113.16

O pequeno de Istambul que insiste em fazer história

Gabriel Canuto Nogueira da Gama 15 de novembro de 2018

Em pouco mais de sessenta anos de história da principal competição nacional do futebol turco, a Süper Lig, apenas cinco clubes tiveram a proeza de levantar o ambicioso caneco desde que o campeonato se tornou profissional em 1957. Do total de 62 edições já ocorridas, em incríveis 55 ocasiões, o título escapou do trio de ferro da capital Istambul, composto por Beşiktaş, Fenerbahçe e Galatasaray. Nem mesmo diante da inexorável supremacia dos três grandes da capital Istambul, que compõem cerca de 90% da torcida do país, e de um cenário tão polarizante em títulos, é capaz de tirar o brilho dos olhos e a paixão arraigada nas veias do torcedor turco por esse esporte advindo de terras britânicas.

Se estão distantes em termos técnicos em relação às grandes ligas europeias, o futebol turco não fica para trás quando o fator é torcida. O país é um dos mais fanáticos pelo esporte bretão no mundo. As torcidas vão em peso aos estádios, são intensas e vibrantes o que acarreta, muitas vezes, até em brigas generalizadas, sobretudo, em grandes clássicos. E todo esse amor está longe de se restringir aos times, digamos, mainstream, do país. Pelo contrário. Os 10% de adeptos restantes espalhados pela Turquia tem muito o que comemorar.

Com apenas 28 anos de existência, o modesto İstanbul Başakşehir é um desses clubes representantes da minoria que, vez ou outra, surge no futebol, rompendo padrões e escrevendo histórias épicas. Na atual temporada, os turcos de Basaksehir têm a chance de quebrar a hegemonia de oito anos consecutivos do trio de ferro e conquistar o seu inédito título nacional. Após onze rodadas disputadas, o İstanbul lidera o campeonato turco com 24 pontos, quatro a mais que o vice-líder e atual detentor do caneco Galatasaray.

O time sofreu apenas quatro gols nessas onze rodadas. Um número impressionante. Vemos que as chances de uma surpresa ao final da temporada crescerem ainda mais devido a má fase do Fenerbahçe, frequente postulante ao título, que está surpreendentemente na 15ª posição, com apenas 10 pontos. Além disso, o Besiktas, penúltimo campeão da Süper Lig está na 6ª colocação, com seis pontos a menos que os líderes.

Na temporada anterior, a quebra da hegemonia no futebol turco quase aconteceu. O İstanbul terminou em terceiro empatado em pontos com o vice Besiktas e apenas a três do campeão Galatasaray. O time chegou a liderar mais da metade da temporada passada. Por pouco não levou.

İstanbul Başakşehir: o nanico de 28 anos rumo à história. Foto: Divulgação.

Na temporada 2016/2017, os pequenos audaciosos da capital haviam sido as sensações da liga, ao surpreenderem as fanáticas torcidas com seu futebol simples, pragmático, cauteloso, mas não menos efetivo e competitivo. Munido de jogadores experientes e com um sólido sistema defensivo, o time também liderou o primeiro turno daquela edição. Disputando ponto a ponto com o Beşiktaş, o Başakşehir quase levou a taça da Süper Lig (os alvinegros foram os campeões com duas rodadas de antecedência).

Naquela temporada, eles ainda chegaram em sua primeira final nacional de sua história: a Copa da Turquia. O adversário era um outro pequeno do país, o Konyaspor. Após classificação épica nos pênaltis (10 a 9), nas semifinais, contra o Fenerbahçe, digna de roteiro das grandes zebras, o clube chegava à final, de jogo único, como favorito. No entanto, a zebra acabou sendo surpreendida pela outra zebra e, após um entediante 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação, o time sucumbiu ao Konyaspor nas cruéis cobranças de pênalti, por 4 a 1.

Mas voltando à principal competição do país… A última vez que o título da liga não ficou nas mãos do trio de ferro foi na temporada de 2009/2010, quando o Bursaspor interrompeu a série de conquistas dos três grandes que já durava 26 anos. Apesar da façanha naquela época, há uma pequena diferença entre os dois casos. O Bursaspor não era nenhum completo novato no cenário nacional, pois já tinha em seu currículo uma Copa da Turquia e uma história de 47 anos.

Ao contrário do clube de Bursa, o Başakşehir foi fundado em 1990 e era frequentador assíduo da segunda divisão do país até finalmente se ascender na temporada 2006/2007. Só para se ter uma ideia, quando o clube sequer existia, o Fenerbahçe já havia vencido o Turco, na era profissional, doze vezes, enquanto o Beşiktaş e o Galatasaray haviam se sagrado campeões em oito oportunidades cada.

Os títulos (até hoje) não vieram, mas, acredite, são reles detalhes diante das temporadas mágica que o İstanbul vem fazendo na Turquia. O surpreendente desempenho do pequeno clube da capital tem sido fruto de um projeto a longo prazo pacientemente protagonizado pelo experiente técnico Abdullah Avci, com passagens pela seleção turca de 2011 a 2013.

O trabalho já dava seus primeiros sinais de êxito na temporada 2014/2015 quando o time se classificou pela primeira vez em sua história para uma competição europeia, a Europa League. A eliminação veio precocemente, já no primeiro duelo diante do AZ Alkmaar, porém, nem a frustração de não seguir adiante abalou a saga de Avci e seus comandados. Na mesma temporada, fecharam o Turco novamente na quarta colocação, garantindo a vaga continental pelo segundo ano consecutivo. Dessa vez, foram mais longe, ao eliminarem o Rijeka, da Croácia, antes de caírem para o Shakhtar Donetsk na quarta fase.

Intercedência dos deuses do futebol sobre os oprimidos? Bênção do Sobrenatural de Almeida? Enlace de sorte? Simples acaso que recai sobre as zebras? Parece-me que tais fatores metafísicos não se aplicam à trajetória do pequeno Başakşehir. Encontrar respostas objetivas e pragmáticas para as peças pregadas pelo futebol, um esporte tão imponderável em sua essência, talvez seja um esforço vão.

Racionais tal qual somos, reles seres humanos na ávida e incessante busca por explicações para tudo, vamos, aqui, tentar encontrar respostas lógicas para esse sucesso. Afinal, que raios de fórmula mágica foi essa que levou o modesto Başakşehir a quase uma dobradinha histórica? A conquistar uma inédita vaga na Champions League, desbancando, com rodadas de antecedência, os poderosos Galatasaray e Fenerbahçe?

O primeiro fato plausível para as temporadas sublimes do Başakşehir pode ser creditado no fator casa. O mais impressionante é que o time não possui uma torcida numerosa. Dos quase 18 mil lugares do Fatih Terim, são raros os jogos que a capacidade atinge cinco mil. Mesmo longe de ser um ambiente de caldeirão, o time tornou-se literalmente imbatível em seus domínios.

 

Outro fator relevante para o sucesso tem sido o nível de competitividade contra os três grandes. Na temporada 2016/2017, diante do Fenerbahçe, foram cinco duelos com duas vitórias, dois empates, apenas uma derrota e uma classificação para a final da Copa da Turquia, derrotando os rivais nos pênaltis. Contra o Galatasaray, o desempenho fora mais uma vez surpreendente: três vitórias, um empate e nenhuma derrota. O retrospecto mais equilibrado foi diante do Beşiktaş. Em quatro duelos, uma vitória para cada (vale ressaltar que a dos alvinegros foi em um amistoso) e dois empates.

Na temporada passada, resultados expressivos como a goleada no Galatasaray, que viria a ser o campeão, por 5 a 1; uma vitória, fora de casa, contra o Fener, por 3 a 2; e um triunfo diante do Beşiktaş, por 1 a 0. No entanto, o time sofreu duas derrotas no returno: 2 a 0 para o Fener, em casa, e 2 a 0, como visitante, contra o Galatasaray. O sexto duelo diante do trio de ferro foi um empate em 1 a 1 contra o Beşiktaş.

O terceiro motivo para o sucesso tem sido a estratégia traçada pela diretoria e comissão técnica em rechear o elenco com jogadores experientes. O Başakşehir optou em contratar jogadores com reputação internacional ou nomes já consagrados no país. A começar pelo gol com Volkan Babacan, de 29 anos, que já teve passagem pela seleção turca. Na maioria das vezes como reserva, o arqueiro esteve na última Eurocopa defendendo as cores de seu país. No clube desde a temporada 2014/2015, Babacan foi um dos pilares que contribuíram com a ascensão do time com campanhas consistentes no campeonato nacional nos quatro últimos anos.

A dupla de defesa mudou da última temporada para a atual. Os experientes e altos Bekir Írtergün, de 33 anos, 1,92 m, e o moldavo Alexandru Epureanu, 30 anos e 1,89 m, deram lugar à dupla: Manuel da Costa e Alexandru Epureanu. A lateral direita conta com a experiência do brasileiro Júnior Caiçara, de 28 anos, com passagem pelo Schalke 04, que reveza com o turco Uğur Uçar, de 30 anos, que atuou por muito tempo no Galatasaray. Na esquerda, mais um jogador com experiência em grandes competições: o francês Gael Clichy, ex-Arsenal, Manchester City e seleção francesa.

Já no setor de meio de campo, a liderança fica por conta do multicampeão Emre Belözoğlu, aquele mesmo com passagens pelo Newcastle, Internazionale de Milão, Atlético de Madrid e que fez história no Fenerbahçe durante os tempos de Alex. Capitão, o interminável meia de 37 anos, eterno ídolo da seleção turca, é a referência do time no quesito técnico e tático.

Para ajudar a municiá-lo, o Başakşehir investiu na experiência do meia brasileiro Márcio Mossoró, de 34 anos, frequentador assíduo da Europa League com o Sporting Braga nas cinco temporadas em que esteve lá. Outro jogador importante da intermediária é o bósnio Edin Višća, de 28 anos, que atuou pela sua seleção na Copa do Mundo de 2014. Na outra ponta, mais um jogador com passagem em seleção: o holandês, eterna promessa, Eljero Elia.

A responsabilidade pela marcação do meio fica por conta do volante Mahmut Tekdemir, 30 anos, cria da base que já está há dez anos atuando no profissional. No setor, o time ainda conta com o suíço Gökhan Inler, por muito tempo titular da Napoli e da seleção suíça, um dos mais caros do elenco. Mas o grande astro mesmo do time é o meia Arda Turan. Talvez da década de 2010 tenha sido o principal jogador turco em atividade. Atingiu seu auge no sólido time do Atlético de Madrid de Diego Simeone, bicampeão da Liga Europa, campeão espanhol e vice da Champions League, entre 2011 e 2014. Ele ainda não emplacou desde que foi emprestado pelo Barcelona, entretanto, é um líder técnico e a sua contratação de peso foi uma boa resposta ao trio de ferro.

Arda Turan, um dos maiores astros do futebol turco, veio a peso de ouro, mas ainda não correspondeu. Foto: Divulgação.

No ataque, o Başakşehir tem apostado na experiência de mais um atleta com reputação internacional: Emmanuel Adebayor, de 33 anos, com longa passagem pelo futebol inglês em grandes clubes como Arsenal, Tottenham e Manchester City. Poucos devem se lembrar, mas o togolês até vestiu as cores do Real Madrid, atuando em 14 partidas e marcando cinco gols, na temporada 2010/2011.

Mais um segredo do primo pobre de İstanbul tem sido o forte senso coletivo de jogo. Assim como casos recentes a exemplo de Leicester e Red Bull Leipzig, o Başakşehir conta com um esquema tático pragmático que privilegia a solidez defensiva, tanto vem mostrando os melhores números do país, nesse quesito, nas últimas temporadas.

Por último, outro fator que vem sendo determinante para o sucesso e o crescimento exponencial do clube é o forte investimento externo. Uma rede de hospitais do país tem injetado cifras e mais cifras, tanto que os salários astronômicos de Arda Turan, Adebayor e Inler vêm da contribuição dessa empresa.

Sem comparações ao feito inacreditável do Leicester de 2015/2016, que, para muitos, inclusive que vos escreve, o maior da história do futebol, a trajetória do Başakşehir tem sido digna de glória e prestígio. Sem pompa, sem torcida, sem tradição, o primo pobre de Istambul, imperturbáveis frente às adversidades, serenos, firmes e conscientes de sua condição, como autênticos estoicos, seguem a sua saga quixotesca rumo à vitória sobre o improvável. O que os deuses do futebol acham dessa tamanha ousadia?

Seja um dos 26 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Gabriel Canuto Nogueira da Gama

Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFMG (Teoria da Literatura e Literatura Comparada), Graduado em Bacharelado no curso de Letras da PUC-MG. Graduado em Comunicação Social (Jornalismo) pela PUC-MG. Foi editor de seção da revista FuLiA / UFMG, periódico quadrimestral da Faculdade de Letras da UFMG, e membro do FULIA - Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes, da UFMG. Tem ampla experiência na área de jornalismo esportivo. Foi co-fundador e editor-chefe do Observatório do Esporte, portal de notícias premiado em 2º lugar na versão online do programa "O aprendiz" da Rede Record de Televisão, em 2011. Exerceu a função de repórter do Grupo Estadão na Copa do Mundo de 2014 como correspondente em Belo Horizonte-MG. Tem experiência como editor de texto no programa "Globo Esporte", da TV Globo Minas. É autor dos livros de poesia: "Nós Dois: mais cedo que antes, mais tarde que depois" e "Para Não Desistir".

Como citar

GAMA, Gabriel Canuto Nogueira da. O pequeno de Istambul que insiste em fazer história. Ludopédio, São Paulo, v. 113, n. 16, 2018.
Leia também:
  • 113.31

    A repressão começa pela arquibancada

    Lorena Martins, Vicente Magno Figueiredo Cardoso
  • 113.30

    Apartheid gaúcho? A Liga da Canela Preta

    Gilmar Mascarenhas
  • 113.29

    O fim do Ministério do Esporte: boa ou má notícia?

    Cleber Dias