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A tragédia de 2014

Arlei Sander Damo 25 de agosto de 2017

Passados três anos desde a realização da Copa no Brasil e um dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, emerge gradativamente um cenário favorável à avaliação dos impactos desses megaeventos esportivos desde o ponto de vista das ciências sociais. O cenário é mais favorável pois agora os megaeventos são história e não mais especulação e projeção. A imaginação faz parte da história, mas a história é também a realização – ou não – das projeções e especulações. O que foi escrito até o presente pelas ciências sociais sobre os megaeventos no Brasil poderia ser enquadrado na categoria de escritos sobre a imaginação da história, basicamente. E num registro muito singular, pois tais escritos foram realizados concomitante à extensa e heteróclita produção discursiva que veio à tona no período de preparação da infraestrutura para os megaeventos.

Quando falo em produção discursiva entendo enquanto tal um leque alargado de produções, que excedem aquela veiculada na mídia convencional ou mesmo na mídia esportiva. As Jornadas de Junho, apenas para ilustração, constituíram um dos momentos mais profícuos e originais de produção e performação discursiva. Relatórios sociotécnicos – também conhecidos como dossiês, consultorias, estudos, etc -, a favor ou contra as obras, são igualmente produções discursivas. Nossos próprios escritos, sejam eles em formato de artigos, monografias, teses ou meros ensaios destinados a um público mais amplo do que o acadêmico, não estão fora desta produção, conquanto tenham sua especificidade, como todos as demais.

Já não temos mais megaeventos a serem realizados; o que havia de extraordinário por acontecer, aconteceu. Ou não, pois há quem se pergunte se no final das contas a montanha não pariu um rato. Por certo não tivemos um apocalipse, mas temos muitos ditos e feitos – e não feitos! – à disposição para serem escrutinados, analisados e tensionados. Paradoxalmente, no entanto, a impressão é de que o sex appeal dos cientistas sociais para este tema esvaiu-se ou encontra-se sublimado. Seria de se esperar que as mídias declinassem seu interesse, mas nós não devemos seguir o mesmo caminho. É preciso remar contra esta maré, o que implica, entre outras coisas, se afastar um pouco mais – e quanto mais melhor – da agenda e da discursividade midiáticas. Temos uma importante contribuição a dar tanto à reflexão em escala internacional quanto à nossa própria sociedade. Porque seria empobrecedor se a Copa de 2014 passasse à posteridade apenas como aquela em que o time brasileiro foi humilhado por 7 a 1 pelos alemães em seu próprio domínio. Não estamos proibidos de escrever sobre o que se passou em campo, no entanto temos a obrigação de ir além. E a impressão é de que nexos não faltam; talvez até mais eloquentes do que aqueles de 1950.

David Luiz apos jogo do Brasil contra a Alemanha semifinal da copa do mundo, 08 de Julho 2014. Bruno Domingos / Mowa Press
David Luiz (E), Luiz Gustavo (C) e Ramires após o do Brasil contra a Alemanha pela semifinal da copa do mundo, 08 de Julho 2014. Foto: Bruno Domingos/Mowa Press.

A realização da Copa de 1950 gerou uma extensa produção textual ao longo dos anos subsequentes, tanto no espectro do jornalismo quanto das ciências humanas – na historiografia, especialmente. Desta produção destacam-se as narrativas da derrota na final, cujo passar dos anos e das reinterpretações, acabou convertendo a derrota dentro de campo numa tragédia de dimensões nacionais. Assim se faz a história, não há o que contestar. Se as narrativas contemporâneas são praticamente unânimes sobre o fato de ter havido uma tragédia nacional em 1950, vergo-me à crença coletiva. Passo a perscrutar então o indicador mais expressivo desta tragédia. Não foi o placar – muito aquém dos 7 a 1 de 2014 -, nem o fato de ter sido uma virada, nem as falhas da defesa – algo que jamais levei em conta. Eu tenderia a dizer, com ênfase, que a tragédia nacional foi uma ficção bem forjada a partir dos fragmentos de uma tragédia futebolística, algo que por si só não deveria impactar uma nação. De todos os eventos de 1950 que ensejaram o nexo entre o Maracanã e o Brasil nenhum deles é mais eloquente do que o silencio da torcida ao final do jogo.

Uma multidão silenciosa é um paroxismo, algo que de tão raro beira à incompreensão. Então deve ter sido mesmo trágico para quem esteve lá; para qualquer um que estivesse lá, presumivelmente. A construção discursiva da tragédia nacional como algo verossímil foi possível graças à performance dos cronistas, persuasivos em relação ao impacto desconcertante em quem presencia uma multidão silenciosa, quanto mais num estádio de futebol.

Um silêncio desconcertante. Poderia ser esta a tônica da minha memória da Copa de 2014, que ficaria bem com o 7 a 1 acachapante. Não fui a nenhum jogo e, francamente, isso não faz falta à minha biografia. Assisti quase todas as partidas, como tenho feito desde 1978 e seguirei fazendo, provavelmente, nos próximos eventos. A bem da verdade, minha memória está fixada na final da Copa das Confederações, uma vitória descrita na ocasião como brilhante – e acrescentaria: irrelevante. O jogo e a vitória pouco importam. Silêncio? Não houve. Teria sido preferível. Porque ouvir “hei, Dilma, vai tomar no cu”, em uníssimo, praticamente, foi mil vezes mais desconcertante do que qualquer narrativa da tragédia de 1950.

Thiago Silva Levanta a taça de campeão comemoram o titulo em cima da Espanha da Copa das Confederações 30 de Julho de 2013. EdIson Vara/MOWA PRESS
Thiago Silva Levanta a taça de campeão comemoram o titulo em cima da Espanha da Copa das Confederações 30 de Julho de 2013. Foto: Edison Vara/Mowa Press.

Nunca morri de amores pela Dilma, mas votei nelas quatro vezes – e votaria quatrocentas se a história se repetisse. Não fui um entusiasta quando Lula se abraçou a Ricardo Teixeira, e depois à Blatter, e a seus asseclas que seguem por aí. Minha opinião era de que, cedo ou tarde, o Brasil sediaria uma Copa da FIFA. Ruim com Lula e Dilma, muito pior com Temer. Erros foram cometidos, não resta dúvidas. Mas a Copa e as Olimpíadas aconteceram e, se for para falar apenas de corrupção, há eventos antes e depois dos megaeventos esportivos com potencial tão ou mais explosivo. Também não acho que silenciar as multidões seja um grande negócio, mas contestá-las é possível. No fim das contas, isso nem vem ao caso. Não imaginava que os estádios brasileiros pudessem ser palco de tão ignóbil manifestação. Ou será que outras manifestações já existiram e simplesmente não temos o registro? Olhando em retrospectiva, dou-me conta de que sabemos bem pouco sobre a história dos ditos nos estádios, sejam eles individuais ou coletivos, ensaiados ou espontâneos, inspiradores ou abomináveis. É preciso escrever esta história, tão ou mais reveladora do que aquelas realizada dentro das quatro linhas do gramado.

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Arlei Sander Damo

Professor PPG Antropologia Social/UFRGS. Autor de Futebol e Identidade Social e Do dom à profissão. Co-autor de Cultura y Fútbol e Megaeventos esportivos no Brasil.

Como citar

DAMO, Arlei Sander. A tragédia de 2014. Ludopédio, São Paulo, v. 98, n. 26, 2017.
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