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Sobre silêncio, preço mínimo e como o torcedor reencontra seu estádio na Copa São Paulo de Juniores

Arthur Sandes de Carvalho 23 de janeiro de 2017

“Não há nada menos vazio que um estádio vazio”, escreve Eduardo Galeano em um de seus contos sobre bola, referindo-se à quietude de um gigante erguido justamente para ser barulhento. “Não há nada menos mudo que as arquibancadas sem ninguém”, completa o autor, partindo daí a nos explicar que os maiores estádios do mundo ainda reverberam os sons de outros tempos (ouve-se o choro de 1950 no Maracanã, e o Camp Nou fala em catalão, jura o escritor).

O futebol brasileiro em geral, e o paulista em particular dão razão a Galeano. O silêncio cresce em nossos estádios: a média de público do Campeonato Brasileiro de 2016 foi de 15.200 pagantes por jogo, a menor nos últimos três anos. A comparação com o futebol “mais fiel” do mundo é basicamente um 7 a 1, com o perdão da má lembrança. Os clubes alemães atraem quase três vezes mais torcedores: 43.193 por partida (dados da temporada 2015/16).

A dificuldade em levar gente ao estádio por aqui não é novidade: a média de ingressos vendidos no Brasileirão não passa de 20 mil por partida desde 1987 – aquele da polêmica entre Flamengo e Sport. O problema nacional ganha contornos dramáticos no Campeonato Paulista, cuja média no ano passado foi de 7.271 pagantes por jogo. Entretanto das arquibancadas vazias, como avisa Eduardo Galeano, dá para ouvir muita coisa.

Talvez o principal segredo que a arquibancada nos conta é calculado em cifras. A Federação Paulista de Futebol (FPF) determina em regulamentoque o preço mínimo de um ingresso da Série A1 em 2017 seja R$ 40.

A entidade recebe uma porcentagem da receita bruta de cada jogo e alega que estabelece a quantia para não ter prejuízos. Ainda que a FPF não aumente o preço de face há pelo menos três edições, o valor continua alto (4,26% do atual salário mínimo). Considerada a crise econômica, é uma anomalia. Também há preço mínimo nas Séries A2 e A3, fixado em R$ 20.

Todos esses números e cifras de prelúdio para lembrar como é bonita a relação entre torcedor e estádio na Copa São Paulo de Juniores. Via de regra, os ingressos do torneio são gratuitos. Somada às férias escolares e os jogos no meio de semana, a gratuidade convida aos estádios gente que talvez tenha se visto excluída do futebol profissional.

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Estádio Conde Rodolfo Crespi ainda sente o grená correr-lhe pelas veias. Foto: CA Juventus/Divulgação.

O Paulista de Jundiaí, uma das gratas surpresas do campeonato, lotou o Jayme Cintra algumas vezes neste mês de janeiro e assim se tornou um dos candidatos ao título (já é semifinalista). Daí que a festa contra a Chapecoense, nas quartas de final, impressiona e emociona até quem lá não esteve. Como o borderô inexiste na Copinha e entra quem quiser, só dá para estimar por olho o tanto de convidados: arrisco uns 10, 11 mil (onde só cabem 13 mil se todo mundo colaborar). Na Série A2 de 2016, o contrário, teve jogo com 379 testemunhas.

Outro semifinalista, o Juventus, segue travesso como ele. Distribuiu molecagens e fez da eterna Javari o calvário de Fluminense, Avaí e Bragantino. Na estreia contra a Portuguesa, o apoio foi tamanho que não coube no estádio de 4,5 mil lugares: a PM teve que fechar o portão e deixar juventino de fora. Assistir pela fresta é ruim, mas menos mal do que os públicos da Série A2 do ano passado, quando o estádio mooquense muito raramente recebeu 3 mil almas.

Vários motivos do futebol profissional, sendo a violência o principal, tornam difícil a presença de uma família nas arenas (com ou sem o ‘a’ maiúsculo). Neste ano o Juventus disputa a Série A2 estadual, e o Paulista de Jundiaí, a A3. Em ambos os casos, um casal e dois filhos gastariam R$ 60 só de ingresso (e isso considerando que a criançada pagasse meia); na Copinha, é grátis.

Estes são só dois curtos exemplos, de Javari e Jundiaí, de como o torcedor é carente de bola, sim. Ele abraça o time e o apoia sempre que tem oportunidade, ainda que quase nunca esteja permitido.

A Copa São Paulo de Juniores, então, vira uma espécie de almoço de domingo. Uma máquina do tempo; aquela mistura de alegria e nostalgia. A Javari é o mundo inteiro, o Jayme Cintra também, e nada lá fora importa (que felicidade seria se, ao contrário, o mundo fosse a Javari ou o Jayme Cintra). Ali come-se o pão, bebe-se o vinho; o amor se aquece. Voltam as lembranças, as histórias, o olhar marejado de quem conta e o ouvido atento de quem escuta. E de novo a bola – sempre ela, nossa eterna macarronada – faz o torcedor se sentir em casa. E daí surge a força para o resto da semana, ou da temporada, até que outro domingo venha nos apanhar na ressaca de Ano-Novo.

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Arthur Sandes de Carvalho

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e apreciador do jogo coletivo. Passei pela Gazeta Esportiva e atualmente escrevo para o UOL. Penso que o futebol é o meio mais acessível para entendermos melhor o mundo. Prefiro o drible ao carrinho, só aplaudo zagueiro se for técnico e não reclamo de escanteio curto.

Como citar

CARVALHO, Arthur Sandes de. Sobre silêncio, preço mínimo e como o torcedor reencontra seu estádio na Copa São Paulo de Juniores. Ludopédio, São Paulo, v. 91, n. 10, 2017.
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