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Wilson Simonal, a alegria esquecida do Tri

Wilson Simonal integrou a delegação brasileira na Copa do Mundo de 1970 para garantir o lazer dos jogadores. Acabou se entrosando tanto que quase entrou em campo.

A Seleção Brasileira que conquistou o Tri na Copa do Mundo de 1970, título que completa 50 anos no próximo domingo, ficou eternamente marcada como a expressão máxima do futebol arte e da alegria em vestir a Amarelinha. Zagallo não poupou esforços para encaixar meia dúzia de ‘camisas 10’ no time que encantou o mundo e revolucionou a forma de pensar futebol.

O que quase ninguém sabe, porém, é que nos bastidores da concentração daquele timaço transitava um pop star brasileiro que, tal qual o escrete canarinho, arrastava multidões por onde passava.

Pelé e Simonal. Foto: Reprodução/capa da Revista Fatos e Fotos de 1970.

Wilson Simonal era o artista brasileiro de maior sucesso naquele período. Entre o final dos anos 1960 e início dos anos 1970, foi a figura mais popular na cena musical do país e dividia as atenções do público apenas com Roberto Carlos.

No entanto, era fã de outro rei, o do futebol, Pelé. Simonal adorava futebol, e como mantinha amizade com muitos jogadores convocados para o Mundial a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) fez o convite para que o cantor seguisse viagem junto à delegação.

Aos 32 anos de idade, Simonal era praticamente da mesma geração da maioria dos jogadores e, por isso, se integrou facilmente ao grupo e estava sempre à frente dos momentos de descontração dos atletas. Não são raros os registros em vídeo do cantor (des)organizando a resenha dos atletas ao som de suas canções que ganhavam a voz de jogadores como Pelé e Jairzinho.

O “teste”

O entrosamento entre Simona – apelido que ganhou na concentração – e o grupo chegou a tal ponto que os jogadores resolveram pregar uma peça no amigo músico. Quando Zagallo precisou cortar Rogério, ponta-direita do Botafogo, a boleirada convenceu Simonal que poderia ser ele o substituto e com aval do treinador, que sabia da brincadeira, arrumaram um teste para o cantor. Numa entrevista de 2009, Pelé recordou a história do “teste”:

“Ele [Wilson Simonal] achava que estava bem, que era atleta. Aí a gente falou assim: ‘pô, vamos fazer os dois toques’. Porque a gente sempre fazia a brincadeira de dois toques. Arrumamos uniforme pro Simonal, aí tome 15 minutos de aquecimento e ele acompanhando tudo. Daqui a pouco passou mal, aquele calor e altitude do México, deu um piripaque nele. Teve que ir o doutor dar oxigênio nele”.

Apenas depois de receber atendimento médico foi que Simonal percebeu que havia caído na gozação dos amigos jogadores. Porém, não perdeu o bom humor e entendeu o tamanho do absurdo que era acreditar na possibilidade de ser o ponta da Seleção de 1970. Permaneceu junto à delegação e foi importante nos bastidores daquele elenco na função para qual tinha talento para ser camisa 10.

Wilson Simonal. Foto: Divulgação/Prefeitura de Araras.

Porém, as páginas divertidas da história do músico acabaram logo no início dos anos 1970. Wilson Simonal viveu o apogeu como artista até 1971, quando despencou no limbo da execração pública e no fosso do esquecimento.

Não sem antes passar pelo achincalhe da classe artística por um suposto envolvimento com o regime militar, o boato que correu era que Simonal seria o “dedo-duro da ditadura”. Foi essa a fama que o perseguiu até sua morte, no total ostracismo, no ano 2000.

O início do fim

Tudo por conta de um episódio obscuro em agosto de 1971, no auge da repressão militar no Brasil, e que só seria esclarecido em 2009, em razão do lançamento do documentário “Simonal – Ninguém sabe o duro que dei”, dirigido por Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal.

A obra esclareceu o acontecimento da noite de 24 de agosto de 1971, que condenou Simonal ao ostracismo até o fim da vida. O episódio envolve o sequestro e a tortura efetuada por agentes do temível Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) contra Raphael Viviani, contador de Simonal, e de quem o cantor desconfiava estar sendo roubado. Os agentes chegaram à casa de Raphael no Opala do cantor e a pecha de dedo-duro recaiu sobre Simonal para nunca mais o deixar.

Atualmente, o que se entende é que Wilson Simonal não teve envolvimento político algum. O cantor quis, da pior maneira possível, resolver um assunto pessoal que o incomodava e para isso contratou os agentes que trabalhavam no DOPS, órgão de repressão da ditadura.

Os policiais Hugo Corrêa de Mattos e Sérgio Andrade Guedes torturaram o contador e o obrigaram a assinar uma declaração em que confessava o desvio de dinheiro da empresa de Simonal. A esposa de Raphael Viviani denunciou o sequestro, e o contador, ao ser encontrado, passou por exames que confirmaram a tortura.

Um inquérito foi aberto e por se tratar de uma figura pública, a história foi adiante até que Wilson Simonal foi acusado pelo crime de extorsão mediante sequestro. Em 1974, Simonal foi condenado e preso, mas ficou nove dias na cadeia até conseguir um habeas corpus para recorrer em liberdade. Dois anos depois, a acusação mudou a denúncia para constrangimento ilegal e a pena que era maior de cinco anos foi determinada em seis meses de reclusão.

“Simonal pegava mal”

Num tempo em que as redes sociais virtuais estavam distantes da realidade, Simonal foi sumariamente ‘cancelado’ e ganhou ‘haters’ da vida real. O mais prestigiado artista brasileiro do momento, aquele que havia regido o Maracanãzinho lotado em um show histórico e digno das estrelas do futebol que ele acompanhara pouco tempo antes, foi julgado no tribunal histórico e banido do cenário artístico brasileiro. José Bonifácio Sobrinho, o Boni, a cabeça pensante da Rede Globo por mais de 30 anos, admitiu no documentário:Simonal pegava mal, com o perdão da rima”.

Mesmo com o resgate histórico feito pelo documentário, o cantor permanece ignorado pelas novas gerações e suspeito às anteriores que ignoram os fatos. A classe artística cobrava que o cantor usasse sua obra para enfrentar o regime. No entanto, como tantos brasileiros, naquele momento conturbado, Simonal decidiu não se posicionar politicamente nem à direita e nem à esquerda. 

Embora tenha escrito a música “Tributo a Martin Luther King”, fato que o levou ao DOPS para prestar esclarecimentos, foi considerado ufanista. Depois do caso do sequestro de seu contador, porém, até o fato de ter acompanhado a delegação brasileira durante a Copa do Mundo foi usado para apontar um possível envolvimento com a ditadura e nada foi capaz de recuperar sua reputação.

Álbum “México ’70”, de Wilson Simonal. Foto: Reprodução.

No auge da ditadura, Wilson Simonal estava no México fazendo sua arte com os jogadores que se consagraram tricampeões do mundo. A passagem de Simonal pelo México ficou registrada no álbum Mexico ’70. Lançado apenas fora do Brasil, integralmente gravado e produzido no país da Copa do Mundo. A faixa inicial do disco é “Aqui é o país do futebol”, cujo refrão diz:

“Brasil está vazio na tarde de domingo, né? Olha o sambão, aqui é o país do futebol”.

Em um país racista como o Brasil, negro e filho de uma empregada doméstica, Simonal saiu da pobreza e sofreu com o preconceito ao atingir o sucesso e conquistar um lugar de destaque entre brancos. No auge da fama, era taxado como “preto arrogante” por seu comportamento comum a qualquer estrela de sua grandeza. Foi cobrado a se posicionar e ninguém quis entender seu silêncio, ou seja, o linchamento público também seguiu o tom racista.

Wilson Simonal não foi um dedo-duro, não foi santo, errou feio no episódio do contador, mas não merecia morrer no esquecimento pelo artista que foi e pelo talento que tinha, além de ter sido pé quente na Copa do Mundo. No palco e no gramado, o Brasil não merece esquecer Simonal.

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Pedro Henrique Brandão

Comentarista e repórter do Universidade do Esporte. Desde sempre apaixonado por esportes. Gosto da forma como o futebol se conecta com a sociedade de diversas maneiras e como ele é uma expressão popular, uma metáfora da vida. Não sou especialista em nada, mas escrevo daquilo que é especial pra mim.

Como citar

BRANDãO, Pedro Henrique. Wilson Simonal, a alegria esquecida do Tri. Ludopédio, São Paulo, v. 132, n. 39, 2020.
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