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Soltem os cintos, o passeio acabou

Lucas do Carmo Santos 1 de junho de 2022

Há alguns meses atrás, quase como um desabafo, escrevi um texto chamado a “um parque de diversão chamado São Paulo Futebol Clube”, e descrevi a sensação de estar em uma montanha russa, ao acompanhar o São Paulo de Diniz, e a culpa não era de Diniz, pois mesmo sem ele o São Paulo continuou o mesmo.

O mais incrédulo torcedor, que já havia visto os primeiros meses de Rogério Ceni, em 2021,  a frente do elenco, imaginou mais um ano melancólico e torturante. Um time pouco competitivo, com poucas ideias por conta da pressão e do tempo de trabalho, além da ressaca moral após a demissão de Crespo (treinador responsável pelo último ponto alto tricolor), muito mal digerida pela torcida. Imaginar o pior é uma lógica bem razoável. O time que tinha feito uma gestão pouco profissional em 2021, dificilmente teria vida diferente em 2022. Não bastando tudo isso que já foi citado, existe o maior dos problemas, a dívida do São Paulo que é um elefante, dos grandes, bem no meio da sala.

Em 2021, o torcedor se animou com o título do Paulistão e projetou um ano incrível, com até disputa de título do Brasileirão pelos mais otimistas, mas foi ao contrário. O time brigou, e teve que usar todas as forças para não ser rebaixado. Mais um passeio pela montanha russa.

Hoje o cenário é bem diferente do que foi construído no texto até aqui. O Tricolor paulista já foi vice do Paulistão, já está classificado para segunda fase da Copa Sulamericana, avançando na Copa do Brasil e na 3ª colocação do Brasileirão. Não é algo que esteja muito acima do que o elenco pode fazer, mas a consistência parece ser um tônica, e a calma está preponderante no ambiente.

Mas o responsável pela tranquilidade em meio ao caos tem nome: Rogério Ceni. É verdade que no último clássico ele mexeu mal no time e esse fator pesou para o empate, mas a reflexão aqui vai para além de um jogo. Tudo indicava mais um ano irregular no São Paulo, quando no meio de fevereiro após um jogo, Ceni decidiu levar a público “a piscina sem água” do CT, e o que normalmente daria mais velocidade ao carrinho veio como um botão de desliga nessa adrenalina maluca.

Rogério Ceni
Foto: reprodução Twitter/São Paulo

Com o apoio da torcida o time cresceu, as peças começaram a se encaixar, os jogadores ganharam confiança, o rendimento aumentou e os resultados vieram. O jogo começou a funcionar, as intenções em campo que antes eram apenas intenções passaram a funcionar, e isso levou a paz selada que hoje existe no Morumbi. O processo caminha para evolução. A oscilação existe ainda, mas ela é menor, e a cada dia, o teto e o fundo do poço parecem se aproximar, no tormento que parece estar acabando.

Além de colocar as atenções na diretoria, Ceni também tem feito um bom trabalho na beira do campo. Um time que foi se estruturando ao longo da temporada, hoje tem seus jogadores com as intenções assimiladas e padrões bem definidos. Com isso o rendimento individual tende a crescer, como é o caso de Nestor, Igor Gomes e principalmente Calleri. O que o atacante tricolor já fez nessa temporada é fantástico. São 15 gols em 26 partidas e uma média de 1 gol por partida no brasileirão atual.

O torcedor precisa ser realista, o ano do São Paulo não é pra título do Brasileiro ou da Copa do Brasil. O elenco é jovem, promissor, mas não está no top 3 do país e deve perder peças ao longo da temporada, principalmente com o rendimento dos garotos de cotia e o calendário mais apertado do que o normal, mas Ceni parece ter apertado o botão “desliga” na montanha russa tricolor e esperamos que continue assim.

Não quer dizer que as oscilações deixarão de acontecer. Não quer dizer que o São Paulo não irá mais perder, não quer dizer que seremos multicampeões. A montanha russa desligada é um sinal verde para que o time cresça, amortize a dívida, faça contratações de peso e aos poucos retome um lugar de protagonismo no futebol mundial. Que a paz reine no Morumbi!

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Lucas do Carmo Santos

Formado em educação física, professor de ensino médio e são paulino.

Como citar

SANTOS, Lucas do Carmo. Soltem os cintos, o passeio acabou. Ludopédio, São Paulo, v. 156, n. 1, 2022.
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