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5 toques de livros oriundos de pesquisas acadêmicas para conhecer histórias do futebol de mulheres no Brasil, por Silvana Goellner

No mês em que se iniciam os Jogos Olímpicos, os quais abrigam uma das principais competições do futebol de mulheres, temos a satisfação de trazer as indicações de Silvana Goellner, professora aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde coordenou, por duas décadas, o Centro de Memória do Esporte da Escola de Educação Física (CEME/UFRGS). Na mesma instituição, é, atualmente, vice-coordenadora do Grupo de Estudos sobre Esporte, Cultura e História (GRECCO).

Silvana tem uma longa trajetória de reflexões sobre as histórias e as representações das mulheres no esporte, em especial no futebol, com a publicação de incontáveis artigos dedicados ao assunto. Foi curadora, individualmente e em parceria, de exposições sobre o tema, a exemplo de “Futebol e Mulheres no País da Copa de 2014” (2014), “Visibilidade para o Futebol Feminino” (2015) e “Contra-Ataque: as mulheres do Futebol” (2019). Atualmente, coordena, ao lado de David Wood (Inglaterra) e Verónica Moreira (Argentina), a Rede de Pesquisa sobre Futebol de Mulheres na América Latina.

No Ludopédio, Silvana Goellner contribui para a coluna “As mulheres do futebol”, e comanda, ao lado de Juliana Cabral, capitã da seleção que conquistou a medalha de prata olímpica em 2004, um segmento mensal do programa “Por outro futebol” no canal de Youtube do site.

Em sua lista, ela indica cinco pesquisas acadêmicas sobre histórias de mulheres no futebol brasileiro que foram convertidas em livros. Vamos aos toques da convidada:

1º toque:Fazendo gênero e jogando bola: futebol feminino na Bahia anos 80-90”, de Enny Vieira Moraes (2014)

Produzido a partir de um recorte da tese de doutoramento “As mulheres também são boas de bola: histórias de vida de jogadoras baianas (1970-1990)”, finalizada em 2012 na PUC São Paulo, o livro tematiza o futebol de mulheres na cidade de Feira de Santana. Identificado como o local de formação de um grande número de atletas, as trajetórias descritas na obra intercalam histórias de quem permaneceu na cidade e de quem alçou voos mais altos, incluindo o de integrar a seleção nacional. Articulando gênero e história, a narrativa é desenvolvida a partir de entrevistas com pioneiras do futebol baiano, cujo conteúdo é colocado em diálogo com outras fontes tais como reportagens, fotografias, medalhas, troféus e documentos variados, em sua maioria oriundos dos acervos pessoais das protagonistas do estudo.

 

 

2º toque: “Nos domínios do futebol feminino: Rio de Janeiro e São Paulo como cenários (1913-2003)”, de Eriberto Lessa Moura (2015)

Fruto da dissertação de mestrado “As relações entre lazer, futebol e gênero”, defendida no ano de 2003, na UNICAMP, o livro analisa fragmentos da história do futebol de mulheres no Brasil, desde sua estruturação nos anos iniciais do século XX até a participação da seleção em campeonatos internacionais na década de 1980.  Toma como fonte materiais impressos coletados em centros de documentação e em pesquisa junto a jornais e revistas esportivas com o objetivo de analisar o futebol como uma possibilidade de lazer para as brasileiras. Sobre este tema específico, focaliza o primeiro grupo de mulheres que participou da equipe do Guarani Futebol Clube, da cidade de Campinas, no seu curto período de existência situado entre os anos de 1983 e 1984.  Ao fazer uso de entrevistas com estas pioneiras, o autor destaca o quanto a falta de estruturação da modalidade estancou a possibilidade de profissionalização de uma geração de jogadoras que esperavam do futebol algo para além de uma atividade de lazer e socialização.

 

3º toque: Mulheres impedidas: a proibição do futebol feminino na imprensa de São Paulo”, de Giovana Capucim e Silva (2017)

O livro, originalmente escrito como uma dissertação de mestrado com o título “Narrativas da imprensa paulista sobre o futebol feminino durante sua proibição (1965-1983)” apresentada na USP, em 2015, torna visível algumas desestabilizações provocadas pela presença das mulheres no universo cultural do futebol, em especial aquelas relacionadas a dois marcadores identitários: gênero e sexualidade. Ao se debruçar sobre os registros produzidos por cinco periódicos de grande circulação no período no qual a modalidade foi proibida, sobretudo durante a vigência da ditadura civil-militar, a autora desvela aspectos singulares deste tempo destacando a resistência, as estratégias de sobrevivência e a estruturação de um futebol clandestino que, à despeito da interdição, se mostrou assíduo e potente.

 

 

 

4º toque: Futebol de mulheres: a batalha de todos os campos”, de Osmar Moreira de Souza Júnior e Heloísa Baldy dos Reis (2018)

“Futebol como projeto profissional de mulheres: interpretações da busca pela legitimidade” é o título da tese de doutorado apresentada na UNICAMP por Osmar Moreira de Souza Júnior no ano de 2013, cujo conteúdo ancora este livro. Escrito em coautoria com sua orientadora, apresenta as análises decorrentes de um estudo de caso empreendido junto a três equipes que disputaram o Campeonato Paulista de Futebol Feminino de 2011 visando analisar os projetos dos clubes e das jogadoras no que tange a efetivação do futebol como carreira profissional. Para contextualizar esse cenário a obra contempla aspectos históricos desde as primeiras manifestações do futebol de mulheres na Inglaterra, seu acontecer no Brasil, os impeditivos legais, a censura moral, a feminização normatizada da modalidade e sua estrutura organizacional. Por fim, externa discussões que fornecem elementos para entender que a profissionalização das jogadoras está circunscrita ao que entendem como sendo seus deveres e não aos seus direitos.

 

5º toque: “O jogo das letras: práticas esportivas e futebol de mulheres no Jornal dos Sports (1931-1941)”, de Kelen Kátia Prates Silva (2020)

O livro traduz-se na dissertação de mestrado defendida da Universidade Federal de Dourados, em 2019, na qual são analisadas as publicações de um artefato midiático específico: o Jornal dos Sports. Descreve a emergência do futebol em um período no qual as mulheres dilatavam sua inserção no espaço público libertando-se de tradições que as circunscreviam à esfera doméstica e lhes conferiam funções relacionadas à preservação da família, da moral e dos bons costumes. Além de garimpar fontes primárias sobre a história das práticas esportivas, a obra trata a imprensa esportiva como uma fonte histórica acabando também por historicizá-la. O foco nesta especificidade possibilitou entender como este periódico produziu, divulgou e organizou o esporte carioca ora incentivando as mulheres para a sua prática, ora limitando e silenciando sua participação.   

 

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Raphael Rajão

Autor de A bola, as ruas alinhadas e uma poeira infernal: os primeiros anos do futebol em Belo Horizonte (1904-1921). Graduado e mestre em História pela UFMG. Doutor em História, Política e Bens Culturais pela Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC. Atualmente pesquisa o futebol de várzea em Belo Horizonte.

Silvana Goellner

Professora Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Aposentada).  Ex-coordenadora do Centro de Memória do Esporte (CEME) e  Vice-Coordenadora do Grupo de Estudos sobre Esporte Cultura e História (GRECCO). Pesquisadora e ativista do Futebol de Mulheres. Integrante do Grupo de Estudos Mulheres do Futebol (GEMF).

Como citar

RIBEIRO, Raphael Rajão; GOELLNER, Silvana Vilodre. 5 toques de livros oriundos de pesquisas acadêmicas para conhecer histórias do futebol de mulheres no Brasil, por Silvana Goellner. Ludopédio, São Paulo, v. 145, n. 10, 2021.
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