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Um Ronaldo palmeirense no dérbi paulista

Pedro Henrique Brandão 7 de janeiro de 2021
Foto: Acervo Gazeta Press / Reprodução

Na decisão do Campeonato Paulista de 1974, o Corinthians esperava, enfim, sair da fila de 20 anos sem títulos. Ronaldo estragou os planos da Fiel quando anotou o gol que colocou mais um ano no jejum alvinegro e fez o ensurdecedor silêncio de 100 mil corintianos no Morumbi ser quebrado apenas por um eterno “zum zum zum, é 21!”.

No dia 22 de dezembro de 1974, Corinthians e Palmeiras se enfrentaram para decidir o Campeonato Paulista daquele ano. Era um jogo cheio de expectativa pelo título corintiano que poria fim ao jejum de duas décadas sem conquistas alvinegras, mas acabou com Ronaldo como herói improvável e eterno algoz do Corinthians.

Apenas quatro dias antes, o Derby havia acontecido no Pacaembu e terminou empatado em 1 a 1. Edu e Lance fizeram os gols logo nos primeiros cinco minutos de partida e garantiram que a decisão aconteceria sem favoritos no jogo de domingo no Morumbi.

Ronaldo já havia se destacado no jogo de ida por ter dado o passe para Edu abrir o placar para o Verdão, mas sofreu uma entrada forte de Zé Maria e praticamente estava descartado do jogo final dali a quatro dias.

O bom atacante mineiro  –  primo de Tostão –, era um talento que o elenco bicampeão brasileiro da época podia se dar ao luxo de manter no banco de reservas porque César Maluco era o titular indiscutível.

Porém, quando César deixou o Parque Antártica, Oswaldo Brandão, que sabia como manter todos os seus jogadores motivados, deu uma oportunidade a Ronaldo e o atacante não decepcionou.

Com seus gols, Ronaldo se tornou indispensável para um time que tinha seis jogadores convocados para a Copa do Mundo da Alemanha. Estiveram na Seleção Brasileira de 1974, Ademir da Guia, Leivinha, César Maluco, Alfredo Mostarda, Leão e Luís Pereira.

Por conta da lesão sofrida na partida do Pacaembu, Ronaldo estava cortado do jogo decisivo do domingo pelo departamento médico. A previsão de retorno dada pelos médicos era de 10 dias.

Em 2014, em entrevista ao Globo Esporte, Ronaldo contou o método nada ortodoxo usado por Oswaldo Brandão para deixa-lo em condições de jogo:

“…Na sexta eu não treinei, fiquei fazendo tratamento no clube. Chegou o sábado e não tinha a mínima chance de jogar no domingo. Aí o Brandão me chamou e disse: ‘Mineiro, vamos para o jogo’. E eu respondi que não tinha como, mas ele disse que ia dar um jeito”.

O Brandão quebrou todos os tabus da medicina (risos). Eu estava com o Eurico no quarto e ele foi lá com o massagista. Disse que não era para falar nada para os médicos. Lembro que eu ia ficar bom somente em dez dias pela previsão dos médicos. O Brandão entrou no quarto, eu estava deitado na cama. Ele pegou uma garrafa de água mineral, o massagista jogou na minha perna e o Brandão começou a espremer. Um segurava, porque doía muito, e o outro fazia massagem como se tivesse mexendo em massa de pastel. Lembro que no sábado fiquei desde depois do jantar até quase meia-noite fazendo isso. Eu acordei zerado no domingo”.

O fato de Ronaldo ter acordado zerado na manhã de 22 de dezembro de 1974 foi o começo de uma tragédia corintiana. Os jornais da época contam que o clima da cidade de São Paulo não permitia que ninguém ficasse indiferente ao jogo da tarde no Morumbi. Mesmo torcedores que não fossem palmeirenses ou corintianos, não ficaram alheios à decisão e acreditavam no fim do jejum alvinegro.

Fazia 20 anos, o Corinthians conquistara seu último troféu na decisão do Campeonato Paulista de 1954, a taça do Quarto Centenário, justamente contra o Palmeiras na final. Depois da alegria de 54, o que se seguiu foi a maior fila da história do clube de Parque São Jorge e a cada ano novo a pressão aumentava para o fim da incômoda marca.

A decisão contra o arquirrival era a oportunidade perfeita, pois lavaria a alma do torcedor por derrotar o Palmeiras que tinha um elenco em fase de renovação depois de muitas glórias nos anos anteriores.

Pelo lado alviverde, não havia pressão alguma pelo título. A conquista do bicampeonato brasileiro em 72 e 73 havia consagrado a Segunda Academia. Apesar da saída de alguns jogadores e o envelhecimento de outros, o palmeirense parecia satisfeito mesmo que o time não conquistasse aquele campeonato.

O Corinthians tinha um time menos renomado, mas com mais folego e pressionado a vencer. Zé Maria, Brito, Wladimir e Rivelino eram os destaques de uma boa equipe treinada por Silvio Pirilo.

Quando Dulcidio Vanderlei Boschilia apitou o início do jogo, aconteceu o que se esperava: o Corinthians partiu para cima e encurralou o Palmeiras. Porém, o time de Oswaldo Brandão estava acostumado ao clima das decisões e sabia exatamente como cansar um adversário sedento por vitórias.

Para a missão de petrificar o ímpeto corintiano, nada melhor do que a cadência de Ademir da Guia, ou como escreveu o poeta João Cabral de Melo Neto:

“…o ritmo do chumbo (e o peso), da lesma, da câmara lenta, do homem dentro do pesadelo. Ritmo líquido se infiltrando no adversário, grosso, de dentro, impondo-lhe o que ele deseja, mandando nele, apodrecendo-o. Ritmo morno, de andar na areia, de água doente de alagados, entorpecendo e então atando o mais irrequieto adversário”.

Ademir da Guia impôs o ritmo do chumbo à câmera lenta e atou às pilastras do Morumbi o irrequieto Corinthians e pôs o nervoso Rivelino num pesadelo. Dudu completou o xadrez de Brandão e burocratizou o meio-campo infiltrando as possibilidades ofensivas do alvinegro. Feito ferrugem na engrenagem, o Palmeiras parou o Corinthians e “apodreceu” a partida antes cheia de expectativa corintiana.

Nesse ritmo, o primeiro tempo se foi com o 0 nos dois lados do placar. A volta para o segundo tempo era a certeza de que o tudo se resolveria logo para a maioria no estádio.

Confiantes os corintianos lotaram as arquibancadas em visível vantagem de público aos palmeirenses, na proporção de cinco alvinegros para cada alviverde. Foram exatos 120.522 pagantes, dos quais estima-se que mais de 100 mil fossem corintianos.

Dulcidio apitou para os 45 minutos finais, mas a tônica permaneceu inalterada: o Corinthians parecia preso a pegajosa teia palmeirense. Notadamente, o jogadores alvinegros passaram a demonstrar cansaço e o momento do bote da máquina de Brandão se aproximava.

Junto ao cansaço do Timão e à eminente reação palmeirense em campo, a festa armada nas arquibancadas do Morumbi para o título do Corinthians entrou numa espiral de decadência. Porém, o clima virou de vez aos 24 minutos da etapa final.

Foi quando Jair, que era novidade na escalação de Oswaldo Brandão, cruzou para Leivinha que escorou de cabeça. Sem deixar a bola cair, Ronaldo acertou um sem-pulo lindo e sem chances para Bullice, o goleiro corintiano, assim, balançou as redes para deixar o Palmeiras com a mão na taça, os jogadores corintianos sem ação e a multidão preta e branca em silêncio pelos 21 minutos finais da partida.

Líder do elenco, apelidado de Reizinho do Parque São Jorge e pressionado pela torcida por ter sido campeão do mundo com a seleção, mas nunca ter conquistado um título sequer pelo Corinthians, Rivelino tentou de tudo para alcançar o empate.

Numa das tantas investidas inócuas e que não tinham mais a credibilidade e nem a fé da Fiel, Rivelino foi confortado por seu marcador, o elegante Luís Pereira lhe deu um comovente afago que demonstrava o tamanho do abalo que o gol de Ronaldo causou nas estruturas corintianas.

Ao apito final de Dulcidio, o título comemorado pela minoria barulhenta no Morumbi, enquanto a massa alvinegra deixava as arquibancadas num sepulcral e ensurdecedor silêncio quebrado apenas pelo jocoso canto de “zum zum zum, é 21”, em referência ao vigésimo primeiro ano de fila do Corinthians.

O sofrimento corintiano duraria até 1977, no título que virou tatuagem de muito alvinegro mundo afora. O calvário palmeirense começaria em 1976, quando Jorge Mendonça e companhia conquistaram a última taça de Ademir da Guia antes da aposentadoria do craque que encerrou uma era e deu início a um jejum de 16 anos. Tudo desencadeado por aquele gol de Ronaldo.

Ronaldo morreu no dia 9 de junho de 2020, aos 73 anos. Além da passagem pelo Palmeiras, o atacante revelado no Atlético Mineiro, foi tricampeão brasileiro — 71 no Galo e 72/73 no Palmeiras — e campeão da Libertadores de 1976 pelo Cruzeiro.

Porém, naquele dia de dezembro de 1974, Ronaldo foi o grande responsável por escrever a história de uma forma diferente do que esperava a maioria presente ao estádio. Ronaldo foi responsável por deixar o Corinthians mais um ano na fila e calar 100 mil corintianos.

Depois do lançamento de Jair e o cabeceio de Leivinha, naquele domingo de 1974. Ronaldo fez o gol que o tornou eterno e para o palmeirense, ele será para sempre o Ronaldo mais importante da história dos Derbys, pois ecoa até hoje, na voz de Osmar Santos, o improvável gol que desatou o “zum zum zum, é 21”.


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Pedro Henrique Brandão

Comentarista e repórter do Universidade do Esporte. Desde sempre apaixonado por esportes. Gosto da forma como o futebol se conecta com a sociedade de diversas maneiras e como ele é uma expressão popular, uma metáfora da vida. Não sou especialista em nada, mas escrevo daquilo que é especial pra mim.

Como citar

BRANDãO, Pedro Henrique. Um Ronaldo palmeirense no dérbi paulista. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 8, 2021.
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