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Uma saudade olímpica

Crisneive Silveira 20 de agosto de 2021
 

A Saudade nos faz correr rumo ao abraço de quem se gosta. Um ímã natural para onde o amor leva. Talvez isso me faça ligar a tv e assistir o replay do vôlei ou daquele emocionado depoimento do surfista Ítalo Ferreira após o ouro em Tóquio. Digo, sem ressalvas: a Olimpíada restabeleceu certa parcela de fé nesse mundo enlutado por um vírus avassalador. É magnífico testemunhar, mesmo através da tela, a alta performance do esporte mundial numa disputa limpa entre tantos povos diferentes. A medalha é a materialização disso. No entanto, o que seria a glória ou a falta dela sem o pulso do qual nos torna humanos? O espírito olímpico vive no brilho do olho, no sorriso incrédulo, no choro inconsolável, no compromisso em não falhar e no erro em si. Tais momentos descortinam a história de vida desses tantos desconhecidos, onde a pessoa por trás do atleta desce do olimpo e se iguala a milhões de telespectadores nessa aldeia global.

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Hebert Conceição após nocaute que garantiu ouro no boxe, categoria até 75kg, na Olimpíada de Tóquio. Foto: Rodolfo Vilela/rededoesporte.gov.br

Quando Isaquías Queiroz e Hebert Conceição, ainda esbaforidos das próprias lutas, na água e no ringue, também dedicaram as vitórias douradas às mais de 560 mil famílias enlutadas pela Covid-19, acolheram respeitosamente a dor desse Brasil que segue contando mortos. Lembrar a chaga aberta num dos momentos mais solenes da carreira deles mostra uma grandiosidade impagável até com o lugar mais alto do pódio. Do outro lado do planeta, o gesto de empatia fez luzir um país murcho pelo sofrimento. Acolheu, sensibilizou. É como se o brasileiro houvesse perdido a capacidade de chorar sem ser por dores irreparáveis. Enfim, despertamos da dormência. Pelo menos temporariamente.

Sobre rodas miúdas, Rayssa Leal tornou-se a desportista mais citada numa rede social durante os Jogos. Aos 13 anos, a potência maranhense usou o skate como instrumento de leveza. Com dancinhas, sorrisos e olhar compenetrado debaixo do calor, a fada real alerta: nem só os garotos podem ser skatistas. Ou qualquer outra coisa. Levou o talento, e o mundo testemunhou a prata, carregada até a volta às aulas, em Imperatriz. Desafiando corrimãos e quinas, destrinchando o emaranhado de manobras com nomes difíceis, a menina mergulhou na fantasia e levou milhões de pessoas junto. Como reclamar do fuso horário japonês, 12 horas à frente, quando a medalhista caçula nos devolve espontaneamente a memória do que é se divertir?

A dureza do confinamento, o medo constante do vírus, a falta de entes queridos foram, aos poucos, amortecidos pela comoção ao ouvir o Hino Nacional. Até isso foi conquistado: a trégua com os símbolos da nossa História, tão agredidos nos últimos anos. Só a alegria genuína da realização de um grande sonho, para lembrar do tempo onde o brasileiro sorria desenfreado. Por vezes preocupado, mas sempre esperançoso. Rebeca Andrade foi exemplo disso. Primeira mulher na história do país a conseguir duas medalhas numa única edição. O ouro no salto e a prata no individual geral da ginástica artística sedimentam a trajetória de talento. Deu o baile de brilho na terra onde o sol se exibe primeiro. Ali, a realidade entendeu o protagonismo da atleta, a qual nada seria sem a humanidade nela encarnada.

Rebeca Andrade
A ginasta Rebeca Andrade é a primeira brasileira a conquistar duas medalha numa mesma Olimpíada. Foto: Míriam Jeske/COB/Fotos Públicas

A ausência do público exaltou os detalhes do competir: expressões faciais, gritos, respiração, movimentos e o silêncio. Darlan Romani, o Senhor Incrível da filha Alice, ficou sem palavras ao ver inalcançável a marca de 23 metros. Na busca pelo metal, a verdadeira peleja foi arremessar o peso dos anos de treinamento, da cirurgia, do irmão internado com Covid-19. A pandemia é adversária desonesta. O campo baldio improvisado, para respeitar o isolamento social, rendeu o consciente quarto lugar no esporte. Naquele momento, milhões de olhares abraçaram o gigante catarinense pela televisão. Sem medalha, nem uma exata explicação para o perder ou o não conquistar. A emoção compartilhada na derrota ilumina a estrada do recomeço.

Por duas semanas, a Olimpíada foi nossa página em branco. Reescrevemos uma sociedade profundamente dividida. Uniram-se diferenças, credos e sotaques na vibração pelo que somos: essa mistura apaixonada. No torcer, a saudade reencontra, distraída, um sopro adormecido de brasilidade. Celebramos o êxito e compreendemos as derrotas. Algumas bem incômodas, é verdade. Todavia subimos ao pódio 21 vezes, em várias modalidades. Recorde. Outras quase chegaram lá. Ninguém deixou de tentar. Atravessando madrugadas, a injeção de energia tirou a poeira do nosso ânimo.

A memória de quem se foi com a pandemia, o desmatamento, a comida cara, o desemprego… Esquecer feridas abertas por um governo que golpeia nossa dignidade sem cessar está fora de cogitação. Por outro lado, é importante agarrar o orgulho do que somos capazes de fazer juntos enquanto gente. A delegação nacional nos lembrou disso nas quadras, nos campos, nas pistas, nas águas japonesas. Termos uns aos outros é a nossa verdadeira chama olímpica. O Brasil que eu quero (de volta) é esse onde o povo tem esperança no próprio país.

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Crisneive Silveira

Gosto do futebol jogado e do futebol vivido. Jornalista formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Como citar

SILVEIRA, Crisneive. Uma saudade olímpica. Ludopédio, São Paulo, v. 146, n. 38, 2021.
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