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A barbárie que mata o futebol é a mesma que corrói a sociedade

Na tentativa de fazer o cruzamento, o jogador do time visitante consegue um escanteio. A cobrança é certeira e a trajetória da bola encontra o pé do camisa 9, que toca para balançar as redes e sai comemorando o gol de braços abertos. O futebol é assim, ou pelo menos deveria ser, mas nos últimos dias, o que vem chamando atenção não são os lances nem os gols, mas sim a violência.

A descrição acima é do gol de Julio César Furch, jogador do Atlas Fútbol Club, do México. A partida diante do Querétaro aconteceu no último dia 5 de março, válida pela nona rodada da Liga Mexicana, no Estádio La Corregidora e mostrou um lado obscuro e assustador do futebol, uma ótica que nem de longe tem quem queira ver dentro de campo.

A rede balançou aos 15 minutos do segundo tempo. E depois disso, não se viu mais futebol. As torcidas entraram em confronto. As arquibancadas foram tomadas por socos, empurrões e a briga generalizada acabou invadindo o campo. Os jogadores saíram de cena, escaparam pelos túneis que dão acesso aos vestiários do estádio, e o gramado foi tomado pela pancadaria.

A briga

Um grupo de torcedores do Querétaro se agitou nas arquibancadas do estádio e isso logo tomou proporções maiores. Esse grupo acabou atravessando a cerca que os impossibilitava de chegar à zona neutra da torcida. Nas fileiras do setor norte, os seguranças notaram que a organizada do clube da casa vinha naquela direção, porém, o efetivo pequeno não conseguiu controlar os indivíduos. Há também vídeos que mostram que os seguranças abriram os portões para que os agressores passassem. Veja as cenas. 

Alguns torcedores do Atlas, que estavam em menor número quando comparados à quantidade de pessoas identificadas como torcedores do Querétaro, contornaram as arquibancadas e invadiram a área do time da casa. Foi quando um torcedor invadiu o campo e chamou a atenção dos jogadores, ele foi puxado por Washington Aguerre, mas a ação não impede que todo o resto da torcida do Atlas invada o campo e, em seguida, protagonize as péssimas imagens de violência que marcaram a partida.

Ao todo, 26 pessoas ficaram feridas nesse triste episódio. Outras dez pessoas acabaram presas entre os dias 7 e 8 de março, depois que a promotoria da cidade de Querétaro começou a investigar o ocorrido e analisou imagens de segurança do estádio e também os vídeos que circularam na internet. Cinco funcionários do estádio foram afastados.

Rivalidade

Esse não é o primeiro caso de selvageria envolvendo esses dois times. Na verdade, a rivalidade entre eles começou em 2007, quando o Atlas venceu o Querétaro por 2 a 0, na última rodada daquela temporada, e acabou rebaixando o adversário para a segunda divisão da Liga Mexicana. Na época, a torcida do Atlas zombou – e muito – da situação e isso gerou os primeiros conflitos entre as organizadas.

Dois anos depois, os Gallos, como também é chamado o time do Querétaro, conseguiram o acesso para a primeira divisão da Liga Mexicana. A partir disso, algumas brigas aconteceram ao longo dos anos o que acabou consolidando a rivalidade entre os torcedores das duas equipes. Em 2013, por exemplo, duas organizadas se enfrentaram também no estádio La Corregidora e protagonizaram cenas de violência, porém, não como a barbárie de 2022.

Existiram tentativas de aplicar a regra da torcida única em jogos desses dois times, porém, foi pouco usada e, com o passar do tempo, a medida acabou sendo esquecida.

Punições

No último dia 08 de março, a Assembleia Extraordinária dos donos dos times do México, uma vez que os times são privados, fez uma reunião e determinou algumas punições. A atual diretoria do Querétaro acabou suspensa do futebol local por cinco anos, o que faz com que o antigo grupo retorne ao poder do clube. Além disso, o time foi multado em 1,5 milhões de pesos mexicanos (equivalente a 360 mil reais).

Estádio La Corregidora, casa do Querétaro FC. Foto: Wikipédia.

O estádio La Corregidora ficará fechado por um ano, e os Gallos só poderão jogar em campo neutro, de portões fechados, isso inclui todas as categorias do time. A torcida do Querétaro acabou suspensa das arquibancadas por três anos como mandante, e um ano como visitante. Além disso, durante esse período de suspensão, o Querétaro ainda vai jogar no mesmo estado, porém, o governo local é que deve promover a segurança dos jogos em um raio de três quilômetros ao redor do estádio. O Atlas também terá sua torcida organizada suspensa dos estádios por três anos.

A Liga Mexicana determinou que todos os times deverão fazer um cadastro digital dos membros de suas torcidas organizadas. A medida será implantada para tentar identificar rapidamente e punir as pessoas que se envolverem em casos de violência, assim, somente torcedores cadastrados poderão ter acesso aos estádios. O governo dispensou os serviços da empresa G. E. S.K9, que havia sido contratada pelo Querétaro para fazer a segurança dentro do estádio.

O futebol no mapa da violência

Em seu perfil no Twitter, Mikel Arriola, presidente da Liga Mexicana comentou o episódio: “Inadmissível e lamentável a violência no estádio do Querétaro. Tomaremos medidas drásticas contra os responsáveis pela ausência de segurança no estádio. A segurança de nossos jogadores e torcedores é a prioridade. Seguiremos os informando”.

A FIFA também se posicionou e apresentou a seguinte nota:

A Fifa está chocada com o trágico incidente que aconteceu no estádio La Corregidora, na cidade de Querétaro, durante o jogo entre Querétaro e Atlas. A violência foi inaceitável e intolerável.

A Fifa está em contato com a Associação Mexicana de Futebol e a Concacaf para condenar esse bárbaro incidente e para encorajar as autoridades locais para aplicar justiça rápida aos responsáveis. Nossos pensamentos estão com todos aqueles que sofreram as consequências.

Mais uma vez, a Fifa gostaria de enfatizar que a violência não deve ter absolutamente lugar nenhum no futebol e vamos continuar trabalhando em todos os setores para erradicá-la do nosso jogo.

E a Federação Mexicana de Futebol informou que “lamenta e condena os acontecimentos ocorridos esta tarde no Estádio La Corregidora, em Querétaro, no jogo entre Querétaro e Atlas. O futebol deve ser um espaço de convivência saudável onde qualquer tipo de violência é inadmissível.” e que “acompanhará e auxiliará no processo de investigação junto às instâncias correspondentes para que os responsáveis sejam punidos de forma exemplar”.

Considerando que no México o futebol é privado, há um compartilhamento de responsabilidades também com o poder público. Tanto os donos dos clubes como o governo devem garantir a segurança das pessoas dentro dos estádios. Além disso, apesar do país não ter um futebol violento, se comparado a outros países como Argentina e Brasil, é possível afirmar que a violência a qual está exposta a sociedade mexicana chegou também ao mundo da bola e foi materializada na selvageria no estádio La Corregidora.

Mais do que nunca, o futebol adentrou o mapa da violência. E as declarações apresentadas acima não fazem nada além do mínimo, que é lamentar. Espera-se que busquem meios de conscientizar as pessoas por meio de campanhas sobre paz nos estádios, sobre o poder social do esporte, no entanto, para além disso, é imprescindível que mostrem à sociedade que o futebol não é um universo paralelo às punições e às leis.

 

O caso do futebol mexicano dialoga diretamente com a violência brasileira. Nas últimas semanas assistimos à uma escalada nos casos violentos em agressões a alguns clubes. Os ataques aos ônibus de Grêmio e Bahia, a invasão de campo no rebaixamento do Paraná e a faca no gramado numa partida da Copa São Paulo de Júniores são exemplos de que o futebol está imerso na onda de selvageria que assola a sociedade.

A proximidade entre as situações de Brasil e México é tamanha que Abel Ferreira, técnico do Palmeiras e uma das figuras que tem ajudado a reposicionar o futebol brasileiro mundialmente, chegou a dizer em entrevista coletiva que repensará sua permanência no país caso aconteça algo parecido com o episódio mexicano:

“Muitos episódios graves estão ocorrendo no futebol. Não podemos olhar sem que esses clubes e pessoas sejam punidos. Ministério Público. É nível social, tem que dar a cara. Hoje entrei nessa entrevista coletiva e me falaram que houve rixa no jogo, com uma morte. Quantos mais vão morrer? Os organismos do futebol e de fora precisam dar a cara, exercer os cargos, justificar o cargo. Quando não ganho, tenho responsabilidade. E espero que cada um assuma sua responsabilidade pelo bem do futebol brasileiro. CBF, estaduais, MP. Que se tomem medidas. Na Europa se acabou com os hooligans. Todos falam do melhor futebol lá, mas já foi uma miséria. Precisamos agir. Palavras são levadas com o vento. Segurança me preocupa muito”, disse Abel.

“Quando entrei aqui e vi as imagens no México e me dizem que se passa a mesma coisa no Brasil, vou ter que pensar muito bem no que quero para minha família, para mim e meus jogadores. Quem organiza precisa dar a cara e tomar medidas. Não podemos fingir que nada está acontecendo. Outros jogadores e técnicos falaram. Posso ser rival, mas respeito a vida. No futebol não vale tudo. É vida. A vida tem valor. Se vemos isso e não fazermos nada, estamos mal. Precisamos dar o exemplo. Os responsáveis e organizadores precisam ser os primeiros. CBF, estaduais, MP. Todos precisam se juntar. Ou temos que trocar por quem faça acontecer. O que estamos esperando?” completou.

A reflexão de Abel se torna ainda mais forte quando contextualizamos o momento vivido no futebol brasileiro: há pouquíssimo tempo, os estádios estavam vazios em razão da pandemia. A volta dos torcedores às arquibancadas foi muitas vezes colocada como tábua de salvação para clubes e mesmo para o futebol, mas a onda de violência que tem varrido os espaços esportivos nessas semanas nos impõe uma dura realidade: a barbárie que mata o futebol é a mesma que corrói a sociedade. Sem esforços conjuntos de poder público e agremiações, fatalmente o futebol morrerá, mas antes muitos mais também perderão a vida.

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Lúcia Oliveira

Amante da comunicação, da escrita, da fotografia, do futebol, da literatura, do jornalismo, entre outras coisas. Escrevo para eternizar e vivo para escrever.

Como citar

OLIVEIRA, Lúcia. A barbárie que mata o futebol é a mesma que corrói a sociedade. Ludopédio, São Paulo, v. 153, n. 15, 2022.
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