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Sobre real visceralismo, realismo mágico e o futebol em Roberto Bolaño

Guilherme Trucco 11 de agosto de 2021
Roberto Bolaño
O escritor  latino-americano Roberto Bolaño. Foto: Anna O. Cruz/ divulgação/ Cia das Letras

Roberto Bolaño (Santiago/Chile, 1953 – Barcelona/Cataluña, 2003) foi um escritor nascido no Chile, e que viveu muitos anos no México, além muitas idas e vindas pela Espanha e Europa. Entretanto, se autodenominava como um escritor em essência latino-americano.

Aclamado pela crítica internacional como um dos maiores autores de seu tempo, tendo como suas obras mais consagradas Os Detetives Selvagens, e 2666 (póstuma). Viveu no Chile até seus 13 anos, quando sua família se muda para o México. Aos 15, abandona os estudos para se dedicar a ler e escrever de maneira autodidata. Passa dias em bibliotecas públicas, quando não obtém seus livros de sua forma favorita: roubando de grandes livrarias.

Em setembro de 2001, dois anos antes de sua morte, publica a coletânea de contos curtos Putas Assassinas, a qual contém o conto Buba. Um saboroso conto boleiro, narrado em tom de memória, pelo personagem ponta esquerdo chileno Acevedo. Ficamos sabendo de seus tempos de jogador do Barcelona, seu ápice na carreira, nas duas temporadas em que jogou junto com um meio campo africano chamado Buba.

Em uma entrevista à revista Qué Pasa, Bolaño conta sobre uma experiência com o futebol que teve na infância, e que o marcou por sua vida inteira:

“Em 1962 eu vivia em Quilpué, a cinquenta metros de onde estava alojada a Seleção Brasileira de futebol. Conheci Pelé, Garrincha e Vavá. Lembro, por exemplo, que Vavá bateu um pênalti, e eu defendi. Para mim, esta é a maior façanha que já fiz: defendi um pênalti do Vavá!”

Vavá
Vavá. Fonte: Wikipédia

Apesar de o futebol não ser uma temática recorrente na obra de Bolaño, ele era um apaixonado pelo jogo, e para além disso, enxergava nele toda sua potência literária possível. O conto Buba, já na fase madura de sua curta carreira literária, apresenta toda essa potência. É preciso, entretanto, compreender um pouco sobre a obra de Roberto Bolaño para perceber a profundidade escondida nas entrelinhas de Buba.

A geração de Bolaño vem logo após do boom literário latino-americano conhecido como realismo mágico, do qual Gabriel Garcia Márquez (que viu Heleno de Freitas jogar na Colômbia), Alejo Carpentier, Júlio Cortázar e tantos outros são representantes. Entre outros aspectos, o realismo mágico apresentava duas características marcantes: a presença de acontecimentos extraordinários (como a chuva ininterrupta de 5 anos em Cem anos de Solidão), e um contexto político de revoluções, imperialismos e ditaduras que permeia a história latina.

O aspecto mágico não se tratava apenas de uma estética narrativa, e sim de um traço cultural presente em toda américa, trazido de seu povo originário tradicional. Garcia Márquez dizia que não inventou nada do que está em Cem Anos de Solidão, apenas lembrou das histórias que sua avó contava. O fantástico, o extraordinário, não se trata de mera crendice, mas de uma cultura de conhecimentos ancestrais presente nos povos tradicionais latino americanos. Essa mesma cultura que os aspectos políticos colonialistas se prontificavam em erradicar. Existia então, no realismo mágico, uma esperança utópica de que as revoluções populares poderiam mudar esse panorama.

A geração de Bolaño surge sem estas utopias para se apoiar. Durante sua juventude e adolescência, sua geração vê, diante de seus próprios olhos, as ditaduras tomarem o poder sob o imperialismo norte americano, e a violência e ganância do capital solapar qualquer esperança, literária ou utópica, de uma vida mais ampla.

Os Detetives Selvagens
Foto: divulgação

Em Os Detetives Selvagens, um livro ficcional, mas em diversos aspectos autobiográfico, o personagem Arturo Belano (seu alter ego) funda o real visceralismo, uma corrente poética que ia contra qualquer academicismo ou racionalismo, contra qualquer estrutura formal de conhecimento e arte, negando os círculos literários acadêmicos, e buscando viver a vida ao seu máximo, encontrar a arte na própria maneira de viver a vida.

O real visceralismo do livro, nada mais é do que um outro nome para o movimento infrarealismo, que Roberto Bolaño realmente fundou em vida, com outros amigos, quando ainda jovem no México. O fato de ter largado todo e qualquer estudo formal aos 15 anos de idade, e de adquirir seus livros roubando das grandes livrarias era um manifesto em si mesmo, e a sua busca real e verdadeira por uma arte política, potente e real.

Seria um erro dizer que sua geração quis romper com a geração anterior, do Realismo Mágico, de fato Bolaño, em vida, foi grande amigo de Cortázar por exemplo. A questão era a desilusão com a realidade, com o fato de que as utopias não se concretizaram. Ao perceber a violência e decadência que toda a estrutura racional e capital sobrepujou sobre a américa-latina, a obra de Roberto Bolaño demonstra antes uma frustração e uma angústia, uma busca impossível pela verdadeira potência da vida. Rodrigo Fresán diz sobre a obra de Bolaño:

“Seus livros são políticos, mas de uma maneira mais pessoal do que militante ou demagógica”.

Os chamados detetives selvagens do livro de Bolaño são os personagens Arturo Belano e Ulisses Lima, que estão em busca de uma mulher chamada Cesárea Tinajero, precursora do real-visceralismo, ainda na década de 20. Entretanto, ao encontrarem Cesária, já velha e decadente no deserto de Sonora, no México, lavando roupas em um tanque (uma metáfora para toda uma geração e cultura latino-americana, a mãe ancestral), eles compreendem que a busca é impossível, irreal.

É neste ponto que o conto de Buba surge em um contexto muito interessante na obra de Roberto Bolaño. Já mais maduro, sem os radicalismos de um jovem ainda revoltado com o mundo, ele percebe, talvez, que o mundo ainda possui suas realidades mágicas escondidas na rotina, e o futebol pode ser uma destas pequenas coisas. Mas não qualquer futebol. Não o futebol moderno espetáculo de resultados, e sim um futebol latino-americano, com traços também africanos na figura de Buba.

Em 2003, pouco antes de morrer, Bolaño foi perguntado para qual time torcia, no que respondeu apenas uma preferência:

“os que caíram para a segunda divisão e logo, consecutivamente, para a terceira e a regional, até desaparecerem. Os clubes fantasmas.”

Roberto Bolaño
Foto: MX MM ROBERTO BOLAÑO / Secretaría de Cultura Ciudad de México

No conto, Acevedo está encostado no time do Barcelona. Logo após sua contratação, com grande expectativa da torcida, Acevedo sofre uma grave lesão no joelho, e fica meses sem jogar. A equipe vai mal na tabela. Acevedo é duramente criticado pela imprensa e pela diretoria por se entregar à noite e à bebida, em sua depressão enquanto está lesionado. Uma cena tão cotidiana do futebol, na qual os donos do capital se sentem donos do corpo dos atletas, que estão ali apenas como peças de reposição, e se não colocam seus corpos a serviço da máquina, não servem para nada.

É neste contexto que chega o africano Buba, recém contratado, e que passa a viver com Acevedo no mesmo apartamento. Aparece também o jovem Herrera, espanhol das categorias de base do time. Logo no primeiro dia que começa a viver com Buba, Acevedo sonha que está caminhando com seu pai em uma praça chilena, ainda criança, onde havia uma estátua de Che Guevara. Porém há muito tempo que não existia mais a estátua, pois havia sido destruída pelos militares. Pai e filho encontram a base da estátua, sem o corpo de Che Guevara, e ao lado da base está Buba, riscando na terra alguns símbolos estranhos.

Mais adiante no conto, Buba é chamado para o time principal, dado que o meio-campo titular se machuca. Na noite que antecede o jogo, Buba conversa com Acevedo e o jovem Herrera, e pede o sangue de cada um. Se tranca no banheiro, de onde ouvem apenas a música ritualística de tambores. A partir dali os três jogadores viram titulares, e lideram o Barcelona para ser campeão de tudo.

Acevedo ainda brinca com a imprensa especializada, que comenta como Buba mudou o esquema tático do time. Porém ele sabe que Buba quase não tocou na bola, apenas aparecia no momento exato para marcar gols mágicos.

No ano seguinte, na pré-temporada, Herrera pede a Buba para que façam novamente o ritual do sangue. Acevedo está incerto, e Buba acha que não é necessário. Mas Buba acaba sendo convencido, e eles fazem novamente. A segunda temporada vai muito bem, tão bem que Buba acaba sendo vendido para a Juventus, time que elimina o próprio Barcelona de Acevedo e Herrera na Champions, com um belo gol de falta de Buba.

A descrição do lance do gol de falta é saborosa. Bolaño comenta como a bola se movimenta ao modo “que apenas os brasileiros conseguem fazer”, como uma folha de outono que ilude, a característica folha-seca de Didi. Mais adiante, Buba morre misteriosamente em um acidente de carro.

Roberto Bolaño
Estêncil de Roberto Bolaño em Barcelona. Fonte: Wikipédia

Roberto Bolaño compreende em Buba todo o percurso que sua obra literária percorreu. Do desencanto com o realismo mágico utópico, ao anti-romance nos moldes de Cortázar em seu Jogo da Amarelinha, o reconhecimento da violência e decadência que o mundo racional, de aparências, de espetáculo, de busca desmesurada pelo capital e pelas vitórias inglórias.

Entretanto, em Buba, Bolaño reconhece ainda uma resistência possível. Ao reverenciar os saberes do corpo, em oposição ao racionalismo positivista meritocrático e violento, ao perceber a resistência calcada na magia do drible, do futebol improvisado, do time de futebol que não existe mais, fantasmas de um passado ancestral, Roberto Bolaño acena com uma última palavra. O futebol latino-americano pode, e deve ser, o reflexo de uma cultura imprecisa, desimportante, brincante, mágica, que demarca saberes intrínsecos a nós.

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Guilherme Trucco

Escangalho a porosidade das palavras. Rabisco um Realismo de Encantaria e futebol. Filho de Xangô e Iemanjá.

Como citar

TRUCCO, Guilherme. Sobre real visceralismo, realismo mágico e o futebol em Roberto Bolaño. Ludopédio, São Paulo, v. 146, n. 21, 2021.
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