47.7

Johan Cruyff: um holandês quase catalão

Victor de Leonardo Figols 22 de maio de 2013

Na década de 70, Johan Cruyff já era tido como um dos melhores jogadores do mundo. Conhecido em toda Europa por suas boas atuações e títulos conquistados pelo Amsterdamsche Football Club Ajax, o futebol de Cruyff rapidamente interessou ao FC Barcelona. O clube catalão demonstrou o interesse em contratá-lo ainda em 1969, mas o negócio só viria se concretizar em 1973.

O jogador holandês foi contratado no final de julho de 1973, Cruyff chegou ao FC Barcelona com o status de melhor jogador do mundo, já havia conquistado não apenas títulos nacionais, mas também títulos europeus, como a Liga dos Campeões da Europa, além da Copa Intercontinental. Esse histórico de conquista de títulos fazia de Cruyff o jogador certo para “salvar” o clube catalão. O FC Barcelona não conquistava o título da Liga Espanhola desde 1960.

A imagem do holandês era mundialmente conhecida. Em 1971, havia conquistado o prêmio de melhor jogador do mundo, o prêmio Ballon d’Or oferecido pela revista francesa France Football. Dentro de campo o seu papel foi indispensável para o clube catalão, principalmente no ano de 1974, quando o FC Barcelona ganhou de 5-0 do Real Madrid, no Santiago Bernábeu. No mesmo ano, o Barça ganhou o título da Liga Espanhola após 14 anos na fila.

Imagem do placar ao final da partida disponível no Museu do Barcelona. Foto: Sérgio Settani Giglio. 

A identificação com o FC Barcelona foi rápida, em alguns momentos, quando a imprensa anunciava uma vitória do clube trazia ao lado da matéria a foto do jogador holandês. Entretanto, mais que um fenômeno midiático, pode-se diz também que devido a sua importância dentro de campo e o fato de ser o melhor jogador do time, a imagem de Cruyff era de fácil associação com o FC Barcelona, e, por conseguinte com a imagem da Catalunha.

Para além de seu papel em campo, Cruyff se identificou com o clube, e conseguiu associar a sua imagem ao FC Barcelona e a Catalunha. Durante o período que defendeu o FC Barcelona, o jogador holandês deu diversas declarações à imprensa nas quais é possível observar a identificação do holandês com a Catalunha.

Como exemplo dessa aproximação do jogador com a região, temos a escolha do nome de seu filho. Em uma entrevista ao jornal Mundo Deportivo, Cruyff declarou que “Mi proximo hijo llevará nombre catalan […] Jordi o Nuria1, vale lembrar que estes dois nomes são tipicamente catalães. Um mês depois o jornal, em nota, parabenizava a chegada do terceiro filho de Cruyff. Segundo o Mundo Deportivo, “el hijo del jugador recibirá el nombre de Johan-Jordi, como homenaje a la tierra catalana en la que está vivendo unos momentos de gloria estelar2 Vale lembrar que, Jordi é o nome do santo padroeiro da Catalunha, e que o FC Barcelona leva em seu escudo da bandeira de Sant Jordi.

Jordi Cruyiff também chegou a defender a seleção holandesa. Foto: Nickarebi.

Cruyff também escreveu para o mesmo periódico durante a temporada 1973-1974. A maioria do conteúdo das crônicas era voltado para expor o cotidiano do jogador, treinamentos e jogos, além de expressar suas opiniões e expectativas sobre o futebol apresentado pelo FC Barcelona na temporada. Eram raras as crônicas com um cunho crítico ou político, apenas em algumas ocasiões Cruyff se manifestou, ainda que indiretamente, ser favorável a Catalunha.

Em uma de suas colunas, Cruyff reproduziu a frase em catalão que os torcedores do Barça gritavam para incentivar o time: “Visca el Barça!”. Outro exemplo da identificação do jogador holandês com a Catalunha pode ser encontrado em sua coluna escrita no dia 27 de abril de 1974, quando afirmou que “la verdad es que me encuentro tan a gusto em Barcelona, que me siento como un catalán más3.

Dois anos depois de ter assinado com o FC Barcelona, Cruyff participou de um jogo amistoso servindo a Seleção da Catalunha contra a Seleção da URSS, o placar do jogo foi 1-1, com um gol de Johan Neeskens, jogador do FC Barcelona e também holandês4. O filho de Cruyff, Jordi, além de se profissionalizar pelo FC Barcelona, também defendeu a seleção da Catalunha de 1995 a 2004.

Catalunha x URSS em destaque no jornal Mundo Deportivo (reprodução).

 Em 1978, Cruyff deixou o clube catalão com apenas dois títulos, a Liga Espanhola de 1974 e a Copa do Rei da Espanha de 1978. Durante esses seis anos em que o holandês atuou no clube catalão, o FC Barcelona somou mais de 20 mil sócios. Nesse sentido, é possível dizer que a popularização do clube deu-se graças a Cruyff, que aumentou a visibilidade do FC Barcelona, pois era tido o melhor jogador do mundo, além de ter associado a sua imagem ao FC Barcelona e a Catalunha.

Já em 1988, Cruyff voltou ao clube catalão como técnico. O FC Barcelona foi comandado pelo holandês por nove temporadas. Como técnico do Barça, Cruyff conquistou ‑­ quatro títulos consecutivos da Liga Espanhola, três títulos da Supercopa da Espanha, uma Copa do Rei, uma Supercopa Europeia e uma Recopa Europeia, todavia, o título mais importante foi a Copa dos Campeões da Europa de 1991-1992, título inédito até então para o FC Barcelona. Devido às grandes conquistas deste período, o Barça ficou conhecido como o “Time dos Sonhos” – o Dream team. Por esse motivo, Cruyff ainda é tido como herói do FC Barcelona.

Em 1996, Cruyff deixou o FC Barcelona, e só voltou a treinar outra equipe em 2009. O holandês assumiu a Seleção da Catalunha, aceitando o convite da Federação Catalã de Futebol. Esses aspectos serviram para reforçar a identificação de Cruyff  com a Catalunha. Cruyff comandou a seleção da Catalunha por cinco anos, apenas em jogos amistosos, já que a FIFA não reconhece a seleção daquela região da Espanha. Em janeiro de 2013, Cruyff se despediu da seleção após um jogo amistoso contra a Nigéria, que terminou empatado em 1-1, seguido de homenagens ao técnico. O holandês ainda mora e vive em Barcelona e fala catalão fluente.

Johan Cruijff faz discurso antes do jogo entre Catalunha e Nigéria. Foto: Xavier Rondón Medina.

A identificação de Cruyff com a Catalunha na década de 1970 pode ser vista como uma forma do jogador se aproximar com a torcida, que era composta majoritariamente por catalães. Essa identificação do holandês com a Catalunha foi rápida, e ampliada com a ajuda da imprensa durante sua passagem como jogador do FC Barcelona. Na década de 1980, quando Cruyff retornou ao FC Barcelona sua imagem com a Catalunha foi reforçada através de suas conquistas. Entretanto, foi nos anos 2000 que Cruyff teve a sua imagem ligada à Catalunha de forma direta. Em suma, durante sua carreira futebolística, Cruyff se identificou com o clube, e teve sua imagem constantemente ligada ao FC Barcelona e a Catalunha, como por exemplo, quando atuou como jogador pela seleção da Catalunha, a escolha de viver em Barcelona, a escolha do nome de seu filho e os anos em que treinou a seleção catalã.

 


[1] Mundo Deportivo, 23 de janeiro de 1974. p.4.

 

[2] Mundo Deportivo, 10 de fevereiro de 1974. p.5.

 

[3] Mundo Deportivo, 27 de abril de 1974. p.36.

 

[4] Por não ser uma seleção reconhecida pela FIFA, é comum jogadores estrangeiros atuar pela seleção da Catalunha. Além disso, todos os jogos dessa seleção são de caráter amistoso.

 

Seja um dos 25 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Victor de Leonardo Figols

Doutorando em História na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Bacharel, licenciado e mestre em História pela Universidade Federal de São Paulo (EFLCH / UNIFESP). Estuda as identidades clubísticas e regionais no futebol espanhol dentro do contexto da globalização do futebol. Trabalha com temas de História Contemporânea, com foco nas questões nacionais e na globalização. É membro do Grupo de Estudos sobre Futebol dos Estudantes da UNIFESP (GEFE). Escreve a coluna “O Campo” no site História da Ditadura. E é editor e colunista do Ludopédio.

Como citar

FIGOLS, Victor de Leonardo. Johan Cruyff: um holandês quase catalão. Ludopédio, São Paulo, v. 47, n. 7, 2013.
Leia também:
  • 47.9

    A grandeza dos pequenos

    Edônio Alves Nascimento
  • 47.5

    Vai terminar! A temporada Australiana de futebol profissional chega ao fim!

    Jorge Dorfman Knijnik
  • 47.3

    A sagração dos “reis do futebol”

    Bernardo Borges Buarque de Hollanda