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Torcer é afeto: uma crônica sobre Libertadores, solidão e pandemia

Mariana Mandelli 15 de fevereiro de 2021

A série “Práticas torcedoras em territórios palmeirenses” é baseada na dissertação de mestrado de Mariana Mandelli, intitulada “Allianz Parque e Rua Palestra Itália: práticas torcedoras em uma arena multiuso” (Antropologia-USP, 2018). A pesquisa de campo foi realizada entre 2015 e 2017 nos arredores do Allianz Parque com o objetivo de investigar os efeitos da modernização do estádio da Sociedade Esportiva Palmeiras entre a torcida. Confira a série de textos aqui.

Foto: Mariana Mandelli

Este é um texto que pende mais para o relato pessoal do que para a linha editorial desta coluna, cujo foco está nas práticas torcedoras palmeirenses sob uma perspectiva antropológica.

De todas as definições do que chamamos de formas de torcer nas ciências sociais, a minha preferida vem de Toledo (2010), naquele que considero um dos melhores artigos sobre o tema: “Torcer: a metafísica do homem comum”. Diz ele:

“Torcer é fustigar a esfera segura da individualidade e, nessa medida, seria como que experimentar extensões, torções e projeções do “eu” na esfera pública, ou, aproximando-nos de conceituações como as de Gell, tornar-se torcedor seria como que “distribuir a pessoa” num universo integrado por outros milhares de indivíduos, coisas, objetos, seres cosmológicos, todos arrebatados e articulados pela arte e artefato do futebol […]” (2010, p.182).

Em linhas gerais, isso significa que a ideia de torcer está relacionada a experiências compartilhadas que surgem “[…] da relação do nosso eu com outras subjetividades […]” (idem, ibidem). Ao torcer, estamos nos projetando, no plano material e imaterial. Isso se reflete em emoções, relações, objetos, espaços, instituições e, claro, em pessoas.

Qualquer imagem mental que remeta à torcida provavelmente incluirá um estádio e mais de uma pessoa devidamente uniformizada. Associamos o torcer à multidão, à aglomeração, ao convívio. Associamos a pessoas, a gente. Não concebemos o torcedor sozinho vivenciando seu clubismo.

Isso porque um campo de futebol ainda é, por definição, um espaço de festa e de encontro. É locus de pertencimento, identidades coletivas, memória acumulada, referência e uso popular, onde se ritualiza uma multiplicidade de experiências individuais e grupais frente a um espetáculo esportivo (GAFFNEY e MASCARENHAS, 2004; MASCARENHAS, 2015).

É claro que torcedor não é sinônimo exato de frequentador de estádio. Qualquer torcida, de qualquer clube, é diversa, complexa, multifacetada e geograficamente dispersa. Mas quem está de fora de alguma maneira se vê representado por quem está ali dentro, especialmente em uma partida decisiva, “empurrando” o time e incentivando os jogadores aos berros (e, por que não, xingos). Representação é, inclusive, outro vocábulo fundamental no universo torcedor.

Mesmo em tempos de arenas multiuso, em que a lógica consumo se impõe sistematicamente aos afetos torcedores, manipulando-o e vampirizando-o em prol de um lucro que nem sempre se reflete em resultados em campo, ainda é na sociabilidade que se constrói o torcer. Ainda é no coletivo que se combina e se recombina o torcer através do tempo. Ainda é em relação aos outros, inclusive rivais, que construímos nossas formas de torcer.

Esse funil do privilégio, que permite que cada vez menos torcedores acessem seus clubes e suas respectivas casas, chegou ao ápice na pandemia, com o veto de público nos estádios. A crise sanitária que vivemos extrapolou aquilo que a “arenização” já vinha enunciando: vivenciar certas emoções é para pouquíssimos.

Palmeiras campeão Libertadores 2020
Foto: Cesar Greco/Palmeiras/Fotos Públicas

Assistir in loco ao Palmeiras ser bicampeão da Copa Libertadores foi exatamente assim. Os poucos ingressos disponíveis por motivos pandêmicos transformaram o Maracanã em uma grande área VIP para convidados especiais das diretorias dos clubes e da Conmebol, além de autoridades diversas. O espírito do camarote venceu.

Dividir a “Glória Eterna” com os seus, em comunhão, em conjunto, ficou apenas no desejo. Da privação da presença, da impossibilidade de compartilhar e de “fustigar individualidades”, da solidão em uma decisão, o que sobra, afinal? Em última instância, o afeto. No limite, torcer é exatamente isso: uma evocação de afetos múltiplos e diversos, que transcendem corpos, espaços e tempos.

Simplificando qualquer definição sociológica ou filosófica, afeto tem a ver com querença, afinidade, vínculo, ligação. Significa apego, afeição. Conexão. No fim da tarde de 30 de janeiro de 2020, na minha casa em Santo André, ABC paulista, assistindo sozinha aos últimos minutos de um dos jogos mais importantes da minha vida de torcedora, tudo o que senti poderia ser resumido nessa palavra.

Afeto pelos meus avôs materno e paterno, ambos palmeirenses: um descendente de italianos, outro nascido no agreste de Pernambuco. Duas trajetórias completamente distintas de vida e de Brasil, mas ambas encontram no Palmeiras uma forma de vivenciar laços e ancestralidades e de se conectar com terras paulistas.

Afeto pelo meu pai, que vive seu sentimento alviverde da maneira mais silenciosa que já vi alguém experienciar seu clubismo. Afeto por um muito tio querido que já se foi, de uma maneira trágica, mas cujo amor pelo Palmeiras vive hoje no meu primo, que não perde um jogo e, assim, se conecta com o pai a cada rodada. Afeto por outro tio amado que ainda está aqui, e para quem essa conquista tem um peso que eu seria incapaz de dimensionar em termos de memória no sentido mais bruto da palavra.

Afeto que emergiu de uma infinidade de mensagens, memes, vídeos e áudios de amigos e amigas que, ao associarem o Palmeiras a mim, fizeram questão de se fazer presente, ainda que virtualmente, em um dia especial como aquele sábado.

Afeto por todos os companheiros e companheiras de Turiassu e Caraibas, em especial aqueles e aquelas com quem dividi o doloroso 7 de dezembro de 2014 e, um ano depois, comemorei o tricampeonato da Copa do Brasil.

Afeto (e saudade) por todos os meus companheiros de arquibancada, um grupo de quatro homens com quem aprendi a dividir sorrisos, frustrações, alegrias e cansaços, e que me ensinaram, no processo de pesquisa do meu mestrado sobre o Allianz Parque, que alguns laços se constroem no silêncio de derrotas e na expectativa de tempos melhores.

Afeto pelo discurso emocionado de um técnico novato e estrangeiro, sem nenhuma conquista no currículo, cujo esforço e vontade tremendos revelaram a série de privações a que ele se impôs para que mais de 17 milhões de palmeirenses pudessem sorrir (e chorar).

Foto: Cesar Greco/Palmeiras/Fotos Públicas

Afeto pelo improvável Breno Lopes, que se junta agora ao séquito exclusivo de atletas insólitos das conquistas alviverdes, como Oséas, em 1998, e Betinho, em 2012, jogadores para sempre marcados com um carinho peculiar que só quem vivenciou esses títulos consegue definir.

Por fim, afeto pela instituição que sempre combinou oásis e martírio no meu dia a dia e que me acompanha por quase três décadas – meu relacionamento mais longevo no qual eu deliberadamente escolhei estar. Instituição esta que, em 2020, escolheu não demitir nenhum funcionário ou funcionária, na tentativa de preservar a segurança de cerca de 700 famílias que estão direta e indiretamente relacionadas ao clube. São infinitas as críticas que se pode fazer a essa gestão do Palmeiras, mas essa postura é, sim, digna de celebração, pois sabemos que a lógica do “não fez mais do que a obrigação” não é tão simples assim.

Somos um País em luto, estamos há quase um ano vivendo uma tragédia sem precedentes. São mais de 230 mil mortos. Mais importante do que um Campeonato Paulista em cima de um rival e uma Copa Libertadores conquistada vencendo outro, é toda e qualquer tentativa de preservação de vidas, de apoio e sustentação, de olhar o outro. De afeto. Como o Palmeiras fez em 2016, ao estender a mão para a Chapecoense como nenhum outro clube fez.

Se torcer permite que a gente se distribua em infinitas pessoas e coisas, como tão lindamente delibera Toledo (2010), isso só é possível por meio do afeto que nutrimos por um escudo que representa família, amigos, saudades e amores. Para além de cânticos, performances, gestualidades, vestimentas, bandeiras e estádios, é a dimensão do sensível que habita em tudo isso o único elemento a permanecer quando todo o resto não é permitido, seja por conta da mercantilização do esporte, que afasta o povo, seja por conta de um vírus contagioso que ceifou tantas vidas e eliminou a convivência social do presente.

Torcer é um exercício de afeto dimensionado em uma multiplicidade de narrativas que se entrelaçam no agora, no passado e no futuro, de uma maneira particular que só o futebol é capaz de costurar. Em tempos em que a distância virou regra, não tem coisa mais bonita do que saber que, de alguma maneira, a gente existe e continua nos outros por meio do que não é palpável, do que não é tangível. De todos os sentidos do torcer, é esse o único que importa, afinal.

 

Referências bibliográficas

GAFFNEY, C.; MASCARENHAS, G. “O estádio de futebol como espaço disciplinar”. In: Seminário Internacional Foucault Perspectivas, UFSC, Florianópolis, 2004.

MASCARENHAS, G. “Pacificação e exclusão: o estádio de futebol na produção da cidade-espetáculo” In: XVI ENANPUR, 2015, Belo Horizonte. XVI ENANPUR – Sessões Temáticas. Belo Horizonte, 2015. v. 1. p. 1-14.

TOLEDO, L.H. “Torcer: metafísica do homem comum“. Revista de História (USP), v. 1, 2010, p. 175- 190.


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Mariana Mandelli

Jornalista graduada na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e cientista social graduada na Universidade de São Paulo (USP) com mestrado em Antropologia Social na USP.

Como citar

MANDELLI, Mariana. Torcer é afeto: uma crônica sobre Libertadores, solidão e pandemia. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 33, 2021.
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