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Tese

Conexões da interculturalidade

cidades, educação, política e festas entre Sateré-Mawé do Baixo Amazonas
Ano

2018

Faculdade/Universidade

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

Tema

Tese

Área de concentração

Doutorado em Ciências

Páginas

489

Arquivos

Resumo

Esta tese, desenvolvida no âmbito do Grupo de Etnologia Urbana do Núcleo de Antropologia Urbana da USP discute os enredamentos entre educação, cidade e política a partir das experiências sateré-mawé com Ensino Superior. O trabalho é desenvolvido a partir de pesquisa bibliográfica, documental, entrevistas e, principalmente, da etnografia desenvolvida individualmente e junto a outros pesquisadores do GEU, cuja coparticipação deu-se em campo e na produção de cadernos de campo coletivos. Esta etnografia centra-se na cidade de ParintinsAM (médio-baixo Amazonas), na turma de Parintins do curso de Pedagogia Intercultural (2009 e 2014) oferecido pela Universidade do Estado do Amazonas – UEA, e nas circulações dos acadêmicos indígenas Sateré-Mawé e suas práticas por entre as cidades e as aldeias da Terra Indígena Andirá-Marau, sobretudo a aldeia Ponta Alegre. Ao longo dos cinco capítulos, a etnografia desenvolvida entre os Sateré-Mawé é apresentada face a discussões sobre modelos analíticos da antropologia acerca de objetos como cidade, cultura e interculturalidade, redes de saberes, ensino superior indígena, estado, política dos e para indígenas e festas. Exploro as conexões parciais engendradas pela presença de acadêmicos sateré-mawé na universidade e sua circulação por instituições (escolas, secretarias, etc.), práticas (ensino, política, lazer), eventos (feiras escolares, eventos acadêmicos, rituais, futebol) e modos de conhecimento e enunciação. Apresento reflexões que emergiram na interlocução com os Sateré-Mawé acerca das relações engendradas pelo dispositivo da interculturalidade, como suas interpretações do Festival Folclórico do Boi Bumbá, principal atividade econômica de Parintins; e da proposta de uma Livre Academia do Wará, a universidade indígena proposta pelo Consórcio de Produtores Sateré-Mawé. Discuto como enquadram seus intuitos de ter uma “educação dos brancos” em suas cosmopolíticas face ao mito do Imperador, o sistema de conhecimento do guaraná e a Festa da Tucandeira. O Imperador é um demiurgo relacionado a eventos históricos e à habilidade sateré-mawé de pacificar e canalizar potências dos brancos, agora situadas nos currículos e diplomas universitários. Os Sateré-Mawé são “filhos do Guaraná”, uma planta professora que transforma o ethos guerreiro no uso diplomático de “boas palavras”, necessárias à formação do bom professor. Os cantos da Tucandeira, festa mais conhecida dos Sateré-Mawé, trazem as Sehay Pooti (boas palavras) ensinando os jovens que dançam suportando a dor da luva de formigas. Mais do que diacríticos de uma identidade indígena, estes mitos e ritos formam um complexo sistema de saberes que delineiam as compreensões Sateré-Mawé sobre suas agências na contemporaneidade.

Abstract

This thesis was carried out within the scope of the Group of Urban Ethnology of the Centre of Urban Anthropology (USP), discussing the intertwining of education, city and politics from Sateré-Mawé’s experiences with Higher Education. This work is based on bibliographic, documental research, interviews and, mainly, on the ethnography carried out individually and together with other GEU researchers, which co-participation occurred on the field as well as producing collective field reports. The ethnography focus on the city of Parintins – AM (lower Amazon River), on the Parintins’ Intercultural Pedagogy class (2009-2014) from the University of the State of Amazonas – UEA, and their practices between the cities and villages from Andirá-Marau Indigenous Land, mainly the village of Ponta Alegre. Along its five chapters, the ethnography carried out among the Sateré-MAwé is presented in face of discussions about anthropological analytical models of subjects such as city, culture and interculturality, knowledge networks, indigenous higher education, state, politics from and concerning indigenous peoples and festivities. I explore the partial connections engendered by the presence of Sateré-Mawé academics at the university and their circulation between institutions (schools, public offices, etc.), practices (teaching, politics, leisure), events (school fairs, academic events, festivities, soccer) and modes of knowledge and enunciation. I present reflections that had emerged in the dialogue with Sateré-Mawé about the relations engendered by the device of interculturalism, such as their interpretations of the Boi Bumbá Folkloric Festival, the major economic activity in Parintins; and of the project of a Wará Free Academy, the indigenous university proposed by the Sateré-Mawé Producer Consortium. I discuss how they frame their goals of getting a “white people education” in their cosmopolitics, regarding the Emperor’s Myth, the guarana system of knowledge and the Tucandeira Dance. The Emperor is a character related to historic events and to the sateré-mawé ability of pacifying and channel white’s potencies, now placed on university curriculum and diplomas. The Sateré-Mawé are “children of guarana”, a teacher plant that turns the warrior ethos into the diplomatic use of “good words”, necessary to the teachers’ formation. The chants of Tucandeira, the most known festivity of the Sateré-Mawé, brings the sehay pooty (good words), teaching the dancing youth that bears the pain of the ant gloves. More than diacritics of an indigenous identity, those myths and rites form a complex system of knowledges that outline the Sateré-Mawé understandings of their agencies in the contemporaneity.

Sumário

1 Fractalidades, magnificações e recortes – realizar uma pesquisa coletiva, produzir uma tese individual, 25
1.1. A frota fractal do NAU, 28
1.1.1. As expedições do GEU, 29
1.1.2. Antropologia urbana: Unidades, coletivos, escalas, lugares e movimentos, 35
1.1.3. Circuitos e Redes Ameríndias, 41
1.1.4. O pacto etnográfico, 48
1.1.5. Conexões Parciais e Saberes Localizados, 54
1.2. Conexões da interculturalidade, 61
1.2.1. O campo exploratório e a construção de um objeto de pesquisa, 61
1.2.2. Discutir a presença indígena nas cidades a partir da universidade, 66 
1.2.3. A questão das redes de saberes e práticas de conhecimento, 74
1.2.4. Ser acadêmica pesquisando acadêmicos, 76
1.2.5. Para além da universidade, outros espaços, outras conversas, 80

2 Reflexos à margem do Amazonas: visões de cidade e (in)visibilidades Sateré-Mawé em Parintins, 85
2.1 A cidade dos antropólogos, a cidade das tribos, a cidade dos índios, 86
2.1.1 Conexões entre cultura e cidade, 87
2.1.2 Modelagens de antropologia urbana: Berlim, Chicago, Yucatán, Salvador, São
Paulo, 92
2.1.3 Antropologia urbana, sociedade brasileira, índios e tribos, 101
2.1.4 Cosmologias indígenas urbanas, o caso de Iauaretê, 108
2.1.5 Enredamentos urbanos, redes indígenas, lugares de brancos, 116
2.2 Parintins, cidade invisível ou A cidade como experimento indígena, 125
2.2.1 O que sabemos sobre Parintins? Dados geográficos, 127
2.2.2 Histórias de Parintins, histórias dos Sateré-Mawé, 135
2.2.3 Algumas famílias, lugares e práticas Sateré-Mawé em Parintins, 151
2.2.4 Parintins sonhando-se indígena: o Festival Folclórico do Boi Bumbá, 173
2.2.5 Ponta Alegre como experimento de formas urbanas, 187

3 Os olhos esquerdo e direito do waraná: percepções e agências karaiwá e Sateré-Mawé da educação indígena, 204
3.1 Caminhos sateré-mawé rumo à educação dos karaiwá (brancos), 206
3.1.1 Rumos da educação escolar indígena sateré-mawé, 207
3.1.2 Escolas sateré-mawé hoje. Ponta Alegre e a Escola Rosa Cabral, 221
3.1.3 Projeto Pirayawara, 235
3.1.4 O acesso dos Sateré-Mawé ao Ensino Superior, 242
3.1.5 O PROIND da UEA, o PROLIND da UFAM e o PSLIND/Academia Livre do Wará, 246
3.2 Política e Educação: enredamentos Sateré-Mawé, 269
3.2.1 Acadêmicos indígenas, 270
3.2.2 Políticas do Ensino Superior Indígena: as caixas pretas do universalismo à interculturalidade, 276
3.2.3 O dispositivo da interculturalidade e suas utopias, 281
3.2.4 A assinatura do estado, a palavra do guaraná e o Porantim, 292
3.2.5 Esboço de uma teoria etnográfica da política Sateré-Mawé, 298

Capítulo 4 Experiências indígenas na e com a universidade, 305
4.1 O PROIND, 307
4.1.1 Debates para o II Memorial Indígena Sateré-Mawé: Trajetórias em Parintins, 309
4.1.2 Os seminários e seus interlocutores: o I Seminário PROIND – Indígenas e
Educação Superior no Amazonas e o I Seminário Etno-Antropológico do PROIND, 316
4.1.3 Cotidianos e disciplinas em sala de aula, aspirações em família, 325
4.1.4 Os TCCs – convenções interculturais dos professores acadêmicos do PROIND, 336
4.1.5 A colação de grau e a festa de formatura, discursos públicos dos acadêmicos
indígenas, 344
4.2 Pesquisas do e no Ensino Superior Indígena, 356
4.2.1 Descrever o PROIND e(m) seus momentos etnográficos, 356
4.2.2 Modelos de experiências indígenas, 358
4.2.3 Auto antropologias ou antropologias cruzadas, 378
4.2.4 O Boi Bumbá, algumas leituras sateré-mawé, 382
4.2.5 Pausa para digressões intimistas, 390

5 Festas da cultura, 393
5.1 De festas e desportos, 395
5.1.1 Festa e guerra, festa no pedaço; festa indígena, festa à brasileira, 395
5.1.2 Movimentando a comunidade e movimentando-se por comunidades, 401
5.1.3 As Feiras Culturais, 404
5.1.4 Puruweria nas escolas, cartolas de futebol indígena, 414
5.1.5 Olimpíadas Sateré-Mawé, 421
5.2 Atomorania, atomotorania – festa e guerra no Waumat, a dança da Tucandeira, 426
5.2.1 De tatus, formigas, colares e guerreiros, 426
5.2.2 O caminho das formigas em Manaus, Parintins e Ponta Alegre, 436
5.2.3 Tucandeira do Andirá, tucandeira do Marau, 445
5.2.4 Desejos de registro e memória, 449
5.2.5 Waku sese kahato, 451

Referências, 455

Referência

FIORI, Ana Letícia de. Conexões da interculturalidade: cidades, educação, política e festas entre Sateré-Mawé do Baixo Amazonas. 2018. 489 f. Tese (Doutorado em Ciências) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.
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