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Um outro futebol é possível

Roberto Jardim 3 de novembro de 2020

Em agosto, fui convidado pelo professor Luís Augusto Fischer, editor da revista Parêntese, que circula aos sábados para assinantes, para escrever sobre futebol e suas ligações com a política ao longo da história. Daí surgiu a série de cinco artigos Um outro futebol é possível, veiculada, originalmente, entre 16 de setembro e 15 de outubro. Agora, disponibilizo a íntegra dos artigos aqui todos juntos. O material tem arte do mexicano César Zárate, do Iconicosdofut, e revisão do Diego Figueira.

Boa leitura!

O começo de tudo

Promover democracia enquanto se
marcam gols. É um belo manifesto político
”,
Éric Cantona, ex-jogador

Se você não é muito chegado ao futebol, pode estar se perguntando: o que um artigo (ou uma série de cinco deles) está fazendo aqui na Parêntese? Bom, talvez a declaração do técnico da seleção uruguaia, Oscar Tabárez, ajude a explicar de forma resumida:

– Futebol é uma excelente desculpa para falar de coisas mais importantes do que o futebol.

Sendo assim, nossa ideia é apresentar, a quem não conhece, o jogo de bola que vai além das quatro linhas. E também mostrar como o ludopédio nunca foi, é ou será, como muitos pensam, totalmente alienado e alienante.

Pois bem. Ampliando a resposta, o objetivo destas linhas é expor como o desprezo de muitos intelectuais – tanto conservadores quanto progressistas – para com o futebol não passa de preconceito. Como escreveu o também uruguaio Eduardo Galeano, em Futebol ao Sol e à Sombra, para os dois lados a devoção à bola não passa de algo que pode alienar o povo. Os primeiros veem no esporte uma chance de dominar. Os outros, um impeditivo aos avanços das lutas populares.

Isso se repete entre os governantes. Tanto líderes de direita quanto de esquerda se aproveitam desse pensamento, vendo o jogo de bola como exemplo maior da política do pão e circo. Todos, porém, acabam usando a popularidade do esporte para seus projetos de poder. Tem sido assim ao longo da História.

Apesar disso, com o passar do tempo alguns atletas, torcedores e até mesmo certos clubes não se furtaram e ainda não se omitem em demonstrar que esse uso político – ou politiqueiro, como prefiro dizer – não passa de uma das peças do jogo. Para eles, ao ir além das canchas, é possível fazer do futebol um aliado nas lutas democráticas, no enfrentamento aos poderosos, na defesa dos direitos e na busca por uma vida melhor para todos.

O que será tratado a partir desta edição também é de interesse de quem gosta de futebol mas acha que ele não deve se misturar com política. Bem como daqueles que já o enxergam como algo mais do que apenas um esporte.

As origens

Para começar, vamos voltar no tempo, aos primórdios do jogo de bola. Diversas civilizações, ao longo dos séculos, tiveram esportes ou cerimônias que se assemelhavam ao futebol de hoje, criado pelos ingleses em 1846 – mesmo ano em que inventaram o rugby, aliás, partindo de uma mesma prática desportiva.

Dois anos depois de nascido o novo jogo, foi elaborado, na Universidade de Cambridge, seu primeiro conjunto de regras, conhecido até hoje como Código Cambridge. As normas acabaram adotadas pela Football Association – a primeira federação do esporte – em 1863, e são usadas, com poucas mudanças, ainda hoje, 157 anos depois dos primeiros gols.

Surgido dentro dos colégios e universidades da ilha britânica, ou seja, no seio da elite, o jogo não tardou a se popularizar. Vêm, talvez, daí, as primeiras tentativas de usar o futebol politicamente, no caso, para “alienar” a população: os donos de fábricas começaram a criar times para jogar entre si ou contra outras indústrias, como mostra de forma romanceada a série English Game, do Netflix. Essas equipes ajudavam a tirar os empregados dos bares e, também, da luta por melhores condições de trabalho.

O que os criadores do esporte não esperavam é que, muito cedo, alguns sindicatos, principalmente os ligados ao anarquismo, também vissem no esporte uma ferramenta política. Esses anarcossindicalistas notaram a importância do jogo na mobilização da classe operária. Nesse ponto, o futebol já havia se espalhado pelo mundo.

Assim, menos de 40 anos depois de explodir nas universidades, passar pelas fábricas e se espraiar via portos, começaram a surgir, principalmente entre 1880 e 1890, em diversas cidades de vários países, times fundados por trabalhadores. É o que conta o espanhol Miguel Fernández Ubiría no livro Fútbol y Anarquismo.

Em sua maioria, essas agremiações usavam o vermelho e o negro, cores das bandeiras socialista e anarquista, em seus uniformes. Além disso, seus nomes também ostentavam o objeto de luta de seus fundadores, como o Club Atlético Libertad, surgido em Salta, na Argentina, ou o Libertários FC, de Santos.

Algumas dessas associações sumiram no tempo. Outras, porém, vieram a se tornar históricas. É o caso do Argentinos Juniors, cujo primeiro nome foi Mártires de Chicago – em homenagem às vítimas da tragédia que criou o feriado universal de 1º de maio. Aqui no Brasil também faz parte desse grupo o Sport Club Corinthians Paulista, fundado por cinco operários do bairro Bom Retiro, de São Paulo, em 1910.

Poucas dessas equipes mantiveram suas cores e ligações com a luta operária. A profissionalização do futebol, o surgimento dos cartolas – normalmente pessoas vindas das classes mais altas – e o mercantilismo que tomou conta do futebol jogaram para o fosso dos gramados da história qualquer lembrança libertária dessas agremiações.

Por aqui

O livro de Ubiría cita apenas mais um time brasileiro com essa origem, o Primeiro de Maio FC, de Santo André – clube que sumiu ao longo dos anos. Assim como na Argentina, no Chile, no México e no Uruguai, os três times brasileiros também tinham ligação com o anarquismo. Os desbravadores dessas aventuras eram oriundos, principalmente, da Espanha e da Itália.

O autor espanhol narra as lutas deles em defesa dos direitos dos moradores dos bairros mais populares de suas cidades, sem citar, porém, como foi a relação dessas entidades com os negros, que sofriam com a discriminação desde o fim da escravidão. Principalmente no caso do Brasil, último país a libertar os escravos, em 1888.

Como bem sabemos, a abolição não passou de gesto vazio, sem políticas efetivas que tirassem os negros da miséria. Como lembra o historiador José Antônio dos Santos, no livro Liga da Canela Preta  a História do Negro no Futebol, a sociedade daquela época era “hierarquizada, econômica e racialmente (…). Aos negros, na sua maioria empobrecidos e isolados por uma sociedade hegemonicamente racista e preconceituosa, restavam poucas opções de integração social”.

E o futebol tornou-se uma dessas opções. Mesmo assim, só se consolidou depois de muita luta e resistência. Na sua obra, Santos traz trecho da coluna Correio Sportivo, do jornal Correio da Manhã, de 17 de setembro de 1921, sobre como os negros eram vistos nos meios esportivos: “o presidente da República (Epitácio Pessoa – 1919–1922) não quer ‘homens de cor’ no nosso scratch”. O texto falava do Sul-Americano que seria disputado naquele ano, em Buenos Aires.

Dias mais tarde, crônica escrita pelo escritor Lima Barreto na edição da revista Careta, de 1º de novembro de 1921, corrobora o fato, segundo Santos. Conforme Barreto, Pessoa havia afirmado:

“Gente tão ordinária e comprometedora não devia figurar nas exportáveis turmas de jogadores (…) Numa representação nacional, não é decente que tal gente figure”.

Assim, partindo desse ponto, podemos lembrar o exemplo de Porto Alegre, onde a comunidade de descendentes dos escravos se apaixonou pelo jogo de bola, mas teve que lutar para ganhar seu espaço. Com apenas um clube criado pela classe trabalhadora, o Centro Sportivo Operário, de 1909, a capital gaúcha foi apresentada ao esporte em setembro de 1903, pelas mãos do Sport Club Rio Grande, primeiro time brasileiro, fundado em 19 de julho de 1900. Depois disso, começaram a pipocar agremiações pela cidade.

A maioria delas era ligada aos imigrantes ou às classes média e alta. São equipes como o Grêmio e o Fussball, fundados em 1903, assim como o Frisch Auf, de 1908, todos da comunidade alemã. Em 1907 outros times surgiriam, mas há registros oficiais apenas do Sport Club Rio-Grandense, primeira equipe de negros da cidade.

Nos anos seguintes, vieram outros: SC Internacional, Militar FC, Grêmio Internacional, Grêmio 7 de Setembro e SC Nacional, todos de 1909; SC Americano, de 1912; EC São José e EC Cruzeiro, 1913. Além de Rio-Grandense e Operário, a população mais pobre também teve outros times, como Gráphicos FC, SC União, SC 8 de Setembro, SC 1º de Novembro, SC Venezianos, SC Bento Gonçalves, SC Primavera e SC Palmeira, entre outros.

Logo, porém, esses times foram escanteados – fosse pelo preconceito de cor ou pelo de classe. Assim, passaram a jogar apenas entre si. Conforme o livro de Santos, esse apartheid futebolístico se deu mais fortemente a partir da criação da Liga de Foot-Ball Porto Alegrense, em 1910, que tinha sete associados, considerados os maiores de então – Grêmio, Internacional, Fussbal, Nacional, Frisch Auf, 7 de Setembro e Militar.

A partir do segundo ano da Liga, a competição da Capital seria disputada apenas por seis equipes, com os demais clubes precisando organizar-se e brigar por vaga na “elite”. Ao apresentarem-se para participar, as equipes mais populares acabaram enfrentando nova regra: além da necessidade de campo para promover as partidas, eram cobradas taxas de valores significativos para quem vinha da periferia, afastando, assim, as agremiações com menos recursos.

O interesse dos times populares acabou fazendo com que dois dos clubes “alemães”, Fussball e Frisch Auf, resolvessem fechar-se em sua comunidade. Com duas agremiações a menos, a Liga abria espaço para mais um integrante, levando o Rio-Grandense a pleitear a vaga. Porém, com nova diretoria eleita para o biênio 1911–1912, a entidade deixou de lado qualquer avaliação e disputou o segundo torneio com apenas cinco equipes.

Na presidência da Liga estava Henrique Poppe, um dos fundadores do Internacional. Talvez por isso, ao longo dos anos, os relatos mais populares, sem nenhum documento a comprovar, são de que o já apelidado “clube do povo” teria barrado a entrada do primeiro time negro na competição oficial em Porto Alegre, relata Santos. Segundo ele, os times da Liga se voltaram contra a popularização do futebol e a favor da elitização do jogo de bola.

Assim, surgiu o primeiro – e talvez único – ato de resistência no futebol porto-alegrense. Inspirados pela Liga Sportiva Suburbana, criada no Rio de Janeiro em 1912, as equipes mais populares da capital gaúcha, incluindo os times das comunidades negras, decidiram fundar a Liga de Foot-Ball Sul-Americana, em 1913. Sem competições fixas, acabou substituída em 1920 pela Liga de Futebol Nacional Porto Alegrense.

Muitos jornalistas, da época e ao longo dos anos, e pesquisadores confundem as duas. E para ambas passaram a usar a alcunha pejorativa e racista de Liga da Canela Preta. Canela preta era o apelido dado aos jogadores negros, que atuavam, costumeiramente, nos campos da Redenção e nas várzeas da região da Ilhota, onde hoje ficam os bairros Cidade Baixa e Menino Deus. O termo não ganhou registro escrito, mas se popularizou no boca a boca, de acordo com Santos.

Os torneios das duas ligas duraram alguns anos, até que os clubes porto-alegrenses abrissem as portas aos jogadores negros. O Internacional foi o primeiro, com Dirceu Alves, em 1928. O certo, porém, é que as duas ligas foram o embrião do que, anos depois, veio a se tornar o futebol de várzea –tema da próxima semana – da capital gaúcha.

O jogo é do povo

Ganamos, perdimos, igual nos divertimos”,
Eduardo Galeano, escritor

Tempos atrás, escrevi nas redes sociais sobre a elitização do futebol. Comentei que o esporte havia surgido na elite, o povo o havia roubado e, com a transformação dos estádios em arena e do jogo em espetáculo e com a gentrificação constante dos espaços públicos, a elite estava roubando-o de volta. Horas depois, meu amigo Claiton Magalhães, profundo conhecedor da periferia de Porto Alegre, mandou mensagem lembrando-me que, em outras palavras, o povo ainda era dono do esporte, por conta da existência e da força do futebol de várzea.

Argumentou que nossa cidade tem times de diversas comunidades com 50, 60 anos de história. Disse que, apesar da inexistência de campeonato municipal, as ligas de bairro continuam funcionando, em meio à criminosa especulação imobiliária que engole os campos. E, claro, assim como no Murialdo, no Alim Pedro ou na Restinga, aqui na capital gaúcha as comunidades das periferias da maioria das cidades brasileiras mantêm a tradição de resistência do futebol de várzea.

E daí?

Bom, se você leu o primeiro capítulo da série Um outro futebol é possível, deve lembrar-se que, criado no seio da alta sociedade britânica, o jogo de bola não demorou muito para se popularizar e cair no agrado da população mais pobre, que se apropriou dele, chutando a bola onde houvesse campo à disposição.

Naqueles primeiros anos, a elite tentou barrar esse avanço. Primeiro lutando como podia contra o profissionalismo. Para os criadores do futebol, receber salário para jogar bola não deveria ser aceitável por “questões nobres”. Para eles, o amadorismo era visto como algo que enriquecia a prática desportiva e o espírito dos atletas.

Essa alegação, porém, tinha um tanto de exclusão social e outro de primeiro vislumbre daquilo que a cartolagem sempre foi ao longo dos anos. Afinal, os boleiros pobres não podiam abrir mão de seus trabalhos para treinar e jogar. Já os universitários, filhos das elites britânicas, tinham como dedicar mais tempo ao esporte, obtendo assim vantagens sobre os times que treinavam menos ou sequer treinavam. Essa luta é mostrada na série English Game, do Netflix, já citada no capítulo anterior.

Mesmo assim, o povo acabou tomando conta do jogo. Primeiro, batendo bola aqui e ali, nas várzeas mundo afora. Depois, criando seus clubes e formando a maioria entre os torcedores. Os “donos do jogo” não tardaram a tentar afastar os pobres. Como relata o livro do historiador José Antônio dos Santos no livro Liga da Canela Preta – a História do Negro no Futebol, a partir do exemplo de Porto Alegre. Regras eram alteradas e taxas exorbitantes cobradas a fim de apenas permitir a presença de times abastados.

Surgiram, então, as agremiações de classe ou, como no caso de Porto Alegre, de raça. Eram os primeiros passos do futebol de várzea. Apesar da redução dos campos nas grandes cidades, com seus projetos urbanísticos que dão pouco espaço para o lazer em favor das construções de luxo e das vias para veículos automotivos, essa prática continua com força.

Vale, ainda uma ressalva, mesmo que nunca tenha deixado de ser dominado pelas elites, até pouco tempo atrás o futebol profissional ainda dava espaço à população mais pobre, em algumas áreas com preços mais acessíveis nos estádios, com os antigos setores da Geral do Maracanã, Mineirão (Belo Horizonte) e Serra Dourada (Goiânia) e Coreia do Beira-Rio, por exemplo. Com o advento das arenas, porém, o povo tem sido alijado do futebol dos grandes clubes.

A várzea

Para historiadores do tema, no Brasil, o futebol de várzea surgiu antes mesmo do profissionalismo. Segundo pesquisadores, a origem do nome se deu em São Paulo, porque as inúmeras equipes aproveitavam as várzeas próximas ao rio Tietê para a prática do esporte. Os mesmos espaços eram usados por times de ricos e pobres, brancos e negros, como conta José Moraes dos Santos Neto no livro Visão do Jogo: Primórdios do Futebol no Brasil.

As primeiras ligas oficiais, porém, forçaram os times que não conseguiam a estrutura exigida ou o dinheiro necessário a permanecer jogando à margem do sistema, como contamos na semana passada. Ou seja: os grupos mais bem organizados, tanto econômica como esportivamente, alijaram os mais carentes. Como a prática já estava disseminada, o jogo de bola continuou sendo disputado longe do oficialismo, fazendo do povo o verdadeiro dono do esporte.

Assim como o futebol dos clubes e torneios que começaram a levar mais e mais pessoas às partidas, o futebol de várzea também se desenvolveu, numa espécie de resistência. Os bairros periféricos ganharam seus campeonatos, assim como as cidades e Estados. Porto Alegre, até 2013, tinha o Municipal de Várzea, organizado pela prefeitura e disputado em diversas categorias.

Por problemas de segurança, o Paço Municipal resolveu acabar com a competição. Mesmo assim, comunidades inteiras de bairros como Partenon e Restinga, entre outros, preservam seus times. Já em São Paulo, a força da várzea movimenta toda uma cadeia econômica, até com lojas que produzem e vendem uniformes dos times para jogadores e torcedores.

Também como no futebol profissional, a várzea tem diversas nuances. O engajamento político é uma delas. Por sinal, muitos acreditam que os times da periferia não têm essa pegada. Eles que não sabem. Talvez as agremiações não sejam politicamente atuantes em bandeiras mais amplas, como luta pela democracia, por exemplo, mas marcam presença nas brigas por demandas locais, muitas delas participando ativamente nessas reivindicações, além de atuarem em campanhas solidárias e de conscientização, como acontece em Heliópolis (São Paulo, SP) desde o começo da pandemia de coronavírus.

Em entrevista por telefone, o antropólogo paulista Enrico Spaggiari resume a situação:

– Na várzea, os times têm vínculo muito forte com o bairro, com a comunidade. Com isso, acabam usando o discurso de que são representantes dos bairros. Isso acontece em São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Porto Alegre, entre outras cidades grandes.

A gourmetização

Em paralelo à várzea tradicional, por assim dizer, começa a surgir no Brasil o que tem sido chamado de futebol alternativo. É quase a gourmetização da várzea. Como os times dos bairros periféricos, essas novas equipes usam espaços alternativos, campos públicos ou privados, para a prática do esporte. Não têm, porém, vínculo com algum distrito, bairro ou região.

Spaggiari comenta esse novo modelo:

– Tem sido chamado de alternativo por aqui. Na Itália e na Espanha é conhecido como populare. É praticado por times de diferentes origens, seja por colegas de trabalho ou escola ou por conta de uma bandeira política ou causa específica, como times de jogadores trans, por exemplo.

Esse futebol alternativo, porém, tem como inspiração um movimento surgido há algumas décadas na Europa. O livro Fútbol y Anarquia, do espanhol Miguel Fernandez Ubiría, traça exemplos.

Parte deles surgiu de torcedores desencantados com os clubes para os quais torciam, como o FC United of Manchester e o Clapton Community FC, ambos da Inglaterra. Esse tipo foi fundado a partir da transformação das agremiações de origem em empresas e das vendas para proprietários ou grupos empresariais sem ligação alguma com o clube e sua história, muito menos com a comunidade local.

Também existem os que levantam uma bandeira, como o FC Lampedusa. Fundado em 2012 na cidade de Hamburgo (Alemanha), numa parceria com o Sankt Pauli (guarde esse nome: vamos voltar a ele no quarto episódio da série), o time tem como essência os refugiados, abrindo espaço para amadores, tanto homens como mulheres, de diversas nacionalidades.

Outro exemplo trazido por Ubiría é o Easton Cowboys and Cowgilrs FC, de Bristol (Inglaterra). Fundado em 1992, o clube surgiu relacionado à cena musical da cidade (epicentro da música eletrônica inglesa, de onde saíram nomes como Massive Attack e Portishead), o ECC é considerado marginal, com integrantes que incluem punks e anarquistas, por exemplo. O time de Bristol foi um dos primeiros a circular fora do seu país, visitando Alemanha e México, onde esteve em Chiapas, participando de eventos do Exército Zapatista de Libertação Nacional. Nessa viagem, contou com um goleiro bastante conhecido no meio das artes, o grafiteiro Banksy.

Esse espírito “alternativo” do futebol não tardou a aparecer no Brasil, com times ligados a diversas bandeiras, como disse Spaggiari. Um dos exemplos mais fulgurantes por aqui é o Autônomos FC. Fundado em 2006, o time paulista foi criado por anarquistas e se define como autogestionário, antifascista e antirracista.

O Auto, como é carinhosamente chamado por seus componentes, atua nos mesmos campos do futebol de várzea paulista. Sem se prender a qualquer região, vai aonde vê espaço para divulgar a bandeira da anarquia e da autogestão, sempre aproveitando para se dedicar às causas sociais. O time participou algumas vezes das copas América e do Mundo, duas das principais competições internacionais do futebol alternativo.

O que muitos não sabem é que talvez o primeiro time de futebol alternativo tenha surgido no Brasil nos anos 70. No começo daquela década, o craque Afonsinho – que ao lado de Paulo Cézar Caju e Nei Conceição formou um trio Barba, Cabelo e Bigode, meio de campo do Botafogo, conhecido por ser engajado e contestador, como veremos na próxima semana – fundou o Trem da Alegria. Impedido de atuar por conta do processo que movia contra o time da estrela solitária, Afonsinho criou, junto com outros colegas de profissão, uma equipe para que atletas sem contrato pudessem se manter na ativa.

– Com a política dos clubes, na época, de ter elencos de 18, 20 jogadores, houve muito desemprego no futebol. E jogador precisa jogar, treinar, essas coisas. Então, criar o Trem da Alegria foi uma forma de resistência. E ele existe até hoje! – contou em entrevista para o livro Democracia Fútbol Club, deste que vos escreve.

Política com os pés

O futebol é um reino da liberdade
humana exercida ao ar livre
”,
Antonio Gramsci, filósofo e cientista político

Quem não acompanha muito o futebol ou o vê apenas como um jogo, talvez tenha estranhado o que ocorreu na volta das competições em meio à pandemia de covid-19. Em diversas partidas, na Europa, nos EUA ou no Brasil, jogadores se engajaram na campanha black lives matter, desencadeada pela morte de mais um negro pela polícia americana. Inúmeros protestos individuais, coletivos e até institucionais ganharam espaço na mídia esportiva.

Certo, porém, é que, apesar de parecerem raros, momentos como esse no futebol não são inéditos. Alguns meses antes, por exemplo, boleiros chilenos se uniram ao povo nas manifestações que estenderam de outubro de 2019 ao começo de 2020, só parando por conta do coronavírus. Tanto os que atuam no país como os que jogam no Exterior abraçaram o movimento, que obrigou à suspensão dos torneios locais, e fez integrantes da seleção nacional se recusarem a entrar em campo em amistoso com o Peru.

Talvez por serem gestos esporádicos, volta e meia algum jornalista, cartola ou político vem com aquele batido discurso de que futebol e política não se misturam. Uma grande besteira, claro, como já vimos Um outro futebol é possível. Para quem não leu ainda, vale lembrar: o esporte é parte integrante do jogo político da sociedade. Seja pelo aproveitamento da sua popularidade no jogo do poder, seja como ferramenta de luta contra os poderosos de plantão.

Assim, ao longo dos mais de cem anos da história do futebol, acontece de atletas – apesar de poucos – usarem seus talentos com a bola nos pés para mandar recados além das quatro linhas. Como o meia Afonsinho, citado na semana passada. Para lembrar o personagem que inspirou Gilberto Gil a compor a música Meio de Campo – quem não conhece pelo menos o verso inicial, “prezado amigo Afonsinho”? –, o camisa 8 do Botafogo sempre foi ponto fora da curva.

Ao mesmo tempo em que surgia para o futebol, assumindo a braçadeira de capitão do time da estrela solitária e levando a equipe aos títulos de campeão carioca e brasileiro em 1968, graduava-se em Medicina. Somado a isso, participava do movimento estudantil e das passeatas contrárias ao governo militar. Essa faceta deixou Afonsinho na mira tanto da ditadura e quanto dos cartolas do clube. Foi afastado do grupo principal e impedido até de treinar.

Mesmo com o interesse de outras equipes em contratá-lo, a direção do Botafogo não quis negociá-lo. Ele decidiu então ir à Justiça pelo direito de poder jogar onde quisesse. Ganhou o processo e atuou ainda pelo Santos de Pelé e pelo Fluminense, entre outros, e virou referência quando o assunto é jogadores politizados. Ficou conhecido como primeiro homem livre do futebol brasileiro, como conto no livro Democracia Fútbol Club.

Os pioneiros

Mesmo podendo montar vários times de jogadores que ergueram sua voz em nome de alguma luta, esses ainda são apenas exceções a comprovar a regra. Seja por conta da concentração na carreira curta e exigente, ou mesmo devido ao medo ou pressão por conta de patrocínios e contratos. Como costuma dizer o jornalista Juca Kfouri, quem somos nós para criticá-los ou para exigir heroísmo com o pescoço alheio?

Não faltam, porém, histórias para mostrar que é possível bater um bolão e erguer a voz em defesa de algum direito. E essas vêm de longe. Os primeiros de que temos notícia são dos anos 30. Na Europa. Um desses jogadores atuou na equipe considerada um dos primeiros supertimes do futebol, a seleção da Áustria, conhecida como Wunderteam (time maravilha). Foi o atacante Matthias Sindelar, apelidado de Der Papiermann, o Homem de Papel.

Com a anexação da Áustria pela Alemanha nazista, em março de 1938, ele foi convocado para jogar pela seleção germânica na Copa daquele ano, na Itália. Judeu e declaradamente contrário ao nazismo, recusou-se a atuar sob a nova bandeira. Praticamente ao mesmo tempo, e também nos anos posteriores, alguns jogadores espanhóis ganharam fama pelo seu engajamento político ao se oporem à ditadura franquista, como conta o jornalista Quique Peinado no livro Futebol à Esquerda.

Após a Guerra Civil (1936–1939), atletas de diversas equipes ibéricas demostraram abertamente contrariedade ao regime de Francisco Franco, que só deixou o poder em novembro de 1975, quando morreu. Além de contrários à ditadura também ergueram a bandeira da autonomia de regiões como o País Basco e a Catalunha, quase um crime de lesa-pátria para um governo com forte discurso nacionalista.

Na América do Sul, os primeiros contestadores mais conhecidos vieram da Argentina e do Uruguai. Praticamente ao mesmo tempo, no final dos anos 40, atletas dos dois países protagonizaram as primeiras greves por melhores condições de trabalho. Vale dizer que, naqueles anos, apesar do reconhecimento popular, os jogadores eram praticamente escravos dos seus clubes e recebiam o que os cartolas se dispunham a pagar.

Mais recentes

Esses primeiros exemplos de combatividade social no continente repercutiram durante o período mais tenebroso da história da sul-americana recente. Entre 1954 e 1985 os países da região viveram quase constantemente sob regimes de exceção, entre um golpe de estado e outro. Em meio às ditaduras da época, Argentina, Chile e Uruguai nos brindaram com alguns exemplos de boleiros que decidiram não ficar calados.

São nomes altivos como o chileno Carlos Caszely, que recusou apertar a mão de Augusto Pinochet; o argentino Jorge Carrascosa, que decidiu não disputar a Copa do Mundo de 1978 devido à ditadura; e o uruguaio Pedro Graffigna, que sempre aproveitava entrevistas para falar contra o regime do seu país. Estes e outros craques, dentro e fora das canchas, não se intimidaram com a perseguição dos governos e se mantiveram na luta, sem compactuar com as atrocidades cometidas nos porões desses regimes.

Entre os anos 70 e os tempos engajados atuais, outros nomes marcaram época. Dois deles com grande destaque. Lateral campeão do mundo em 1998, o francês Lilian Thuram desde criança conviveu com o racismo, tanto que levou sua combatividade para os gramados e para fora deles – criou uma fundação para lutar contra o preconceito. Em exemplo do posicionamento da época em que atuava, em 2001, a Lazio, da Itália, demonstrou interesse em contratá-lo.

Recusou a proposta pelo histórico da equipe e suas ligações com o fascismo – tanto que, até hoje, parte da torcida louva Benito Mussolini. Em entrevista, Thuram declarou:

– Não jogo para fascistas!

Seu conterrâneo e contemporâneo Éric Cantona é outro nome que se impõe quando o assunto é engajamento. Conhecido por ser rebelde – tanto que foi escolhido para apresentar o documentário Rebeldes do Futebol –, o atacante acumulou atritos ao longo da carreira. Os apelidos – L’Enfant Terrible (criança terrível), Genious (genioso) e Bad boy (garoto mau) – tentavam resumir a fama.

O que poucos conheciam, até 25 de janeiro de 1995, pelo menos, era sua rebeldia com causa. Neto de espanhóis exilados por conta da ditadura de Franco, Cantona também tem a veia libertária. Naquele dia, seu time, o Manchester United, empatou em 1 a 1 com o Crystal Palace, pela Premier League, a primeira divisão da Inglaterra. Durante a partida, Cantona foi expulso e, ao sair de campo, acabou dando uma voadora num torcedor do time rival.

Teve, porém, boa justificativa para a agressão a Matthew Simmons, integrante de grupos nacionalistas e neonazistas: ataques xenófobos e racistas. Depois de largar a bola, o camisa 7 enveredou para a carreira de ator – protagonizou o filme Procurando Éric (2009), do inglês Ken Loach, e, recentemente a série Recursos Desumanos (2020), em cartaz no Netflix. Além disso, tem atuado em defesa dos refugiados – abrindo sua casa em Marselha (França) para grupos de africanos – e criticado o futebol moderno.

No Brasil

Voltando a falar do Brasil, junto ao primeiro homem livre do futebol nacional, dois colegas de time chamaram a atenção por serem contestadores e engajados, formando o trio Barba, Cabelo e Bigode — tema de documentário de Lucio Branco. Também talentosos com a bola nos pés, Paulo Cézar Caju e Nei Conceição fizeram sucesso dentro de campo – ambos chegaram à Seleção – e marcaram presença fora dele. O primeiro por falar do racismo em uma época em que quase ninguém tocava no tem. O segundo, por questionar o status quo do futebol.

Mais adiante, outros dois jogadores ganharam fama não só pelo futebol que apresentavam, mas, também, por levarem para os gramados – e em suas entrevistas – a luta pela redemocratização do Brasil. O primeiro deles foi o atacante Reinaldo. Eterno ídolo da torcida do Atlético-MG, o camisa 9 voltou de período de lesão, em 1976, comemorando os gols com o punho direito cerrado erguido. Somente no Brasileirão de 1977, quando o Galo foi vice-campeão invicto, foram 28 gestos em 18 partidas.

– Era um ato de protesto, de resistência em meio àqueles dias que vivíamos – resumiu em depoimento para o livro Democracia Fútbol Club.

Marca registrada do movimento de luta pelos direitos civis nos EUA Panteras Negras, o punho cerrado também passou a ser erguido por outro jogador, o meia Sócrates, do Corinthians. Certamente um tipo diferente no meio futebolístico – boêmio e graduado em Medicina –, o camisa 8 do Corinthians foi a voz do mundo da bola na campanha das Diretas Já, que em 1984 exigia que o povo brasileiro pudesse ir às urnas escolher o presidente da República.

Ao lado do lateral-esquerdo Vladimir e do atacante Casagrande, o Doutor liderou a Democracia Corintiana – assunto que será tratado no próximo capítulo. Dos três, foi o que ganhou mais notoriedade no engajamento. Fosse pelo futebol elegante (como não se lembrar dos passes certeiros de calcanhar?), que o levou à Seleção Brasileira, pela qual atuou de 1978 a 1986 – fazendo a alegria da torcida com o mítico time comandado por Telê Santana, em 1982 –, fosse por sua verve.

Em meio ao processo revolucionário dentro do Timão – que durou três temporadas e acabou devido à falta de resultados em campo –, aproveitou para mandar seu recado politicamente. Usava as entrevistas para declarar apoio à volta das eleições diretas, falar de política e citar o cientista político e filósofo italiano Antonio Gramsci. Certa vez, Sócrates comentou:

– Não há nada mais marxista ou gramsciano do que o futebol. É uma atividade que se dá ao luxo de permitir que o pior ganhe.

Coletivos da bola e da luta

Ganhar ou perder, mas
sempre com democracia
”,
Faixa levada por jogadores do Corinthians durante a campanha das Diretas Já

Dois projetos políticos autoritários envolvendo o futebol ganharam certa atenção da mídia nos últimos meses. Na Turquia, o Istambul Başakşehir sagrou-se campeão do país dentro da escalada de poder do presidente Recep Erdoğan e de seu partido, como contou o historiador Makchwell Coimbra Narcizo, no portal Ludopédio, no final de julho. Na França, o Paris Saint-Germain, que recém disputou o título da Liga dos Campeões, faz parte da ambição do Catar de se tornar influência internacional – a realização da Copa do Mundo de 2022 é outro item do plano –, como relatou o jornalista Jamil Chade, no UOL, em meados de agosto.

Essas duas histórias estão longe de ser exceção no uso do jogo de bola no planejamento de políticos, principalmente de ditadores. Benito Mussolini, por exemplo, aproveitou-se da seleção italiana, bicampeã mundial em 1934 e 1938, como ferramenta de propaganda do fascismo. Adolf Hitler fez o mesmo com os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Também copiou esse modelo a Junta Militar que tomou o poder na Argentina em março de 1976, usando a Copa do Mundo de dois anos depois a seu bel-prazer – não só em termos de poder político, mas também econômico.

O jogo de bola, porém, nem sempre é usado apenas por quem o quer como alienante ou arma para chegar ao poder ou para mantê-lo. Desde o começo da sua história, como já vimos nos capítulos anteriores da série Um outro futebol é possível, o esporte também tem sido parte na luta de classes, na defesa da liberdade e contra ditaduras e preconceitos. Além dos primeiros clubes ligados ao movimento operário ou ao anarcossindicalismo, listados no livro Fútbol y Anarquia, do espanhol Miguel Fernández Ubiría, que vimos no primeiro episódio, os mais de cem anos de história deste jogo têm uma série de agremiações, times ou torcidas que resolveram ir além das táticas, estatísticas e cantos.

Alguns deles em períodos determinados, acabando após uma determinada luta, o fim de um campeonato ou, ainda, a perda de uma competição. Outros mantêm essa chama acesa, apesar dos resultados em campos. No primeiro caso, podemos citar, é claro, a Democracia Corintiana, que mencionamos no episódio anterior. Para quem não se recorda, entre 1981 e 1984 o Corinthians viveu uma pequena revolução capitaneada pelo lateral esquerdo Vladimir, os meias Sócrates e Zenon e o atacante Casagrande, e ainda pelo sociólogo Adilson Monteiro Alves, então diretor de futebol.

Após um período sob o comando de Vicente Matheus – nome folclórico da cartolagem –, o presidente Waldemar Pires, eleito em 1981, abraçou a ideia dos jogadores e de Alves, de democratizar o clube. Como mostram os documentários Ser Campeão É um Detalhe Democracia em Preto e Branco, as decisões passaram a ser tomadas por meio do voto.

Cada integrante do clube paulistano, dos jogadores ao roupeiro, votava em praticamente tudo. Das contratações à concentração, do dia a dia do clube à campanha em defesa das Diretas Já. Vale lembrar que o Brasil ainda vivia numa ditadura e que 1982 foi o primeiro ano em que o povo pôde votar para governador desde 1964. Assim, durante novembro de 1982, o “patrocínio” do clube foi a frase “Dia 15, vote”.

À mesma época, o time entrava em campo com a faixa “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”. Claro que o que era apresentado dentro de campo ajudava. Com um time bem formatado pelo técnico Mário Travaglini, e com Sócrates em grande fase, o Corinthians foi campeão paulista em 1982 e 1983.

Como quase toda revolução que não apresenta resultados mais práticos – no caso do futebol –, vitórias e taças, a Democracia Corintiana foi sufocada pelos pragmáticos e imediatistas. Assim, o sonho da autogestão futebolística acabou devido ao que ocorria dentro de campo. Sem conseguir deslanchar no Brasileirão daqueles anos, a queda de rendimento no Paulista de 1984, somada à saída de Sócrates para a Fiorentina, da Itália, levaram o Corinthians a escantear o projeto.

Além dos resultados

No segundo grupo, dos clubes que mantêm projetos engajados apesar dos resultados em campo, podemos buscar dois exemplos na Europa. O primeiro é o Red Star, um dos primeiros times de futebol de Paris, fundado por ninguém menos do que Jules Rimet, criador da Copa do Mundo. Desde os primeiros dias até hoje a agremiação se propõe a ir além do futebol, mantendo forte ligação com educação e cultura.

Time mediano desde seus primeiros anos, o Red Star viveu momentos de glória na década de 20, quando conquistou quatro Copas da França. Depois afundou, mas jamais deixou de ter relevância. Primeiramente por ter vários integrantes ligados à Resistência contra a ocupação nazista. Depois, por conta do seu projeto. Idealizada por Rimet, a proposta do clube é oferecer oficinas de artes e educação a integrantes de todas as categorias.

Além disso, desde os primórdios, o Red Star sempre esteve ligado à classe trabalhadora da Cidade Luz. Por isso, assim como o Racing, outro clube popular de Paris, foi preterido quando a elite financeira da capital francesa resolveu investir no futebol, no final dos anos 60, como conta Ubíria. Desse interesse meramente econômico, mas também com forte sentido de classe, nasceu o embrião do PSG, que citamos na abertura do texto.

Outro exemplo de clube engajado vem da Alemanha: o Sankt Pauli – que citamos no primeiro artigo da série e que pedimos para você guardar na memória, lembra? Situado no bairro homônimo, centro boêmio da portuária Hamburgo, o time é um marco do futebol além das quatro linhas, como contam os espanhóis Natxo Parra e Carles Viñas em St. Pauli: Otro Futbol Es Posible.

Há décadas é administrado pelos próprios torcedores, que salvaram a instituição da falência, ajudaram a reformar o mítico estádio Millerntor e a ligaram ainda mais ao bairro. Desde então, o Sankt Pauli é a única equipe do mundo a se definir em estatuto como antinazista, antifascista, antirracista e anti-homofóbica. Vale lembrar que, segundo Parra e Viñas, tanto Hamburgo quanto o bairro de St. Pauli têm histórico de resistência, inclusive com atos de sabotagem contra nazistas durante a Segunda Guerra (1939–1945).

Recentemente, outros clubes têm se mostrado abertos às lutas sociais, mesmo que isso não resulte em mudança nas diretrizes nem traga resultados positivos dentro de campo. No Brasil, o Esporte Clube Bahia dá exemplo. Desde 2018, o Tricolor de Aço tem promovido campanhas das mais diversas, do apoio ao movimento negro à defesa dos direitos dos povos indígenas. O mesmo ocorreu na Europa, onde vários times abraçaram a recente campanha Black Lives Matter, mesmo contrariando parte de suas torcidas.

Na geral

Falando do povo das arquibancadas, entre maio e junho, em meio ao isolamento social, torcedores de diversos clubes brasileiros decidiriam ir às ruas, em um contraponto aos protestos que pediam o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. O movimento surgiu dentro das torcidas organizadas, de Norte a Sul, mas sem envolvimento direto destas, como forma de mostrar que a democracia não estava sem apoio.

Foi exceção, é claro. Assim como foram outros três momentos, todos durante o regime militar (1964–1985), dois deles ligados à Gaviões da Fiel, torcida organizada do Corinthians e considerada a maior do Brasil. O primeiro é o próprio ato de criação da Fiel, em 1969, como contraponto aos militares que mandavam em Brasília e à ditadura do cartola Wadih Helu, que presidiu o Timão de 1961 a 1971 – dez dos 23 anos que o Corinthians ficou sem erguer uma taça sequer (de 1954 a 1977).

Mais adiante, em fevereiro de 1979, a Gaviões deu suporte à primeira manifestação política nas arquibancadas desde o golpe de 1964. Em clássico contra o Santos, válido pelo Paulista de 1978, integrantes da organizada corintiana abriram uma faixa pedindo “anistia ampla, geral e irrestrita” no alto da superior do Morumbi. O ato foi manchete nos principais jornais do país à época.

O outro momento se deu em Porto Alegre, em engajamento mais social do que político. Mesmo assim, um episódio à frente do seu tempo, como relata o jornalista Léo Gerchmann no livro Coligay: Tricolor e de Todas as Cores. Na obra, Gerchmann destrincha como um grupo de homossexuais criou uma torcida organizada em ambiente extremamente machista e preconceituoso e, ainda por cima, em meio à ditadura. Ainda hoje, a Coligay é lembrada quando são relatadas as dificuldades o pessoal LGTB frequentar estádios Brasil afora.

No Exterior, também são poucos os exemplos de torcidas que levam muito mais a sério as lutas sociais do que o jogo em si. Além dos seguidores do alemão Sankt Pauli, um dos grupos mais conhecidos e atuantes são os Bukaneros, como são conhecidos os torcedores do Rayo Vallecano, apresentados por Quique Peinado no livro ¡A las armas!: La relación entre un equipo, un barrio, un carácter y una ideologia.

Majoritariamente formada por moradores do bairro proletário de Vallecas, região sudeste de Madri, essa torcida tem como ponto forte a consciência de classe. Isso a leva a preferir lutar pelos ideais que professa – antifascismo, antirracismo, anti-homofobia, etc. – à mera presença nas arquibancadas para vibrar com gols do time. Assim, são comuns faixas com palavras de ordem, bem como cantos com refrões políticos, nos jogos do Rayo.

Até nove anos atrás, clube e torcida faziam essa caminhada juntos, com a agremiação abraçando campanhas sociais que brotavam nas arquibancadas. Quando o Rayo virou empresa, porém, houve ruptura. Desde 2011, os bukaneros têm organizado boicotes em protestos contra o empresário Raúl Martín Presa, principalmente pela falta de respaldo às bandeiras levantadas pelos torcedores.

Os atos, às vezes, terminam com vitória dos Bukaneros. Como em 2017, quando os torcedores conseguiram impedir que um atacante ucraniano vestisse a camisa alvirrubra. Roman Zozulya foi acusado pelos rayistas de manter vínculos estreitos com movimentos neonazistas em seu país – o que era facilmente comprovado por suas postagens nas redes sociais à época. Devido à pressão que tomou as ruas do bairro, Presa desfez a contratação.

Como vimos ao longo dos quatro capítulos até aqui, essas histórias só nos chegam por conta do trabalho de historiadores, sociólogos, antropólogos, jornalistas e escritores que se dedicaram a mostrar que existe muito mais do que gols e dribles na história do futebol. Esses serão os personagens do último episódio da série.

A bola nas letras

Regar a plantinha da democracia é
tarefa de todos nós. Em todos os campos
”,
Juca Kfouri, jornalista

Em recente conversa, a professora de Artes Lacyta Trizotto Maia, amiga de longa data de minha irmã, disse que não gostava de futebol. Contou ter crescido rodeada pelo jogo, por conta do pai, amigos, etc., e que, apesar disso, até então, não lhe agradava o esporte. Confidenciou, porém, ao comentar o trabalho que tenho produzido nos últimos anos: “Estou conhecendo outro lado do futebol e gostando muito”.

Aproveito esse relato pessoal, para introduzir a última parte deste texto, afinal, Um outro futebol é possível. Parto dessa experiência própria para falar daqueles que têm aproveitado suas profissões – sejam jornalistas, historiadores, sociólogos, antropólogos, educadores físicos, etc. – para levar aos torcedores em geral as histórias como as resumidas nos quatro capítulos anteriores.

Esse tipo de trabalho não é, claro, recente. Personagens como Mario Filho – jornalista que virou nome oficial do Maracanã –, João Saldanha, Nelson Rodrigues e, dos anos 70 até hoje, Juca Kfouri – só para ficar no Jornalismo – sempre viram o futebol como muito mais do que apenas um jogo. Abrindo as portas, pelo menos no Brasil, para esse entendimento.

Mario Filho, por exemplo, é autor de um dos principais clássicos da literatura boleira do país: O Negro no Futebol Brasileiro. Saldanha é outro nome de respeito nesse time, talvez por ter sido o mais ligado à política, por declarar sua ideologia abertamente e sempre bater de frente com os poderosos de plantão – foi integrante do PCB e, portanto, opositor de Getúlio Vargas e do regime militar. Rodrigues, bem, dispensa apresentações. E Kfouri sempre mostrou combatividade em seus espaços, como editor da revista Placar, comentarista de rádio e TV ou colunista de jornais e sites.

Não podemos esquecer nomes como os também jornalistas José Trajano, Mauro Cezar Pereira e Lúcio de Castro. Este trio está no primeiro time daqueles que sempre enxergaram outras facetas do esporte. Os dois últimos, aliás, são responsáveis, ao lado do colega Leandro Iamin, do podcast Muito Mais do que Futebol, que, como o próprio nome diz, aborda todos os lados do jogo.

Ainda falando de Castro, ele é o diretor de um dos melhores documentários (ou série de) sobre o futebol nos tempos das ditaduras do Cone Sul – daqueles que deveriam ser estudados nas faculdades de Jornalismo e, por que não, de História. Nos quatro episódios de Memórias de Chumbo  o Futebol nos Tempos do Condor, o carioca conta as relações dos militares de Argentina, Brasil, Chile e Uruguai com o jogo de bola, bem como os momentos de resistência que vieram das canchas e das arquibancadas.

Castro também toca, galhardamente, a Agência Sportlight, que cobre o mundo esportivo com olhar investigativo. O nome se inspira no projeto Spotlight, grupo de repórteres do diário americano Boston Globe que apura grandes histórias. Falando em coberturas aprofundadas, é preciso recordar trabalhos que revelaram esquemas de corrupção no mundo da bola.

São reportagens extensas como as publicadas nos livros FIFA Máfia, do alemão Thomas Kistner, e Jogo Sujo, do inglês Andrew Jennings. Não podemos nos esquecer da denúncia feita pela Placar em 1982, desvendando a máfia da loteria esportiva. Além disso, em junho passado, o serviço de streaming Amazon Prime lançou El Presidente, série em oito capítulos, baseada em fatos verídicos, sobre a corrupção na Conmebol, a federação sul-americana de futebol, na qual os cartolas se acham donos do jogo de bola.

Uma nova cena

Claro que esse time de peso de jornalistas, escritores e pesquisadores em geral jamais estaria completo se não citássemos o uruguaio Eduardo Galeano. Com a publicação do livro Futebol ao Sol e à Sombra, o autor de As Veias Abertas da América Latina popularizou, pelo menos entre seus leitores, esse outro olhar para o esporte. Uma visão que vai além dos resultados, táticas e tabelas.

Assim, com toda a mítica e poesia trazida nos textos da obra, lançada em 1995, Galeano se tornou patrono de toda uma nova cena surgida no Brasil, na América Latina e no mundo. São projetos, em sua grande maioria, independentes, que enfocam letras e lentes em diferentes aspectos do futebol. Muitos deles têm visão mais literária. Outros, mais acadêmica. Todos, porém, tentam mostrar o jogo de bola como fenômeno importante no dia a dia da sociedade moderna.

Além dos autores citados ao longo dos episódios anteriores, é possível listar nomes como o do ex-jogador, jornalista e escritor Agustín Lucas, uruguaio autor de diversos livros, que trabalha no jornal La Diária e na revista Túnel. Também podemos falar da revista chilena Obdulio, da Gol Triste Ediciones, editora também chilena que trabalha nessa linha. Não pode faltar também a revista argentina El Gráfico, que desde sua fundação, em 1919, sempre observou o futebol de forma mais profunda.

Já no Brasil, um dos destaques é o portal Ludopédio. Inicialmente pensado para ser espaço acadêmico no qual pesquisadores de todo o país poderiam encontrar uma biblioteca virtual de estudos sobre o futebol, a página, que completa dez anos em 2020, abriu espaço para jornalistas e escritores de ficção e, em junho, lançou sua editora. O primeiro título da coleção Campo de Jogo é do autor destas linhas.

Não podemos deixar de lado trabalhos como o da revista trimestral Corner; da editora Dolores; dos sites Trivela e Puntero Izquierdo; do blog Futebol Café, no qual o paulista Bruno Rodrigues escreve sobre livros futeboleiros; e dos canais do YouTube Doze Futebol e Peleja; entre tantos outros. Não esquecendo jamais da valorosa luta do Observatório da Discriminação Racial do Futebol.

Ainda é possível sugerir que jornalistas como Beiller Pires (El País Brasil) e Jamil Chade (UOL) e o escritor Guilherme Trucco sejam acompanhados com atenção. Todos esses produtores de conteúdo, principalmente os que estão fora da grande mídia, têm trabalhado individual e coletivamente na divulgação de seus projetos, na esperança de que mais e mais torcedores passem a perceber a força social do futebol.

E elas, hein?

Antes de finalizar, muitos leitores, mas principalmente leitoras, podem perguntar: e o futebol feminino? Bom, confesso que já vi a falta de conhecimento sobre o jogo delas como falha grande nas pesquisas que fiz. Afinal, o futebol feminino é resistência em sua essência. É subversivo desde a raiz. Basta lembrar que por mais de 40 anos foi proibido no Brasil e, quando liberado, teve forte componente sexista, além do preconceito e descaso por parte da mídia e dos torcedores.

Ao longo do tempo, porém, notei que não deveria ser eu a contar as histórias de jogadoras, clubes e torcedoras engajadas. Não pelo tal lugar de fala, muito menos por não apoiar a causa feminista – afinal, penso que não preciso ser mulher para apoiar suas lutas, bem como não preciso ser negro nem homossexual para defender seus direitos. Acredito, porém, que me faltaria embasamento e até conhecimento de causa para tratar do assunto.

Por conta disso, tenho aproveitado os espaços que consigo para provocar jornalistas, historiadoras, sociólogas, enfim, pesquisadoras em geral: cabe a elas nos fazer conhecer a história do futebol feminino no Brasil e no mundo. Cabe a elas nos contar a vida das maravilhosas atletas que foram além das canchas, como nossa eterna rainha Marta ou a americana Megan Rapinoe. Os espaços estão ai, basta ocupar e sair marcando gols.

Para saber mais:

Livros:

Futebol ao Sol e à Sombra, Eduardo Galeano (L&PM, Porto Alegre, 1995)

Fútbol y Anarquismo, Miguel Fernández Ubiría (La Catarata, Madri, 2020)

Liga da Canela Preta  a História do Negro do Futebol, José Antônio dos Santos (Diadorim, Porto Alegre, 2018)

Visão do Jogo: Primórdios do Futebol no Brasil, José Moraes dos Santos Neto (Cosac Naify, Rio de Janeiro, 2002)

Democracia Fútbol Club, Roberto Jardim (Ludopédio, São Paulo, 2020)

Futebol à Esquerda, Quique Peinado (Madalena, São Paulo, 2017)

Obdulio Desde el Alma, Antônio Pippo (Impo, Montevidéu, 2017)

St. Pauli: Otro Futbol Es Posible, Natxo Parra e Carles Viñas (Capitan Swing, Madri, 2017)

Coligay: Tricolor e de Todas as Cores, Léo Gerchmann (Libretos, Porto Alegre, 2014)

¡A Las Armas!: La Relación Entre un Equipo, un Barrio, un Carácter y una Ideologia, Quique Peinado (Libros del K.O., Barcelona, 2016)

O Negro no Futebol Brasileiro, Mario Filho (Mauad, Rio de Janeiro, 2010)

FIFA Máfia, Thomas Kistner (Penguin, Santiago, 2015)

Jogo Sujo, Andrew Jennings (Panda Books, São Paulo, 2012)

Reportagens:

Başakşehir campeão, reislamização da basílica de Santa Sofia: gol de Erdoğan?, Makchwell Coimbra Narcizo, portal Ludopédio

O outro jogo do PSG, Jamil Chade, portal UOL

E o futebol encarou a ditadura, Roberto Jardim, portal Ludopédio

Séries:

English Game, série em seis episódios, no ar no Netflix (Julian Fellowes, Tony Charles e Oliver Cotton, Inglaterra, 2020)

El Presidente, série em oito episódios, no Amazon Prime (Pablo Larrain e Armando Bó, Chile, 2020)

Documentários:

Trem da Alegria  Arte, Futebol e Ofício (Francis Valem, Brasil, 2016)

Rebeldes do Futebol (Gilles Rof e Gilles Perez, França, 2012)

Barba, Cabelo e Bigode (Lucio Branco, Brasil, 2016)

NC5: Contra a Lei do Impedimento (Lucio Branco, Brasil, 2019)

Ser Campeão É um Detalhe (Gustavo Forti Leitão e Caetano Tola Biasi, Brasil, 2011)

Democracia em Preto e Branco (Pedro Asbeg, Brasil, 2014)

Memórias de Chumbo  o Futebol nos Tempos do Condor (Lúcio de Castro, Brasil, 2013)

Podcast:

Muito Mais do que Futebol (Mauro Cezar Pereira, Lúcio de Castro e Leandro Iamin, Centra 3)


** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Roberto Jardim

Jornalista, dublê de escritor e pai da Antônia. Tudo isso ao mesmo tempo, não necessariamente nessa ordem. Autor dos livros Além das 4 Linhas e Democracia Fútbol Club.Como fazer jornalismo independente, mantém uma campanha de financiamento coletivo no Apoia.se, que ajuda na produção do projeto Democracia Fútbol Club, que tem o objeto de contar a história de jogadores e técnico, times e clubes, torcedores e torcidas que usaram a desculpa do futebol para irem além das quatro linhas.

Como citar

JARDIM, Roberto. Um outro futebol é possível. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 4, 2020.
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