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Torneios continentais alternativos

Fabio Perina 20 de maio de 2021

Copa Interamericana (1968 a 1998)

A mesma década de criação da Taça Libertadores e da Copa Intercontinental inspirou a criação desse desafio entre América do Sul e América do Norte. Além do pouco intercâmbio entre as entidades (Conmebol e Concacaf) para que a competição se efetivasse ano a ano, foi sem dúvida um torneio bem bagunçado dessa nossa lista: seja pelos vários anos em que não se encontrou datas para disputar, seja em outros vários de desistência do campeão da Libertadores substituído pelo seu vice. Ambos os motivos fazem que o único clube brasileiro que a disputou foi o Vasco da Gama, justamente na última edição em 1998, perdendo para o Los Angeles Galaxy (EUA). O pódio da competição coloca em primeiro lugar o Independiente (ARG) com 3 taças. Beneficiado por coincidir com a época que mais ganhou a Libertadores, no início dos anos 70, quando mais houve edições seguidas da Copa Interamericana. Contribuindo para inflacionar sua coleção de taças internacionais e sua alcunha de “Rey de Copas”. Também com destaque no pódio, 2 taças para Nacional (URU), América (MEX) e Atlético Nacional (COL). Esse último obteve o bi na Copa Interamericana antes do bi na Libertadores ao ser favorecido pela desistência do Grêmio, em 95.

Supercopa Sul-Americana (1988 a 1997)

Primeira competição a afunilar seu critério de classificação restrito apenas a clubes que já foram campeões da Libertadores. Tendo como confrontos mais marcantes: uma final doméstica brasileira (São Paulo x Flamengo em 93) e algumas revanches com um título para cada lado em finais que se repetiram (Racing x Cruzeiro em 88 e 92 e Boca x Independiente em 89 e 94). No total, foram 6 títulos argentinos e 3 brasileiros. Cruzeiro e Independiente foram seus maiores vencedores com 2 taças.

Recopa Sul-Americana (1989 até 1998 / 2003 até hoje)

Logo após a primeira edição da Supercopa, a Conmebol criou mais uma competição para confrontar apenas na final seu vencedor contra o vencedor da Libertadores. Exceto pelo período de 99 a 2002, essa competição se firmou com regularidade ao conseguir na maioria dos anos cumprir seu calendário. Embora ao longo dos anos 90 houve certos asteriscos quanto a sedes, sendo disputadas nos Estados Unidos e até no Japão. E pior ainda asterisco quanto a classificação pois uma única vez o campeão da Conmebol ficou com a vaga ao invés do campeão da Supercopa, foi o caso do Botafogo em 94. De 2003 para frente vem sendo disputada ininterruptamente e de 2005 para frente no mesmo formato de partidas ida e volta na casa de cada clube. Outro fato curioso é que logo na terceira edição, em 91, o Olimpia (PAR) não precisou jogá-la por ser simultaneamente campeão da Supercopa e da Libertadores.

O pódio da competição não apresenta grandes surpresas proporcionais às forças no futebol sul-americano nos últimos 30 anos: 4 títulos do Boca, 3 do River, e 2 para São Paulo, Inter, Grêmio e Olímpia. A surpresa fica por conta de 2 taças também para a LDU (EQU) que ao se somarem a sua Libertadores e sua Sul-Americana, no final dos anos 2000, lhe rendem o privilégio de ser o “Rey de Copas” de seu país.

Evidente que ao longo de tantos anos surgiram algumas finais bastante recordadas. Como as finais brasileiras: São Paulo x Cruzeiro em 93, São Paulo x Botafogo em 94 e Corinthians x São Paulo em 2013. E as finais argentinas: Independiente x Velez em 95, Velez x River em 97, Boca x Arsenal em 2007 e River x San Lorenzo em 2015. Destaque também para alguns reecontros como o Grêmio ao vencer o Independiente duas vezes (em 96 e em 2017); como uma certa revanche da final de Libertadores que perdera em 84. E até mesmo o inusitado reencontro entre Atlético-MG x Lanús em 2014, com novo título mineiro assim como na final da Copa Conmebol de 97, marcada por uma pancadaria generalizada. Torneio que veremos a seguir…

Recopa 2021
Defensa y Justicia vence o Palmeiras e conquista a Recopa Sul-Americana 2021. Foto: Thais Magalhães/CBF/Fotos Públicas

Copa Conmebol (1992 a 1999)

Já que nos anos 90 a Conmebol ‘empolgou’ e resolver ‘entupir’ o calendário com novas competições de clubes, criou também uma mais democrática que as demais ao dispensar critério técnico de classificação e depender apenas de convite. Assim como na Libertadores dos anos 90, a maioria dos títulos foram de brasileiros. Sendo o Atlético-MG o único com 2 taças: contra Olímpia em 92 e Lanús em 97 (vencedor do ano anterior). Destaque também para a conquista do Botafogo, em 93, que passou a ser hoje em dia crescentemente valorizada como a única taça continental erguida por um clube carioca no Maracanã. E também a conquista do Santos, em 98, como um dos pouquíssimos títulos na sua maior época de ‘vacas magras’ entre 84 e 2002. Algum destaque também para a rivalidade rosarina, pois quando o Rosário Central venceu em 95 pôde desde então esfregar na cara do rival Newell’s (vice das Libertadores de 88 e 92) ser o único a ter título continental. A ultima edição da Copa Conmebol deixou claro o clima de ‘o último que sair apague a luz’ pelo grande número de desistências ter levado a uma final bem alternativa entre Talleres de Córdoba x CSA de Alagoas. Mesmo sem vencer, o Azulão pode se orgulhar de ter sido o único clube nordestino a jogar uma final continental.

Na virada da década de 90 a 2000 houve uma breve experiência de novas competições que repartiam a América do Sul em duas zonas com inspiração nos recentes blocos econômicos de comercio internacional, e por um instante essa foi a principal aposta da Conmebol (sempre depois da Libertadores em importância) como veremos a seguir…

Copa Mercosul (1998 a 2001)

Reuniu clubes de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile. Contou com amplo domínio brasileiro nas finais, exceto na última: Palmeiras x Cruzeiro em 98, Flamengo x Palmeiras em 99, Vasco x Palmeiras em 2000 e San Lorenzo x Flamengo em 2001. Como de duas décadas para cá a valorização da Libertadores foi aumentando, também aumentou o desprezo com essa competição alternativa. Se contava com o lado positivo de convidar clubes tradicionais e de países vizinhos com rivalidade, muitos apontavam o lado negativo que os clubes se classificavam apenas “por nome” mas sem um critério técnico indiscutível. Ainda acrescento como argumento positivo que, diferente da Copa Conmebol, não houveram desistências e sequer grandes confusões (salvo uma semifinal Peñarol x Flamengo em 99) que prejudicasse o andamento das partidas. Positivo também para elevar o nível técnico que na fase de grupos apenas o primeiro dentre quatro clubes garantiria vaga para a próxima fase em mata-mata, além de alguns dos melhores segundos colocados. Em uma época de poucas vagas na Libertadores, era uma oportunidade de turbinar os grandes confrontos entre brasileiros e argentinos e principalmente entre brasileiros. Vide que muitos torcedores talvez mal se lembram do nome da competição mas certamente se lembram da grande final de 2000 com a virada histórica do Vasco sobre o Palmeiras de um 3 a 0 para 4 a 3. Além de vários outros grandes confrontos como Palmeiras x Cruzeiro (vide um 7 a 3 em 99) que se cruzaram em 3 das 4 edições. Exceto o São Paulo, com várias goleadas e eliminações sofridas na fase de grupos, todos os clubes brasileiros possuem algumas grandes vitórias para serem lembradas.

Obs: essa competição também permite contar uma breve história das transmissões esportivas no período. Se na primeira edição apenas o SBT a transmitia para o Brasil (na voz inesquecível de Silvio Luiz), nas edições seguintes através da Bandeirantes a cobertura foi ainda maior. Porém em 2001 a falência da gigante de marketing esportivo ISL (que tinha seu ramo no Brasil pelo Grupo Traffic em forte parceria com a Band e em outros países sul-americanos uma curta experiencia com o canal PSN) pouco contribuiu para a continuidade da Copa Mercosul. Tanto é que no ano seguinte com um encolhimento da Band (com grande parte da equipe esportiva indo para a Record e depois voltando) se acentuou o monopólio da Globo no futebol brasileiro.

Copa Merconorte (1998 a 2001)

Reuniu clubes de Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela. Embora nas duas últimas edições também teve novos clubes convidados de Costa Rica, México e até Estados Unidos, em uma nova mas tímida aproximação da Conmebol com a Concacaf. Curiosamente o retrato dos clubes nesse torneio foi um reflexo da situação para as seleções naquele período. Os clubes colombianos ganharam os 4 títulos e ocuparam quase todas as vagas de finalistas, como um reflexo do seu auge na seleção que vinha de três classificações mundialistas seguidas (90/94/98) e posteriormente ganharia sua primeira Copa América em 2001. Curiosamente o pódio de títulos da Copa Merconorte em seus poucos anos refletiu o pódio dos clubes colombianos ao longo das décadas quanto a proporção e importância de títulos: 2 taças para o Atlético Nacional, 1 taça para o América e 1 taça para o Millonarios; além de 1 vice do Deportivo Cali e 1 vice do Santa Fé. O único finalista que não foi colombiano foi o Emelec (EQU), em 2001, coincidindo com o grande ano da primeira classificação mundialista do país. Já Bolívia, Peru e Venezuela foram bem discretos sem alcançar as semifinais, ao contrário dos clubes mexicanos que também refletiam o bom momento de sua seleção.

Curiosamente a primeira edição da Copa Sul-Americana, em 2002, embora sem contar com clubes brasileiros, foi uma espécie de tira-teima (ou recopa) entre os últimos campeões da Mercosul e da Merconorte: com o San Lorenzo (ARG) vencendo o Atlético Nacional (COL).

Extra: ‘liguillas’ pré-libertadores

Entre 1998 e 2001, que como vimos foram anos de forte experimentação e reacomodação no futebol sul-americano, a Conmebol decidiu retirar duas vagas diretas na Libertadores do pouco estimulante futebol venezuelano para disputa-las em um quadrangular com dois clubes do ascendente futebol mexicano. Até que ao virar a década o aumento das vagas na fase de grupos também foi aumentando progressivamente as vagas de pré-Libertadores para diversos confrontos entre todos os países, conforme conhecemos até hoje. Ao longo dos anos vários países experimentaram, e sequer regularmente ano a ano, o formato de ‘liguillas’ nacionais: como México, Colômbia, Uruguai e Argentina. Nesse último caso, a época mais frequente foi na virada dos anos 80 a 90, com diferentes regulamentos, até um breve retorno no recente ano de 2015 com um “superclássico” de Avellaneda: com o Racing comemorando muito a eliminação ao maior rival Independiente.

Atlético PR Seletiva Libertadores
Fonte: Reprodução

Por fim, uma breve menção à única ocorrência desse peculiar modelo de disputa no futebol brasileiro em 99. Conhecida como Seletiva da Libertadores, o Atlético-PR se sagrou campeão de um grande mata-mata envolvendo todos os clubes que não foram rebaixados no Campeonato Brasileiro daquele ano e que foram eliminados das quartas e da semifinal no caminho ao título.

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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. Torneios continentais alternativos. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 36, 2021.
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