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Vermelho de luta, branco de paz e preto de autocrítica

O Clube Náutico Capibaribe é, certamente, uma das instituições mais tradicionais do futebol brasileiro. Até meados dos anos 1990, o Timbu de Pernambuco era um clube de Série A. Nos fins dos anos 1990 e início dos anos 2000, passou a frequentar a Série B, chegando até a disputar a terceira divisão. Porém, mesmo diante de anos turbulentos, não deixou de frequentar a primeira divisão.

Destaco as campanhas de 2007, quando o uruguaio Acosta foi vice-artilheiro da competição; e de 2012, quando conseguimos alcançar a décima segunda posição garantindo com isso uma vaga na Sul-Americana. Apesar de localizado em uma região historicamente prejudicada, o Náutico soma 34 participações na Série A (com direito a vice-campeonato em 1967) e 21 participações na Série B. Chegou a ser semifinalista de Copa do Brasil (1990) e a representar o país na Libertadores da América (1968). No tocante a títulos, o alvirrubro soma 01 Campeonato Brasileiro da Série C e 22 estaduais, acrescentado por um hexacampeonato inédito no estado. O clube também é lembrado por jogar no Estádio dos Aflitos, uma das praças futebolísticas mais conhecidas no país e por sua torcida apaixonada que transforma os Aflitos num verdadeiro caldeirão.

Acabei de descrever um pouco do Náutico dentro das quatro linhas. Fora delas, o clube é marcado por seu passado racista, sendo o último de Pernambuco a aceitar pretos. Até onde sei, o racismo praticado pelo Náutico não estava oficialmente estabelecido em estatuto. Mas caso estivesse, não seria surpresa para um clube que aceitou seu primeiro funcionário preto em 1960, após 59 anos de fundação1. O funcionário em questão era nada mais, nada menos que Gentil Cardoso, técnico responsável não só pela revelação de Mané Garrincha, como também por passagens vitoriosas em clubes como Vasco, Fluminense, Sport e Santa Cruz.

No Náutico, Gentil chegou em 1960 e foi campeão pernambucano no mesmo ano. Pioneiro, ele deu o pontapé inicial para à inserção dos pretos no clube, ocupando uma posição de comando2, ainda hoje ocupada majoritariamente por brancos. A década de 1960 não serviu apenas para o Náutico começar a aceitar pretos em seus quadros profissionais, como também foi responsável pela popularização do clube.

Fundado pela aristocracia pernambucana, o alvirrubro da Rosa e Silva presenciou uma pujante massificação, desencadeada pela vitoriosa geração do hexa que não só emendou seis títulos estaduais seguidos, como projetou o clube regional e nacionalmente. Nesse período, o Náutico alcançou feitos expressivos para à época como o status de tricampeão do Norte (1965, 1966 e 1967), além de várias boas campanhas na Taça Brasil de Clubes, incluindo o vice-campeonato mencionado acima.

Gentil Cardoso, o primeiro funcionário preto do Náutico.

Ídolos negros começaram a surgir a partir dos anos 1960 como o goleiro Lula Monstrinho, o meio-campista Jorge Mendonça e o atacante Nivaldo. Na década de 1970, o clube chegou a contratar Allan Cole, atacante amigo do cantor Bob Marley. Sobre a rápida e representativa passagem de Cole no Náutico, vale a pena ler os textos do professor José Paulo Florenzano, disponibilizados no acervo do Ludopédio.

Porém, mesmo diante desses acontecimentos, o clube não se libertou do estigma racista. Essa mancha retornou tragicamente nos anos 2000, exatamente em 2003, quando o goleiro Nilson, então atleta do Santa Cruz, foi alvo de racismo em Clássico das Emoções realizado nos Aflitos.

Segundo relatos do jogador, parte da torcida alvirrubra imitava sons de macaco todas as vezes que ele pegava na bola. E foi justamente Nilson, contratado e campeão pernambucano pelo Náutico em 2004, o protagonista da campanha que motiva este texto.

Diante desse passado vexatório o clube lançou, oficialmente, uma campanha marcada pela hastag Vidas Negras Importam. Acompanhando a hastag, uma frase marcante: “O Náutico também é preto”. O resultado material dessa campanha foi o lançamento de uma nova camisa toda preta. A camisa em si já se tornaria um acontecimento histórico, pois a cor está presente no uniforme dos seus rivais vizinhos. Entretanto, o clube conseguiu ir além do mero lançamento de um novo uniforme, ao publicar um manifesto antirracista reconhecendo seus erros do passado.

Ex-goleiro Nilson, campeão pernambucano com o Náutico em 2004, foi chamado pelo clube para participar da campanha.

Essa autocrítica, reconhecendo o formal pedido de desculpas como insuficiente, não se volta apenas ao passado como mostra uma tentativa institucional do clube de construir um novo Náutico. Um Náutico que critica duramente seu passado racista, almejando um futuro onde os pretos tenham voz e vez no clube. A atitude nobre, necessária e pioneira do clube pernambucano, abre as portas para que outras instituições analisem criticamente seu passado; muitas vezes camuflado pelas vitórias, feitos e títulos dentro de campo.

O passado racista do Náutico não pode ser apagado, pelo contrário, tal desonra deve ser lembrada por cada torcedor e torcedora, visando hábitos que insiram o clube numa outra caminhada. Por último, o que vimos no último dia 18 de setembro, não foi apenas uma campanha de marketing, mas uma simbólica reparação histórica de uma instituição em débito com os pretos pernambucanos e brasileiros.

 

Como pernambucano e alvirrubro, torço para que o sucesso da pré-venda, onde o primeiro lote de camisas foi esgotado em apenas 4 horas, não represente meros números de uma campanha de marketing. Espero que realmente a campanha sirva de reflexão para todos os torcedores do Náutico e de outros clubes que formam o futebol brasileiro.

Foto: Divulgação.

O uniforme, pensado inicialmente para os goleiros, estreou de forma comemorativa no último dia 19 de setembro, na partida Náutico 1 a 1 Chapecoense, realizada nos Aflitos. Por não representar as cores oficiais do clube, a camisa foi utilizada pelos atletas apenas no primeiro tempo da partida mencionada. Porém, graças a excelente repercussão da campanha, a tendência é que o Conselho Deliberativo do clube aprove a camisa como um dos uniformes do time para o restante da temporada.

Como entusiasta da campanha, aguardo ansiosamente por essa oficialização. Por fim, o hino oficial do clube entoa em sua primeira estrofe à “união das duas cores mágicas”, representadas pelo “vermelho de luta” e o “branco de paz”. Acrescento que a partir de agora essa luta e paz, estão ligadas eterna e publicamente ao “preto da autocrítica”.

Manifesto antirracista publicado oficialmente pelo Náutico

1 O Clube Náutico Capibaribe foi fundado oficialmente em abril de 1901, mas só veio adotar o futebol oficialmente em 1909. Seu desinteresse pelo esporte bretão era tamanho que o clube só se filiaria à Liga Recifense de Futebol, entidade que deu origem a Federação Pernambucana de Futebol e ao Campeonato Pernambucano, dois anos após sua fundação.

2 Sobre a não aceitação dos pretos em posições de comando no futebol, destaco uma passagem da clássica obra A integração do negro na sociedade de classes, V. I, em que o sociólogo Florestan Fernandes descreve o relato de um torcedor racista. Segue o trecho: “Convicções dessa ordem se mantiveram firmes e arraigadas. Ainda em 1952 pudemos observar a indignação de um luso-brasileiro diante da elevação de L., grande jogador mulato, à condição de técnico do seu clube. O informante era torcedor fanático daquele clube e achava que seu quadro ia mal em virtude daquela circunstância: “L. é um grande jogador, ainda agora. Mas, o mal foi terem-no aproveitado como técnico”. “Negro não serve para isso. Não serve para mandar e ainda mais mandar em brancos”. “L., como todo prêto, é desorganizado e insubordinado. Como poderia então ser chefe e dar ordens? Ninguém quis obedecer-lhe e o exemplo de insubordinação tomaram dêle próprio”. “Além disso, no quadro há rapazes brancos, de fina educação, inclusive advogados formados. Como poderiam ser comandados por um negro e receber ordens dêle?” (FERNANDES, Florestan. São Paulo: Dominus, 1965, p. 225).


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Itamá do Nascimento

É graduado em Ciências Sociais/Licenciatura pela UFPE e mestrando em Sociologia pelo PPGS-UFPE. Na monografia, estudou os jingles produzidos durante a Copa do Mundo e suas influências sobre a identidade nacional brasileira. Atualmente, no mestrado, estuda os megaeventos esportivos sob uma perspectiva do capitalismo dependente com foco em Pernambuco; uma das cidades-sede da Copa das Confederações de 2013 e da Copa do Mundo de 2014.

Como citar

NASCIMENTO, Itamá do. Vermelho de luta, branco de paz e preto de autocrítica. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 51, 2020.
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