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We race as one…?: A invisibilidade das mulheres na Fórmula 1

Para quem me ajuda a pensar e que insiste em torcer pelo rubro (colorada e fã de Leclerc), Daniela Silva

E ao meu companheiro na torcida por Verstappen, meu pai, Adalberto Moro

Não acompanhei os tempos de ouro do Brasil na Fórmula 1. Não construí memórias assistindo a vida de Ayrton Senna, apenas, as que constituem sua morte. Só conheci a rivalidade que manteve com Alan Prost através do documentário, no qual seus relacionamentos acabam sendo foco na narrativa.

Re-descobri o esporte, depois de acompanhar a super produção da Netflix, “F1: Dirigir para viver”. Terminei a primeira temporada um dia depois de ter assistido o primeiro episódio. E assim dei início a uma nova saga, tal como é quando a gente se interessa muito por algo novo.

Fórmula 1
Fonte: divulgação

Fui em busca de conhecer os pilotos, tentei minimamente entender as regras, a competição, a organização reguladora. Decidi para quem eu iria torcer – isso depois de passar por um conflito interno, por não desejar que Hamilton ganhasse mais um campeonato – e acabei dando uma chance para Verstappen. Deve ser algo parecido com o que sentiam os torcedores do Palmeiras, quando precisavam confiar em Felipe Melo.

Minhas trocas sobre Fórmula 1, majoritariamente, foram com homens, tal como acontece com o futebol. Até que, depois de uma conversa sobre o esporte, com uma grande amiga e pesquisadora, comecei a me perguntar sobre o que eu, enquanto mulher, deveria ter questionado muito antes:

E as mulheres?

Helmut Marko, ex-piloto, consultor da escuderia Red Bull e ‘chefe’ do controverso Max Verstappen, responde: – […] penso que a tensão física para as mulheres é muito grande[1]. Marko, ainda na mesma entrevista, diz não saber se a natureza feminina é constituída da brutalidade necessária ao esporte.

Isso me fez pensar…

***

Tudo o que aprendi sobre esportes foi a partir do universo masculino. Sempre acompanhado desse olhar, que só percebe a falta da figura feminina, quando esta se faz presente de modo coadjuvante, nunca no centro. Mesmo assim, incomoda. Tal como é com a participação de mulheres na arbitragem, como pilota reserva na F1 e até mesmo engenheira. Aqui cabe mencionar Stephanie[2], engenheira da Mercedes que foi a primeira mulher negra a subir em um pódio[3], o que aconteceu apenas em 2020.

Por um longo tempo, dissociei-me da figura feminina quando assistia algum esporte. Me ressenti quando, na entrevista do doutorado, uma professora me questionou do por quê não estudar o futebol feminino. Não respondi, mas a verdade é que não enxergava o futebol feminino. Enxergava o futebol, como sendo UM futebol, ingenuamente pensando que isso não se tratava de um preconceito velado, do tipo “sem essa de futebol masculino e futebol feminino”.

Hoje, acredito cada vez mais na célebre frase de Simone de Beauvoir, sobre tornar-se mulher. Coisa que acontece na trajetória de uma vida, não ao nascer.

Passei a entender que as comparações entre Marta e Neymar são válidas, para justificar uma desmedida idolatria, e além disso, um heroísmo esportivo que é sempre atribuído exclusivamente ao homem. Por isso e por mais, fiz questão de comprar o batom vermelho que Marta usou na copa de 2019. Existem símbolos que foram engendrados para afirmar o lugar a qual cabe a subjetividade feminina.

Desterritorializar esse lugar, o qual nos colocam desde muito cedo, é justamente encontrar aquilo que nos torna mulher. Usar batom vermelho jogando futebol é contrapor falas como a de Helmut Marko, criando assim, um território próprio da mulher esportista.

***

Como muitos teóricos já escreveram, o esporte é campo privilegiado para análise das questões sociais. Não há como negar a discrepância existente na mesma prática, entre a categoria feminina e masculina. Percebo isso mesmo no futebol de base, espaço no qual desenvolvo estudos.

Quando falamos em menor visibilidade para a categoria feminina, no esporte, isso se transcreve como jogar em um campo que jogadores homens, de um mesmo clube, não jogariam. O investimento em material esportivo, transporte, campeonatos e infraestrutura – inclusive a social – só se compara com categorias masculinas de nível e idade muito menor. Na categoria feminina, existe, inclusive, um apagamento daquilo que nos é tão familiar no futebol masculino: o glamour.

Mas e quando isso pode ser reparado? Quando não há em discurso aquilo que separa categorias pelo sexo, como é o caso do automobilismo?

Bruna Tomaselli é a única pilota brasileira a competir pela W Series, categoria que inaugura em 2019, como uma espécie de transposição do que é a F1, só que nesse caso, apenas com pilotas mulheres. Em entrevista, no ano que passou, Bruna conta sobre sua trajetória à jornalista Mariana Becker.

A pilota que é do interior de Santa Catarina, teve sua iniciação no esporte com apoio do pai e do comércio da família. Aos 13 anos precisou mudar-se para Florianópolis, cidade da equipe para a qual corria. Em 2019, Bruna foi convidada a participar da W Series.

Foi apenas durante os anos como pilota de kart que competiu contra homens. Ficou em terceiro lugar em uma corrida memorável, na qual George Russel – atual piloto da escuderia Mercedes e colega de Hamilton – levou o lugar mais alto do pódio.

Bruna Tomaselli
Fonte: divulgação W Series

Um dos responsáveis pela organização da competição é o ex-piloto David Coulthard[4], o qual acredita que o campeonato pode oportunizar maior tempo e qualidade de treinamento para as mulheres. Considerando que a primeira temporada da W series aconteceu somente no ano de 2019, é preciso acelerar para que uma espécie de “reparação” seja feita.

Mesmo que ela e as outras pilotas tenham calendário de provas e carro demasiado inferior em comparação aos pilotos de Fórmula 2 e Fórmula 1, Bruna – que ainda conta com patrocínio da loja da família para continuar correndo – acredita na democracia de um dos esportes mais elitistas na contemporaneidade.

Ela não se sente confortável com discussões acerca do tema machismo. Faz sentido. Claire Willians, pouco mencionava o assunto até precisar renunciar seu cargo de diretora geral da escuderia Willians, fundada por seu pai. Claire foi acusada de prejudicar a equipe[5]:

– Alguém me disse que muitas pessoas no paddock da Fórmula 1 acham que a equipe começou a se sair mal quando eu engravidei e tive um bebê.

E conclui:

– Eu adoraria caminhar pelo paddock […] com a equipe em uma situação melhor, para mostrar que posso ser uma esposa, uma mãe, e ainda dirigir uma equipe de Fórmula 1 com sucesso.

Mas não pode. A escuderia passava por problemas financeiros que afetavam o desempenho no campeonato, acabou sendo vendida. Ainda assim, Claire fez história. Como fará qualquer mulher que penetrar as diversas camadas que compõem um esporte tão desigual, a nível econômico, social, de gênero, racial, tal como é com a Fórmula 1…

Na propaganda que antecede o início de cada corrida, o slogan chama atenção: We race as one. One, um número que diz muito sobre validação das multiplicidades que não se somam à esta equação.

Notas

[1] https://ge.globo.com/motor/formula-1/noticia/a-formula-1-e-muito-fisica-para-as-mulheres-dispara-todo-poderoso-da-equipe-rbr.ghtml

[2] https://ge.globo.com/motor/formula-1/noticia/hamilton-exalta-engenheira-da-mercedes-primeira-mulher-negra-na-historia-da-f1-a-subir-ao-podio.ghtml

[3] Tal como acontece quando o responsável pela construção e ajustes do carro a chegar em primeiro lugar sobe ao pódio do piloto vencedor.

[4] https://www.dailymail.co.uk/sport/formulaone/article-6258045/F1-women-W-Series-launched-1MILLION-prize-fund-offer.html

[5] https://ge.globo.com/motor/formula-1/noticia/claire-williams-condena-machismo-em-criticas-sobre-gestao-da-equipe-postura-do-seculo-xix.ghtml

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Como citar

MORO, Eduarda. We race as one…?: A invisibilidade das mulheres na Fórmula 1. Ludopédio, São Paulo, v. 158, n. 16, 2022.
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