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Vestiário esportivo e estereótipos sobre sexualidades de homens no futebol

No futebol de homens, minutos antes de a bola rolar, as equipes se concentram, os jogadores se aquecem e se alongam, trocam impressões sobre adversários que enfrentarão e acompanham com atenção a movimentação das peças na prancheta da(o) técnica(o) enquanto ouvem as últimas instruções táticas sobre a partida prestes a se iniciar.

Os perfis de comportamento se apresentam os mais diversos. Para alguns é momento de descontração e o “clima de bar” se instaura: as risadas preenchem o ar, numa verdadeira resenha de “esquenta” para o jogo. Outros buscam a introspecção, colocando sua música preferida no volume máximo do fone de ouvido a fim de se concentrar da melhor maneira para a tarefa a se iniciar. Alguns ainda recorrem à fé em orações nas quais clamam por segurança, confiança e proteção antes de entrar em campo.

Em que pese tudo isso possa acontecer em pessoas de quaisquer gêneros no âmbito futebolístico, aqui vamos tentar acionar a face mais machista e sexista do fenômeno, representada (ou encampada) por homens, que se identificam com a hetero ou a homossexualidade. Para o que traremos a seguir, não vai importar muito se os jogadores de futebol adotam uma ou outra orientação sexual.

A maior parte das problemáticas relativas à sexualidade de homens ocorre no vestiário, espaço capaz de transitar do sagrado ao profano (de acordo com o contexto) e a partir do qual estereótipos são emitidos e ações, disfarçadas de brincadeiras postadas como “inocentes”, são efetuadas contra outros agentes, num ringue que se apresenta como palco para disputas simbólicas em torno de uma masculinidade imaginada e irreal.

Em conversas informais com integrantes do movimento esportivo LGBTQIAPN+, percebemos que não são poucos os que, ao falar com amigos a respeito da participação em suas equipes, têm de encarar perguntas sobre “o que acontece” ou “como é o clima” no vestiário masculino antes e depois dos treinos e partidas, inquisições estas normalmente proferidas em tom de desconfiança, acompanhadas por sorrisos maliciosos ou por piadas jocosas.

Ora: o vestiário, ou qualquer outro ambiente social, pode ser palco de flertes, de conversas capciosas e mesmo de encontros sexuais. Não sejamos hipócritas. Mas, apesar desta constatação lógica, não necessariamente o âmbito do vestiário esportivo é um local em que as práticas (homo/hetero)afetivas ou (homos/hetero)sexuais mais acontecem. Praças ou banheiros públicos, praias, construções abandonadas e mesmo florestas e canaviais poderiam estar numa longa lista de outros tantos locais de tais encontros.

Nós mesmos, enquanto praticantes (do futebol e de outras modalidades), já fomos abordados repetidas vezes com questionamentos dessa natureza, comuns para pessoas que mantiveram, durante décadas, um distanciamento do esporte, particularmente provocado muitas vezes por episódios de preconceito e LGBTfobia. Situações traumáticas relacionadas à sexualidade (ou à invasão da privacidade relacionada à sexualidade), enfrentadas em espaços públicos, produziram como consequências o afastamento e o desinteresse dessas pessoas devido a uma realidade opressora, na qual sempre foram tratadas de forma excludente.

As curiosidades disparadas por tais questionamentos carregam, de forma intrínseca, julgamentos que são resultados de uma associação automática, construída por uma espécie de senso comum, sobretudo entre homens cisgênero (gays e heterossexuais), que disparam, além do auto-preconceito velado, acusações sobre uma promiscuidade como ato, muitas vezes inexistente no âmbito do vestiário.

O que nos interessa focar, no entanto, é a ótica da questão por parte de atletas amadores gays, sobretudo num momento em que o esporte praticado por LGBTQIAPN+ retoma sua toada de crescimento pós-pandemia, com a ocorrência mais frequente de competições. Por exemplo, só no segundo semestre de 2021 foram realizadas a Taça Maravilha LGBT+ de Futebol, no Rio de Janeiro, a Copa Ilha da Magia de Futebol LGBTQIA+, em Florianópolis, a Copa São Paulo LGBTQIA+ de Futebol, em São Paulo, a Copa Elos de Fut7 da Diversidade, em Fortaleza, o Campeonato Mineiro LGBTQIA+, em Belo Horizonte, além ainda da Pride Cup de Vôlei, em Curitiba, e a Pride Cup de Handebol, na capital fluminense. O aumento da atividade de tais sujeitos dá asas à imaginação de grupos conservadores, que talvez considerem a ocupação destes lugares uma afronta aos direitos deste público em específico.

Relacionar diretamente esporte e sensualidade/sexualidade no âmbito da ocupação de espaços dos quais sujeitos LGBTQIAPN+ foram excluídos durante décadas, como as arenas esportivas, torna-se um risco para a própria luta de uma coletividade que começa a se apropriar destes locais hegemonicamente heterossexualizados.

Foto: Limysei1235/Wikipédia.

No reforço de uma estereotipagem do vestiário como local de uma “hipersexualidade”, ou ainda como reduto de promiscuidades eletivas (que historicamente estariam associadas à disseminação do vírus HIV, desde os anos 1980), haveria aí uma vinculação indevida e um equívoco moral de julgamento.

Devemos nos lembrar de que, desde os anos citados, parte da comunidade LGBTQIAPN+ advoga a favor da ocupação de espaços esportivos, que pode ser caracterizada como um mecanismo saudável na defesa da inclusão de tais pessoas a uma sociedade de valores heteronormativos. Este é o caso do movimento dos Gay Games, uma competição multiesportiva que se realiza já há 40 anos. 

Dar vazão a tais preconceitos e acusações morais sem fundamento acerca deste processo por parte de homens gays mina os efeitos de um trabalho lento e gradual de desconstrução, que vem sendo conduzido de forma mais acelerada a partir de 2017, quando foi iniciado o ciclo de competições entre equipes esportivas formadas por atletas LGBTQIAPN+ no Brasil. E anula, inclusive, iniciativas outras, mais antigas, que foram disparadas por gays, lésbicas, travestis e transexuais, e que acabaram rarefeitas porque não encontraram eco social para se proliferarem.

Dentro do vestiário nos concentramos, nos preparamos, nos aquecemos ou alongamos, traçamos planos, ouvimos a preleção técnica, debatemos propostas táticas de jogo, confrontamos uns aos outros com opiniões a respeito da próxima partida. Ouvindo música ou rezando, fechamos os olhos para pedir proteção e inspiração, para festejar e falar sobre vitórias, ou para lamentar derrotas, sempre na relação com o outro, a partir de acertos ou erros de uma partida. É no vestiário e fora dele que também somos sujeitos sexualizados, mas isso não significa que usamos tal espaço como motivo para encontros sexuais.

O vestiário é um lugar como qualquer outro, com a única diferença de ser repleto de simbolismo para o que levamos tanto a sério fazer: praticar esporte, jogar futebol; o ficar/estar nu ali é consequência das ações de despir, vestir. É importante – e urgente – termos cuidado com pensamentos e com falas inconsequentes para não construirmos estereótipos sobre sujeitos que militam por uma causa que escreve novas páginas na prática do esporte no país.

Devemos encampar um esforço sobre-humano no combate a uma concepção de esporte como instância machista e LGBTQIAPNfóbica, que pode sujeitar a doses de retrocesso todos os ganhos das batalhas protagonizadas e vencidas dentro e fora da própria comunidade.

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Flávio Amaral

Jornalista pós-graduado (especialista) em Jornalismo Esportivo e Negócios do Esporte, narrador esportivo pela webrádio Alternativa Esportes e Superliga Fut7 e gerador de conteúdo sobre o esporte LGBTQIAPN+. Atua nesse movimento desde 2017 como atleta de futebol 7 e e-sports e também como comunicador - é autor do blog Cores do Esporte, no qual documenta a trajetória de equipes e atletas dedicados à causa. Teve passagens por veículos como TV Globo e LANCE! trabalhando com rádio, televisão, jornal impresso e site/portal, além de experiência em comunicação corporativa, gestão de conteúdo e redes sociais no setor público e iniciativa privada. Possui experiência docente em  disciplinas como Jornalismo Esportivo, Gestão de Talentos e Planejamento e Produção de Eventos.

Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

AMARAL, Flávio; CAMARGO, Wagner Xavier de. Vestiário esportivo e estereótipos sobre sexualidades de homens no futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 151, n. 15, 2022.
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