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Duas Libertadores no mesmo ano: torcer é sofrer mas também é aprender a desfrutar

Mariana Mandelli 7 de fevereiro de 2022

[Assim como o artigo Torcer é afeto: uma crônica sobre Libertadores, solidão e pandemia, publicado nesta coluna em 2021, este é um texto mais confessional do que analítico, o que significa que não tenho nenhuma pretensão de trazer aqui uma discussão conjectural de viés sociológico ou antropológico sobre as formas de torcer.]

Por volta das 17h30 do dia 7 de dezembro de 2014, com vinte minutos de jogo, um pênalti batido por Henrique Dourado no canto esquerdo do goleiro Weverton ajudava a definir a permanência do Palmeiras na Série A do ano seguinte. Com 40 pontos, até então a menor pontuação de um time a evitar o descenso na história dos pontos corridos, o clube se livrou de ser rebaixado pela terceira vez justamente no ano de seu centenário. Mais uma campanha vergonhosa de mais uma temporada terrível, como parecia ter virado rotina.

Quase sete anos depois, no dia 27 de novembro de 2021, mais ou menos nesse mesmo horário, Weverton, agora vestindo verde e branco, comemorava o gol de Raphael Veiga, que abria o placar no Estádio Centenario na segunda final de Libertadores que o Palmeiras disputou – e venceu – em 2021.

Palmeiras
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Eu nasci em 1986, aquele ano em que a fila alviverde quase terminou. Mas surgiu a Inter de Limeira no final do caminho e o revés, aquele que também parecia ser inerente ao torcer palmeirense, continuou por mais sete anos. Não vivi, portanto, o jejum de títulos, a ânsia por um troféu, o desespero para gritar “campeão” na frente dos colegas de escola.

Uma criança palmeirense criada nos anos 90 como eu foi uma criança feliz. De 1993 a 1999, rimos e choramos, quase sempre de alegria. Por ser menina, não tinha camisa original e também não ia ao estádio, mas me orgulhava de participar das conversas dos garotos sobre futebol. Afinal, meu time tinha vencido estaduais, brasileiros e Libertadores, e mesmo vendo tudo pela televisão, eu sabia, ou pelo menos desconfiava, do tamanho daquilo. Era só observar meus avôs, meu pai, meus tios e meu primo João, um dos palmeirenses mais fanáticos que conheci. Os olhos, o tom de voz, as risadas deles… tudo estava diferente. Eram as glórias temperando o cotidiano de quem estava quase se acostumando à abstinência delas.

Não vivi a fila, mas vi e vivi as duas quedas (e as quase quedas) intensa e dolorosamente. A cadência angustiante dos dias que antecediam jogos decisivos em campanhas desastrosas é algo do qual não sinto a mínima falta, mas de que nunca me esqueci. Era tudo tão difícil, tão sofrido, tão penoso. Gestões displicentes, para dizer o mínimo; jogadores fraquíssimos; equipes mal montadas; partidas horríveis, daquelas que doíam os olhos de quem gosta minimante de futebol; torcedores e torcedoras cansados, exauridos. Penúria sendo reproduzida ano após ano.

Aprendi, então, a torcer com medo. Medo da derrota, do empate no último minuto ou nos acréscimos, do descenso, da humilhação. De mais uma humilhação – foram muitas. Afinal, se “formas de jogar são cúmplices das formas de torcer” (TOLEDO, 2010, p.180), a tragédia tática de campo se reproduz de forma emocional nas arquibancadas e nas casas de quem torce (e sofre).

Eu me lembro de tudo, especialmente do que senti naquela tarde de 7 de dezembro de 2014. A iminência de um terceiro rebaixamento me consumia a ponto de não conseguir comer e dormir adequadamente. Antes de sair de casa para ir à região do estádio acompanhar o jogo com amigos e amigas, minha mãe, vendo meu estado emocional, fez uma pergunta de que nunca esquecerei: “Se cair de novo, você vai deixar de ser palmeirense?”. “Óbvio que não”, respondi. “Então por que tanto medo?”, ela retrucou.

Eu poderia ter respondido com uma lista de coisas óbvias, mas na hora me calei. Era uma pergunta ingênua de alguém que, apesar de simpatizar com o Palmeiras, não acompanhava futebol. Ingênua, mas certeira. Aquele dia demorou mas acabou, o Palmeiras seguiu na Série A e os anos subsequentes trouxeram uma série de vitórias em clássicos, quebras de tabus e títulos[1]. E curiosamente eu percebi que não sabia direito como lidar com tudo isso, porque ainda sentia medo.

Pode parecer estranho e até patético admitir, mas isso ainda não é algo simples. Acredito que não seja a única, pois faço parte de um grupo de torcedores e torcedoras que teve que reaprender a desfrutar, a gozar, a comemorar e a se permitir a viver a conquista do mesmo jeito que chafurdou na lama. Para alguns e algumas parece mais fácil se lambuzar na fartura. Para outros e outras (meu caso), não é tão automático assim. É ele, o medo, esse velho companheiro. Como bem pontua Toledo, “torcedores não jogam, é sabido, mas se contorcem, leem uma partida com os gestos, chutam juntos com os jogadores, como se diz comumente” (2010, p.180). Então, foi preciso ensinar o corpo (e a mente) a não se contorcer de angústia e sim a expressar contento e alegria.

Palmeiras
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Como qualquer torcedora, no decorrer dos anos ressignifiquei a minha relação com meu time em tantas camadas e de tantas formas que é difícil explicar, de uma forma racional, esse processo. Há quem pense que em momentos como este que o Palmeiras vive hoje, às vésperas de disputar novamente o tal Mundial de Clubes, não se deve remoer o passado. Não acredito nisso, pois uma das coisas que aprendi torcendo foi justamente sobre a multiplicidade da minha condição humana.

Em mais de três décadas torcendo, fui de miseravelmente infeliz a completamente satisfeita, sem ignorar o tanto de sofrimento que enfrentei nesse processo. O medo ainda vem e vai em movimentos pendulares, hoje menos do que ontem. Mas (re)aprender a sentir como é a conquista me trouxe, mais forte do que nunca, a percepção de que o futebol é feito de pessoas para pessoas. E pessoas não são máquinas, nem mesmo aquelas que parecem ser, como é o caso dos atletas de alto rendimento que também falham, desistem e precisam de um tempo para si mesmos.

É por isso que a catarse oriunda de vencer duas Libertadores em 11 meses, em dois dos estádios históricos e contra dois grandes rivais brasileiros faz ainda mais sentido para mim quando penso naquele começo de noite de 2014, em o juiz apitava o fim do jogo no Allianz Parque e o Santos vencia o Vitória na Bahia. Esse jogo sentimental de oposições, que mistura dor e glória, faz parte do sistema de experiências com as quais vivenciamos o futebol e são uma boa síntese da experiência metafísica do torcer (TOLEDO, 2010). No fim, somos só pessoas e é, sim, só futebol, ao contrário do que dizem por aí. E é justamente por isso que é tão bonito.

Notas

[1] Não pretendo entrar aqui num debate sobre patrocinadores, clube-empresa e falta de transparência das relações administrativas do clube, por mais que tudo isso me angustie profundamente. Como disse no início, este texto é mais um depoimento memorial do que qualquer outra coisa.

Referências

TOLEDO, L.H. “Torcer: metafísica do homem comum“. Revista de História (USP), v. 1, 2010, p. 175- 190.

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Mariana Mandelli

Doutoranda em Antropologia Social na USP, com mestrado na mesma área e instituição, com pesquisa que investigou o processo de "arenização" do Allianz Parque. É graduada em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e em Ciências Sociais pela USP.

Como citar

MANDELLI, Mariana. Duas Libertadores no mesmo ano: torcer é sofrer mas também é aprender a desfrutar. Ludopédio, São Paulo, v. 152, n. 8, 2022.
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