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Tudo em Comum: a cidade, o futebol e o samba de Pedrão Neto

O conhecimento é a base de uma memória libertadora. Saímos com essa ideia e firme conselho ético da conversa que tivemos com o Pedrão Neto, infelizmente realizada por via remota, mas pensando que poderia ter acontecido regada ao tilintar saboroso dos acepipes paulistanamente italianados e azeitados numa boa cachaça curtida nas folhas de cataia, consumida a goles eternos.

Nessa conversa estava feliz da vida, pois havia tirado uma quadrinha na megasena, que fez o orçamento doméstico por um instante recuar do vermelho, brincou. Pedrão Neto nasceu quase futebolista, mas não sambista, paixões militantes separadas por décadas na sua biografia.

Futebol e música se mantiveram na vida de Pedrão como linhas que ocasionalmente se tocaram. Virtudes acomodadas em relações de parentesco, sorveu do lado materno a influência inflamada dos tios boleiros. A mãe, costureira, que era quem batalhava mesmo, nos dizeres de Pedrão, chegou à alta costura e oferecia seus serviços para uma elite de artistas da cidade. Em relação ao filho, preocupação:

“minha mãe pegava no meu pé pra estudar piano, pra estudar inglês, para que eu fosse na escola e eu querendo jogar bola”.

Do lado do pai, um ciclista que corria pelo clube Floresta e depois atleta de bocha no Palmeiras, mas que gostava mesmo da atmosfera misturada de uma malandragem tipicamente paulistana, herdara o gosto e a atenção musical.

A tia paterna, professora de música, que fora aluna de piano do icônico modernista Mario de Andrade, foi a responsável por tê-lo iniciado no instrumento. Mas a bola falaria mais alto naqueles tempos de menino e juventude.

Pedrão Neto viveu nos buliçosos anos 60, jogando bola pelos lados do “navio negreiro”, perímetro urbano que, visto de cima, explica, parecia um navio. A região abrigava dois campos de futebol: de um lado, jogavam os negros e, de outro, os italianos. Uma Pompéia ligada a Barra Funda de outros tempos bem menos verticalizada. Sua fala recupera o linguajar de época.

As raízes italianas o fizeram crescer nessa babel étnico-esportiva, mas relativamente protegido pelas dependências do Palestra Itália. Recorda esse momento com severidade, dizendo que fora “criado no Palestra, que nunca fez um teste futebolístico com o garoto”.

O menino e o estádio. Arquivo Pedrão Neto
O menino e o estádio. Arquivo Pedrão Neto

Pedrão acabaria são paulino, mas não por mágoa ou contraponto ranheta à família, mas intuímos que atraído sobretudo por um dos tios maternos, jogador que alcançou o profissionalismo, que no São Paulo Futebol Clube despontaria como um dos grandes craques dos anos 50. Pedrão conta que não era tão simples ser sobrinho do rigoroso Gino Orlando, que em seus conselhos contradizia o jovem bom de bola que aquilo não seria para ele.

Gino foi um craque preterido na seleção de 1958, escrete que jogava por música e que abrigava outros tantos craques. Recomendação fincada em mágoas retroativas, as reservas do tio deixam um rastro de candura e amargura na boca do Pedrão, que ao narrar faz poesia de uma história familiar, quem sabe algum dia merecedora de um novo samba.

Com uma das pernas engessadas Gino anunciou numa coletiva de imprensa a fatal contusão que o tiraria do selecionado e da disputa da Copa de 1958. Depois de um teatro realizado para a imprensa retirou à golpes de faca a bandagem. Foi demais para ele ter sido preterido e perdido o lugar que viria a ser ocupado por Vavá. Coisas do clubismo, coisas daquele futebol, coisas de um momento excessivo, quem sabe injusto. Tantas versões, ficou a mágoa e as lições dadas ao filho e ao sobrinho Pedrão, meninos que cresceram em torno de um ídolo do futebol.

Pedrão no colo do tio, Gino Orlando: arquivo pessoal
Pedrão no colo do tio, Gino Orlando. Foto: arquivo pessoal

Pedrão Gino Orlando
Pedrão com o tio Gino Orlando. Foto: arquivo pessoal

Com o tempo o futebol rivalizou e ladeou com as obrigações de todo jovem brasileiro homem em início de vida adulta. Em 1968, já no serviço militar obrigatório, Pedrão integra o time do quartel de Barueri, depois a seleção do Exército da região de SP. Nessas mesmas equipes, Zé Maria, conhecido lateral do Corinthians havia jogado anos antes.

Pedrão
Foto: arquivo pessoal
Pedrão
Foto: arquivo pessoal

Já em 1976 em plena atividade profissional num estágio técnico na petroquímica Sumitomo no Japão lá aparece Pedrão num jogo amistoso com a equipe da empresa. Conta-nos:

“time este que viria pouco tempo depois a se profissionalizar no nascente futebol japonês. Salvo engano, seria o Kajima Hunters. Perdi vários gols, cada pancada na bola feita de material sintético ela subia na vertical. Também, estava acostumado com bola de capotão, dez vezes mais pesada. Empatamos o jogo.” 

 Times misturados. Pedrão, em pé, nono da esquerda para a direita
Times misturados. Pedrão, em pé, nono da esquerda para a direita. Foto: arquivo pessoal

Passada ou contida a febre de bola e a retranca existencial depois de uma vida dedicada ao trabalho quis mesmo dar outro rumo à prosa e foi pelos lados da Vila Madalena que conheceu a rapaziada do Kolombolo Diá Piratininga, e não parou mais. Outros tantos, Toinho Melodia, Rodolfo Gomes, Mario Leite, Anita Galvão, Laura Ghelere, Ligia, Roberta Oliveira, o saudoso e amigo Tonhão, só confirmaram para Pedrão as vocações da cidade multicolorida tingida por teimosos batuques e pelejas memoráveis. Aposentado da lida e daquela que sempre o rodeou, a bola, virou compositor e sambista, incentivado pela sempre presente companheira, Doroti.

Suas canções brindam os recantos da cidade, ou diríamos, para evocar as imagens literárias do escritor Ítalo Calvino, reinventam cidades invisíveis para aqueles que, hoje, buscam no seu emaranhado confuso algum significado para nela viver. Criando imagens dos trejeitos, sotaques, atavismos gastronômicos de uma São Paulo eterna e adoniranicamente irônica, Pedrão brincou e experimentou com a bola o que faz com suas composições. Escutem as saborosas Lapa Paulistana e Avenida ConsolaJoão

O Pedrão é daqueles que se fez sambista presando o “comum”. Mas que o leitor não se perca, a ideia de comum aqui nada tem a ver com corriqueiro, demasiado mundano que possa remeter a algo sem importância ou de ocorrência reiterada e sem graça.

Comum para ele finca raízes na (comum)nidade, na utopia solidária de uma (comum)cidade e no raro apreço por uma inquietante São Paulo que o fez se mover pelas canchas, conversas de esquina e rodas de samba, entre futebóis, gente simples e memórias coletivas. Essa síntese está numa composição mais autobiográfica, tempero verso e prosa. Composição linda e densa em imagens que misturam sem pieguice africanias e italianices, fruto de parcerias sempre urgentes na interpretação dessa cidade plural, mas desigual. Escutem o resultado desse caldeirão fumegante. De quebra vai a letra já cifrada, então pode arranhar aí o violão.

TEMPERO VERSO E PROSA (C)                                                                           

Pedrão Neto / Rodolfo Gomes

 

C             Dm                         C
Vou saravá aos Orixás, vou saravá

                Dm                         C
Vou saravá aos Orixás

                                   D7                                         G7                   C7
Para agradecer o Samba que veio do lado de lá .             

 

F7M                      F#O                             Em         A7
Laroiê!, Odoiá!, Ogunhê!, Eparrei Oyá!

   Dm                     Em            Fm G7               Gm         C7
Kaô-Kabiecilê! Epê Babá! Meu Pai Oxalá.

F7M                      F#O                             Em         A7
Laroiê!, Odoiá!, Ogunhê!, Eparrei Oyá!

   Dm                     Em            Fm G7                              C
Kaô-Kabiecilê! Epê Babá! Meu Pai Oxalá.

 

                               Dm                         G7                          C
Chegou menino, aos campos da Pompéia,

                A7                          Dm                         G7                          C
Batuque seguindo a bola, nas várzeas da Paulicéia.

Bm7/5b                E7                          Am
Baixou aqui, sacudindo o macarrão,

                                               D7                                                         G7          C7
Molhado com mangerona, salpicado de parmesão, Ô…

                F                             F# O                       C
Esta mistura, magistral, deliciosa,

                A7                          Dm
Ofereço aos amigos,

                G7                                          Gm         C7
Com tempero, verso e prosa

                F                             F# O                       C
Esta mistura,  magistral, deliciosa,

                A7                          Dm
Ofereço aos amigos,

                G7                                          C
Com tempero, verso e prosa

 

Em tempo, e nos dirigindo agora àqueles leitores mais etílicos que chegaram até aqui com água na boca de samba, mas com a boca seca, revelamos que cataia é uma infusão de uma folha, que recebe popularmente o mesmo nome, curtida numa boa cachaça, mistura comum lá pelos lados da histórica Cananeia caiçara. Também não sabe onde fica Cananeia? Então escuta mais essa pedrada certeira do Pedrão Neto, cantada à capela.

Feijoada Paulista. CD de estreia de Pedrão Neto, XXXX
Feijoada Paulista. CD de estreia de Pedrão Neto, 2013/14

 

Referências

CALVINO, Ítalo. As cidades Invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Gino Orlando fala sobre sua família palmeirense.  Museu da Pessoa. 

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Pesquisas estéticas narrativas nos campos da canção e da crítica cultural é idealizado por Kike Toledo e Eduardo Camargo. Procure Ideacanção também no Instagram.

Kike Toledo é antropólogo e sambista nas horas vagas. Eduardo Camargo é multi-instrumentista, arranjador e aprendiz de antropólogo nas horas vagas. Ambos vagueiam e compõem. Para conhecer seus trabalhos acessem os álbuns

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Kike Toledo

Kike Toledo é sambista, torcedor e antropólogo.

Como citar

CAMARGO, Eduardo; TOLEDO, Luiz Henrique de. Tudo em Comum: a cidade, o futebol e o samba de Pedrão Neto. Ludopédio, São Paulo, v. 145, n. 16, 2021.
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