam sua posição sempre a partir do modelo europeu, que deveria ser importado para o Brasil sem nos atentarmos para as nossas particularidades. Parece que Nelson Rodrigues estava certo ao falar de nosso complexo de inferioridade diante dos europeus. Será que o modelo europeu dará certo num país com tantas diferenças como o nosso?

Os países da Europa, salvo raríssimas exceções, são pequenos e, portanto, existe uma maior facilidade de locomoção das equipes para jogar as partidas do outro lado do país. Claro que existem rivalidades entre os times de uma mesma cidade, mas não seria possível criar um campeonato Estadual devido ao número reduzido de times se comparado ao que encontramos nas cidades brasileiras.

As próprias condições geográficas do Brasil facilitaram que a construção das rivalidades se solidificassem dentro das cidades. O Brasil possui dimensões continentais e existe grande dificuldade (muitas vezes falta de recursos financeiros) para que os clubes joguem em locais distantes de sua origem. Aliado a isso, as rivalidades foram criadas a partir de jogos locais, na própria cidade. O primeiro Campeonato Paulista aconteceu em 1902 com apenas cinco equipes e cresceu ao longo dos anos enquanto o primeiro Campeonato Brasileiro teve início somente em 1971. A maior dificuldade desse Campeonato Brasileiro, que se diz nacional, é integrar as mais diversas regiões do país. O número de participantes na primeira divisão de equipes da região Nordeste sempre é reduzido, sem falar que a região Norte dificilmente se faz representada.

Se não existirem os Estaduais, inúmeros clubes deixarão de existir. O próprio calendário atual faz com que diversos times tenham poucos meses de atuação durante o ano. Se esses times não participarem de alguma divisão do Campeonato Brasileiro ficarão sem atividade pelo resto do ano. Será que a tão falada globalização significa seleção natural, na qual os mais fortes (leia-se mais ricos) sobreviverão?

Atualmente o Campeonato Brasileiro está estruturado em uma competição de pontos corridos, ou seja, quem fizer mais pontos será o campeão. Espera-se que a melhor equipe seja a campeã para que não aconteçam distorções como ocorreram em outros Campeonatos Brasileiros, como relata Franco Jr (2007, p. 151):

Fórmulas esdrúxulas, com o objetivo de valorizar as partidas finais e semifinais, provocavam distorções, tornando campeões times que haviam obtido menos pontos que os vices, como foi o caso em 1974, 1977, 1981, 1983 e 1986.

O Campeonato Paulista adotou os pontos corridos, mas não descartou a semifinal e a final. Jogos conhecidos como “mata-mata” sempre despertam grande interesse pelo torcedores. Um amigo disse que não tem sensação melhor ao acordar quando sabe que o jogo é decisivo para o seu time, pois quem perder está fora. O modelo de pontos corridos opera num formato linear de disputa, isto é, quem acumular mais pontos será o campeão. Isso pode gerar periódicas hegemonias, o que para o futebol pode não ser o mais interessante. Essa forma de campeonato não abre espaço para grandes zebras, como pode acontecer no modelo de eliminatória simples. Do ponto de vista de justiça é melhor que a equipe mais organizada (dentro e fora de campo) vença, mas isso pode ao longo do campeonato criar um desinteresse dos torcedores já que os ingressos são caros e não faz sentido investir dinheiro onde se sabe o resultado final antes do fim.

Ao mesclar a forma de disputa de pontos corridos (previsível) com a imprevisível e emocionantes partidas de mata-mata o Campeonato Paulista tenta resgatar os grandes clássicos, o interesse da torcida e a emoção da disputa. Qual será o melhor modelo? Isso é difícil de responder, alguns dirão que é melhor um em detrimento ao outro. Sou a favor da justiça no futebol, embora esse seja um esporte em que a injustiça muitas vezes vence. Também podemos perguntar se a injustiça não seria um dos grandes charmes do futebol?

Gosto do campeonato por pontos corridos, como acontece no Brasileiro, mas nos últimos anos confesso que o mais emocionante foi observar a disputa para ver quem não cairia para a segunda divisão ao invés de discurtirmos quem seria o grande campeão. Se o objetivo maior dos clubes é estar em primeiro e o interesse de todos volta-se para o fim da tabela, é preciso rever alguma coisa. O problema não está na fórmula de disputa, mas na forma como os times se preparam para esse tipo de competição. Por isso, devemos olhar para o processo e não somente para o resultado final.

Independente da fórmula de disputa, não devemos e não podemos eliminar os Campeonatos Estaduais, pois foi a partir deles que o futebol brasileiro foi construído, existe uma grande tradição envolvida. Será que acabar com os Estaduais resolveria algum problema do nosso futebol? Acredito que não, ou melhor, certamente criaria outros tipos de problemas, como por exemplo, a extinção de inúmeros clubes. Não é a fórmula de pontos corridos que tira a emoção da disputa. O que provoca o desinteresse é a falta de estrutura dos clubes para enfrentar campeonatos estruturados como nesse sistema. Se for mudar algo no futebol é preciso olhar primeiro para os nossos cartolas, mas isso terá que ser um outro artigo!

Bibliografia 
KFOURI, Juca. Ah, os Estaduais. Folha de S. Paulo. 14 de março de 1998.
______. Ainda sobre o velho estadual. Folha de S. Paulo. 11 de fevereiro de 2007.
TORERO, José R. O estado das coisas e coisas do Estado. Folha de S. Paulo. 1 de fevereiro de 2007.
Seja um dos 25 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Sérgio Settani Giglio

Professor da Faculdade de Educação Física da UNICAMP. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Esporte e Humanidades (GEPEH). Integrante do Núcleo Interdisicplinar de Pesquisas sobre futebol e modalidades lúdicas (LUDENS/USP). É um dos editores do Ludopédio.

Como citar

GIGLIO, Sérgio Settani. Sobre os campeonatos estaduais e os pontos corridos. Ludopédio, São Paulo, v. 04, n. 3, 2009.
Leia também:
  • 04.5

    Quem vê tanto futebol?

    Paulo Nascimento
  • 04.4

    Brasil grande

    Enrico Spaggiari
  • 04.2

    Que os erros de 1950 não se repitam em 2014

    Marcel Diego Tonini