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Tempo de Conversa: Chicão em dribles musicais

Chicão. São tantos a ostentar esse nome que podemos arriscar e dizer que quase todo mundo no Brasil tem ao menos um representante na família ou no círculo de amizades. Laconicamente, nosso sambista nesse episódio atende por esse nome, e é assim que Francisco Tadeu de Paula gosta de ser chamado, sem firulas, sem remissões ou bordões, coisas tão ao gosto do mundo protocolar do samba e do futebol popular. Chicão “da BV”, pode-se ouvir por aí.  Na verdade, “mestre” é outra deferência bem mais corriqueira a ele dirigida, mas que também o faz torcer o nariz.

Na meninice pelos quintais da casa da avó e da sociabilidade jovem como futeboleiro se fez adulto nas várzeas do ermo bairro do Butantan, logo que saiu da Rebouças, avenida que seguia sua saga (elitista) de emponderamento na década de 50. Já no Butantã perambulou com o verde e amarelo time do Esporte Clube Raposo Tavares, que ajudou a fundar.  Mas revela que o sonho era mesmo jogar no preto e branco Butantã, o Esporte Clube Butantã: “Se eu não estou enganado o Ado, que jogou no Corinthians, chegou a jogar ali. Tinha o Rio Pirajuçara, que passava ali embaixo, e depois campo, campo, campo e lá no fundo o campo do Butantã”

Conta que a primeira bola de capotão ganhara aos 10, 12 anos e era coisa de “gente que tinha muito poder aquisitivo”. As atenções de menino eram disputadas entre uma sanfona e a bola. A esse respeito vale muito a pena ouvi-lo:

Para quem chega pelos lados da Bela Vista, no histórico reduto do ex-cordão carnavalesco Vai Vai, que depois foi regenerificado como a alvi negra escola de samba Vai Vai, se reclamar por Chicão quase todo mundo saberá de quem se trata. Aquele que titubear estará, por certo, de bobeira. Ou poderá emendar junto com a dúvida passageira, ah sim, o Chicão da Velha Guarda musical! Ou, ah sim, o Chicão da Sahra!, pois ameia com a cantora Sahra Brandão, vaivaiense criada no Bixiga, uma vida de afetos, parcerias musicais e lutas. Chicão é sinônimo de povo, de quem foi, no meio dos endinheirados, assentado em quilombo urbano. Chicão nomeia um negro altivo, filósofo forjado na metafísica do samba paulistano.

Chicão e Shara
Chicão e Sahra Brandão em performance. Ao fundo Seo Carlão do Peruche. Foto: Marco Aurelio Olimpio

Aliás, não se trata de metáfora ou rima pobre, porque depois de rachar solitariamente em cima de livros na biblioteca Mario de Andrade ingressou no curso de filosofia na USP, fato que marcaria profundamente seu jeito de ver as coisas, apurando uma verve tanto doce quanto crítica. A filosofia seria mais uma daquelas ousadias de um jovem negro que começava a se impor diante das necessidades e do ideário político intelectual dos anos 60. Da sanfoninha à primeira bola na infância, da várzea à filosofia no período de mocidade, o pensador sambista ou o sambista pensador não parou mais de compor e refletir.

Chicão
Chicão. Foto: Marco Aurélio Olimpio

Ainda que não encontre mais o futebol moleque ou os fulgurantes festejos musicais de vila, que firmaram suas bases existenciais de raça e de classe, mantem no samba atual as tensões com o presente e um sentido de responsabilidade política e histórica de afirmação do diálogo. Tempo de conversa, imaginação. Tempo de conversa, tem sempre razão.   

Chicão segue muito ativo na militância cultural. Mas é provavelmente a condição mais distanciada de observador de toda cena, ou de torcedor ranzinza, seja em relação à própria Vai Vai, ao Corinthians, ocasionalmente à seleção brasileira, ou aos grandes debates e tropeços nacionais e internacionais aquela posição que melhor o faz sorver as imagens vívidas que alimentam sua múltipla vocação musical, que percorre desde a MPB até o samba, do baixo ao cavaquinho.

Seu tempo de conversa não se alheia diante da pressa e das pressões, sequer é levado pelas linearidades argumentativas simplistas, passadistas ou futurologistas. Associando dialeticamente a vida cotidiana com os expressivos lugares que samba e futebol ocupam no imaginário popular estabelece seu poético ponto de vista.

 

Chicão é parceiro de muitos bambas e também daquele que é considerado o último dos grandes baluartes paulistanos, seo Carlão do Peruche. Carlão foi um dos que protagonizou a transição do samba de rua, marginalizado e alvo de todo tipo de preconceito, à oficialização, concedida numa renhida relação com a municipalidade. O samba das escolas passaria a seguir um modelo mais carioca e a tomar seu lugar de direito no calendário cultural da cidade. A importância de seo Carlão vale um episódio à parte na história do samba brasileiro. Suas parcerias com Chicão e Sahra mencionaremos noutra oportunidade.

Chicão também é um observador e narrador que bebe do lirismo tipicamente urbano. Uma de suas mais aclamadas canções pelas quebradas é “Lua Luarina”, parceria com outro vaivaiense, Carlinhos Duvai. Trata-se de um autêntico “samba de traíra”, daqueles que muitos outros desavisados gostariam de ter participado da composição, mas, atrasados, não chegaram a tempo de sequer colocar o ponto final na letra, ou qualquer laralaiá para arrematar a melodia. Nada disso, Lua Luarina está muito distante desses clichês com sua pura suavidade complexa.

O amplo leque temático que cobre as músicas de Chicão deixou pouco espaço para abordagens sobre o futebol, mas em seu repertório ocorre uma referência. Sempre suspeitando de seu tino crítico é provável que não faria uma canção apenas para narrar histórias ufanistas de heróis ou vilões futebolistas, embora também os cultive como qualquer torcedor numa mesa de bar. Tampouco poetizou vitórias arrebatadoras em sagas nacionalistas. Coerente com sua perspectiva social foi convidado a harmonizar uma parceria com Edson Sorriso – sambista e locutor das jornadas esportivas do Pacaembu, metonimizado como sendo a “voz do Pacaembu”. O resultado é um samba que mistura exaltação histórica com grito de guerra em defesa do papel público daquele que é o mais importante patrimônio esportivo edificado da cidade.

“Pacaembu é nosso” apresenta imagens ligeiras e mais essencializadas, tal como narração esportiva pelo rádio, impondo uma poética popular para alcançar as arquibancadas. É ode a um dos templos mais importantes do futebol brasileiro. Quase uma voz solitária saída do silêncio perturbador da massa em jogo quase perdido. Espiem só o resultado dessa parceria:

 

Para ouvir mais Chicão e o reconhecer no universo do samba urbano paulistano

Banto (Chicão e Sahra Brandão) 

Castro, Márcio Sampaio. Bexiga. Um bairro Afro-Italiano. São Paulo: Annablume, 2008.

Cuíca, Osvaldinho da; Domingues, André. Batuqueiros da Paulicéia. São Paulo: Barcarolla, 2009.

Lua Luarina (Chicão e Carlinhos Duvai) 

O homem que é a voz do Pacaembu. TV Folha, 26 jun, 2016. Acesso em 5.05.2021.

Samba de Canto a Canto

Parcerias (Chicão, Wagner Santos e Sahra Brandão)

Chicão
Foto: Kike Toledo

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Ideacanção

Pesquisas estéticas narrativas nos campos da canção e da crítica cultural é idealizado por Kike Toledo e Eduardo Camargo. Procure Ideacanção também no Instagram.

Kike Toledo é antropólogo e sambista nas horas vagas. Eduardo Camargo é multi-instrumentista, arranjador e aprendiz de antropólogo nas horas vagas. Ambos vagueiam e compõem. Para conhecer seus trabalhos acessem os álbuns

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Kike Toledo

Kike Toledo é sambista, torcedor e antropólogo.

Como citar

TOLEDO, Luiz Henrique de; CAMARGO, Eduardo. Tempo de Conversa: Chicão em dribles musicais. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 53, 2021.
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