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A era Arteta no Arsenal: fim da querofobia gunner? (Parte II)

Ana Paula Florisbelo da Silva 2 de outubro de 2020

Como todo gato escaldado tem medo de água fria, a desconfiança gunner com o técnico espanhol só começou a ser dissipada após a vinda dos resultados positivos. Arteta ganhou em 13 jogos sob o Arsenal a mesma quantidade de jogos que Emery e Ljungberg juntos no comando do clube londrino. O estrago, no entanto, já estava feito, e mesmo com 9 vitórias sob Arteta, o time não conseguiu alcançar a colocação necessária na tabela para se classificar à Europa League, terminando a temporada em sua pior campanha em 25 anos. A esperança ficaria por conta da vaga conseguida sob um provável título da FA Cup, pois o time caíra ainda na segunda fase da Europa League, em fevereiro. O sorteio da FA Cup, no entanto, nos colocaria em uma semifinal contra o Manchester City. Se existe alguém na torcida do Arsenal que acreditou que passaríamos das semis, parabéns pela fé, eu não estava entre estes.

Despi-me de toda ilusão antes de assistir à partida, na tentativa de sofrer menos. A partida seria no dia 18 de julho, e um mês antes, em 17 de junho, havíamos perdido para o time de Guardiola por 3 a 0. A tradicional inconstância do time londrino nos mantinha desconfiados: nas rodadas anteriores da Premier, havíamos empatado com Leicester e perdido para Tottenham. A esperança ficava por conta da vitória sobre o Liverpool, feito obtido pela última vez em março de 2015. A partida foi agonizante: 16 chutes do time de Manchester, que felizmente foram parados por uma boa atuação da zaga e de Martínez no gol. Para a torcida gunner, sempre temerosa com a dupla David Luiz e Mustafi na defesa, parecia surreal vê-los parando um dos melhores ataques da Premier. O trio de ataque Pepe, Aubameyang e Lacazette tivera uma atuação maravilhosa, com destaque para os dois gols do camisa 14. Parecia inacreditável vencer Liverpool e City em menos de uma semana. Mas fora o que ocorreu, com o time chegando pela 21° vez à final da FA Cup, com uma vitória por 2 a 0 contra o time de Manchester. Arsenal havia vencido o Manchester City pela última vez em abril de 2017.

Arte do Arsenal saudando a volta de Mikel Arteta, desta vez como treinador. Foto: Divulgação/arsenal.com.

Aos supersticiosos e fãs de dados históricos, o passado trazia boas lembranças: a última conquista da FA Cup foi obtida após uma semi contra o Manchester City e uma final contra o Chelsea. Porém, o retrospecto da última final disputada contra o rival londrino, na derrota da Europa League em 2019, nos perturbava. Na FA Cup, os blues chegaram à final derrotando bons times como Manchester United, Leicester e Liverpool. A confiança em uma possível vitória, no entanto, estava mais alta contra o rival local que nas semis contra o time de Manchester, pois Arsenal nunca perdera uma final em Wembley para o Chelsea, desde sua reabertura em 2007.

No início, Chelsea dominou a partida, conseguindo marcar com apenas 5 minutos de jogo, com gol de Pulisic. Arsenal parecia assistir a partida dentro de campo, e a luz vermelha acendia na cabeça do torcedor. Mas, no segundo tempo, tudo começou a dar errado para os blues, e o recorrente azar do Arsenal parecia ter sido transferido para os rivais. Azpilicueta fez falta em Aubameyang dentro da área, e o juiz deu pênalti no lance. Gol de Auba, empate da partida. O próprio Azpilicueta foi substituído pouco depois, lesionado. Sua ausência, como uma das principais peças da tática de pressão e saída de bola de Lampard, começou a mudar a cara do jogo. Pulisic sairia, também lesionado, e Giroud não conseguiria fazer a lei do ex valer, sendo perseguido e anulado em campo pela marcação de David Luiz. Aos 67, Aubameyang colocou os gunners à frente, em jogada que começou com arranque em velocidade de Bellerín, que foi derrubado, mas a bola sobrou para Pepe, que encontrou o gabonês livre na frente da área.

Arsenal estabelece a dominância do jogo, que já vinha crescendo no segundo tempo, após expulsão de Kovacic. Os minutos finais do jogo parecem eternos, e somados os acréscimos a partida vai até os 102 minutos, com os blues tentando de tudo para reverter o placar. Com bom trabalho defensivo, o time de Arteta consegue repetir o placar da final da FA Cup de três anos antes, contra o mesmo rival. Um título almejado que traria, no mínimo, quatro bons feitos ao Arsenal: Salvar a temporada amarga, garantir a vaga na próxima Europa League, vencer o rival local, tomar a vaga via Premier para a Europa League do rival Tottenham. 14° título e a confirmação da dominância do Arsenal na competição de futebol mais antiga do mundo. Após dez anos no clube, Martinez finalmente obteve a chance de provar seu valor sendo goleiro titular, e se saiu muito bem. Aubameyang quebrou a taça na hora da foto oficial, mas não importa, e a situação vira meme da torcida.

Menos de um mês depois, outra decisão. A Community Shield, disputada entre o campeão da Premier e o da FA Cup. O título que, em caso de derrota, pode-se dar a desculpa de que não era algo tão importante e almejado. Quando observei a escalação do Liverpool, que viria para o jogo com força total, não estava confiante sobre a possibilidade de título. O campeão inglês, obviamente, era um plantel mais completo, e jogaria contra um Arsenal misto. Mas após a conquista da FA Cup, tínhamos um pouco mais de positividade, somada a um bom retrospecto: em anos anteriores de conquista da FA Cup, levamos também a Community Shield, e nos dez últimos anos da competição, o Liverpool não figurava entre os campeões. 

Tudo o que mais queria na partida, além do título, era um gol de Aubameyang com a tradicional comemoração do Pantera Negra, em homenagem a Chadwick Boseman, que morrera de câncer um dia antes da final. E, felizmente, os dois aconteceram. Aos 12 minutos Aubameyang marcou o gol, jogada nascida de uma invertida de bola de Saka, que encontrou o atacante gabonês na linha da grande área na esquerda, de onde ele dominou a bola e finalizou.

O placar final faria jus à partida, pois Arsenal dominou no primeiro tempo e marcou ainda no início, e no segundo tempo Liverpool teve a preponderância no jogo, marcando aos 72 minutos com gol de Minamino. Para a tristeza da torcida, o gol do Liverpool teve a recorrente falha na defesa que tanto nos assombra, pois antes de parar no pé do jogador japonês, ela passou nos pés de Holding e no braço de Cédric. A partir daí, o medo da virada e os fantasmas das recorrentes derrotas nos minutos finais de jogo passavam como um filme em nossas cabeças, o que felizmente não ocorreu. A partida iria para as penalidades.

Salah, Nelson, Fabinho e Niles convertem os dois primeiros pênaltis para cada time. Na batida de Brewster, eu só repetia “chute essa bola para longe”. Deu certo, o juvenil do Liverpool chutou na trave. Cédric, Minamino, David Luiz e Jones converteram seus pênaltis. O pênalti decisivo ficou por conta do capitão e autor do gol da partida, Aubameyang. Os goleiros foram mal nas cobranças, errando os cantos para cair. Alisson pulou para a direita, e o chute de Auba foi à esquerda. Arsenal foi o campeão da Community Shield. A má temporada dos gunners na Premier por fim encontrou um final feliz em outras competições nacionais.

O trabalho de Arteta, em poucos meses, conseguiu transformar o jogo do Arsenal e melhorar jogadores que, para a torcida, pareciam perdidos. Em meia temporada, o técnico conseguiu ganhar dois títulos com o clube londrino. O time recuperou o jogo coletivo, de posse de bola e ofensivo que era a característica que fizera me apaixonar pelo futebol do Arsenal. A energia em torno do clube e dos jogadores se transformou bruscamente. De um time apático, conformista em campo e um vestiário problemático, vemos jogadores motivados, esforçados e uma boa relação deles com o técnico. De um pensamento derrotista e fatalista, passamos à confiança em um futuro e expectativa de dias melhores. E a querofobia? Bem, ela ainda existe, pois nossos corações desconfiados precisam de mais tempo para voltar a acreditar sem titubeações no Arsenal. Mas nunca estivemos tão esperançosos desde os últimos anos da era Wenger. In Arteta we trust!


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Ana Paula Florisbelo

Graduada em História pela Universidade Federal de Goiás - Campus Catalão. Mestranda em História pela Universidade Federal de Goiás - Campus Catalão. Pesquisadora de História da Espanha Contemporânea, com foco nos temas Ditadura Franquista, nacionalismo, identidades, política e futebol. Artista.

Como citar

SILVA, Ana Paula Florisbelo da. A era Arteta no Arsenal: fim da querofobia gunner? (Parte II). Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 4, 2020.
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