143.41

Em busca da bola perdida

Marcos Alvito 22 de maio de 2021

O futebol foi o esporte mais interessante jamais criado pelo homem. Decerto porque era o mais imprevisível, inesperado, tão marcado pelo acidental a ponto de gerar teorias esotéricas.

Quando eu tinha uns sete anos, meu pai me levou à sede do Flamengo. Antes de ir embora, pedi para entrar no campo. O gramado da Gávea tem boas dimensões mas está longe de ser um dos maiores. Para os olhos daquele menino era infinito como o meu sonho de ser ponta-direita.

Hoje, tenho a impressão de que o campo de futebol é do tamanho de uma vaga de estacionamento, aliás sempre lotada. A verdade é que os jogadores hoje são maiores, mais fortes, mais rápidos e com mais preparo físico do que nunca. Correm praticamente o dobro do que corriam à época da Copa de 70. São testados cientificamente, preparados por especialistas, seguem dietas nutricionais, recebem apoio psicológico. Têm suas jogadas analisadas minuciosamente, redundando em relatórios e treinos para sanar deficiências.

Os times adversários são estudados detalhadamente em suas táticas, características dos jogadores, para que lado o artilheiro bate o pênalti ou para onde o goleiro costuma se jogar. Se bobear eles já têm até um astrólogo para estudar o signo dos jogadores e se a final será realizada em dia fasto ou nefasto como diziam os romanos:

– Com a Lua em Touro eu acho que vai ser um jogo bem bruto.

O fato, incontestável, é que o espaço para jogar não diminuiu, o espaço sumiu. Às vezes o jogo parece um exercício de dois toques, o máximo que se consegue tocar na bola antes de ter um Cão Cérbero vindo na tua direção. O jogo fica chato, um UFC de toma lá dá cá. O gol precisa ser arrancado a fórceps, muitas vezes em jogadas de bola parada, corners e jogadas ensaiadas.

Pacaembu
Vista aérea do Pacaembu. Foto: Ricardo Stuckert/CBF.

Não me acusem de saudosista. Acho que muitos dos jogadores de hoje figuram decerto entre os melhores da história do futebol. Tanto em termos de técnica quanto de habilidade. Mas agora são como grandes atores que podem fazer somente “pontinhas” na peça. Acham que eu estou exagerando? Nos principais campeonatos europeus, os jogadores ficam com a bola, a cada posse, por menos de três segundos. No Espanhol, onde joga Messi, o baixinho genial, por somente 2,7 segundos. Fazendo um cálculo grosseiro, podemos dizer que o jogador tem pouco mais de um segundo para pensar o que vai fazer com a redonda. O restante do tempo é para matar a bola e tocá-la.

Bom, que nem no futebol, o que importa é o resultado. E o resultado disso tudo é que o futebol hoje em dia é um jogo, na maioria das vezes, chatíssimo. Os noventa minutos parecem a travessia de um deserto de lances bonitos e gols. Eu adoro e insisto em assisti-lo. Não nos livramos facilmente das paixões de infância.

Mas cada vez mais eu vivo, que nem o Eduardo Galeano, vagando em busca da bola perdida.

Seja um dos 25 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Marcos Alvito

Professor universitário alforriado. Escritor aprendiz. Observador de pássaros principiante. Apaixonado por literatura e futebol. Tenho livros sobre Grécia antiga, favela, cidadania, samba e até sobre futebol: A Rainha de chuteiras: um ano de futebol na Inglaterra. O meu café é sem açúcar, por favor.

Como citar

ALVITO, Marcos. Em busca da bola perdida. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 41, 2021.
Leia também:
  • 143.62

    Ita Maia, entre marolas e tsunamis

    Caroline Soares de Almeida, Daniel Machado da Conceição
  • 143.61

    A voz colombiana

    Cláudia Samuel Kessler, Diana Patricia Bolaños Erazo
  • 143.60

    Jogar com os pés, com as mãos: futebol

    Alexandre Fernandez Vaz