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Zé Luiz: tão longe, tão perto

“Tá muito longe e muito perto”, é o que diz Zé Luiz, manuseando o zoom da filmadora Panasonic, que o permite (re)inventar o trajeto do campo de trabalho até a casa, que divide com outros quatro jogadores. Na cena, um menino atravessa o gramado com sua bicicleta e Zé o acompanha em filmagem, para logo em seguida alternar o enquadramento para os amigos que continuam a caminhada, enquanto o cinegrafista caminha apenas com o zoom. A lente flagra um jovem-jogador, aproximando o espectador de um rosto que agora tem nome para quem não o conhecia.

O poder da imagem talvez more aí. Dar visibilidade ao que não tem. Dar nome a um rosto. Tornar sabido aquilo que só quem enxerga percebe. Captar uma imagem é como dizer: veja o que eu vejo, veja como eu vejo. E a beleza que mora em poder ver o que o outro vê, como um encontro de pares de olhos que agora veem algo juntos, mesmo que cada um veja através de suas próprias arranhaduras subjetivas.

 A arte tem disso, fazer ver algo novo com o mesmo par de olhos cansados. Os meus andavam assim, cansados, até o dia que me deparei com a frase do jogador no vídeo descrito acima. Tá muito longe e muito perto!

Foi Aristóteles quem disse que “a arte imita a vida”, mas Wim Wenders e Zé Luiz nunca se conheceram. Aproximo-os agora, com minha máquina de dar zoom, que é o ato da escrita, brincando com as palavras que deram nome ao filme de Wenders, e que agora dão nome ao nosso, meu, de Zé Luiz e dos outro sete jogadores-cineastas.

Tão longe, tão perto é um filme de 1993, dirigido por Wenders. Uma sequência do homônimo Asas do desejo (1987). Na primeira hora o longa mostra Cassiel, um anjo que busca compreender os sentidos da vida humana, ouvindo e olhando tudo que passa por ele. Quando salva uma criança que despenca de um prédio, perde seu posto de anjo e passa a viver uma vida terrena, experimentando aquilo que só conhecia antes ouvindo e olhando.

Sobre o tempo

O que até então era preto e branco ganha cor, assim como Cassiel que ganha seu corpo humano. A poesia parece habitar o lugar dos anjos, de quem vê de cima, em tons de cinza(s). Cassiel parece compreender algo dessa vida dos homens que vive agora quando diz:

– No início não havia tempo, depois o tempo começou.

Um zoom. Aproximando a arte que imita a vida, percebo aquilo que é similar a vida de Zé Luiz. Que assim como Cassiel, descobriu o tempo que antes não havia. Explico.

Nisso que é vida-futebol, onde um outro tempo dita o ritmo do corpo e do desejo de ser, Zé chegou bem depois. Antes havia vida, mas não o tempo-futebol, que conheceu só aos 15 anos de idade quando matriculado em uma escolinha. Diferente de todos os seus companheiros de filme e de time, o jogador é um desses raros casos, dignos de história de filme, que começou tarde, como ele mesmo conta. Depois de um ano na escolinha do Santos, um olheiro se interessou pelo futebol de Zé, e acabou levando-o para fazer avaliação:

– Eles apostaram em mim e deu certo!

Parece sempre questão de sorte, ou de fé. De um anjo que vem e olha, percebendo algo que tantos outros pares de olhos não foram capazes de captar. Mas mesmo os anjos carregam em suas asas uma força capitalística que impele o alçar voo. Seja por bem ou por mal, os anjos caem do céu, assim como Cassiel.

***

No início não havia tempo, depois o tempo começou.

E assim foi. O jogador se viu numa corrida contra o tempo, era preciso fazê-lo parar para que fosse possível acompanhar os outros meninos que começaram no projeto futebolístico muito mais cedo. As desvantagens de viver uma vida em outro tempo começaram a ser sentidas, agora era preciso se preocupar com o ritmo de jogo, preparar o corpo para correr até não aguentar mais, e ainda aguentar depois que não houvesse mais fôlego. Não podia evitar as comparações, sabia que estava abaixo do nível técnico na época. Ainda assim, continuou.

O futebol como um empreendimento da vida começou a partir dos 16, com a chance de jogar na Portuguesa, onde fez sua primeira avaliação:

– Não tinha noção né, saí de casa pra fazer teste e falei pra minha mãe: ‘semana que vem eu volto’, e aí eu fiquei […] fiquei até o fim do ano e não voltei pra casa.

Não era só dentro de campo que sentia os impactos da corrida contra o tempo. Era um mundo novo a ser descoberto fora dele também. Como funciona o processo de avaliação? Quanto tempo dura? Mas parece que ninguém prepara o jogador para todas essas coisas que só se aprende olhando, ouvindo e vivendo. A Portuguesa ficou pra trás, assim como o tempo. Seguiu para o Criciúma, depois para Blumenau, onde dividia casa com 16 jovens-jogadores. A realidade assustou.

– Às vezes não tinha café da manhã, o almoço era uma senhora quem fazia e as vezes não tinha mistura […], ela fazia o almoço e aí a gente deixava pra janta, pra comer. As vezes a mistura era muito pouca, não sustentava… Mais isso eu fui aprendendo.

Pergunto se ele acha que isso faz parte do futebol:

– Faz parte, tem muitos lugares que são assim.

Mas mesmo diante dos percalços, do corpo cansado, seu bater de asas de um canto ao outro lhe rendeu um “material legal” para poder montar o DVD do ano. O que hoje parece ser essencial na vida de um jogador que precisa vender sua imagem para poder alçar outros voos. Foi assim, que depois de um tempo sem clube nenhum, um empresário conheceu o futebol de Zé, através do DVD que estava disponível no Youtube. A esperança começava a brotar novamente, teste no Grêmio! Mas durou pouco tempo no tempo-futebol, a esperança e a chance. Foi seu primeiro não na categoria sub-20.

O jogador começava a desanimar quando seu primeiro empresário ressurgiu. Disse que o enviaria para o Boston City, do interior, o mesmo em que jogou Danylo. Ficou um mês de avaliação, mas não deu certo também. Começava a se perguntar:

– Será que eu não vou jogar um sub-20 esse ano? Será que eu não tô pronto pra jogar no sub-20 esse ano?

Do Boston city do interior, foi para o Rezende, que também não deu. O primeiro pensamento:

– Não vou falar pro meu pai. Não aguento mais, é meu quarto teste […] e eu só rodando pra cá e pra lá. Ônibus, viagem, avião. Meu pai gastando dinheiro com passagem […]. Minha cabeça ficou… Chorei, chorei no quarto, fiquei triste […], não queria falar pro meu pai.

Mas a arte imita a vida, em alguns casos o contrário. A história de Zé, como já disse, é digna daqueles filmes de cinema que a gente tanto adora. Tudo dá errado, até que no final um anjo decide operar milagrosamente. Passou o dia ansioso, pensando em como contaria para seu pai que não havia passado em mais um teste. Deixou o tempo passar, o tempo da vida e do futebol, até que a noite chegou e ele fez a ligação que tanto temia.

Naquela noite, seu pai que terminava os estudos do ensino médio estava em sala de aula. Devido ao tempo ruim o professor faltou e uma substituta precisou assumir. Zé ligou para o pai de chamada de vídeo, enquanto a professora substituta entrava na sala:

– Pai, quero voltar pra casa. Eu vou aí, trabalho com você, ajudo você aí a mexer com os bois, com as vacas […]. Não dá, já é o quarto teste seguido que eu faço e não passo. Pô, vou jogar aonde, pai?

A professora, que ao fundo escutava a conversa, esperou a ligação terminar para dizer: “sou mãe de um treinador de Santa Catarina”. Trocaram contato e poucos dias depois Zé Luiz estava indo para o Figueirense, onde continua até então. Ele diz:

– Pra mim é coisa de Deus, não tem como!

E eu, que nem sei no que acredito, me vi emocionada com o roteiro fílmico que fez Zé Luiz chegar até aqui. Tem história no mundo-futebol que nem Wim Wenders conseguiria escrever. No dia da entrevista, o jogador usava uma camiseta preta, na gola estava bordada a palavra blessed. Abençoado. Sei que Zé não pensa assim, mas sinto que o anjo de sua vida é ele mesmo, que assim como Cassiel, vive uma vida que se traduz naquilo que o próprio jogador diz:

Tá muito longe e muito perto.

Muito longe e muito perto. Do céu e do inferno, do sonho de ser, do virar ou não virar, da profissionalização. Muito longe e muito perto. De si e dos outros. De uma vida que não é baseada pelo tempo. Muito longe e muito perto.

Assim como Raphaela que diz a Cassiel, digo agora a você, Zé Luiz:

“Tudo tem sua hora. Todo acontecimento no mundo tem sua hora. Tem a hora de nascer, tem a hora de morrer, tem a hora de matar, tem a hora de curar. Tem a hora de chorar, tem a hora de rir. Tem a hora de procurar, tem a hora de calar, tem a hora de falar. Tem a hora de amar, tem a hora de lutar. Tem a hora de ter paz”

Que no seu bater de asas contínuo, você encontre a hora para a sua paz, que mora perto disso que descobriste brincando com o zoom da câmera Panasonic. Olhando, ouvindo, vivendo.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Como citar

MORO, Eduarda. Zé Luiz: tão longe, tão perto. Ludopédio, São Paulo, v. 179, n. 21, 2024.
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