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Uruguai x Gana: 10 anos depois

Nicolas François Cohen 13 de julho de 2020
No dia 2 de julho de 2020 completou-se 10 anos desse jogo. Me lembro muito bem dessa Copa do Mundo, a mais inusitada de todas que acompanhei. Apesar de todas as questões acerca do investimento em estádios e infraestrutura na África do Sul, entre as quatro linhas foi a Copa que mais gostei de acompanhar.
 
Uruguai x Gana, Copa do Mundo de 2010. Fonte: Wikipédia
 
Lembro que esse jogo aconteceu no mesmo dia em que a seleção brasileira masculina foi eliminada pela Holanda. Estava bem triste, mas pude acompanhar esse jogo como consolo. Era um confronto histórico: a seleção uruguaia, com tanta tradição no futebol, tinha a possibilidade de voltar para a semifinal de uma Copa depois de tantos anos no esquecimento. Já a seleção ganesa tinha a responsabilidade de levar pela primeira vez um país do continente africano para uma semifinal. Um jogo alternativo para as quartas-de-final, sem grandes craques que saiam nas capas dos jornais. Estava torcendo para a Gana, mesmo sabendo que ficaria feliz com qualquer resultado.
 
Depois de um primeiro tempo disputado, a Gana abriu o placar nos últimos instantes do primeiro tempo, com um chute de longe do Muntari e uma ligeira contribuição da Jabulani. Essa bola era mística, tinha vida própria e fazia o que bem queria. Foi ela, inclusive, que ajudou o Uruguai a empatar o jogo, dando uma curva no gol de falta de Forlán, craque daquela Copa. Foi um jogaço, muito equilibrado, cheio de lances para os dois lados, com direito a grandes lances, prorrogação, disputa de pênaltis e o escambau.
 
No fim, depois de 120 minutos de um jogo suado, a defesa do Suárez foi histórica. A mão de Maradona deveriam perder o posto de Mão-de-Deus, e o cartão vermelho ficou até barato dada as consequências de sua intervenção. Pênalti para a Gana. O último lance da prorrogação deve perseguir o Gyan em seus piores pesadelos até hoje. Na marca do cal, em frente a não sei a quantos mil espectadores no estádio e tantos milhões nas televisões mundo afora, o tempo deve ter parado. Não sei se ele já estava imaginando uma vitória contra a Holanda na semi-final, a comemoração que teria mais tarde ou o abraço que receberia dos companheiros. Deve ter sonhado com uma estátua de sua pessoa em frente a algum estádio de seu país ou coisa que o valha. Só sei que aquele lance foi um dos mais cruéis da história do futebol: desconcentrado, acertou o travessão. O juiz logo apitou o fim de jogo e, cheio de emoções, o jogo foi para a disputa de pênaltis. Depois de duas defesas do goleiro uruguaio, Loco Abreu ainda lançou uma cavadinha para não sobrar nenhuma dúvida: o Uruguai estava de volta para o futebol, ao carimbar sua vaga na semi-final (que, por sinal, foi outro jogaço).
 
Essas lembranças me fazem muito bem. O futebol, que recentemente tem me trazido só notícias ruins, tem muitos momentos marcantes em minha infância e juventude. Sua história e popularização, no Brasil, está ligada a lutas sociais e democráticas. É muito bom saber que muitos valores que prezo estão vivos nos dias de hoje, com lutas e reivindicações de torcidas organizadas, movimentos antifascistas e contra a arenização dos estádios, para citar alguns exemplos. O futebol tem mudado muito, mas acredito que essas lutas permitam que nós, no futuro, ainda possamos apreciar jogos como esse, que são o que realmente nos impacta: marcam gerações, mexem com nossas emoções e ficam eternizados na memória coletiva dos amantes desse esporte.
 
 
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NFC

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Como citar

COHEN, Nicolas François. Uruguai x Gana: 10 anos depois. Ludopédio, São Paulo, v. 133, n. 30, 2020.
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