145.34

Tocha Olímpica e simbologias

Wagner Xavier de Camargo 18 de julho de 2021

Na semana passada, o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Tóquio e a prefeitura da capital japonesa decidiram suspender o trajeto da tocha Olímpica pelas ruas, por entre a multidão. A razão é mais ou menos óbvia: além de possível espalhamento do coronavírus no meio do aglomerado festivo, Tóquio estava diante de uma nova onda de infecções e aumento da COVID-19. Mas o que significa impedir o revezamento mano-a-mano da tocha e sua peregrinação pelo território onde a competição ocorrerá? Isso afetaria a tradição?

Zico Tóquio 2021
Zico com a tocha olímpica de Tóquio 2021. Foto: divulgação

A tocha é um elemento do ritual dos Jogos Olímpicos modernos, que apareceu, de fato, na edição holandesa de 1928. Até então não havia tradição alguma relativa a ela e a outros signos, porque as simbologias gregas acerca do esporte antigo vão ser reeditadas por Pierre de Fredy (o Barão de Coubertin), em fins do século XIX.

A fim de justificar o propósito de sua criação, tal aristocrata resgataria elementos da cultura grega antiga com o intuito de imprimir uma aura especial que o esporte precisava para se projetar. A tocha comporia o conjunto das então “tradições olímpicas”, que passariam a ser divulgadas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).

Criou-se um “mito de origem” que explicaria seu nascimento: o fogo seria ascendido em honra de Zeus, inaugurando os dias de competição entre os mortais, em homenagem aos deuses. Tal fogo deveria permanecer aceso durante todo o tempo dos combates. Hoje a pira olímpica permanece também acessa durante os Jogos Olímpicos modernos e quem a ascende é a tocha que peregrina a partir da Grécia.

Renato Sorriso Tocha
Renato Sorriso com a tocha da Rio 2016. Foto: Ricardo Cassiano/ Prefeitura do Rio/Fotos Públicas

Mas é importante não confundir: apesar do ritual de ascendimento da tocha ter sido reeditado (ou recriado) a partir de valores modernos, o esporte enquanto fenômeno atual não tem relação com o realizado na Antiguidade Clássica. Naquela época, os Jogos Olímpicos demoravam anos para serem completamente realizados e significavam um tempo de trégua nos conflitos entre regiões ou nações. Hoje, modernamente falando, é um evento que celebra melhores atletas dos muitos países do mundo e faz parte de uma matriz espetacularizada pelos meios de comunicação.

O revezamento da tocha – o deslocamento do panteão dos deuses olímpicos na Grécia até a cidade-sede – foi ideia de Theodore Lewald, um funcionário do Reich alemão, incumbido de incrementar a propaganda nazista sobre os Jogos Olímpicos que ocorreram em 1936, em Berlim. Tendo descendência judaica, Lewald acabou protestando pouco tempo depois pela exclusão de judeus da competição, mas essa é outra história.

Sidney 2000
Tocha Olímpica de Sidney 2000. Foto: Wikipédia

A questão é que no advento desse deslocamento da tocha, ela já passou pela mão de cerca de 355 atletas, durante doze dias. Esse montante vai aumentar ao longo das edições olímpicas e o próprio peso do implemento (isto é, da tocha) vai variar dependendo do designer de cada país, que a dimensionará segundo tecnologia e matérias-primas disponíveis.

A primeira vez em que vi a tocha olímpica de perto foi quando ela passou pelas ruas de Sydney, na Austrália, em 2000. Do lugar em que eu estava, não sabia exatamente qual era o propósito de tanto agito por parte de uma multidão ensandecida, que gritava, tirava fotos, tentava se aproximar para pegá-la e alguns tentavam correr junto com quem passava empunhando o fogo sagrado.

Porém, tenho que admitir que seu formato prata-azulado, com design aerodinâmico, único na história dos Jogos até hoje, realmente fascinava. Depois desse modelo, impressionei-me também com a tocha da Rio-2016, de alumínio reciclado, bastante colorida, tendo um significado impresso em cada conjunto de torneamento impresso em seu corpo: o calçamento de Copacabana, as ondulações do mar, os formatos dos montes verdes e as riquezas da terra (do ouro brasileiro).

O nome do/a atleta que conduz a tocha e vai ascender a pira olímpica é sempre mantido em segredo. Ele só é revelado pelo comitê organizador dos Jogos minutos antes do trecho do revezamento, já dentro do estádio Olímpico, onde acontece a cerimônia de abertura do certame.

Um momento emblemático de ascendimento da pira olímpica teve lugar na mesma Tóquio, na edição olímpica de verão de outubro de 1964. Naquela ocasião, Yoshinori Sakai, entrou correndo no Estádio Olímpico com a tocha e causou uma enorme comoção no público presente. Sakai, ou o “filho da bomba” como era conhecido, nasceu em Hiroshima, no exato dia em que a tal bomba atômica foi lançada sobre cidade. A emoção desse fato e de tantos outros tem feito a tocha, como um dos elementos do ritual olímpico, ser apreciada e aguardada com ansiedade.

Yoshinori Sakai em 1964
Yoshinori Sakai em 1964. Foto: Wikipédia

 

Afora o período da II Guerra Mundial (1939-1945), durante os anos em que não tivemos a realização das edições de 1940 e 1944 e o consequente não revezamento da tocha olímpica, é a primeira vez que um elemento novo (no caso, um vírus) modifica o ritual e o script da tradição.

Então se pensarmos o que isso implica, tanto para os Jogos Olímpicos quanto para a ideia de ritualização, talvez estejamos vendo modificações pontuais que, atreladas a outras no decorrer de ciclos olímpicos futuros, poderão transformar o evento como o conhecemos, a partir de um tempo de pandemias sucessivas. São momentos como esse que testarão nossas crenças e afetividades atreladas a eventos como os dos Jogos Olímpicos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
Seja um dos 14 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Wagner Xavier de Camargo

É antropólogo e se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas práticas esportivas. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela Universidade de São Carlos, Doutorado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina e estágio doutoral em Estudos Latino-americanos na Freie Universität von Berlin, Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de corrida do atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Tocha Olímpica e simbologias. Ludopédio, São Paulo, v. 145, n. 34, 2021.
Leia também:
  • 179.24

    O (lento) processo de repopularização dos estádios e arenas no Brasil

    Fernando da Costa Ferreira
  • 179.21

    Zé Luiz: tão longe, tão perto

    Eduarda Moro
  • 179.19

    Futebol e Antagonismo na política brasileira: por uma agenda democrática e popular

    Hugo Araújo, Jefferson Luiz