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Um clube de futebol pode ser racista?

Gustavo Andrada Bandeira 9 de novembro de 2021

O Grêmio está rebaixado. De forma surpreendente, um grupo de jogadores vencedores, experientes e bem remunerados em um clube de finanças saudáveis não conseguir montar um time minimamente aceitável para permanecer na série A do, tecnicamente fraco, Campeonato Brasileiro ao longo de todo o 2021. Por romper com a narrativa de que clube grande só cai quando enfrenta graves crises financeiras ou de gestão, as explicações para a eminente queda do Grêmio buscam diferentes responsáveis. O time envelheceu, o ex-treinador e ídolo era dono do vestiário e sua saída fez o ambiente ser completamente destruído, um vice-presidente de futebol sem pulso, troca de treinadores ofensivos por retranqueiros, um presidente ídolo (o mesmo que rompeu com a fila sem títulos, incluindo uma Libertadores) que sumiu ambicionando ser eleito governador do Rio Grande do Sul…

Grêmio
FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA/Fotos Públicas

Independentemente do motivo, a queda que deverá ser confirmada no último mês de 2021 (eu seguirei torcendo para que nosso acesso aconteça dentro deste campeonato e não no ano que vem) impacta fortemente na torcida. Somos nós torcedores que vamos ouvir as piadinhas. Inclusive, para quem não lembra elas deverão ser exatamente as mesmas que contamos para nossos rivais em 2017. Mudará somente o lugar no texto em que o Internacional e o Grêmio ocupavam naquele momento, o acréscimo feito pelos históricos adversários será o fato de que teremos caído pela terceira vez, apenas isso.

Mas e qual a responsabilidade da torcida? Em 2020, em função da pandemia de Coronavírus, fui a apenas cinco jogos na Arena do Grêmio. O último ano em que tinha ido a tão poucos jogos do Grêmio no estádio foi em 1993 quando tinha apenas dez anos. Aparentemente, deverei ser expulso novamente do estádio após ter acompanhado quatro jogos em 2021 porque alguns torcedores de cara a mostra (e quem tem leitura sobre torcidas organizadas ou violência no futebol sabe porque as caras estavam a mostra) entenderam a partir dos maus resultados do clube que deveriam invadir o gramado para vandalizar a cabine do VAR e ameaçar jornalistas, árbitros, adversários e os jogadores do próprio time. Foram 18 meses longe da Arena, não sei quantos mais teremos. E para registro, sou favorável a punição. Não me venham com essa de que somente deve se punir o CPF. Se clube e torcida conhecem os donos desses CPFs e nada acontece eles são cúmplices ou, no mínimo, coniventes.

Grêmio
FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA/Fotos Públicas

Como sempre, me alonguei em demasia no prelúdio do texto quando meu interesse de discussão é um tanto diferente. Infelizmente tivemos flagrados mais um caso isolado desses que acontecem todos os dias… Mais uma vez um torcedor do Grêmio praticou gestos racistas na Arena. Por óbvio me parece que devemos receber uma punição exemplar. Acredito que nada acontecerá, mas precisaríamos de uma punição de verdade, não os três pontos do Brusque ou nossa exclusão da Copa do Brasil em 2014 quando já havíamos sido eliminados em campo. O rebaixamento não seria uma punição adequada. Nós já caímos dentro do campo. Sugiro a exclusão do clube, do clube que eu torço e sou sócio por algumas temporadas. Se não será suficiente para acabar com o racismo no Grêmio ou em nossa cultura mais ampla, poderá ser um bom marcador para que esses sujeitos entendam para sempre que essas expressões não podem circular no espaço público. Não há justificativa. E assim, talvez, os outros torcedores que assistem as invasões de campo e os repetidos atos de racismo deixem de ser cúmplices ou, no mínimo, coniventes e comecem a denunciar esses CPFs autores de violência.

Eu não estaria exagerando? Afinal, é possível dizer que um clube é racista?

Um dos maiores orgulhos que tenho em minha trajetória de quase década e meia pesquisando torcidas de futebol é a colaboração sistemática que tenho dado ao Observatório da Discriminação Racial no Futebol desde 2016. Sou muito fã do Marcelo Carvalho e de toda a equipe que tem conseguido colaborar com a iniciativa dele e da Débora Silveira. Sou particularmente favorável a metodologia que aprendi com o Marcelo. Racismo não se combate com clubismo. Quem quer enfrentar o racismo cuida do seu clube não aponta o dedo para o clube dos outros.

grêmio
FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA/Fotos Públicas

O que é um clube de futebol? A descrição jurídica não é difícil. No caso do Grêmio é uma sociedade civil sem fins lucrativos. A instituição é composta por seus sócios. Os nove milhões de torcedores apontados pelo Ibope, juridicamente, não fazem parte do clube. Mas quem está aqui, lendo essas linhas, sabe que o clube também é sua torcida, sua história, suas vitórias e suas derrotas. Tudo isso forma um clube de futebol. No conjunto de sócios ou nos nove milhões de torcedores temos posicionamentos políticos dos mais diversos e diametralmente opostos. Sendo assim, parece pertinente acusar um clube de ser racista ou machista ou homofóbico quando nos seus quadros possui grupos que militam cotidianamente contra essas violências?

Sim, me segue parecendo pertinente. Já no relatório, em 2017, e um pouco mais bem acabado em artigo publicado em 2020 mostrei como os torcedores argumentam sobre liberdade e responsabilidade sobre aquilo que é dito nos estádios de futebol:

“Os torcedores afirmavam que boa parte das manifestações dentro do estádio aconteciam nas “pilhas” ou no “calor da torcida”. Essas afirmações apontavam que o indivíduo torcedor não teria domínio sobre aquilo que manifestava. Ao mesmo tempo, quando clube ou torcida fossem apontados como responsáveis por uma fala dita nesse contexto, imediatamente seria realizado um processo inverso. Nesse caso, esse indivíduo, que não seria autônomo para a construção de sua manifestação, precisaria ser responsabilizado individualmente, mesmo que essa individualidade só tivesse realizado tal manifestação por estar em meio ao coletivo de torcedores” (BANDEIRA; SEFFNER, 2020, p. 153).

O Observatório repercutiu o episódio em suas redes sociais. Fui ver alguns comentários que afirmavam que o Grêmio seria um clube racista. Em um primeiro momento pensei que seria precipitado pensar no Grêmio como clube racista ou ainda mais como mais racista do que outros clubes. Mas acabei percebendo que isso não tem importância. Se o Grêmio é a soma de seus torcedores, sua história, vitórias e derrotas, o racismo (e, também, seu enfrentamento) constitui o nosso clube. Nós, todos nós – eu inclusive, aprendemos a nos referir aos rivais como macacos e tínhamos, e alguns de nós ainda têm, explicações das mais variadas para justificar tal ofensa:

“Os torcedores do Grêmio sabiam que o termo “macaco” carregava traços racistas, mas faziam a justificativa de seu uso por meio da rivalidade. Alguns torcedores procuravam alterar a ideia do significado original do termo. O exercício mais recorrente era afirmar que o racismo (…) havia se perdido com o tempo dentro do enfrentamento, do humor e das provocações que caracterizariam as relações entre os torcedores da dupla Gre-Nal. Como torcedor do Grêmio alfabetizado no estádio Olímpico, aprendi que o termo “macaco” era utilizado como sinônimo de colorado. Algumas das justificativas apontadas pelos torcedores com os quais dialoguei também foram utilizadas por mim em conversas com torcedores rivais e com outros torcedores do Grêmio em oportunidades anteriores. A negação do racismo pelo clube e por seus torcedores era o que assegurava meu argumento. Os torcedores gremistas acabavam colocados em um local de dificuldade, uma vez que a rivalidade parecia exigir a provocação. Assumir a relevância do traço racista nos termos “macaco” e “macacada” nos obrigaria a admitir que sim, fomos (e, muitas vezes, ainda somos) racistas (…). Talvez, nem todos estejamos dispostos a fazer essa admissão, e não apenas por falta de sensibilidade a novas demandas colocadas para os torcedores de estádio, mas, também, porque estamos atravessados por outros marcadores que produzem nossas subjetividades e que tomam o discurso racista como algo abjeto e proibido, criando certa contradição da ordem do irresolvível” (BANDEIRA, 2021, 409-410).

Taison
Comemoração antirracista de Taison. Foto: Ricardo Duarte/Internacional

Por óbvio, nosso clube é plural e somos muitos os que querem destruir a permanência do racismo entre nós, mas talvez esteja na hora de mudar um pouco a metodologia. Para além da covardia daqueles que se escondem em Adão Lima, Lupicínio Rodrigues e Everaldo, precisamos não apenas pluralizar nosso histórico e entendimentos valorizando a presença negra com o protagonismo que ela merece como precisamos, sim, admitir o quanto o racismo atravessa nossa constituição. Nós sabemos que aquilo que não tem nome não pode ser enfrentado. Minha sugestão de punição exemplar é uma estratégia metodológica para que a partir do real reconhecimento dessa violência possamos, antes tarde do que ainda mais tarde, enfrentá-la com o rigor necessário.

Nós gremistas temos que admitir que todos esses elementos constituem o clube. A partir do reconhecimento dessa falha institucional talvez seja possível dar um primeiro tímido passo para que jamais em nenhum momento algum torcedor em qualquer estádio do Grêmio e vestindo a nossa camiseta se sinta autorizado a proferir qualquer tipo de manifestação racista.

Referências

BANDEIRA, Gustavo Andrada. A rivalidade gre-nal e o termo do uso “macaco” na torcida do Grêmio. In: GUAZZELLI, Cesar Augusto Barcellos; FRAGA, Gérson Wasen; STÉDILE, Miguel Enrique; QUINSANI, Rafael Hansen; À sombra das chuteiras meridionais: uma História Social do futebol (e outras coisas…). Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2021, p. 396-412.

BANDEIRA, Gustavo Andrada; SEFFNER, Fernando. Processos de individuação dos torcedores na Arena do Grêmio. In: FuLiA / UFMG, 5(2), 2020, p. 135–157.

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Gustavo Andrada Bandeira

Possui graduação em Pedagogia (2006), especialização em Jornalismo Esportivo (2012), mestrado em Educação (2009) e doutorado em Educação (2017) todos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente é técnico em assuntos educacionais da UFRGS. Foi professor nos cursos de Especialização em Jornalismo Esportivo na UFRGS (2012-2013), Coordenação Pedagógica e Gestão Escolar na Escola de Gestores (2012-2016), Autor do livro Uma história do torcer no presente: elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de futebol. Integrante do Grupo de Estudos em Educação e Relações de Gênero (Geerge), do Seminário Permanente de Estudios Sociales del Deporte e do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

Como citar

BANDEIRA, Gustavo Andrada. Um clube de futebol pode ser racista?. Ludopédio, São Paulo, v. 149, n. 11, 2021.
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