143.10

Veias abertas e tragédias anunciadas

Fabio Perina 6 de maio de 2021

Estádio Nacional (Lima-PER 1964)

Peru contra Argentina disputando o torneio pré-olímpico. O fato de ter ocorrido uma anulação de um gol peruano pelo árbitro uruguaio infelizmente ofuscou todo o despreparo das autoridades na tragédia que começou no estádio e terminou nas ruas nas horas seguintes. O contexto político era de uma frágil e provisória democracia, com o presidente Belaúnde Terry, intercalada a duas ditaduras. Com fortes suspeitas que as recém adquiridas bombas de gás lacrimogênio foram usadas no episódio como um ensaio contra os protestos populares em uma conjuntura de grande agitação social e política, como êxodo rural caótico e formação de grupos guerrilheiros.

Estádio Monumental (Buenos Aires-ARG 1968)

Superclássico entre River Plate e Boca Juniors. Houve um grande número de esmagamentos com torcedores tentando sair do estádio de uma única vez, porém encontraram a saída da “puerta 12” fechada. Rumores de que além do motivo previsível da emboscada preparada pelas autoridades contra torcedores se somou a outro motivo específico dos torcedores terem saído do estádio cantando a marcha peronista. O contexto político foi crucial para analisar a tragédia. Na medida que a ditadura militar de Onganía naquele momento proibiu o peronismo (que teve que se refugiar na luta armada) e contou com a cumplicidade dos policiais nas investigações posteriores por terem sido as únicas testemunhas registradas.

(Por um capricho do destino, exatamente 50 anos depois no entorno do mesmo estádio, e para o mesmo superclássico, ocorreu outro incidente que a maioria aqui se recorda. Em 2018, pela final da Libertadores, o ônibus do Boca foi apedrejado por torcedores do River antes de entrar no estádio e a partida foi suspensa. Em um contexto político e futebolístico bastante diferente, algo que se repetiu foi a negligência das autoridades com uma escolta ao ônibus bastante incomum e incompetente).

Puerta 12
Foto: Reprodução

Estádio Pascual Guerrero (Cali-COL 1982)

Clássico da cidade entre América e Deportivo Cali. O gol de empate agônico do Cali nos minutos finais em um eletrizante 3 a 3 foi seguido de um corre-corre entre torcedores que já estavam saindo, porém decidiram voltar para dentro do estádio. O contexto político era de uma democracia de fachada, um acordo de alternância de poder entre as elites pelos partidos Liberal e Conservador, com crescente violência política de atentados e sequestros por parte de narcotraficantes e paramilitares. (Por uma incrível coincidência, cerca de 40 anos depois justamente Cali tem sido o epicentro da forte violência policial nos últimos dias contra a greve geral contra o governo de extrema-direita de Ivan Duque)

Estádio Mateo Flores (Cidade da Guatemala-GUA 1996)

Partida pelas Eliminatórias entre Guatemala e Costa Rica. Esse é o caso em que o problema de superlotação foi mais decisivo do que algum fato vindo de dentro do campo de jogo do que nos anteriores, pois a grande quantidade de ingressos falsos deixou o estádio com capacidade muito maior do que suportaria antes mesmo do início da partida. O contexto político era de um país também recém-saído de décadas da guerra civil mais sangrenta do continente que “involuiu” para um genocídio com inúmeras violações dos direitos humanos arquivadas. Evidente que para uma democracia formalmente eleitoral (ao invés de substancial e popular) tão recente também não seria fácil garantir direitos mínimos a cada um, imagine conseguir investigar uma calamidade coletiva!

estadio mateo flores 1996
Fonte: Reprodução Efemérides do Éfemello

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Nessa breve lista dei destaque a casos latino-americanos que, apesar de contextos muito distintos, possuem em comum uma dinâmica geral propícia a uma ‘dupla’ tragédia: primeiro a sua eclosão e depois a impunidade. Vide que quase todos possuíram em comum uma motivação imediata de super-lotação por cobiça dos dirigentes e logo depois a negligência das autoridades de segurança que impediram a evacuação, trancando saídas e até mesmo agredindo e sufocando os torcedores. Mas principalmente o elemento que faz a tragédia se prolongar que é a falta de investigações. Uma chave de leitura para se pensar o problema é que a cobertura midiática imediata não pode se limitar a explorar a violência direta dos torcedores que tanto lhe dá audiência, mas sobretudo investigar e fiscalizar outras condições ocultas de violência estrutural. Tragédias que se perpetuaram na zona cinzenta entre publico e privado na qual autoridades e dirigentes transferem responsabilidades incansavelmente entre si até tentar fazer com que todos se resignem a um luto passivo e depois a um esquecimento.

Além de casos brasileiros de desabamentos de arquibancada como o Maracanã (1992) e a Fonte Nova (2007). Em todos eles é possível inserir no ambiente do futebol a problemática extremamente necessária de memória, verdade e justiça. Possivelmente o único estádio no continente encarado como um devido espaço de reparação histórica diante de um flagelo social e político não é nenhum dos anteriores na lista, mas sim é o Nacional de Santiago. Local profanado como centro de tortura nos primeiros meses da ditadura de Pinochet (1973), na mesma época da vergonhosa partida que não aconteceu contra os soviéticos pela repescagem das Eliminatórias. Porém tamanho abuso de poder autoritário não podia ficar sem resposta. Então decidiram cercar uma parte das arquibancadas de cimento mantendo-as intactas a todo um entorno modernizado com cadeiras vermelhas nesse honroso monumento contra o esquecimento.

Casos que também poderiam ser somados aos mais recentes de Gana (2001) e do Egito (2012) diante dessa condição crônica do terceiro mundo que o faz padecer de tantas ‘duplas’ tragédias. Esse segundo caso por ser mais recente possui um farto arquivo de imagens, porém vale mencionar algo mais profundo que lhe tira seu caráter ‘espontâneo’: o negligência do policiamento ao gerar uma zona liberada para a emboscada de um grupo de torcedores ligados ao ditador Mubarak recém derrubado contra outro grupo de torcedores ligados ao levante popular da Primavera Árabe. Mesmo com meu vago conhecimento da realidade fora da América Latina, esse caso do Egito foi bastante contemporâneo de uma tendência de se “futebolizar” alguns dos principais protestos políticos de massa com a adesão de torcedores ultras. Como foi o caso de outros países da periferia do capital como na Turquia e Grécia (na esquerda) e na Ucrânia (direita).

O vídeo abaixo que serve de referência (no qual podem ser consultados os dados estimados de mortos e feridos) trata dos casos anteriores analisados no terceiro mundo e de outros casos no primeiro mundo: Ibrox-ESC (1971), Valley Parade-ING (1985), Heysel-BEL (1985) e Hillsborough-ING (1989). Certamente o leitor que se interessa pelo assunto já leu em algum momento a menção aos dois últimos casos por terem sido amplamente midiatizados e proporcionalmente fomentaram mudanças radicais nos protocolos de segurança das competições para prevenir novas superlotações. Embora o último caso mostre que por lá a luta pela memória nem sempre seja uma tarefa tão mais ‘fácil’ do que por aqui: pois somente em 2012 que o governo inglês admitiu a fraude técnica para empurrar a culpa nos torcedores e “lavar as mãos” das autoridades e dirigentes organizadores da partida. Tudo devido à incansável luta por memória, verdade e justiça por parte dos familiares das vítimas e moradores de Liverpool

Por fim, a lição que fica dessa breve reflexão é de desmistificar dois clichês do senso comum. Primeiro, o de que a democracia formal no terceiro mundo supostamente seria uma linha de chegada que “vire a página” das mazelas de ditaduras anteriores. O único antídoto a isso é de popularizar cada vez mais a democracia para que impacte positivamente em cada elemento do cotidiano do povo. E assim tragédias no futebol são sintomáticas da incapacidade de serem resolvidas e prevenidas. E o segundo clichê: o de que grandes tragédias supostamente “nunca acontecem” na Europa. A diferença é que é menos provável que as instituições estatais e esportivas por lá serão cúmplices tão desavergonhadas de uma impunidade tão grande por tanto tempo.

 

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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. Veias abertas e tragédias anunciadas. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 10, 2021.
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