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Uma vitória para Guttmann e seu levante ofensivo

Carlos Augusto Magalhães Júnior 2 de dezembro de 2020

Nas últimas páginas do brilhante e indispensável livro sobre Béla Guttmann, Detlev Claussen escreve:

“Assim, a vida desse treinador se lê como um levante repetido e sistematicamente planejado contra o domínio mortal do futebol defensivo” (2014, p.154).

Essa frase busca resumir o que a obra como um todo nos mostra: a incansável luta do treinador húngaro por fazer do futebol um jogo bom pra se assistir. Essa era a mais importante das suas inúmeras lutas. 

Tanto como jogador, mas principalmente como treinador, Guttmann foi um militante, de dentro das 4 linhas, dos direitos dos jogadores e treinadores. Suas inesquecíveis rusgas com os mais variados cartolas pelo mundo contribuíram e muito para a valorização do treinador como um “intelectual que cria” bem nos estilo da Nouvelle vague francesa. Obviamente, como tudo no futebol, Guttmann precisou de resultados para ganhar notoriedade, e inesquecível são seus dois títulos de Uefa Champions League pelo então outsider Benfica. Inesquecível também é a maldição que Guttmann lançou sobre o clube português, em mais uma de seus mal-estares com os cartolas, depois de negarem um aumento ao Húngaro: “Sem mim, nem em cem anos o Benfica vai conquistar outra taça europeia”.

Estátua de Béla Guttmann no Estádio da Luz. Foto: Wikipédia

Não tão conhecida assim, ou pelo menos, não tão divulgada como merecia é a passagem de Guttmann pelas terras brasileiras. Campeão paulista pelo São Paulo em 1957, Guttmann é tido como um dos responsáveis pela modernização do futebol no Brasil. Feola, treinador do Brasil em 1958, trabalhou com Guttmann no São Paulo, e foi lá que a ideia de transformar o W-M no 4-2-4 nasceu. Impossível não associar o estilo de jogo da seleção de 1958 ao modelo do inesquecível time da Hungria de 1954. Eram conceitos de uma escola que tentava se opor ao kick and rush britânico, jogar com a bola de pé em pé, essa era a ideia. O casamento desse modo de jogar com o talento brasileiro, resultou no primeiro título mundial da seleção. Muito antes portanto dos Jorges: Jesus e Sampaoli abalarem as estruturas do nosso futebol, aprendemos muito com o futebol do além-mar.

Uma pena, no entanto é o que passou o futebol húngaro em décadas seguintes. Uma das precursores do futebol moderno, e responsável por um dos maiores jogadores de todos os tempos, Puskás, a Hungria está longe de viver tempos áureos em seu futebol. Na UEFA Champions League, por exemplo, seu representante na fase de grupos, o Ferencváros, não passará, ao que tudo indica, de mero coadjuvante. A seleção húngara, tricampeã dos Jogos Olímpicos, também há tempos não figura entre o grupo de seleções a se olhar. Desde 1986 sem jogar a Copa do Mundo e oscilando no que diz respeito a participações em Eurocopas, a seleção Húngara teve uma lapso de brilhantismo nesta quinta feira dia 12 de novembro. 

Geração de ouro da Hungria, 1953. Agachados: Mihály Lantos, Ferenc Puskás e Gyula Grosics. Em pé: Gyula Lóránt, Jenő Buzánszky, Nándor Hidegkuti, Sándor Kocsis, Jószef Zakariás, Zoltán Czibor, József Boznik e László Budai. Foto: Wikipedia.

No jogo válido pelos playoffs de qualificação para a Eurocopa, os húngaros entraram como favoritos contra a sensação da última copa do mundo Islândia. Conhecida pelo seu futebol defensivo, a seleção escandinava abriu o marcador no início do jogo, com um gol de falta marcado por Sigurðsson. Roteiro perfeito para a classificação dos Islandeses. Jogo único, placar de vantagem, era só impor o futebol compacto e defensivo e pronto, estariam na Euro. E foi assim até os 88 minutos do segundo tempo. A Hungria tentava chegar, mas faltava criatividade. Provavelmente o espírito de de Puskas e Guttmann se reviravam, onde quer que estejam.  De tanto tentar, a Hungria conseguiu o empate, com Nego. E o improvável aconteceu. Em um dos poucos momentos de tentativa ofensiva dos Islandeses, que quase marcaram, os Húngaros conseguiram um contra-ataque. E a bola caiu nos pés do melhor jogador do time, o jovem Szoboszlai, promissor meio campo RB Salzburg. Depois de uma arrancada sensacional, e de uma finalização precisa, foi revivida, pelo menos por alguns segundos, a união que outrora se materializava no Império Austro-Húngaro. Gol aos 92, Hungria classificada.

Guttmann provavelmente comemoraria a vitória de seu país natal. Com retidão é claro, afinal o grupo da Hungria na Euro já é tido como o grupo da morte. Além dos húngaros, teremos Portugal, Alemanha e França. Tarefa difícil para o selecionado. O fato, no entanto, é que pelo menos por hora, o levante comandado outrora por Guttmann, “do futebol ofensivo contra o domínio mortal do futebol defensivo”, comemora uma importante e inesquecível vitória.

Referências

CLAUSSEN,D. BÉLLA GUTTMANN: Uma lenda do futebol no século XX. São Paulo: Liberdade, 2014. 176p. 


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Carlos Augusto Magalhães Júnior

Licenciado em Educação Física pela Universidade Federal de Lavras, mestre em Educação pela mesma Universidade. Atualmente é professor do CEFET-MG Campus Timóteo.

Como citar

MAGALHãES JúNIOR, Carlos Augusto. Uma vitória para Guttmann e seu levante ofensivo. Ludopédio, São Paulo, v. 138, n. 4, 2020.
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