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Taça Brasil e Torneio Roberto Gomes Pedrosa: o debate acerca dos campeões nacionais entre 1959 e 1970

Eduardo de Souza Gomes 13 de abril de 2021
Em fevereiro desse ano de 2021, o Palmeiras disputou a Copa do Mundo de Clubes FIFA pela segunda vez (a primeira em competições organizadas pela entidade máxima do futebol). A equipe acabou ficando na quarta posição da competição (atrás do campeão Bayern/ALE, do vice Tigres/MEX e do terceiro colocado Al Ahly/EGI) e mais uma vez não conseguiu alcançar o tão sonhado título mundial muito desejado por seus torcedores. Na última vez em que a equipe alviverde havia chegado tão perto do tão desejado sonho, foi em 1999, na versão ainda não organizada pela FIFA e que colocava frente a frente o campeão sul-americano com o campeão europeu. Naquela ocasião, o Palmeiras foi derrotado por 1×0 pelo Manchester United/ING, em jogo que, para muitos, esteve bem melhor em campo que a ótima equipe inglesa de então, o que não foi suficiente para evitar o resultado adverso.

Com o fracasso em mais uma tentativa de alcançar o título mundial esperado, novamente veio à tona o debate que por muitos anos demarca a rivalidade entre palmeirenses e seus rivais: a Copa Rio de 1951, conquistada pelo clube, pode ser considerada como mundial? Destaco desde já que esse não será o tema problematizado no texto de hoje (inclusive, para quem quiser saber mais sobre o assunto, acompanhe a ótima série desenvolvida pelo Sérgio Giglio). Entretanto, o debate acerca da validade ou não do título da Copa Rio, me incentivou a escrever sobre um outro tema que demarca o imaginário e as rivalidades de diferentes torcedores brasileiros: a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa são, de fato, Campeonatos Brasileiros?

Em 2010, a CBF reconheceu as competições nacionais organizadas entre 1959 e 1970, também como títulos brasileiros oficiais. Assim, Bahia, Santos, Palmeiras, Cruzeiro e Botafogo, tiveram suas conquistas reconhecidas e equiparadas aos títulos alcançados a partir de 1971. É válido destacar que tal equiparação não representou uma oficialização dessas competições, simplesmente pelo fato de que tanto a Taça Brasil quanto o Torneio Roberto Gomes Pedrosa (também conhecido como Taça de Prata), já eram competições oficiais e chanceladas pela CBD (percussora da CBF). Assim, o reconhecimento da CBF em 2010, a partir de um denso dossiê produzido por Odir Cunha e José Carlos Peres, representou a equiparação dos títulos de 1959-1970 com aqueles que foram conquistados a partir de 1971. A pergunta é: tal equiparação é justa? Faz sentido do ponto de vista histórico?

Analisando como historiador, tentarei levantar algumas questões na sequência que demonstram uma possível hipótese acerca dessas competições. Apesar desse ser muito mais um texto reflexivo do que um trabalho de fôlego, com grande análise de fontes, buscarei fugir dos sensos comuns já estabelecidos sobre o tema e, assim, problematizar o objeto. Posicionamentos clubísticos ou rasos serão por mim ignorados nessa análise, até porque, como já explicitado, tais competições já eram reconhecidas de maneira oficial e desde sempre fazem parte da prateleira de grandes conquistas dos clubes que as venceram. Portanto, não se trata aqui de uma tentativa para conceder maior ou menor valor a essas conquistas com as hipóteses que irei levantar, mas sim de buscar entender a importância que tais torneios possuíam em suas respectivas épocas. Cabe, então, a busca pela consolidação de uma memória acerca desse objeto, já que como destaca Michael Pollak,

A fronteira entre o dizível e o indizível, o confessável e o inconfessável, separa, em nossos exemplos, uma memória coletiva subterrânea da sociedade civil dominada ou de grupos específicos, de uma memória coletiva organizada que resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado desejam passar e impor (POLLAK, 1989, p. 8).

Para se chegar nessa valorização da memória histórica no presente, entretanto, é fundamental o entendimento dos torneios em questão (Taça Brasil e Torneio Roberto Gomes Pedrosa) no contexto em que foram realizados, pensando assim como eram entendidos por torcedores, imprensa e organizadores do período. Assim, não só fugirei de anacronismos básicos, muitas vezes ignorados na análise dessa temática, como problematizarei minimamente o objeto dentro do seu tempo histórico, premissa básica no trabalho de qualquer historiador.

Taça Brasil
Taça Brasil. Foto: Dossiê – unificação dos títulos brasileiros a partir de 1959

O primeiro desses torneios a ser criado foi a Taça Brasil. Iniciada em 1959, tinha como objetivo levar um representante do futebol brasileiro para a disputa da Copa Libertadores da América, que teve seu início em 1960. Ou seja: foi assim pensada uma competição nacional oficial com o objetivo de se estabelecer quem representaria o país naquela que se tornaria a maior competição de futebol do continente. Em publicação na revista “Manchete Esportiva”, em 1958, Ney Bianchi abordou as influências de João Havelange na criação de um campeonato nacional de clubes:

A partir do momento em que o presidente Joao Havelange recebeu e acertou, na Europa, o convite para organizar a parte americana de um torneio objetivando apontar o clube campeão do mundo, criou-se, para o Brasil, um problema de transcendental importância. Pela proposta recebida, o presidente João Havelange teria de encaminhar entendimentos com todas as federações futebolísticas do Novo Continente, tendentes a organizar-se as eliminatórias americanas, que apontariam o rival do campeão da Taça da Europa, na finalíssima que indicaria o clube laureado.

O problema nasceu do fato de não possuirmos – incrivelmente – um campeonato nacional de clubes. A primeira dificuldade, então, passou a ser doméstica. No seu retorno, João Havelange vai quebrar lanças para degolar de uma vez para sempre o caduco, deficitário e incoerente campeonato brasileiro de seleções, substituindo-o por um moderno, lucrativo e coerente torneio nacional de clubes: a Taça Brasil (BIANCHI, 1958).

É evidente, como em qualquer contexto de criação de competições, que em um cenário ainda incipiente, a Taça Brasil não fosse ainda vista com a mesma importância que o Brasileiro de hoje, por exemplo. Mas outras competições, como a própria Copa Libertadores da América, também tinham importâncias distintas da que possuem na atualidade, tendo muitos clubes dos anos 1960 preferido jogar torneios amistosos mundo a fora, que eram mais rentáveis, do que se dedicarem à principal competição da Conmebol. Nem por isso os títulos alcançados nessa época, como o bicampeonato do Santos de Pelé em 1962 e 1963, são desconsiderados. Por que então seria os títulos da Taça Brasil não considerados como “brasileiros”?

Um dos debates que se levantam acerca da validade da Taça Brasil enquanto Campeonato Brasileiro, é o seu formato, considerando que apenas os campeões estaduais participavam da competição e, por isso, os clubes disputavam “poucos jogos”. Muitos então criticam tal modelo, de forma anacrônica, afirmando assim não ser esse um campeonato propício para ser entendido como “Brasileiro”. Pois bem, é necessário destacar que a disputa da Taça Brasil se iniciava, na verdade, nos estaduais. Em um período ainda complexo para se realizar longas viagens pelo Brasil (o que foi por décadas um dificultador para a criação de um campeonato nacional de clubes), a solução foi utilizar os estaduais, então muito valorizados e com fortes disputas, como uma espécie de “eliminatórias” (tal como ocorre com a Copa do Mundo de seleções).

Palmeiras Taça de Prata 1969
Time do Palmeiras na Taça de Prata, 1969. Foto: Wikipédia

Assim, os campeões estaduais iriam para as fases seguintes, divididas por “Zonas” (que variaram em cada edição, mas eram divididas por Norte, Nordeste, Sul, Leste, Centro, Centro-Sul, Norte-Nordeste etc.). Nas fases finais, os vencedores das “zonas” encontravam os representantes dos estados mais bem ranqueados na CBD (São Paulo e Guanabara), tal como o campeão e/ou finalistas do ano anterior (também variando de acordo com o ano). Essa questão gerou questionamentos como “o Santos foi campeão brasileiro jogando apenas quatro partidas?”

Pois bem, o primeiro ponto a ser destacado em relação a esse fato é: não é o modelo do campeonato, mas sim o significado do mesmo, que garante o simbolismo da conquista. O próprio campeonato brasileiro a partir de 1971 passou por diversos modelos e nomenclaturas, até chegar na versão atual por pontos corridos desde 2003. E se fomos por esse parâmetro, os próprios títulos da Copa Libertadores da América nos anos 1960 serão questionados? Pois o mesmo Santos foi campeão em 1963 já entrando nas semifinais, por ter sido o campeão do ano anterior. Isso seria um fator de mérito da equipe ou desvalorização por jogar um modelo então mais curto de torneio?

A Copa do Mundo de Clubes FIFA é outro exemplo. Organizada em 2000 e, de forma ininterrupta, desde 2005, a competição conta hoje com representantes de todos os continentes, sendo que os sul-americanos e os europeus entram nas semifinais. Se amanhã tivermos um torneio com mais equipes no certame mundial (algo já previsto pela FIFA e que se iniciaria esse ano, não fosse a pandemia), iremos desconsiderar a história desses títulos anteriores, somente pelo fato de seus campeões terem tido menos jogos realizados? O que falar então da antiga Copa Intercontinental, ou Mundial Interclubes, onde ocorria apenas um jogo entre o campeão sul-americano e o europeu, como aqui já destacado? Seria anacrônico querer enquadrar o valor dessas conquistas a partir do modelo que será implantado futuramente no novo torneio que a FIFA tende a organizar. O mesmo vale, neste caso, para a Taça Brasil.

Muitos tendem a comparar a Taça Brasil com a Copa do Brasil, por se tratar de um torneio eliminatório. Mais um anacronismo. Repito: não é a forma de disputa que garante o valor do torneio, mas o significado dentro de um contexto histórico específico. Se compararmos modelos de disputa, a Taça Brasil estaria mais próxima, inclusive, da Copa dos Campeões, organizada em três edições entre 2000 e 2002 (e que teve como respectivos campeões o Palmeiras, Flamengo e Paysandu). Para poder disputar a Copa dos Campeões, o clube deveria ser campeão regional (similar aos “campeões das zonas”, no caso da Taça Brasil). Todavia, mais uma vez seria anacrônico comparar tais competições, pois a Copa do Brasil surge como segunda competição nacional mais importante em 1989 e a Copa dos Campeões como terceira competição nacional em 2000, durando essa última apenas três anos. Já a Taça Brasil, independente de formato, surgiu como principal competição nacional do país em 1959, consagrando naquele período o clube que era considerado campeão brasileiro e, também, único do país a representar a nação na Copa Libertadores da América. Ou seja, são significados diferentes em cada competição, inerentes a cada período histórico e que não possuem necessariamente relação com as formas de disputa em si. Sobre essa comparação da Taça Brasil com a Copa do Brasil, José Carlos Peres e Odir Cunha destacam que

Um dos exemplos da desinformação sobre a Taça Brasil é a comparação que se faz entre ela e a atual Copa do Brasil. O nome é parecido e a forma de disputa também. Só isso. As semelhanças para por aí. Não há qualquer equivalência entre a importância de uma e outra.

Para começar, a Taça Brasil veio primeiro, com uma antecedência e exatos 30 anos. […] Enquanto a Taça Brasil reunia campeões estaduais e foi, por sete anos consecutivos, a única competição nacional a dar vaga para a Taça Libertadores da América, a Copa do Brasil se tornou um torneio de excluídos, não é prioridade para as grandes forças do futebol nacional, dá como prêmio apenas uma das cinco vagas do Brasil na Libertadores e não empresta ao seu vencedor o título de campeão brasileiro da temporada. Ninguém chama, ou chamará, o vencedor da Copa do Brasil de campeão brasileiro do ano (PERES; CUNHA, 2011, p. 97)

Portanto, a disputa da Taça Brasil representou sim, entre 1959 e 1968, o caminho para definir o clube que seria entendido como campeão brasileiro. Bahia em 1959, Palmeiras em 1960 e 1967, Santos de 1961 a 1965, Cruzeiro em 1966 e Botafogo em 1968, alcançaram essa glória. É verdade, entretanto, que em 1967 e 1968, a competição não esteve sozinha, tendo dividido holofotes com o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, ou, como também ficou conhecido, a Taça de Prata. O que também não seria novidade (podemos citar como exemplo, dentre muitas outras, o próprio Mundial de Clubes, com duas versões em 2000; ou diferentes campeonatos nacionais espalhados pela América Latina, sempre com dois campeões por ano (Apertura e Clausura).

Roberto Gomes Pedrosa
Roberto Gomes Pedrosa. Foto: Wikipédia

Roberto Gomes Pedrosa, ex-atleta do Botafogo e do São Paulo, tal como dirigente da Federação Paulista de Futebol (FPF), era também o nome dado ao antigo Torneio Rio-São Paulo. Como Rio de Janeiro (que nesse caso se tratava, nos anos 1960, do estado da Guanabara) e São Paulo, possuíam aqueles que eram considerados os clubes mais fortes do país, ganhar o Rio-São Paulo era para muitos entendido no contexto de então como uma glória de proporções nacionais. Porém, para oficializar tal competição como “nacional”, faltava a participação de clubes de outros estados. Assim como a FIFA buscou em seus mundiais atuais sair da dualidade “Europa x América do Sul” (mesmo que até hoje apenas clubes dessas regiões tenham vencido os torneios mundiais), incluindo assim clubes de outros continentes, o Torneio Roberto Gomes Pedrosa foi ampliado como forma de conceder um ar “nacional” para um torneio que já era valorizado como tal, passando a ser chamado popularmente de “Robertão” (mesmo assim, continuou com o domínio dos clubes de São Paulo e Rio de Janeiro, com os títulos de Palmeiras em 1967 e 1969, Santos em 1968 e Fluminense em 1970).

Assim, nasceu em 1967 um torneio que passou a ter uma fórmula de disputa mais próxima daquela que se consolidaria nos brasileiros que seriam disputados a partir de 1971, por mais que nunca tenha se estabelecido um padrão único de competição até 2003, com a adoção dos pontos corridos (que inclusive, são questionados por muitos até hoje). Em 1967 e 1968, a competição foi disputada paralela à Taça Brasil, tendo essa última sido extinta em 1969 (na verdade, a última edição da Taça Brasil, referente ao ano de 1968 e vencida pelo Botafogo, sofreu com atrasos de calendário e só foi concluída em 1969). Em 1970, a Taça de Prata foi organizada como única competição nacional do ano, tendo sido vencida pelo Fluminense. E em 1971, se deu início ao Campeonato Brasileiro dito “oficial”, que terminou com o título do Atlético Mineiro.

Defendo aqui que resgatar a história dessas competições não se trata de conceder, como já destacado, maior importância a essas conquistas. Pelo contrário: são títulos singulares, oficiais e que já possuem extremo valor na galeria de todos os clubes que os conquistaram. Entretanto, busquei destacar, do ponto de vista histórico, que o valor em si não se mede por fórmulas de disputa ou opiniões descontextualizadas sobre os torneios, mas sim pelo significado consolidado no período em que o objeto se encontra. E assim, não sendo anacrônico e mesmo sabendo que o debate é aberto e sempre existirá, se torna impossível não considerar os campeões da Taça Brasil e da Taça de Prata como legítimos campeões brasileiros dos referidos anos aqui destacados.

Referências

BIANCHI, Ney. Taça Brasil: a nova revolução de Havelange. Manchete Esportiva, 25 de outubro de 1958.

PERES, José Carlos; CUNHA, Odir. Dossiê – Unificação dos Títulos Brasileiros a partir de 1959: o documento que resgatou a história do futebol brasileiro. São Paulo: 2011.

POLLAK Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, vol. 2, n. 3, 1989, p. 3-15.

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Eduardo Gomes

Historiador, professor e pesquisador do esporte. Doutor e mestre em História Comparada, com ênfase em História do Esporte, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Graduado em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com período sanduíche na Universidad de Antioquia (UdeA), Colômbia. Graduando em Educação Física (Claretiano). Atua como pesquisador do Sport: Laboratório de História do Esporte e do Lazer (UFRJ). Professor na Educação Superior e Básica. Editor e colunista de esportes do Jornal Toda Palavra (Niterói/RJ), além de atuar como repórter e comentarista da Rádio Esporte Metropolitano. Autor dos livros intitulados "A invenção do profissionalismo no futebol: tensões e efeitos no Rio de Janeiro (1933-1941) e na Colômbia (1948-1954)" (Ed. Appris, 2019) e "El Dorado: os efeitos do profissionalismo no futebol colombiano (1948-1951)" (Ed. Multifoco, 2014). Organizador da obra "Olhares para a profissionalização do futebol: análises plurais" (Ed. Multifoco, 2015), além de outros trabalhos relacionados à História do Esporte na América Latina.

Como citar

GOMES, Eduardo de Souza. Taça Brasil e Torneio Roberto Gomes Pedrosa: o debate acerca dos campeões nacionais entre 1959 e 1970. Ludopédio, São Paulo, v. 142, n. 25, 2021.
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