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“Somos 200 milhões de técnicos”

Filipe Fernandes Ribeiro Mostaro 23 de outubro de 2014

Constantemente o futebol brasileiro é tido como “único”, “mágico” e “artista” pela mídia. Esta construção se iniciou nos anos 1930 quando uma identidade nacional era edificada e o esporte bretão, grande mobilizador das massas, se incorporou à representação do que viria a ser o nacional. Mais do que plantar o embrião do país do futebol, foi nessa década que se construiu a ideia mítica de que o estilo nacional era o futebol-arte. Era uma forma de demarcar uma diferença frente às outras seleções, creditando à miscigenação racial nossa suposta “ginga” ao praticar o futebol. Além desses fatores, um dos que mais chama a atenção são as narrativas do nosso futebol serem focadas no craque. Este apego ao individualismo dá pouco valor ao coletivo. Estamos sempre na esperança do jogador decidir e salvar nosso time, de Leônidas a Neymar, passando por Garrincha, Pelé, Zico, Romário e Ronaldo! Seria o futebol-arte refém do jogo individual?

Esta questão rende um amplo debate e não cabe discutí-la em um pequeno texto, todavia, pretendo, aqui, falar da uma contradição muito presente nas narrativas: qual seria o papel do técnico diante do estilo que prega o individualismo?

Após a vergonhosa derrota por 7 a 1 para a Alemanha na semifinal da Copa, as principais discussões se voltaram para a importância da reformulação do nosso futebol. Ainda éramos os melhores? Nossos jogadores ainda tinham um talento descomunal que pudesse nos trazer a Copa do Mundo? O futebol coletivo alemão deu uma lição ao brasileiro? A questão se desenrolou ao longo das semanas que sucederam a maior derrota da história de nossa seleção. O ponto chave para a reformulação seria a escolha do treinador. O lobby para a presença de um estrangeiro foi forte. Era como se nenhum técnico nacional fosse capaz de organizar nossos talentosos jogadores.

Felipão grita com a seleção brasileira durante a Copa de 2014. Foto: Bruno Domingos – Mowa Press.

É inegável que a importância dos técnicos cresceu à medida que o esporte recebeu mais investimentos. Os patrocinadores passaram a exigir uma preparação apropriada para seus patrocinados. Novos métodos de treinamento, preparação física e tática eclodiram no meio esportivo. No próprio futebol nacional, a preparação física exemplar da seleção para a Copa de 1970, conhecida como Planejamento México, e o overlapping de Claudio Coutinho, são exemplos deste contexto. Mesmo com os dois fatos citados acima, o discurso do nosso futebol é de rejeitar e esquecer tais evoluções táticas e resgatar a ideia de um futebol baseado apenas no talento. A memória coletiva construída sobre a seleção da Copa de 1982 indica que ela recuperou o futebol-arte, ao passo que esquece-se do empenho tático e treinamento promovido por Telê Santana. Assumir o papel do técnico como determinante no resultado positivo seria renegar nosso talento?

Muitos dizem que uma das profissões mais difíceis do país é ser técnico da seleção, afinal, todos tem uma opinião sobre a escalação e esquema de jogo. Quando se vence, “vencemos” apesar “dele” e quando se perde, “perdemos” por culpa “dele”. O papel do técnico seria não atrapalhar o talento de nossos jogadores? Ele seria a antítese do futebol-arte? Seria o “professor” a pessoa que vai retirar o brilho do atleta ao enquadrá-lo em sistemas de jogo e tarefas burocráticas? São direcionamentos interessantes, mas que carecem de maior investigação.

Entretanto, o fato é que os treinadores assumiriam um papel mais relevante nas narrativas midiáticas sobre o futebol e muitas vezes acabam representando e perpassando características individuais à imagem do time que eles comandam. O Felipão formou uma família, foi um paizão com os jogadores e duro com os rivais. Dunga vai passar sua aplicação e garra que teve como jogador para seus comandados e reeditar a “Era Dunga”. O treinador assume hoje mais funções do que escalar e treinar o time. Ele vai ser um líder, um motivador, assumir aspectos gerenciais e ser um ator social importante nos estudos das relações entre mídia e esporte.

Dunga esbraveja com a seleção brasileira durante partida contra a Argentina. Foto: Heuler Andrey – Mowa Press.

O ambiente pós-moderno, de identidades fragmentadas, nos apresenta uma grande contradição na trajetória mítica do futebol nacional: será o técnico o nosso salvador? Nossa identidade fortemente enraizada e reeditada a cada Copa do Mundo de que um grande craque vai vencê-la para “nós” estaria dando lugar a um coletivismo gerenciado pelo treinador?

Tais perguntas são o “pontapé” inicial da pesquisa que estarei desenvolvendo nos próximos anos. Como pesquisador do LEME (Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte) investigarei como e o que falou a mídia brasileira sobre os treinadores de nossa seleção durante as vinte Copas do Mundo disputadas. O projeto se inicia no mês de dezembro de 2014 e vai recorrer a jornais impressos de circulação nacional como O Globo, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo. Ao longo da pesquisa, divulgarei os resultados preliminares através do Blog Comunicação e Esporte, aguardando os comentários dos nossos milhares de “técnicos” que “escalaram” o comincacaoeesporte.com para discutir e compreender a relação mídia e esporte.

 

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Filipe Mostaro

Doutorando em Comunicação pelo PPGCOM - Uerj com bolsa CAPES. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UERJ (2014). Possui graduação em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2006), especialização em Jornalismo Esportivo e Negócios do Esporte pela FACHA-IGEC-RJ (2012). Foi bolsista de Apoio Técnico a Pesquisa do CNPq - Nível 1A no projeto LEME (Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte) - UERJ de 2014 a 2015. Pesquisador do Grupo Esporte e Cultura da UERJ. Integra também o Grupo de Pesquisa Comunicação e Esporte, da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). Autor do livro GARRINCHA X PELÉ: influência da mídia na carreira de um jogador (2012). Atua principalmente nos seguintes temas: comunicação com ênfase em Rádio, TV, Jornalismo Esportivo, Copas do Mundo, representações, narrativas midiáticas e identidade nacional.

Como citar

MOSTARO, Filipe Fernandes Ribeiro. “Somos 200 milhões de técnicos”. Ludopédio, São Paulo, v. 64, n. 7, 2014.
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