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Uma semana depois, algo sobre os atacantes (ou: Jesus-Paolo-Lionel-Diego-Che)

Gabriel Jesus

Gabriel Jesus durante a final da Copa América de 2019. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

Logo após a partida semifinal da recém-terminada Copa América de Futebol, entre Brasil e Argentina, o atacante Gabriel Jesus se manifestou de forma crítica em relação a uma observação que o ex-jogador de futebol profissional Walter Casagrande Junior lhe fizera. Os telespectadores da Rede Globo puderam ouvir o comentarista durante a transmissão do jogo informando que encontrara Gabriel em um elevador e lhe dissera da dificuldade de um centroavante com falta de gols. Ele mesmo – atacante de Corinthians, São Paulo, Porto, Torino, Flamengo, além de Caldense, Ascoli e São Francisco – terminara um campeonato com apenas um tento marcado, o que lhe fizera sentir a fúria da torcida. Segundo Jesus, outros “meninos” que estavam no elevador o teriam “zoado”, mas ele, no entanto, tratara bem o funcionário da maior emissora do país porque sua mãe lhe dera adequada educação.

Jovem jogador, mas já com duas temporadas na Europa e uma Copa do Mundo no currículo, Gabriel até bem pouco tempo costumava comemorar seus gols simulando, de forma divertida, uma ligação telefônica, supostamente para a mãe, a fim de avisar-lhe do sucesso alcançado. Na partida final, na qual novamente jogava muito bem, com técnica apurada e valentia, acabou expulso e deixou o campo fazendo sinal de que o árbitro “roubara”, para logo depois chorar copiosamente sentado nas escadas que levam ao vestiário do Maracanã.

Jogadores talentosos, como o próprio Gabriel, assim como Neymar Jr., parecem que nunca serão adultos, uma vez incapazes de lidar com a crítica e com outras interdições sociais, blindados por assessores e bajuladores. Parecem viver, mesmo sendo profissionais extremamente capacitados e exitosos, a permanente infantilização.

Paolo Guerrero

Guerrero, o capitão do Peru. Foto: Felipe Moreno/Mowa Press.

A única vez em que assisti de forma presencial ao delantero do Peru atuar foi em 2009, em partida pelas Eliminatórias do mundial que seria jogado na África do Sul. Fui com amigos ao estádio em Medellín, Colômbia, onde o time da casa recebeu a equipe de Paolo Guerrero para um zero a zero sem grande inspiração. A pelota quase não chegou ao atacante, que viera da Alemanha para tentar fazer o time andino voltar a uma Copa. Em terras teutônicas foram dez anos atuando, incluindo o final de sua formação e os primeiros anos de profissional pelo Bayern Munique, além de várias temporadas pelo Hamburgo. Não é fácil ser jogador da Bundelisga durante tanto tempo. Ele foi, de certa forma, um sucessor de Claudio Pizarro, outro peruano que brilhou por lá, o estrangeiro com mais gols no campeonato local, superando o brasileiro Élber.

Ao final do contrato com os hanseáticos, foi Guerrero contratado pelo Corinthians, pelo qual fez os dois gols anotados pela equipe vitoriosa no Mundial de Clubes em 2012. Finalmente, em 2018, chegou a vez do Peru voltar ao mundial, sonho de seu centroavante, e, agora há pouco, a um importante desempenho, o vice-campeonato da Copa América. Tudo com ele no comando – do ataque, do time. Porta-voz a enfrentar a opinião de Muricy Ramalho sobre sua equipe, cobrador do pênalti que resultou no único gol sofrido pela seleção brasileira, ídolo em seu país. Figura respeitável.

Lionel Messi

Messi durante o jogo contra o Brasil pela Copa América. Foto: Felipe Moreno/Mowa Press.

Em uma noite de domingo de novembro de 2007, também em Medellín, mas pela televisão – em meio a argentinos e colombianos –, vi pela primeira vez Messi atuar como titular pelo selecionado albiceleste. Na época não vestia a dez, mas a dezoito. Dois anos antes vencera o mundial sub-20, estreara na seleção nacional, fora coadjuvante na conquista da Champions League pelo Barcelona, única equipe profissional pela qual atuou. O craque rosarino abriu o placar, mas a Colômbia virou o jogo. Disputavam-se as mesmas Eliminatórias para a Copa de 2010. De lá para cá, La Pulga venceu tudo pelo Barcelona, e pouco pela equipe de seu país – não se despreze uma medalha de ouro olímpica. Ele representa uma geração muito boa de jogadores argentinos. Mereciam ter vencido algo? Talvez, mas o jogo de futebol não é justo.

Na partida semifinal da Copa América, a mesma em que se destacou Gabriel Jesus, Messi jogou com tremendo ímpeto. Lançou para a cabeçada quase mortal de Kum Aguero (do qual o brasileiro é suplente no Manchester City), finalizou na trave, liderou a equipe, mas não saiu vencedor. Na contenda que valia a medalha de bronze, contra o Chile, foi expulso. Enojado, não voltou a campo para receber a premiação que lhe correspondia. Há grande rivalidade futebolística com os brasileiros, mas mais a sanguínea é dedicada aos vizinhos de depois da Cordilheira. Isso não necessariamente pelas duas Copas América perdidas em finais contra eles, mas por razões históricas e simbólicas que compõem a própria ideia de nação na Argentina.

Fugindo a um script ao qual estamos acostumados, Messi reclamou de tudo, dos gramados (com razão), dos árbitros (igualmente com razão), do complô para que o Brasil se sagrasse campeão (com improvável razão). Foi muito criticado porque não teria sabido perder. Pode ser, mas há algo a se admirar no ato que mostra que há sangue correndo nas veias de um jogador milionário, mais que consagrado, irrefutável como craque.

Lionel foi um pouco Diego, que passou a vida de futebolista (e a posterior também) denunciado desmandos de poderosos, esbravejando contra inimigos reais e fantasiosos. Já no Mundialito de 1980, no Uruguai, saiu reclamando do tratamento que os locais haveriam destinado aos convivas do Rio da Prata. Mas, Messi foi além de Maradona, evocando, talvez sem saber, outro rosarino: Ernesto Guevara de la Serna. El Che, depois de um célebre discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1964, deixou Nova York dizendo que a delegação de Cuba fora roubada na conta do hotel. Não sei se isso é verdade. Mas, reafirmo minha admiração por aqueles que, malgrado seus exageros, erros, inverdades e tudo o mais, ainda têm coragem de em público falar com firmeza e por alguém mais do que apenas por si mesmos. Vozes que fazem falta.

Ilha de Santa Catarina, julho de 2019.

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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Uma semana depois, algo sobre os atacantes (ou: Jesus-Paolo-Lionel-Diego-Che). Ludopédio, São Paulo, v. 121, n. 18, 2019.
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