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40 anos de democracia à deriva na Argentina: futebol e política (parte 1)

Fabio Perina 23 de maio de 2024

Nesse texto, dividido em duas partes, pretendo levantar pontos de aproximação entre futebol e política na Argentina nos últimos 40 anos. Mais precisamente tendo como base a coincidência de duas datas muito marcantes originalmente feitas para uma comemoração também conjunta: em 10 de dezembro de 1983, o triunfo da democracia com a posse do presidente eleito Raúl Alfonsín (após ser eleito em 30 de outubro daquele ano); porém mais recente, em 10 de dezembro de 2023, um misto de esgotamento, desalento e até desespero com essa mesma democracia com a posse do presidente eleito Javier Milei. Para isso usarei uma revisão bibliográfica muito modesta (ALABARCES, 2002; CAVAROZZI, 2006; MURZI, 2021; NASCIMENTO, 2021; HOROWICZ, 2023) e alguns poucos textos curtos auxiliares. Evitando uma saturação de inúmeros nomes, conceitos e fontes de consulta para tornar esse ensaio mais fluído, ele é produto de anos o estudo da bibliografia específica de futebol e política e por meses o estudo diário da conjuntura política para o país vizinho. Dessa forma, fica a seguir um desafio de um texto exploratório buscando tratar simultaneamente de futebol e política mesmo que diluídos em processos e contextos aparentemente pouco relacionados.

Tratar desse período entre 83 e 2023 vai muito além das conquistas épicas mundialistas de Maradona em 86 e Messi em 2022, mas mergulhar em uma espiral de acontecimentos dramáticos (e amplamente espetacularizados) e fenômenos sociais ainda mais dramáticos e recorrentes do cotidiano como hiperinflação, criminalidade, empobrecimento e até regressão colonial com a “estafa” (sinônimo de roubo) de riquezas nacionais. Infelizmente o discurso épico de Alfonsín em 83 que “com a democracia se come, se cura e se educa” ecoa muito mal em 2023. Diante de amplas parcelas da sociedade cansadas de tanta “bronca” com problemas sociais que se acumularam por uma democracia que não deu conta de administrá-los. E então decidiu se “vingar” nas urnas com a ascensão de Milei (que aprofundarei na segunda parte).

Milei Menen
Javier Milei inaugurando busto de Carlos Menem na Casa Rosada. Fonte: Wikipedia

Alfonsín teve um grande fôlego de legitimidade e iniciativas nos primeiros anos de mandato entre 83 e 86, principalmente pela imensa coragem de enviar aos tribunais e prisões os generais da ditadura (inclusive bastante desmoralizados pela derrota para os ingleses nas Malvinas). Uma conquista não apenas do governo como também da maior parte da sociedade, tendo na retaguarda um movimento de direitos humanos sólido e duradouro até hoje como um possível “bastião” de defesa dessa democracia. Contudo, o acúmulo de crises econômicas (afetando inclusive os clubes) e crises militares (como motins “carapintadas”) no triênio seguinte de 86 a 89 foram trágicas para a sociedade e principalmente para seu governo. A ponto de seu partido radical perder as eleições para o partido peronista de Carlos Menem e até antecipar a transição de governo em um claro clima de “o último que sair apague a luz”. Vale mencionar que nesse ponto, na virada dos anos 80 e 90, os “outsiders” Menem (vindo de La Rioja) e Collor (vindo de Alagoas) coincidiram em vários elementos de programa econômico e político neoliberais, e até mesmo em explorar uma imagem pública de esportistas (falarei mais no final da 2ª parte) como um “disfarce” de não serem políticos profissionais como a maioria de seus concorrentes para dessa forma tentarem cativar o jovem eleitor. Os caminhos entre os presidentes argentino e brasileiro que coincidiram ao serem eleitos em 89 logo depois se distanciaram. Pois somente o primeiro logrou organizar um aparato político duradouro de blindagem simultânea a crises econômicas (dolarização) e crises militares (indultos) para atravessar uma década inteira, apesar do drástico acúmulo de desemprego e pobreza nas classes populares (e progressivamente também as classes médias que começam a se mobilizar nas ruas).

Em um sentido mais profundo, a década de Menem acelerou os problemas do neoliberalismo com um Estado ausente para a maioria da população com a fragmentação de laços sociais coletivos e a confrontação à militância popular. O que evidente também influenciou no futebol. “A cultura futebolística argentina se apoia em discursos parciais e segmentados, tribalizados e mutuamente excludentes, onde a totalidade de algum relato unificador está ausente.” (ALABARCES, 2002). Essa afirmação sugere uma certa “compensação” na relação entre futebol e política no senso comum do cidadão médio, pela qual é pelas emoções do primeiro que a maior parte da sociedade busca algum alívio diante das frustrações no segundo. Evidente que a concepção menemista de futebol é reduzida a um produto de entretenimento na televisão privada. Sendo daqui para o restante do texto esse elemento midiático uma constante transversal a futebol e política chegando aos dias atuais.

Carlos Menen
Carlos Menen, em 1995. Fonte: Wikipedia

Mesmo buscando o que houve de mais regular entre 83 e 2023, houve um elemento de ruptura incontornável em dezembro de 2001 que em meu texto anterior busquei contextualizar quando coincidiu exatamente com o agônico fim da fila do Racing. Uma insurreição popular marcada pela palavra-de-ordem “que se vayan todos”. Acrescento como breve reflexão que essa aguda crise e implosão do sistema político contou com imagens muito impressionistas e imediatas como os saques populares a supermercados, a classe média com seus panelaços nas ruas e desesperada na porta dos bancos, repressão policial com dezenas de mortes e até mesmo o presidente Fernando De la Rua fugindo de helicóptero da Casa Rosada invadida pelas massas. Ainda assim, essas cenas impactantes por dias foram um acúmulo de mobilização e auto-organização heroica por anos anteriores tendo por base homogênea dos manifestantes populares não mais o emprego, mas a moradia e alimentação. E tendo por principal método de luta não mais paralisar a produção, mas a circulação através de “cortar calles” com “piquetes”. De tática a sujeito, essa cultura política de resistência “piquetera” perdura até os dias atuais, inclusive com uma estética bem “futbolera” como busquei mostrar em meu texto anterior.

Voltando ao futebol, além dessas e outras importantes reflexões sobre a dinâmica externa desse esporte em relação ao restante da sociedade, Alabarces é um pesquisador clássico sobre sua dinâmica interna diante do “aguante” das barras. Através do qual suas brigas e suas canções agressivas (falarei mais disso no final da 2a parte) as tornam tão singulares diante dos outros hinchas. Ou mais exatamente o que deve ser ampliado para se pensar uma “aguantização” da sociedade (termo inclusive útil para evitar criminalização da pobreza). Ou seja, uma espécie de “futebolização” dos atores sociais inclusive dirigentes, políticos e até autoridades e empresários. Afinal para as classes altas é uma importante estratégia de “disfarce” popular, inclusive para usos políticos. Tal qual uma vez declarou Maradona: “os políticos me invejam porque eles são públicos, mas eu sou popular”. Oposta à “fidalguia” de amadores dirigentes e sócios co-irmãos, o ambiente do futebol também se aprofunda em uma lógica muito mais competitiva no pós-83 assim como o restante da sociedade. Sem entrar em uma lista extensa de nomes, diversas personalidades buscaram influências mútuas de acúmulos de poder nos diversos meios: futeboleiro, político, comunicacional, empresarial e até sindicalista. Articulados “desde cima” entre si e respaldados “desde baixo” por vínculos funcionais com barras. Compondo o que usualmente a crônica política e até esportiva por lá tende a chamar de “oficialismo”. Como Hugo Moyano no Independiente, Marcelo Tinelli no San Lorenzo, Sergio Massa no Tigre e, claro, Mauricio Macri no Boca. Fazendo com que no pós-2001 o futebol seja um crescente elemento influenciador das eleições seja quanto a temas de medidas de governo e sobretudo quanto a posições de candidatos na sociedade e suas possíveis bases de apoio “naturais” nos clubes e por consequencia nos bairros mais populares. Um fenômeno duradouro e arraigado que se assimila ao duplo movimento descrito por Cavarozzi (2006): declínio do Estado (como investidor econômico e garantidor de direitos sociais) e ascensão de um sistema político de coalizões eleitorais supra-partidárias tão plurais quanto instáveis. Sendo no pré-2001 o esboço de bipartidarismo liberal teve o Partido Justicialista (peronistas) e a União Cívica Radical (radicais); enquanto no pós-2001 as principais coalizões tiveram nomes muito sugestivos no campo peronista-kirchnerista (Frente de Todos e Unión por la Patria) e no campo macrista (Cambiemos e Juntos por el Cambio). Muito simbólico também que o mesmo termo “interna” é usado pela crônica política e esportiva para tratar de disputas entre políticos ou barras dentro de uma mesma organização.

Na cena política eleitoral após 2001 a progressiva polarização (conhecida como “grieta”) por cerca de duas décadas entre, de um lado, o kirchnerismo como uma reorganização do peronismo (e até do próprio sistema político recém implodido); e de outro lado, o macrismo ocupando o papel da direita com o declínio do partido radical para explorar uma imagem jovem e descontraída, embora liderado por empresários monopolistas e “gurus” do marketing político, inclusive através do futebol. Em meu texto anterior busquei explorar o reflexo dessa polarização no futebol, vide a reação imediata do governo de Cristina Kirchner foi também pautar esse esporte em sua agenda política para também “marcar la cancha” e não permitir que esse se tornasse um “bunker” político da nova oposição buscar seu acúmulo de forças até conquistar o governo. Principalmente no contexto de 2008 e 2009 quando abriu fortes enfrentamentos com a elite agrária e midiática. Dessa forma buscou legitimidade popular com o programa “Futbol para Todos” de televisionamento público e gratuito de todas as partidas da primeira divisão. Junto a uma federalização do futebol local com o novo torneio da Copa Argentina com sedes neutras e várias províncias sendo análogo ao clientelismo federalista pelo qual o sistema político foi reconstruído pelo kirchnerismo (ele próprio também um “outsider” vindo do sul patagônico). Em suma, nos rastros de Murzi (2021), foi uma aliança tática de Grondona e Kirchner para retardar a ascensão acelerada do macrismo. Sendo icônicas as imagens da época muito singulares: as invenções da sua ala juvenil conhecida como “La Campora” (com uma estética bem futeboleira e ainda vigente), grandes barras erguendo bandeirões “Clarin mente” e até mesmo da Hinchadas Unidas Argentinas (HUA) para as Copas do Mundo de 2010 e 2014. Muito simbólico a analogia com a política que se nas décadas anteriores a seleção teve uma hegemonia de uma grande barra como do River ou do Boca, nesses casos houve uma ampla coalizão com dezenas de barras. Pouco depois, entre 2016 e 2019, Macri tal qual Menem usou o futebol não somente como imagem pública eleitoral, mas como ofensiva neoliberal de pautas de governo com propostas diante de economia e segurança, que aqui não irei desenvolver, mas deixo uma relevante indicação (NASCIMENTO, 2021).

Macri
Mauricio Macri jogando futebol de praia com a camisa do Boca Juniors, clube onde foi presidente. Foto Wikipedia.

Em suma, como desfecho parcial desta primeira parte, se Alabarces acerta ao identificar os aspectos negativos desse fenômeno de “des-nacionalização” do hincha (bem distinto da representação peronista dos anos 40 e 50 de associar o “nacional” com o “popular”), deixo uma modesta réplica que ele não identificou os aspectos positivos: a imensa massa associativa votante nos clubes profissionais e a imensa participação comunitária nos clubes sociais de bairros. Diante das várias ofensivas neoliberais dos últimos anos, felizmente no setor específico do futebol não foi possível avançar ainda ao projeto de clube-empresa. Por causa de uma soma de fatores de falta de coesão de dirigentes e parlamentares e sobretudo por sócios e hinchas “librando batallas” nos clubes e até nas ruas. Sintomático que de lá para cá Macri cruzou em 3 ocasiões um projeto político pessoal com um projeto de reorganização do futebol nacional. Primeiro, em 98, enquanto presidente do Boca em pleno governo Menem. Depois, em 2018, enquanto presidente do país. E por fim, em 2023-24. logo depois do fracasso de seu partido e sua coalizão na eleição presidencial (e a consequente fragmentação), veio a eleição no Boca (inclusive com grande repercussão na mídia brasileira) quando buscou retomar o controle do clube e através dali “marcar la cancha” ao apostar novamente nesse seu projeto político pessoal e com isso tanto reorganizar seu próprio campo político quanto ganhar posições para influenciar o governo Milei. Mesmo perdendo novamente, dessa vez para o ex-jogador Riquelme, nos últimos meses tenta se re-posicionar na política através de um co-governo com Milei pela convergência da agenda neoliberal. Temas recentes que detalharei mais na 2a parte.

Referências Bibliográficas

ALABARCES, Pablo. Cidadania e narrativas nacionais do futebol argentino contemporâneo. Revista Eco-Pós, v. 5, n. 1, 2002.CAVAROZZI, Marcelo. Autoritarismo y democracia 1955-2006, Buenos Aires: Ed. Ariel, 2006.

CAVAROZZI, Marcelo. Autoritarismo y democracia 1955-2006, Buenos Aires: Ed. Ariel, 2006.

MURZI, Diego. Fútbol, violencia y estado: una historia política de la seguridad deportiva en Argentina. Prometeo Libros SA, 2021.

NASCIMENTO, Jefferson. ¿Futuro por pasado?: “Tabelinha” entre Menem e Macri na gestão dos interesses organizados do futebol. Revista Convergência Crítica. Niterói, v. 1, n. 19, p. 1-31, 2021

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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. 40 anos de democracia à deriva na Argentina: futebol e política (parte 1). Ludopédio, São Paulo, v. 179, n. 25, 2024.
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