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Há 27 anos, o dia em que Romário calou o canto uruguaio com seus pés

Ganhar uma Copa do Mundo, sem dúvidas, é o ápice de uma seleção. Quando o relógio para e o juiz apita o fim do jogo, o sentimento de dever cumprido recai sobre os ombros dos jogadores e, enfim, a taça poderá ser erguida. Porém, o caminho até tal glória pode não ser tão fácil. Enfrentar adversários de peso, temer algumas camisas e até ver as famosas zebras acontecerem são situações que podem cruzar o caminho de qualquer seleção.

Entretanto, nas Eliminatórias para a Copa de 1994, o sentimento que abraçava o torcedor brasileiro era o de confiança. Disputada no formato de turno e returno, o Brasil, num grupo de cinco equipes, não mostrou todo seu potencial na competição, mas chegou ao seu último jogo na disputa com três vitórias consecutivas na bagagem: 2 a 0 contra o Equador, 6 a 0 diante da Bolívia e 4 a 0 perante a Venezuela.

Na última partida, os brasileiros teriam como adversário o Uruguai. O clássico do Rio Negro, como é conhecido o confronto entre Brasil e a Celeste Olímpica, foi encenado no Maracanã, numa tarde de domingo.

O Brasil de Parreira naquela partida. Foto: Reprodução / CBF

Antes da bola rolar

No extracampo, polêmicas e muita pressão cercavam a delegação verde e amarela. O técnico brasileiro, Carlos Alberto Parreira, havia convocado seu elenco para as Eliminatórias e o nome que todo o país esperou ouvir não estava na lista de relacionados. A torcida não se conformava com o fato de que o baixinho Romário não estava defendendo a camisa do Brasil naquele momento. Além disso, o fato de o Brasil ter sido eliminado precocemente da Copa América pelo maior rival, a Argentina, ainda era um acontecimento muito recente na memória do torcedor.

O jogador, que sempre fora muito sincero em suas declarações, estava afastado da Seleção Canarinho desde dezembro de 1992, após dizer que, caso fosse chamado e saísse da Europa somente para ver os jogos do banco de reservas, preferia não ser convocado. Já era setembro do ano seguinte e lá estava a seleção, mais uma vez, sem Romário. Outros fatores, como episódios de indisciplina, também ajudavam na não convocação do atleta.

Enquanto isso, o baixinho distribuía todo o seu talento nos campos internacionais. Em um desses momentos, Romário encantou com seu futebol na final da Taça Teresa Herrera de 93, jogando no Barcelona. Contra o São Paulo, ele fez o único gol da partida que consagrou o time espanhol como campeão e deu ainda mais motivos para que o brasileiro clamasse por sua presença na Seleção Canarinho, depois de exibir toda sua qualidade com a bola nos pés.

Há quem diga que a pressão piorou quando, no dia seguinte àquela conquista, o Brasil enfrentou o Uruguai, em Montevidéu, pela primeira vez na competição e empatou em 1 a 1, num cenário caótico que foi duramente criticado por todos, já que a parte ofensiva da seleção pouco criou. Como se fosse a gota d’água, um dia antes do jogo decisivo, Parreira convocou Romário. O craque aceitou e, claro, deu mais uma de suas declarações ácidas, mas, daquela vez, ele disse tudo o que o torcedor brasileiro queira ouvir:

“O jogo (…) vai ser uma guerra. Vim para classificar o Brasil”.

Enfim, o apito

Era 19 de setembro de 1993, 17h de um domingo. A atmosfera do Rio de Janeiro se coloriu de verde e amarelo e o povo, em peso, seguiu para o Estádio Jornalista Mário Filho, o Maracanã. O cenário remetia ao episódio de 1950, quando o Uruguai, naquele mesmo estádio, venceu a Seleção Canarinho por 2 a 1 e protagonizou uma das maiores decepções do futebol nacional: o Maracanazzo, contrariando as expectativas que tinham o Brasil como favorito ao título do Mundial daquele ano.

O Maracanã de 1950, palco do Maracanazzo. Foto: Arquivo Nacional

Porém, o reencontro daquele domingo, 43 anos depois, tinha dimensões diferentes. O lado verde e amarelo, apesar de uma campanha não tão boa assim, jogava por um empate devido ao saldo de gols favoráveis. O Uruguai, no entanto, só tinha uma opção: vencer. Os algozes do passado assombravam qualquer torcedor, mas, por aqui, a esperança sempre fora o último sentimento a ser ignorado.

O Brasil foi escalado com Taffarel; Jorginho, Ricardo Gomes, Ricardo Rocha e Branco; Dunga, Mauro Silva, Raí e Zinho; Bebeto e Romário. Era um elenco de encher os olhos e a torcida, sem dúvidas, estava mais que satisfeita, afinal, lá estava o baixinho, vestindo a camisa 11.

Comandada por Ildo Maneiro, a Celeste Olímpica tinha Siboldi; Gustavo Méndez, Canals (Adrian Paz, aos 69’), Kanapkis e Batista; Dorta, José Herrera, Gutiérrez e Francescoli (Zalazar, aos 69’); Fonseca e Rubén Sosa. Era um elenco forte que vinha de três vitórias seguidas, assim como a Seleção Brasileira.

Quando o árbitro peruano Alberto Tejoda soou o apito para o início do jogo, a atenção das mais de 100 mil pessoas que estavam nas arquibancadas se voltou ao gramado. Logo nos primeiros minutos, Romário já roubava a atenção uruguaia com seus dribles estonteantes, que levavam a torcida à loucura.

O baixinho acertou a trave, deixou alguns jogadores na cara do gol, ouviu o Maracanã inteiro ovacioná-lo após seus lances, mas, o gol não saía. Apesar de muita pressão verde e amarela, quando o Brasil chegava com perigo, Siboldi, o goleiro uruguaio, estava lá para evitar qualquer coisa. Nos primeiros 45 minutos, o grito de gol ficou preso na garganta do brasileiro, porém, ainda assim, os comandados de Parreira saíram de campo aplaudidos.

A volta do rei

No segundo tempo, o Brasil continuou pressionando. Entre os desarmes uruguaios e muita posse de bola e muito perigo do lado brasileiro, o relógio marcou 27 minutos.

27’ – 2º tempo: Bebeto recebeu a bola nas costas do lateral esquerdo da Celeste, levou a redonda o máximo que pôde e cruzou exatamente da cabeça de Romário. O baixinho, literalmente, com seus 1,68 m de altura, subiu sem marcação, testou para o chão, deixou Siboldi sem chances de defesa e balançou a rede.

“No segundo tempo, a bola ia entrar. Sabia disso. E foi o que aconteceu. No meu primeiro gol, eu fui esperto. O Jorginho lançou na direita para o Bebeto. Enquanto ele corria pela lateral, eu fui para a área e tentei me posicionar em um espaço onde ninguém estava me marcando. Eu até vi que o Raí entrou na área e fiz questão de me afastar dele para que um não atrapalhasse o outro. O Bebeto cruzou a bola perfeita na minha cabeça e fiz o primeiro gol da Seleção” – Romário em entrevista ao Estadão, em setembro de 2011.

O Maracanã enlouqueceu e comemorou o primeiro gol da partida. Quem acompanhava de casa, ouviu Galvão Bueno declarar “Romário deixou a Espanha, atravessou o Atlântico para fazer o gol do Brasil”. Mal sabia a torcida que, 10 minutos depois, o baixinho daria um novo motivo para o estádio ir à loucura.
Os minutos que se seguiram até o segundo gol brasileiro acontecer foram intensos: mais chances para o Brasil e um lance perigoso do Uruguai. Entretanto, quis o destino que, naquele dia, a Celeste Olímpica não conhecesse o gosto da classificação.

O relógio marcou 37 minutos da segunda etapa. Naquele instante, Mauro Silva roubou a bola na linha intermediária, se lançou no ataque e deu o passe em profundidade para Romário.

O camisa 11 do Brasil, que tinha o campo defensivo do adversário totalmente livre, disparou com a bola e viu diante dele apenas o goleiro Siboldi. O arqueiro da Celeste fechou o ângulo esquerdo do brasileiro, mas Romário o deixou no chão, foi para a direita, adiantou a bola e a empurrou para o fundo do gol.

Era o rei brasileiro que havia voltado. Nada melhor do que o lance descrito pelo próprio Romário em entrevista ao Estadão, em setembro de 2011.

“No segundo, eu acabei marcando um golaço, um dos mais bonitos da minha carreira, mas a jogada que eu queria fazer não era bem aquela. (…) Recebi o lançamento e saí em velocidade. Minha ideia era jogar a bola no lado de lá e pegar do outro, mas o goleiro fechou o ângulo e foi na bola. Não teve jeito, eu tive de ir junto para o mesmo lado. O goleiro até se esforçou para fazer pênalti, (…), mas na época eu tinha uma base muito boa e fui para dentro. Eu saí correndo comemorando em direção à torcida. Sei que um monte de gente me abraçou. Deu para perceber que todo mundo ficou mais tranquilo, com a vaga para a Copa praticamente garantida”.

Ali, o instante se eternizou. O mundo parou para as mais de 100 mil pessoas que estremeciam as arquibancadas do Maracanã, aos gritos de “Recordar é viver, Romário acabou com você”. O passaporte para a Copa de 1994, nos Estados Unidos, estava carimbado.

A coroação

O Brasil venceu por 2 a 0. Duas vezes Romário. Era a coroação, na ótica do país inteiro, mais que justa de um nome que jamais deveria ter sido afastado e que, naquele momento, não precisaria provar mais nada.

Após o apito final, a comemoração ficou ainda mais intensa. Na saída dos jogadores, os microfones e holofotes eram todos para o camisa 11, que em uma declaração à imprensa, disparou:

“Cheguei na Seleção como salvador da pátria e salvei mesmo. Sabia que esse dia chegaria. Com esse time, venceremos a Copa do Mundo. Foi Deus quem me trouxe à Seleção. Agradeço a todos aqueles que acreditaram no meu futebol.”

A consagração de Romário estava feita, o baixinho cumpriu com o que disse e levou o Brasil à Copa, para alegria da torcida. Enquanto isso, os microfones também se voltaram ao técnico Parreira que, sem medo, declarou após o jogo:

“Mostrei a todos que não sou um técnico teimoso e intransigente. Tenho apenas minhas teorias e meus conceitos. Deles eu não abro mão. Deus trouxe Romário na hora certa.”

Naquela final em 1950, a Celeste Olímpica calou uma nação inteira e os brasileiros saíram arrasados. Naquele mesmo Maracanã, em 19 de setembro de 1993, foi Romário quem silenciou o grito de um país com seus pés e deu permissão para o lado verde e amarelo do estádio explodir numa comemoração uníssona e eufórica. Há 27 anos, iniciava-se o caminho da conquista do tetra.


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Lúcia Oliveira

Amante da comunicação, da escrita, da fotografia, do futebol, da literatura, do jornalismo, entre outras coisas. Escrevo para eternizar e vivo para escrever.

Como citar

OLIVEIRA, Lúcia. Há 27 anos, o dia em que Romário calou o canto uruguaio com seus pés. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 46, 2020.
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