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A ampulheta de Cristiano

Marcos Teixeira 10 de maio de 2017

Há uma espécie de ampulheta imaginária que é virada todos os anos. Ela marca o início imaginário do declínio de um dos jogadores mais absurdos, possivelmente o maior atleta do futebol, de todos os tempos.

Sim, falo de Cristiano Ronaldo.

Após a temporada praticamente perfeita de 2016, quando venceu os dois troféus mais importantes do ano (a Liga dos Campeões pelo Real Madrid e a Eurocopa por Portugal) sendo protagonista, houve o declínio natural que, normalmente, sucede o ápice.

Este fato, combinado com a virada sobrenatural do Barcelona sobre o pouco respeitável time do PSG, na qual Neymar só não fez chover nos últimos oito minutos, fez os donos da ampulheta, mais uma vez, vaticinarem: é o começo do fim! Mais que isso, finalmente, chegou a vez de Neymar!

Mesmo que tenha sido por um jogo. Ok, um grande jogo, mas ainda assim um jogo, e contra um adversário de grandeza questionável e com uma ajuda imensa da arbitragem. Estávamos apenas em fevereiro, mas já tínhamos o melhor do ano. Deve ser outra a ampulheta neste caso.

E daí que Cristiano, com o passar do tempo, começa a mudar o posicionamento em campo? “Mas ele fez pouco mais de 30 gols na temporada”. Realmente, para os padrões de Ronaldo, 30 gols em uma temporada é pouco. Ele é o primeiro – e único, por ora – a atuar na Europa a romper os 50 gols em seis temporadas consecutivas.

 
MARRAKECH, MOROCCO - DECEMBER 20: Cristiano Ronaldo of Real Madrid CF prepares to take a free kick during the FIFA Club World Cup Final match between Real Madrid CF and San Lorenzo at Le Grand Stade de Marrakech on December 20, 2014 in Marrakech, Morocco. (Photo by Steve Bardens/Getty Images) *** Local Caption *** Cristiano Ronaldo
Cristiano Ronaldo se prepara para cobrar falta. Foto: Steve Bardens/Getty Images.
 

O prêmio de melhor do mundo tem suas peculiaridades, e desde que surgiram Cristiano e Messi pode ser resumido a “Melhor da Dupla”, e por mais que a pachecada de plantão esperneie, não haverá espaço para Neymar tão cedo, mesmo porque a Liga dos Campeões tem um peso absurdo (principalmente o mata-mata) e quem chega mais longe entre os dois coloca uma mão e meia na honraria. Para azar do craque brasileiro, se pensarmos na possibilidade de ser eleito o número 1, Messi está no seu time e Neymar precisará fazer chover para superar o argentino, o que, honestamente, não vejo ser possível simplesmente porque ele, Messi, é muito melhor.

Nem deveríamos discutir isso.

Mas discutimos. E a ampulheta que contém a areia lusitana já estava mais cheia da metade para baixo. Neymar despachou o PSG e Cristiano se limitou a dar passes para gol contra o Napoli. Messi, por sua vez, que tinha feito 11 gols na fase de grupos da Liga dos Campeões, passou em branco nas oitavas e nas quartas, mas acabou com El Clasico e voltou a ser o melhor de todos os tempos.

Há uma ampulheta relativamente mais apertada para o gênio argentino. De quebra, chegou a 500 gols só com a camisa blaugrana em uma partida que Neymar não jogou por estar suspenso de forma estúpida. Mesmo assim, os oito minutos de fantasia pura ainda lhe mantinham no topo de melhor-do-mundo-de-2017-ainda-estando-em-abril.

Nos jogos contra a Juventus, Neymar e Messi não jogaram absolutamente nada, mas mantiveram-se intactos. O mesmo tratamento não teve o português pelo desempenho pífio no jogo com o Barcelona, mesmo que este valha menos, embora seja um dos maiores clássicos do mundo. A areia do portuga quase não era vista na parte de cima.

Mas da mesma forma que os 500 gols de Messi pesaram, o fato de Cristiano passar de 100 em competições europeias, depois chegar – e passar – a 100 só pela Liga dos Campeões e desandar a fazer gols decisivos (cinco dos seis contra o Bayern nas quartas de final e os três do primeiro jogo das semifinais contra o Atleti) também devolveram ao português o status de semideus (como se isso tivesse sido construído em apenas um jogo ou em uma temporada).

Frases prontas como “o pior momento desde que chegou ao topo”, “declínio físico aos 30 e poucos anos chegou” ou “só faz gol de pênalti” (mesmo sendo só 11, dos 103 na Champions, dessa forma) voltam para a gaveta, ou ao menos até a final da competição, quando sua ampulheta poderá ser zerada outra vez e estará acabado ou no topo do mundo.

Como em todos os anos.

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Marcos Teixeira

Jornalista, violeiro, truqueiro e craque de futebol de botão. Fã de Gascoine, Gattuso, Cantona e Rui Costa, acha que a cancha não é lugar de quem quer ver jogo sentado.

Como citar

TEIXEIRA, Marcos. A ampulheta de Cristiano. Ludopédio, São Paulo, , 2017.
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