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Zico, o filho do alfaiate José Antunes Coimbra

Fabio Zoboli, Elder Silva Correia 18 de janeiro de 2021

José Antunes Coimbra[1] era alfaiate, profissão que já esteve mais em alta em tempos passados, assim como os gols de falta no time da Gávea. O alfaiate José Antunes foi pai do maior jogador da história do Flamengo, um “artesão futebolístico”, que usava os dois pés para fazer “alta costura” com a bola. Zico foi esse “alfaiate” que costurou uma coleção de faixas que hoje enfeitam a galeria de troféus do Ninho do Urubu[2]. Ele fez parte do time que bordou a estrela mais importante da camisa do Flamengo: a estrela amarela do campeonato Mundial Interclubes (1981).

O ofício da alfaiataria é uma arte que consiste no feitio de trajes/roupas de modo artesanal e sob medida. O alfaiate faz peças exclusivas de acordo com as medidas e gostos individuais, sem o uso padronizado de numeração preexistente. Os pés de Zico coseram a camisa 10 rubro negra de um tamanho tão único, uma quase “segunda pele”, que parece não caber em outro jogador. Para alguns fica grande demais; para outros, apertada; tem até os que a acham demasiado pesada. Há quem diga que a camisa 10 do Fla sem Zico é um pedaço de pano sem cor.

O termo “alfaiate” tem sua etimologia no verbo “coser”, que significa unir tecidos à mão com pontos de fio e com ajuda de agulha.  Quantas vezes Zico saiu costurando da “bainha do punho” até o “colarinho” dos adversários, a fim de fazer “caseado” nas metas dos arqueiros rivais? Zico, como meia-armador do Flamengo, era “pé calçador” da “máquina de costura” do ataque, pois servia de guia para espetar o tecido adversário. Era “passante” e dava sustentação a “cinta” que segurava os defensores fechados em seu campo. Seus chutes eram “agulhas” que, ao encontrar os fios/barbantes da meta antagonista, pareciam coser a torcida ao time – torcida que sempre foi adereço de gala.

Zico no início da carreira. Foto: Wikipédia

Com Zico atacando, o time oponente sempre parecia um “vestido mullet”, mais curto na parte da frente e comprido na parte de trás. Zico sempre jogou de terno (terno com “pesponto”), cortou um sem fim de zagueiros, fez “pala” neles, meteu “pence” nas defesas adversárias. Além disso, e ainda nessa analogia, colocou “lapela” no bolso de primeiro-volantes, “entrepernas” e “braguilha” em suas calças, enlaçou gravata em goleiros, plissou “saia godê”. Quantas vezes vestiu de trapos a torcida adversária? Mas a tesourada do jogador Márcio Nunes do Bangu, em 1985, que quebrou a perna de Zico em cinco lugares, talvez seja a metáfora mais amarga que podemos fazer com a alfaiataria.  As linhas de seu joelho se soltaram e o brilho dos rostos de sua torcida se desbotaram com o medo de um possível não retorno.

Os pés do “Galinho de Quintino” costuravam bandeiras, nas quais foram estampados seu rosto, nome, número… Bandeiras que até hoje tremulam em dias de jogos no Maracanã e em todos os estádios onde figura a torcida do Mengão. Também são utilizadas como signos de identidade ou mesmo como luxuoso adereço, desde as varandas dos apartamentos do Leblon e de Copacabana, até as pontas de telhados dos barracos que compõem as favelas da periferia carioca. Bandeiras que borram as fronteiras do estado do Rio e ganham o Brasil… se espalham pelo mundo. Pedaços de pano, que identificam as cores do Flamengo à face de Zico.

A “peça de roupa” que Zico mais sabia “coser” eram os gols. Zico é o maior artilheiro da história do Flamengo: em 732 partidas pelo clube conforma 509 gols. Zico também é o maior artilheiro do Maracanã. Ali, no maior do mundo, Zico cerziu 333 gols em 435 jogos. Sua especialidade: gols de falta. Dos 587 gols que fez em sua carreira, 101 foram assinalados desta forma – inclusive seu último com a camisa do Flamengo[3]. Zico tinha o “molde” em seus pés; fazia gols de falta tão precisos que pareciam sair de uma fita métrica. Quando ia bater uma falta, “seu corpo, a bola e os sarrafos que dão contornos à trave” pareciam “fazer parte de um mesmo traje” – peça única de costura limpa e alinhada. Nessa hora, a camisa 10 mais parecia a indumentária que fazia de Zico um mágico que tecia truques com os pés.

Foto: Wikipédia

Zico se notabilizava não somente por suas faltas milimétricas, mas também pela diversidade de seu repertório, com dribles curtos e arrancadas, sua incrível visão de jogo com belos passes e assistências. A graça de Zico com a bola era acima do comum, o que lhe dava enorme vantagem em relação aos desesperados marcadores, que tinham a difícil tarefa de pará-lo.

O escritor alemão Hans Gumbrecht (2007, p. 120), inspirado no literário Heinrich Kleist, utiliza o termo graça para designar “[…] o produto de um distanciamento do corpo e de seus movimentos em relação à consciência, à subjetividade e à sua expressão […]”. O termo graça nos ajuda a ter uma maior noção da genialidade de nosso “Galinho de Quintino”: seu corpo sabia o que fazer dentro das quatro linhas, pois acompanhava com maestria os movimentos dos adversários, seus companheiros de time, da bola, da torcida na arquibancada, e com isso costurava suas peças (gols, dribles, tabelas, assistências), a partir de um conhecimento puramente corporal.

Zico sabia muito bem ser um “alfaiate” no sentido mais puro do termo, pois a habilidade de tal profissão é paradoxal: apesar de, antecipadamente ao ato próprio, ter que medir o tecido, saber as medidas de cada parte da peça que costurará, a maior habilidade do alfaiate é aquela de saber acompanhar as características do tecido para conseguir cortá-lo e cerzi-lo. Isso só se dá na ação própria do corte e da costura, isto é, quando o corpo está a agir. Na ação, o corte vai se ajustando no momento mesmo do ato, bem como a costura que logo será feita. É preciso saber muito bem conjugar a linha, a agulha e o tecido, e isso demanda do alfaiate menos um saber que vem da consciência do que um saber que vem do corpo, pois a arte da alfaiataria não se trata de uma ação sobre os tecidos, mas uma composição do corpo do alfaiate com eles – o que é costurar senão compor?

O time do Flamengo da “Era Zico” era 11 pedaços de tecido costurados à bola. Resultado final: produção de títulos em série, como se fossem peças exclusivas de uma coleção da alta costura. Eram alfaiates confeccionando jogadas de gala, gols que pareciam uma colcha de retalhos sem costura, pois tinham a cara do tecido de um time. O galinho era a “bobina/carretilha” do time, uma espécie de complemento que alimenta a máquina de costura com a função de fornecer linha para a costura por debaixo da máquina. Zico suturou tantas jogadas com seus companheiros de Flamengo que viraram “moda” nas décadas de 70 e 80 do século passado. Flamengo virou marca; a camisa virou manto sagrado; Zico virou grife.

Estátua de Zico em exposição na Gávea. Foto: Wikipédia

O pai de Zico, José Antunes, teve a chance de ser jogador do Flamengo. Na década de 1930 existiam na cidade do Rio de Janeiro duas ligas de futebol: a profissional e a amadora. Na liga amadora, José Antunes foi tricampeão jogando de goleiro pelo “Clube Municipal” (1939-1940-1941). Por tal feito, foi convidado para treinar no Flamengo. No entanto, o vascaíno dono da padaria onde ele trabalhava não o liberou para os treinos. Por tal entrave, José Antunes indica o goleiro reserva de sua equipe, Jurandir.  O arqueiro fez parte da equipe que conquistou o primeiro tricampeonato carioca pelo Flamengo (1942, 1943 e 1944).[4] Depois de padeiro, o lusitano se torna alfaiate – troca o manuseio do trigo e do fermento pelo de tecidos e tesouras.

De 1895 até hoje, a camisa do Flamengo é um tecido que sobrevive a tantas costuras desmanchadas; um tecido que traz em sua história o corroído de vitórias e derrotas. Uma camisa que nunca haverá de romper em definitivo seu último fio, pois sua torcida foi abençoada por um alfaiate que sempre há de remendá-la ou refazê-la. Porque a camisa do Flamengo quem faz é a torcida, como que um aglomerado de fios que abraça os corpos de quem as vestem. Fios de vários tipos e cores, mas que em dias de jogo se tingem de vermelho e preto e se juntam como um manto… Um manto que nunca sai de moda, como Zico, o filho de alfaiate.

 

Notas

[1] José Antunes nasceu em Portugal, em 1901, na cidade de Tondela. Com dez anos de idade ele chega ao Brasil, onde anos mais tarde vai trabalhar de motorista na cerâmica do pai de dona Matilde, com a qual casaria posteriormente. Fruto de seu casamento nasceram seus 6 filhos: Maria José, Zeca, Nando, Edu, Tonico e Zico – o caçula.

[2] Com a camisa do Mengão, Zico ganhou nove títulos estaduais, quatro campeonatos brasileiros, uma copa Libertadores e um mundial.

[3] O último gol oficial de Zico com a camisa do Flamengo foi de falta, num jogo válido pelo campeonato brasileiro. Era um “Fla x Flu”, ocorrido no dia 2 de dezembro de 1989, em Juiz de Fora /MG (o Flamengo goleou seu rival por 5 x 0). Em fevereiro de 1990, Zico se despede pela segunda vez do Flamengo, num jogo festivo no Maracanã contra craques do resto do mundo. O jogo termina 2 x 2, sendo que pelo Flamengo marcam Fernando e Leonardo. 

[4] O Flamengo é cinco vezes tricampeão carioca: 1942-1943-1944; 1953-1954-1955; 1978-1979,-1979 especial; 1999-2000-2001; e, 2007-2008-2009.

 

Referência

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Elogio da beleza atlética. São Paulo: Companhia das letras, 2007.


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Fabio Zoboli

Professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe - UFS. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e política".

Elder Silva Correia

Mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Espírito Santo - UFES. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e Política" da Universidade Federal de Sergipe - UFS.

Como citar

ZOBOLI, Fabio; CORREIA, Elder Silva. Zico, o filho do alfaiate José Antunes Coimbra. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 28, 2021.
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