104.1

Uma nobre tarefa

José Paulo Florenzano 1 de fevereiro de 2018

O Palmeiras, em 1964, celebrava o cinquentenário de fundação do clube. A efeméride decerto exigia a conquista de um título capaz de abrilhantar os festejos. Todavia, em campo, as coisas não caminhavam conforme o esperado pela comunidade esmeraldina. Insatisfeitos com a campanha do time no Paulista, os dirigentes decidiram demitir o treinador Silvio Pirilo e promover Mário Travaglini, então apenas um jovem “comandante” das categorias de base. Reconhecendo-lhe potencial para assumir a equipe principal, mas, ao mesmo tempo, ponderando a inexperiência no exercício do cargo, os dirigentes constituíram o “Quarteto da Esperança”, isto é, uma comissão formada por Mário Travaglini e os jogadores mais calejados do elenco, a saber: Julinho Botelho, Valdemar Carabina e Djalma Santos. Vinte anos antes da autogestão colocada em prática pela Democracia Corinthiana, a Primavera Palmeirense adotava um sistema de cogestão baseado abertamente no conhecimento que então se reconhecia aos atletas de futebol. A edição de A Gazeta Esportiva, nesse sentido, destacava Djalma Santos como “um dos que formam o quarteto de técnicos que dirigirá o Palmeiras”.[1]

A vocação manifesta do lateral-direito do Palmeiras e da Seleção Brasileira não seria, porém, suficiente para levá-lo a trilhar uma trajetória de sucesso no novo ofício. De fato, em 1968, quase dez anos após desembarcar no Parque Antártica e se constituir em um dos principais artífices da Academia, Djalma Santos partia para uma nova aventura, desta feita no Atlético, do Paraná, onde jogaria os últimos anos de uma longa e exitosa carreira, encerrada em 1971 aos 41 anos. Ali mesmo, sem perda de tempo, ele dava início a trajetória de treinador para a qual, certamente, sentia-se preparado graças à experiência acumulada em Copas do Mundo, Libertadores da América e Campeonatos Brasileiros. Contudo, depois de quase uma década no exercício da nova profissão, ele recebia da Folha de S. Paulo veredicto semelhante ao proferido por O Estado de S. Paulo a respeito de Leônidas da Silva, a saber, o de “não repeti[r], como técnico, o mesmo êxito” obtido como atleta.[2] A sentença, contudo, aplicava-se exclusivamente ao circuito profissional, pois, no outono de 1982, o jornal flagrava Djalma Santos “fazendo o seu trabalho preferido”, isto é, “dando aulas de futebol para crianças”.

Alcindo.
Djalma Santos em ação em 1966. Foto: Demócrito Bezerra/Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Ora, as experiências anteriores no Atlético, do Paraná, no Vitória, da Bahia e no Paulista, de Jundiaí, indicavam que o trabalho predileto de Djalma Santos, no fundo, residira desde o começo na direção técnica dos times profissionais; que, na verdade, ele se empenhara de corpo e alma em ser bem-sucedido nesta posição de prestígio; que a desejara a fundo e se sentira capaz de exercê-la; que, enfim, ministrar aulas nas denominadas escolinhas de futebol, longe de se constituir no ofício acalentado, afigurava-se como o espaço que lhe fora reservado pelo dispositivo de poder em decorrência de fatores extrínsecos ao campo da meritocracia.

Mas além de trabalhar nas categorias de base; dirigir os clubes do interior ou ministrar aulas nas escolinhas de futebol –, cabia ainda ao comandante negro a difícil tarefa de redimir os times do arquipélago carcerário, como nos mostra a trajetória de um excepcional atacante que brilhara nos anos cinquenta no futebol paulista.

Na história Corinthians, com efeito, o nome de Baltazar figura em destaque na galeria dos ídolos. Campeão do Quarto Centenário, ele desembarcara no Parque São Jorge na segunda metade da década de quarenta, proveniente da cidade de Santos, disposto a encontrar um lugar na equipe. Pouco a pouco, atuando ao lado de Cláudio e Servílio, ele foi se firmando no comando da ofensiva, galgando os degraus da carreira, primeiro, convocado para o selecionado paulista, em seguida, lembrado para o selecionado nacional. Cognominado o “Cabecinha de Ouro” por causa das testadas “mortíferas”, Baltazar transformara-se no tema predileto das crônicas esportivas, no culto obrigatório dos fanáticos da nação alvinegra, na fonte de inspiração para os compositores de samba. Entretanto, passado o período de apogeu dentro das quatro linhas, uma vez chegado o momento de encerrar a carreira e seguir a vida, Baltazar, recordava A Gazeta Esportiva Ilustrada, “andou por aí, tentando se estabelecer”.

Na busca para se reinserir no mercado de trabalho, o antigo centroavante procurou exercer a função de treinador de futebol, mas, infelizmente, concluía a revista, “não tinha queda para a coisa”. Sem muita alternativa, e com a premência de recursos para a sobrevivência material, o outrora ídolo da nação alvinegra “aceitou”, então, “o cargo de carcereiro da Penitenciária”.[3]

Concomitantemente à chegada de Baltazar ao complexo do Carandiru, em 1964, assumia o posto de diretor-geral da instituição prisional, José Wilson Ricchetti, cujo interesse pelas práticas esportivas resultava, por sua vez, na criação do “departamento de futebol entre os encarcerados”, setor que acabaria sob os cuidados do artilheiro do Corinthians. “Deus escreve certo por linhas tortas”, sublinhava a reportagem de A Gazeta Esportiva Ilustrada. O cargo de carcereiro no Carandiru, por um atalho da fortuna, assegurava-lhe a chance de utilizar as “experiências e conhecimentos” adquiridos no exercício da profissão de atleta para contribuir com a resocialização dos presidiários. Dessa maneira, notava o referido periódico, ele se convertia no “funcionário público com a mais nobre das incumbências”.[4]

Ou seja, a suposta inaptidão para técnico dos clubes brasileiros conduzia Baltazar a descobrir sua real vocação no complexo prisional como “técnico do time da Detenção”. Sem dúvida, uma bela cena proporcionada pelo futebol dos encarcerados, o qual redimia tanto o antigo ídolo do Corinthians, que durante a carreira profissional se mostrara “muito mais cigarra do que formiga”, quanto os “os infelizes” hóspedes do Carandiru, que se encontravam “afastados do convívio familiar por seus próprios erros”.

Em janeiro de 1965, a imprensa esportiva noticiava a realização da “Taça Detenção”, disputada no campo do presídio entre a Sociedade Esportiva Palmeiras e o Complexo do Carandiru, diante de uma assistência que se comportara com a “mais perfeita disciplina”. Embora com um time misto, o alviverde não teve dificuldades de se impor pelo placar de 11 a 3. Quanto à equipe “dirigida pelo veterano Baltazar”, apesar da derrota, elogiava a reportagem, “poderia ser equiparada àquelas da segunda divisão”.[5] Os dirigentes do Corinthians, por certo motivados por estas matérias que redescobriam Baltazar na dura lida do sistema carcerário, decidiram trazê-lo de volta para trabalhar nas categorias de base do clube. Em meados de 1971, em meio à disputa do Campeonato Paulista, adveio a oportunidade de assumir, ainda que em caráter interino, a equipe principal do alvinegro. A fortuna parecia jogar a favor de Baltazar.

Corintians Baltazar; 18/04/1972
Baltazar no Corinthians em abril de 1972. Foto: O Estado de S. Paulo/Arquivo Público do Estado de São Paulo.

A estreia, nesse sentido, não poderia ter sido mais auspiciosa: goleada de 6 a 1 sobre o Juventus, no Pacaembu. No domingo seguinte, no mesmo estádio, nova vitória, desta feita por 1 a 0 contra o São Paulo. Para continuar o trabalho o treinador interino exigia, agora, a assinatura de um contrato, reivindicação prontamente atendida pelo clube. Baltazar, enfim, estava efetivado no cargo.[6] Mas por pouco tempo, mais precisamente, de junho a novembro.[7] Os números não lhe eram desfavoráveis: no torneio estadual, foram seis partidas, três vitórias e três empates, dois dos quais contra Palmeiras e Santos; no Campeonato Brasileiro, realizado na sequência, foram vinte e três partidas, doze vitórias, seis empates e cinco derrotas. “As derrotas seguidas para São Paulo e Cruzeiro na fase decisiva”, segundo o jornalista Celso Unzelte, “foram demais para o velho ídolo Baltazar”.[8]

Com efeito, o Corinthians vivia à época a turbulência provocada pela longa estiagem de títulos, a qual acarretava a premência dos resultados concretos. Sem eles, técnico algum se mantinha no cargo por muito tempo. Desde 1954, data do último campeonato conquistado, quase vinte treinadores tinham passado pelo Parque São Jorge. Vista por esta ótica, portanto, não parece existir nada de excepcional na queda de Baltazar. Ela seguia aparentemente o roteiro semelhante ao dos colegas que o haviam precedido na mesma função. Na verdade, o ponto de interrogação recai sobre o fato dele não ter logrado se manter no circuito profissional, encerrando de forma precoce e melancólica a nova carreira, a despeito de realizar, como salienta Celso Unzelte, uma “brilhante campanha na primeira parte da competição”.[9] Por esse prisma ele parecia seguir um roteiro escrito especialmente para o atleta negro que, uma vez encerrada a carreira, se aventurava no ofício de treinador. Zé Maria que o diga.

Cerca de quinze anos após a experiência de Baltazar, caberia ao lateral direito revivê-la em circunstâncias muito especiais. Em 1983, no quadro da Democracia Corinthiana, o elenco o elegera “representante” do grupo, em substituição ao treinador Mário Travaglini, cujo pedido de demissão exprimia a divergência com a radicalização do movimento alvinegro, refletida na experiência de autogestão levada a cabo no breve, mas intenso, período de 31 de março a 1º de maio.

Assim como ocorrera com o antigo centroavante dos anos cinquenta, Zé Maria também deixaria o cargo na esteira da desclassificação da equipe no Campeonato Brasileiro. Mas, de modo inverso ao caminho trilhado pelo Cabecinha de Ouro, que passara da condição de técnico do time dos presidiários, no Complexo do Carandiru, para o de responsável do time profissional do Corinthians, no Parque São Jorge, o lateral direito abandonava esta condição mais privilegiada para treinar, nos anos posteriores, o time dos jovens e adolescentes infratores da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor, deixando entrever, dessa maneira, que a linha de cor traçada no futebol brasileiro delimitava o arquipélago carcerário como outra área de atuação reservada ao comandante negro.

[1] Cf. “Quarteto da Esperança comanda o campeão”, A Gazeta Esportiva, 16 de setembro de 1964.

[2] Cf. “Djalma Santos, o bicampeão dando aulas de futebol”, Folha de S. Paulo, 5 de abril de 1982.

[3] Cf. “Dirigindo encarcerados…Baltazar foi um símbolo do nosso futebol”, A Gazeta Esportiva Ilustrada, nº275, 1º quinzena de abril de 1965.

[4] Cf. “Dirigindo encarcerados…Baltazar foi um símbolo do nosso futebol”, A Gazeta Esportiva Ilustrada, nº275, 1º quinzena de abril de 1965.

[5] Cf. “Futebol-espetáculo. Palmeiras foi ´céu` na Casa de Detenção”. A Gazeta Esportiva, 14 de janeiro de 1965.

[6] Cf. “Baltazar ameaça renunciar e ganha contrato”, O Estado de S. Paulo, 8 de junho de 1971.

[7] Cf. “Sarno assume, muda o time e tem esperança”, O Estado de S. Paulo, 30 de novembro de 1971.

[8] Cf. Celso Dario Unzelte, “Almanaque do Timão”, São Paulo, Editora Abril, 2000, p.253. Os dados utilizados na sequência do artigo para comentar a passagem de Baltazar pelo Corinthians encontram-se no referido trabalho.

[9] Cf. Celso Dario Unzelte, “Almanaque do Timão”, cit. p.253. Depois do Corinthians, coube a Baltazar dirigir somente equipes pequenas, como, por exemplo, em 1974, o Saad, no Campeonato Paulista. Cf. “Corinthians vence, Baltazar acusa”, O Estado de S. Paulo, 15 de setembro de 1974.

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José Paulo Florenzano

Possui graduação em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994), mestrado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (1997), doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (2003), e pós-doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Doutorado do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é coordenador do curso de Ciências Sociais e professor do departamento de antropologia da PUC-SP, membro do Conselho Consultivo, do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, em São Paulo, membro do Conselho Editorial das Edições Ludens, do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre o Futebol e Modalidades Lúdicas, da Universidade de São Paulo, e participa do Grupo de Estudos de Práticas Culturais Contemporâneas (GEPRACC), do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Tem experiência na área de Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia Urbana, Sociologia do Esporte e História Política do Futebol, campo interdisciplinar no qual analisa a trajetória dos jogadores rebeldes, o desenvolvimento das práticas de liberdade, a significação cultural dos times da diáspora.

Como citar

FLORENZANO, José Paulo. Uma nobre tarefa. Ludopédio, São Paulo, v. 104, n. 1, 2018.
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