128.29

Virou regra

Roberto Jardim 25 de fevereiro de 2020

Pela terceira vez em meses recentes um jogador que reclama do racismo vindo das arquibancadas é punido duplamente.

Dessa vez foi o goleiro reserva do Vasco, atacado em uma partida da Sul-Americana, na Bolívia.

Primeiro, eles foram punidos com o preconceito em si. Depois, com cartões dados por quem deveria ficar ao seu lado.

Afinal, o árbitro é a autoridade maior em campo. Sendo autoridade, deveria punir as injustiças e não os injustiçados.

É como se ele desse cartão para o jogador que recebeu a falta e não para quem a fez.

Como sempre, porém, o futebol repete a vida em seu entorno. E, assim, as autoridades que deviam zelar pela regra e agir contra o que é errado, revertem esse sentido.

Fora isso, é preciso atentar para esse crescimento de ataques racistas, da xenofobia e da intolerância. Eles não são fatos isolados ou de indivíduos preconceituosos agindo sozinhos.

São uma questão política, coordenada por movimentos ultra-direita, fascistas, neo-nazis etc., que viram nas arquibancadas uma forma de buscar apoiadores.

E o fazem atacando negros e estrangeiros. Mostrando a cara e dizendo “nós não temos medo de ser racistas (fascistas, neo-nazis). Se você também não está satisfeito com isso que está aí, venha para o nosso lado”.

Os jogadores, todos, negros, brancos, asiáticos etc., precisam se unir contra o racismo e a xenofobia que vem tomando conta nos estádios. E fora deles também.

Só a união dos profissionais – apoiados por torcedores e pela imprensa – poderá ser capaz de pressionar os donos do negócio (patrocinadores e empresários do mundo da bola) e as autoridades públicas a agirem dignamente.

Mais uma vez, usando a fala da Angela Davis, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista.

Um movimento mundial precisa ser levantado pelos boleiros. Caso contrário, um dia será tarde demais!

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Roberto Jardim

Jornalista, dublê de escritor e pai da Antônia. Tudo isso ao mesmo tempo, não necessariamente nessa ordem. Autor dos livros Além das 4 Linhas e Democracia Fútbol Club. Como fazer jornalismo independente, mantém uma campanha de financiamento coletivo no Apoia.se, que ajuda na produção do projeto Democracia Fútbol Club, que tem o objeto de contar a história de jogadores e técnico, times e clubes, torcedores e torcidas que usaram a desculpa do futebol para irem além das quatro linhas.

Como citar

JARDIM, Roberto. Virou regra. Ludopédio, São Paulo, v. 128, n. 29, 2020.
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