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Unindo forças: o combate ao Racismo e à LGBTfobia no futebol

Recentemente neste mês de outubro, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) criou uma comissão para combater a violência generalizada no futebol brasileiro a partir do foco no racismo estrutural. Afinal, segundo levantamento do Observatório Racial do Futebol a pedido da CNN, o futebol registrou recorde de casos de discriminação racial neste ano de 2022.

Mas o racismo vem no conjunto de uma série de preconceitos vinculados a outros marcadores sociais, como de origem/nacionalidade, classe social e, sobretudo, gênero. Nesse quesito a situação é bem mais complexa e delicada, pois o mundo esportivo ainda é avesso a discutir corpos e sexualidades não heteronormativos em seus espaços.

Ao passo que conseguimos nomear o racismo e identificar as vias pelas quais ele opera, não nomeamos a LGBTfobia, pois ela é difusa e de difícil captura. Muitas pessoas sequer reconhecem sua existência.

No tocante à comissão criada pela CBF, dentre as pessoas e entidades convidadas para fazer parte dela, há o Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQs, representado por Onã Ruda Cavalcanti, que oportunamente insere na pauta a LGBTfobia indiscriminada presente no contexto futebolístico brasileiro.

Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+
Fonte: Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+/90min.com

Esta é a ponta do iceberg de um trabalho muito mais longo e detalhado, que dá indícios de estar apenas começando. Isso porque, apenas na luta contra os preconceitos às pessoas LGBTQIAPN+ há questões distintas, que precisam ser enfrentadas: evitar o xingamento “viado” na arquibancada não é o mesmo que combater a aversão à presença de atletas trans em vestiários esportivos, por exemplo. Essas e outras farão parte de uma infindável lista a ser detalhada.

Porém, esta comissão que agrega 46 membros (dentre eles representantes da própria FIFA, da Conmebol, de árbitros, atletas e treinadores, do setor público e da sociedade civil) e se reunirá pela primeira vez novembro próximo terá uma árdua tarefa, visto que o mundo dos preconceitos, na atualidade, não enfrenta apenas o racismo e xingamentos aleatórios, mas sim muitas fake news (informações falsas). Essas devem ser trazidas à tona, apropriadamente contextualizadas e corrigidas.

O trabalho desta recente comissão foi alinhado ao chamado “Manifesto a favor da vida e do futebol brasileiro”, lançado em agosto passado, no Seminário de Combate ao Racismo e à Violência no Futebol. Na ocasião deste evento também produzido pela CBF, seu presidente, Ednaldo Rodrigues, enfatizou que a jornada contra preconceitos e a favor de um futebol menos discriminatório será longa e que não acabará “da noite para o dia”. Portanto, assim esperamos e desejamos!

Observatório
Marcelo Carvalho, Gilberto Gil, Ednaldo Pereira (CBF) e Alejandro Dominguéz no Seminário de Combate ao Racismo e à Violência no Futebol. Fonte: Lucas Figueiredo/CBF

O que é interessante neste trabalho que reúne forças no entorno do racismo e da LGBTfobia é que todos os times de futebol filiados no país, da categoria masculina e feminina, das principais divisões do futebol brasileiro (das séries A, B, C e D, além das séries A1, A2, A3 do brasileiro feminino), foram notificados sobre a criação desta pauta de trabalho e terão a chance de, igualmente, pensar estratégias a partir deste contexto de lutas por um futebol diferente e melhor.

Já passamos da hora de entender que o futebol é uma expressão da multifacetada cultura nacional, jogado e negociado de modos particulares, por coletivos distintos, num imenso território. Cada pessoa, cada grupo, dentro de suas especificidades, são livres para expressar seus futebóis, sempre com respeito a outros que o expressam de modo diferente.

Eu defenderia ainda para esta comissão de trabalho que fossem chamados também representantes de outros futebóis, talvez considerados “minoritários” e pouco importantes, contudo, profundamente expressivos em suas campanhas de engajamento na defesa de um futebol mais humano, inclusivo e não discriminatório. Grupos de pessoas trans futebolistas, de jogadores gays ou de indígenas, do futebol de rua, do futebol society, do futebol de cegos/as, do futebol de Downs, seriam alguns exemplos.

A pauta é vasta, o caminho é pedregoso, a tarefa é dura. Entretanto, nunca estivemos tão prontos para a luta: negras e negros, indígenas, quilombolas, deficientes, pessoas trans, não bináries, mulheres lésbicas, homens gays e demais. A garantia para que tudo isso possa coexistir e dialogar começa com nosso comprometimento político com um mundo democrático e acessível a todes. Neste sentido, a eleição nacional no próximo domingo é chave para resistirmos e votarmos por mudanças!

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Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Unindo forças: o combate ao Racismo e à LGBTfobia no futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 160, n. 23, 2022.
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