07.2

Tudo por uma assinatura

Amadou Sow tem pinta de jogador de futebol. Carapinha desfrisada a espreitar por fora de um gorro cinzento, brinco à Cristiano Ronaldo na orelha esquerda, camisa do Brasil por dentro do casaco e sapatilhas brancas impecáveis. O jovem senegalês, de 20 anos, sonha em jogar no Real Madrid mas nunca vestiu camisa mais prestigiada do que a vermelha do Numancia B, equipe da cidade de Soria, da terceira divisão espanhola. Mas, fora dos relvados, Amadou tem a força e a experiência dos melhores craques.

Conhecemo-lo antes da hora de almoço enquanto batalhava pela legalização na Associação Acoge, em Algeciras. Saiu da instituição cabisbaixo, após mais uma tentativa de obter uma assinatura e um carimbo do Governo de Espanha no seu passaporte. A sua história funde-se com a de muitos imigrantes que deambulam por Algericas a quem, invariavelmente, Amadou estende a mão para cumprimentar.

Aos 14 anos, saiu da remota aldeia senegalesa de Gurel Ali, no interior do país, contra a vontade dos pais e dos dois irmãos mais velhos, para procurar uma vida melhor. “Na minha aldeia, temos do que comer mas nada mais. Não há dinheiro para ter uma casa decente nem para pagar a escola. Então, decidi ir-me embora para ganhar dinheiro e ajudar a minha família”, diz.

O percurso de Amadou até saltar os Pilares de Hércules foi digno de uma epopeia contemporânea. Tal como o herói grego, submeteu-se a trabalhos duros para alcançar o seu objetivo. Cruzou a fronteira para o Mali e daí para o Níger, onde trabalhou na capital Niamey a vender água. “Se vendesse 20 litros, conseguia comer qualquer coisa. Mas havia dias em que vendia um, outros dez. Passei muita fome”. Daí, atravessou penosamente de carro o deserto do Sara, até chegar a Argel, na Argélia, onde trabalhou na construção.

Mas nada se comparou aos horrores que viveu em Marrocos. Amadou cruzou a fronteira marroquina em 2005, precisamente no pico da emigração subsariana para a Europa. As autoridades estavam a despejar os emigrantes ilegais para a terra de ninguém existente entre Marrocos e a Argélia, perto da cidade de Oujda. “A máfia controlava a região. Se tivesses dinheiro deixavam-te entrar, se não tivesses nada cortavam-te a cabeça com um faca grande. Mataram dois amigos meus à minha frente e a polícia não fez nada”, recorda. Para se defender, arranjou uma faca. “Durante o dia, andava com ela no bolso, à noite atava-a com um elástico à perna para que a polícia não a encontrasse”. Esta técnica viria a salvá-lo. Já depois de conseguir escapar à máfia fronteiriça, Amadou foi interceptado pelas autoridades marroquinas em Rabat numa momento em que estava a trabalhar em casa de Mouhammed Aziz, um comerciante da cidade. Foi levado para um centro de detenção de imigrantes clandestinos, com condições desumanas. “Os presos dormiam uns em cima do outro e defecavam na sala. Os parasitas andavam por cima da nossa pele”, conta. Decidiu fugir. Com a faca que escondia, conseguiu destruir a porta de madeira, ludribiar os guardas e saltar para a liberdade por cima de um portão de ferro.

Porém, o seu patrão Aziz assustou-se com o episódio. “Dizia que eu era demasiado novo para cruzar o Estreito de Gibraltar e entrar em Espanha. Então, deu-me dinheiro para eu voltar para a minha terra”. Chegado a Dacar, Amadou não teve coragem de voltar à aldeia. Arranjou emprego a guardar vacas nas imediações da cidade enquanto juntava dinheiro para embarcar para a Europa. Em 2006, pagou 1500 euros a um traficante para se meter num barco com mais de 100 pessoas com destino ao arquipélago das Canárias. Com 17, pisou finalmente solo europeu e estreou num clube de futebol – os amadores do Teguese, de Tenerife.

Desde que está na Espanha, trabalhou como empregado de mesa e assalariado rural em quaro cidades diferentes e tirou um curso de informática. Também tentou a sorte como futebolista, na lateral direita ou atrás dos defensores. Todos estes empregos tiveram uma coisa em comum – ninguém lhe deu um contrato de trabalho. “Sem contrato não consigo ter os papéis que necessito para voltar para casa”, diz. “Nem nos clubes de futebol me dão contrato. Uma vez lesionei-me no braço e tive de pagar as despesas de recuperação. Para isso, prefiro não jogar”. Amadou vive hoje num apartamento dividido com mais imigrantes senegaleses. A comunidade de africanos em Algeciras é grande, mas tem vindo a decrescer de há cinco anos a esta parte.

Quem o diz é o padre Isidoro Macías, com um trabalho com mais de duas décadas no apoio a clandestinos. O Superior da Casa da Virgem da Palma dos Irmãos Franciscanos da Cruz Branca é conhecido como “Padre Pateras” (Padre Pirogas) pelo apoio que presta aos africanos que navegam no Estreito de Gibraltar em pequenas embarcações a remos e que dão à costa, em condições miseráveis, em Algeciras.

Neste momento, a sua casa abriga cinco mulheres e quatro crianças nigerianas. “Já foram muitos mais. Nesta casa, já nasceram mais de 200 crianças. As mulheres viajavam grávidas ou com crianças pequenas porque isso facilitava a obtenção de visto. Hoje já não é possível”, diz o clérigo, de costas para a parede, onde está pendurada uma foto sua publicada na revista Time, em que surge vestido com o hábito franciscano, com o mar de Gibraltar pelos joelhos, segurando nos braços uma criança nigeriana com poucos meses de idade. O “Apóstolo do Estreito” denúncia a rede criminosa que ilude muitos africanos a tentar, cegamente, chegar à Europa. “Eles vêm imagens da Europa na TV e pensam que é tudo maravilhoso mas depois percebem que é o contrário. A maioria, senão todos os desalojados que alberguei, foram enganados pela máfia nigeriana. É a máfia mais organizada do Mundo”, diz.

Não foi o caso de Amadou, que viajou por sua conta e risco. No terraço do nosso hotel, o futebolista clandestino revela os seus desejos: “Gostava de jogar futebol. Onde? No Real Madrid, sou do Madrid. E se não puder jogar? Gostava de trabalhar para poder voltar para casa”. Foi assim, com a cabeça entre o Santiago Barnabéu e uma aldeia fula do Senegal, entre a fama e o anonimato, o vedetismo e a humildade, que Amadou se tornou no primeiro a assinar a nossa bola. Uma simples assinatura como a que ele queria que rabiscassem no seu passaporte.

Tiago Carrasco, João Henriques e João Fontes estão rumo à Àfrica do Sul no projeto Road to World Cup. O texto foi adaptado ao português do Brasil.

Seja um dos 25 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Tiago Carrasco

Tiago Carrasco é jornalista e tem 34 anos. Publicou dois livros, centenas de reportagens nos mais prestigiados órgãos de comunicação social portugueses e é autor de dois documentários. Em 2013, ganhou o Prémio Gazeta Multimédia, da Casa de Imprensa, com o projecto "Estrada da Revolução". Com uma carreira iniciada em 2014, tem assinatura em trabalhos exibidos pela TVI e RTP, e impressos pelo Expresso, Sábado, Sol, Record, Notícias Magazine, Maxim e Diário Económico, para além dos alemães Die Welt e FAZ. Em 2010, desceu o continente africano de jipe num projecto que daria origem ao livro "Até lá Abaixo" (na terceira edição) e a um documentário com o mesmo nome. Em 2012, fez a ligação terrestre entre Istambul e Tunes durante a Primavera Árabe, que originou o livro "Estrada da Revolução" e o documentário homónimo. Foi responsável pelos conteúdos do documentário "Brigada Vermelha", sobre a luta de um grupo de adolescentes indianas pelos seus direitos enquanto mulheres. Cobriu importantes eventos internacionais como a guerra civil na Síria, o pós-revolução no Egipto, Líbia e Tunísia, o Mundial de futebol em 2010, a anexação da Crimeia por parte da Rússia, o referendo pela independência da Escócia, o movimento de independência da Catalunha, a crise de refugiados na Europa e a crise económica na Grécia e em Portugal. Muito interessado em desporto, esteve presente no Mundial'2010 e no Euro'2016 e já entrevistou grandes figuras do futebol: Eusébio, Madjer, Paulo Futre, Rivaldo, Deco, Roger Milla, Abedi Pelé, Basile Boli, Ricardo, Abel Xavier, Scolari, Chapuisat, Oscar Cardozo.

Como citar

CARRASCO, Tiago; HENRIQUES, João; FONTES, João. Tudo por uma assinatura. Ludopédio, São Paulo, v. 07, n. 2, 2010.
Leia também:
  • 07.8

    Nem aqui, nem na China

    Paulo Nascimento
  • 07.7

    Apontamentos sobre o protagonismo do torcedor no espetáculo de futebol

    Diana Mendes Machado da Silva
  • 07.6

    À sombra do Atlas – Amizmiz, Marrocos

    Tiago Carrasco, João Henriques, João Fontes