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Viktor Orbán: o aspirante a ditador da Hungria fanático por futebol

Makchwell Coimbra Narcizo 30 de outubro de 2020

O primeiro ministro húngaro Viktor Orbán, se tornou nos últimos tempos, uma espécie de modelo para a extrema direita, inclusive para a brasileira, aliás, especialmente para a brasileira. Uma coisa que poucos sabem é que ele é obcecado por futebol, não há dúvidas que é hoje o governante que mais próximo está do futebol e que claro, faz uso dele.

Foto: Wikipédia

Viktor Orbán é figura marcante do cenário político húngaro desde o colapso da URSS. Graduou-se em Direito pela Universidade Eötyös Loránd em Budapeste em 1987, retornando 2 anos depois para trabalhar no Ministério da Agricultura e Alimentação, fundou em 1988 o partido Fidesz – União Cívica Húngara, inicialmente um partido de centro direita, com viés liberal, que caminhou rapidamente para o populismo de extrema direita, sendo hoje o maior partido da Hungria e que governa sem coalisões partidárias. Entretanto, Orbán se tornou conhecido a partir de 1989, com o falecimento do primeiro ministro Imre Nagy, nome importante da Revolução Húngara de 1956, por ocasião de seu velório, fez na Praça dos Heróis em Budapeste um discurso para aproximadamente 250 mil pessoas, no referido discurso Orbán faz pesadas críticas a União Soviética e exige a retirada das tropas russas da Hungria. Como mostra Madeleine Albright (2018, p.174) Seu discurso foi um misto de coragem e oportunismo, frases como “quem está naquele caixão é o comunismo” e “se confiarmos em nossas almas e em nossa força, podemos dar ponto final à ditadura comunista”, foram proferidas e aceitas sob estrondosos aplausos, por si só, o discurso já o colocaria nos livros de história, no entanto, ele entra para história recente da Hungria de forma bem mais efetiva.

O Fidesz foi se tornando gradativamente mais forte no decorrer da década de 1990, ganhando muito espaço a partir de 1994 quando há um colapso da direita tradicional húngara, abrindo espaço para o partido de direita populista. Viktor Orbán foi primeiro ministro húngaro de 1998 a 2002, retornando ao cargo em 2010, no que David Goldblatt e Daniel Nolam (2018) chamam de avalanche populista, o fato é que Orbán desde então centraliza o poder como nenhum outro governante europeu na atualidade, promovendo o aparelhamento do estado e caminhando a passos largos para uma autocracia. Reescreveu a Constituição Nacional, remodelou o Tribunal Constitucional, colocando nele seus aliados, fez de um amigo pessoal o promotor público chefe e seus apoiadores controlam os antes independentes órgãos, tal como o Banco Nacional da Hungria, comitês eleitorais, institutos culturais e claro, federações esportivas.   

A obsessão de Viktor Orbán por futebol é algo lendário, ultrapassando limites da racionalidade. David Goldblatt e Daniel Nolam (2018), que foram ate à Hungria para tratar a paixão do pretenso ditador pelo futebol, relatam que ele assiste cerca de 6 jogos de futebol por dia e como não poderia ser diferente, não perdeu nenhuma final da Uefa Champions League desde a década de 90 e acompanhou seus principais jogos, o mesmo com a Copa do Mundo. Entendemos bem o que é isso, e sim, ele passa no teste de louco por futebol, possivelmente é o governante de cunho autoritário que mais é apaixonado por futebol que já existiu, fugindo do modelo que tradicionalmente tratamos aqui, de governantes que apenas usam o futebol.

Mas de onde vem essa paixão pelo futebol? É importante destacarmos que a formação do político Orbán está intimamente ligada ao Viktor fanático por futebol.

Pouco se sabe da infância de Orbán, filho do meio de três irmãos, vivia em condições precárias com seus pais e avós paternos em Alcsútdoboz, o povoado vizinho de Felcsút. Seu pai, Győző, era um homem violento, batia nele e em seus irmãos. Apesar de ser membro do Partido Comunista, seu pai não conversava sobre política em casa, aliás, pouco conversava com os filhos. Por outro lado, Orbán foi próximo de seu avô, um ex-estivador que lutou no front oriental durante a Segunda Guerra Mundial, de quem herdou o gosto pelo futebol. Seu avô, saudoso dos momentos áureos da seleção húngara e do Honvéd, possivelmente os times mais temidos que o futebol já produziu, tanto em nível de seleção quanto em nível clubístico.

Na luta por sobrevivência, a família Orbán passa a mudar de cidade com constância, buscando melhores condições de vida, quando Viktor tem 10 anos sua família se muda para Felcsút, um pouco mais tarde, mudaram para a cidade vizinha de Székesfehérvár. Ingressou no time juvenil do Videoton, sediado na cidade vizinha de Székesfehérvár, um time de primeira divisão, que tem como grande feito ter chegado à final da Copa da UEFA na temporada 1984/85, perdendo para o Real Madrid na final. Mas segundo David Goldblatt e Daniel Nolam (2018), Orbán confessa que chegara ao time mais por vontade e esforço do que por talento.

Os autores trazem uma frase marcante de Viktor Orbán que serve como como chave interpretativa para compreendermos como o futebol é central na vida do aspirante a ditador, “cada vez que mudei de time, mudei também de cultura”, é paradoxal ver como o futebol ajudou a moldar o ser humano Viktor Orbán e ajudou a produzir o político Orbán. Se por um lado ele se distanciou de seu pai comunista, se aproximou de seu avô com memórias afetivas dos mágicos magiares e de quando a Hungria era invencível, incrível e respeitada, no imaginário de seu avô, o Honvéd e a grande seleção foram destruídas pelo comunismo, mas isso trataremos quando essa coluna for para a ponta esquerda. Além do mais, foi o futebol que possibilitou Orbán sair de uma cultura restrita e conhecer outras pessoas e outras possibilidades, como a frase supracitada deixa evidenciado. É estranho pensar, mas sem o futebol não existiria Viktor Orbán, não como ele é hoje.

Ainda não está convencido do fanatismo de Viktor Orbán pelo futebol? Sua gestão está intimamente ligada ao futebol, algo marcante é que os 3 principais cargos do governo, ele como primeiro ministro, János Áder, presidente e László Kövér, presidente da Assembleia Nacional fizeram parte da mesma equipe de futebol nos tempos de faculdade, outros cargos também são ocupados por membros da equipe. Ou seja, o mandatário húngaro, tratado como um pretenso autocrata, convidou seu time de pelada para compor seu governo, isso mesmo, seu time de “interclasse” está no centro de um projeto autoritário.

Na medida que o projeto de poder ganha contornos mais autoritários, Orbán tem ampliado seus poderes, criado mecanismos para se manter no cargo e silenciado a imprensa, na verdade, a imprensa está dominada por amigos. Em março de 2020, com o pretexto de agir frente à pandemia de Covid-19, o parlamento húngaro aprovou por 153 votos a 53 a ampliação dos poderes de Orbán, inclusive, a possibilidade de dissolução do próprio parlamento. Não, não é algo espantoso, o parlamento húngaro conta com 2/3 de políticos do Fidesz e a oposição é controlada de perto.

Em meio a essa escalada rumo ao poder absoluto, o futebol encontra local privilegiado. Construiu ao lado de sua casa em Felcsúlt, um vilarejo com menos de 2 mil pessoas, um estádio para 3.816 pessoas, a Pancho Arena. O nome não é acidental, trata-se do apelido de Ferenc Puskás nos tempos de Real Madrid, mesmo o craque húngaro jamais tendo pisado no vilarejo e nem em seus arredores. Peter Foster (2016) em uma reportagem intitulada “uma vila digna de um rei: como Viktor Orbán construiu um estádio e uma ferrovia em sua porta” mostra as excentricidades da construção, com arquitetura peculiar, uma junção do modelo clássico húngaro com traços futuristas, mas acima de tudo, para ligar suas duas cidades de infância. Importante salientar é que foram construídos com dinheiro da União Europeia, o que causou desconforto no parlamento, apenas desconforto e nada mais, os valores das construções jamais foram revelados. Ao ser perguntado sobre a construção Orbán brinca que único infortúnio é que sua esposa não gosta do estádio porque atrapalha a vista de sua cozinha.

Pancho Arena. Foto: Wikipédia

Felcsút passou a ser o centro informal da política húngara, a Pancho Arena para ser mais exato, pois é o local que empresários e políticos em ascensão podem se aproximar de Viktor Orbán. David Goldblatt e Daniel Nolam (2018) que acompanharam Orbán, primeiro de longe e depois como convidados, descrevem que diversos cargos de pessoas que buscam o poder, seja por políticos ou por empresários, algo meio cômico, na medida que muitos nem gostam de futebol, o que convenhamos, o futebol húngaro não é muito atrativo. Goldblatt e Nolam alegam que grandes negociatas são feitas ali, verdadeiras alianças são firmadas e sem exagero, os destinos políticos da Hungria passa pela Pancho Arena.

Juntamente com o prefeito de Felcsút, o milionário Mészáros, criaram em 2007 a Academia Puskás, ou seja, quando Orbán não ocupava o cargo máximo da Hungria. A academia será importante no projeto de poder de Orbán, inclusive em sua empreitada internacional. Pouco tempo depois, aproveitando de escândalos de corrupção, envolvendo especialmente partidos de esquerda, o líder do Fidesz deu andamento em seu projeto autoritário.        

Mas não é apenas Felcsút que se beneficiou da obsessão de Viktor Orbán pelo futebol, em certa medida toda a Hungria. A Academia Puskás se estendeu por outras áreas, criando academias de futebol por todo o país. O Magyar Testgyakorlók Köre Budapeste Futball Club ou MTK Budapest é um dos clubes mais beneficiados, gerenciado por um amigo de longa data de Orbán, Tamás Deutsch, que porventura é cofundador do Fidesz, o partido do primeiro ministro.

O MTK construiu uma nova arena em 2015, o Estádio Nándor Hidegkuti. Até aí tudo bem, entretanto, usou dinheiro público, na verdade um projeto bem polêmico, o TAO, um projeto de isenção que permite que empresas abatam lucros tributáveis, com divulgação mínima, para clubes esportivos e instituições culturais, na prática até 50% dos impostos. No caso do estádio do MTK houve um gasto 50% maior que o planejado inicialmente, e olha que o estádio é modesto, para apenas 5.800 espectadores. Fazendo uso da mesma lei, o Ferencváros TC construiu o Groupama Arena, também em Budapeste, para 24.000 espectadores e o Debreceni Vasutas Sport Club construiu em Debrecen para 20.000 pessoas o Nagyerdei Stadion. A lei e o próprio Orbán foram alvos de críticas tendo em vista que quase metade da população húngara está abaixo da linha da pobreza, cerca de 43%. E convenhamos, o futebol húngaro não é lá essa maravilha e mesmo que fosse…

Estádio Nándor Hidegkuti. Foto: Wikipédia

Viktor Orbán defende que não se trata de um gosto pessoal pelo futebol, mas que o futebol húngaro faz parte da cultura do povo húngaro. Segundo o professor Alexandre de Sá Avelar (2019), Orbán vem se esforçando para promover uma profunda transformação cultural no país. O que muitos chamam “nova era” e que tem como um dos seus pilares um amplo revisionismo histórico que toca em temas sensíveis do passado húngaro, esse passado é revisionado à sua maneira, reconstruído dando a ele uma perspectiva própria. Em tal perspectiva, os mágicos magiares e o mundo que o cercava é resgatado na medida que isso serve aos propósitos do projeto de poder de Orbán, uma Hungria vítima e ao mesmo tempo guerreira.

Os objetivos de Viktor Orbán não se limitam às fronteiras húngaras, como um bom protótipo de ditador tem um objetivo expansionista, remetendo ao Império Austro Húngaro, com isso, a Puskás Academia foi expandida à países como Sérvia, Romênia e Eslováquia. São países com minorias húngaras, não é algo acidental, o futebol mais uma vez está no centro de poder de Orbán.

A jornalista Oroszi Babett (2018) relata que o governo húngaro investe maciçamente nos referidos países, especialmente em categoria de base. Até sua reportagem, aproximadamente € 49,5 milhões foram direcionados para territórios onde os húngaros étnicos vivem na Eslováquia, Romênia (Transilvânia) e Sérvia (Voivodina). O dinheiro foi canalizado através da Federação Húngara de Futebol (MLSZ, Magyar Labdarúgó Szövetség) e do Fundo Bethlen Gábor (BGA), um instrumento estatal de ajuda financeira aos húngaros étnicos nos países vizinhos. Segundo informa a jornalista, com o dinheiro foram construídos 4 estádios, mais de 15 campos de futebol e 4 prédios administrativos. Soma-se a isso o financiamento de times étnicos nos referidos países por parte do governo húngaro. 

Jornalistas esportivos húngaros, os poucos que não são alinhados ao primeiro ministro, na medida que este promove uma espetacular dominação da imprensa, tal como Iván Hegyi, são céticos enquanto as possibilidades de Orbán transformar o futebol húngaro em uma potência. Ok! Sei que você que nos lê também é, eu também sou. Os mesmos jornalistas são céticos enquanto a crença do próprio Orbán em acreditar na possibilidade de fazer do futebol húngaro uma potência, nisso já é possível termos dúvidas, pela vivência e pela loucura que o primeiro ministro tem pelo futebol, é possível que ele acredite sim nessa remotíssima possibilidade, entretanto, para além disso, fica explícito que ele tomou o país para chamar de seu e pegou o futebol para também chamar de seu.

Uma coisa é notória, o fanatismo de Viktor Orbán pelo futebol é verdadeiro, ele é possivelmente o governante mais fanático por futebol que já existiu e até mesmo que existirá, até porque não sobraria tempo para governar. Não acredita ainda na afirmação? Então 3 argumentos para mudar sua opinião: 1 – O primeiro ministro foi jogador profissional de futebol conciliando sua carreira política atuando pelo Felcsút, então na quarta divisão. Sim, durante um curto espaço de tempo ele foi primeiro ministro e jogador de futebol. Ele conta sorridente que por ocasião da Guerra da Bósnia em 2002, quando o então presidente dos Estados Unidos da América George W. Bush ligou para ele para tratar sobre uma ação da OTAN, ele disse que não podia atender porque estava treinando, retornando a ligação apenas 4 horas mais tarde. 2 – Esse relato está em um documentário sobre futebol e Viktor Orbán que estará na bibliografia do presente texto que vale muito ser visto, sim, um presidente de um país que há décadas não tem nenhum time expressivo no futebol tem um documentário falando de seu fanatismo por futebol. 3 – Diferentemente de outros governantes e sua relação com o futebol não é difícil encontrar fotos de Orbán em competições esportivas ou batendo uma bolinha, pelo contrário, há um acervo vasto na internet de fotografias e vídeos.    

Amigos próximos dizem que o futebol pode ser sua ruína, no entanto, Orbán não parece estar preocupado com isso, continuará assistindo os mesmos jogos que eu e você assistimos e possivelmente jogos alternativos que nem mesmo nós temos coragem de ver. Confesso que é um cara que sentaria em uma mesa de bar e conversaria sobre futebol, caso não fosse um autocrata xenófobo execrável. 

 

Referências

ALBRIGHT, Madeleine. Fascismo: um alerta. Trad. Jaime Biaggio. São Paulo: Crítica, 2018.

AVELAR, Alexandre de Sá. O revisionismo histórico húngaro e o fantasma do Holo-causto. In: Café História – História feita com cliques. Publicado em: 19 ago. 2019.

BABETT, Oroszi. The Orban government spent billions on Hungarian football clubs in Serbia, Romania and Slovakia. Atlatszo, Budapest, 11 dec 2018. Acesso em: 20 de out. de 2020.

FOSTER, Peter. A village fit for a king: how Viktor Orban had a football stadium and a railway built on his doorstep. The Telegraph, London, 7 out 2016. Acesso em: 20 de out. de 2020.

GOLDBLATT, David;  NOLAN, Daniel. Viktor Orbán’s reckless football obsession. The Guardian, London, 11 jan 2018. Acesso em: 20 de out. de 2020.

Videos

Viktor Orban: Football & Power in Hungary: Acesso em: 20 de out. de 2020.


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Makchwell Coimbra Narcizo

Doutor em História pela UFU, Graduado e Mestre em História pela UFG. Atualmente professor no IF Goiano - Campus Trindade. Desenvolve Estágio Pós-Doutoral na PUC Goiás. Membro do GEPAF (Grupo de Estudos e Pesquisa Aplicados ao Futebol - UFG). Coordenador do GT Direitas, História e Memória ANPUH-GO. Autor dos livros: A negação da Shoah e a História (2019); A extrema direita francesa em reconstrução - Marine Le Pen e a desdemonização do Front National [2011-2017] (2020) dentre outros... isso nas horas vagas, já que na maior parte do tempo está ocupado com o futebol... assistindo, falando, cornetando, pensando, refletindo, jogando (sic), se encantando e se decepcionando...

Como citar

NARCIZO, Makchwell Coimbra. Viktor Orbán: o aspirante a ditador da Hungria fanático por futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 67, 2020.
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