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A transformação dos Jogos Olímpicos: comparando Tóquio 1964 com Tóquio 2020

Marcelo Weishaupt Proni 23 de julho de 2021

Comparar as duas Olimpíadas de Tóquio (Japão) permite constatar um aumento expressivo no número de atletas, de competições, de jornalistas, de telespectadores, mas as mudanças qualitativas são ainda mais importantes. Além da proibição de público nos ginásios, piscinas e estádios, na edição atual (e que não foi realizada em 2020 por causa da pandemia) há outras diferenças mais significativas – inclusive no que se refere à atuação do Comitê Olímpico Internacional.

Os Jogos Olímpicos foram criados no final do século XIX (primeira edição: Atenas 1896). Ao longo do século XX, passaram por uma profunda transformação. Nas primeiras décadas, eram um conjunto de torneios restritos a esportistas amadores de países selecionados. Em Berlim 1936, assumiram uma importância que extrapolava o âmbito esportivo. A partir de Londres 1948, em meio à guerra fria, as Olimpíadas ganharam expressão por causa da disputa entre nações capitalistas e nações socialistas. Os Jogos de Roma 1960 marcaram o início da transmissão ao vivo pela televisão (a cerimônias de abertura e encerramento, mais algumas competições olímpicas, foram vistas ao vivo em países europeus e por meio de gravações em outros continentes), o que contribuiu para popularizar as Olimpíadas e dar maior projeção internacional para campeões olímpicos. Naquela época, os Jogos estavam começando a se transformar em “megaevento”[1].

Os Jogos de Tóquio 1964 contaram com 93 delegações nacionais e tiveram a participação de 5.151 atletas (4.473 homens e 678 mulheres: 86,8% e 13,2%), distribuídos em 19 modalidades esportivas (25 torneios). O custo total daquela edição, somando a construção e reforma de instalações e os gastos operacionais, foi estimado em US$ 300 milhões (valor atualizado para 2020). Na época, as tecnologias usadas nessas instalações eram relativamente simples. Por exemplo, a pista de atletismo ainda tinha um piso tradicional (em 1968, começou a ser usada uma pista de atletismo feita de material sintético, mais adequado para o desempenho esportivo em todas as condições climáticas). A grande novidade foi o uso de um cronômetro com precisão de centésimos de segundo sincronizado com a batida de mão dos nadadores e com uma câmera fotográfica que captura a chegada dos corredores.

Por sua vez, os Jogos de Tóquio 2020 reunirão 206 delegações nacionais, sendo prevista a participação de 11.238 atletas (5.754 homens e 5.484 mulheres: 51,2% e 48,8%), distribuídos em 33 modalidades esportivas (50 torneios). O custo projetado inicialmente, incluindo os gastos operacionais e os gastos com instalações esportivas, centro de mídia e vila olímpica, foi de US$ 5,8 bilhões (que seriam cobertos com as cotas de patrocínio, licenciamento de produtos, venda de ingressos e fundos do COI). As tecnologias esportivas mais avançadas estarão à disposição dos atletas olímpicos para viabilizar a quebra de recordes e performances inesquecíveis.

Em 1964, foi a primeira vez que os Jogos foram transmitidos via satélite, em tempo real, com uma grande novidade: o replay em câmera lenta. Por isso, ficaram conhecidos como a “Olimpíada da TV”. O COI recebeu US$ 1,6 milhão (valor da época) pelos direitos de transmissão. A NHK (canal japonês) fez um total de 167 horas de cobertura ao longo de 15 dias, ao passo que a NBC (canal norte-americano) transmitiu 14 horas no total. Cerca de 70% das imagens foram gravadas em preto e branco, mas os 30% de imagens coloridas encantou os telespectadores (e, em 1965, o público nos cinemas). Também foi a primeira vez que os resultados das competições foram registrados por computadores (programa desenvolvido por engenheiros japoneses da IBM), permitindo agilidade na atualização do banco de dados e facilitando a divulgação de relatórios instantâneos para informar a imprensa.

Atualmente, os Jogos Olímpicos são transmitidos para um público-alvo potencial de 5 bilhões de telespectadores – por meio da televisão aberta e por assinatura e da internet – por mais de 100 emissoras de TV para mais de 200 países. A receita proveniente dos direitos de transmissão desta edição alcança quase US$ 3 bilhões. Durante os 17 dias oficiais do megaevento, muitos canais de televisão vão superar 350 horas de transmissão. No total, somando suas diversas plataformas, a NBC-Universal (EUA) vai transmitir cerca de 7.000 horas de cobertura, enquanto o Discovery Eurosport transmitirá 4.000 horas de cobertura, disponibilizada em 48 territórios. A Olympic Broadcasting Services (OBS), responsável pela cobertura ao vivo dos Jogos (televisão, rádio e internet), está programada para produzir mais de 9.000 horas de conteúdo (30% a mais do que no Rio 2016). A cobertura utilizará ângulos de câmera únicos, repetições em 360 graus e realidade virtual, e oferecerá muitos dados analíticos processados por inteligência artificial.

Cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. Foto: Breno Barros/rededoesporte.gov.br.

Os Jogos de 1964 contribuíram para difundir a imagem de um novo Japão, reconstruído após a II Guerra Mundial, uma sociedade próspera e pacífica, aberta para o intercâmbio com o Ocidente. Tóquio recebeu os turistas estrangeiros vindos para presenciar os Jogos com uma arquitetura arrojada e uma infraestrutura urbana renovada: duas novas linhas de metrô, um novo sistema de esgoto, um aeroporto moderno, o primeiro trem-bala do mundo, um novo porto. Estima-se que tais investimentos custaram, na época, mais de US$ 2 bilhões (que correspondem atualmente a mais de US$ 6,5 bilhões).

Para a edição de 2020, os investimentos em infraestrutura urbana foram estimados inicialmente em US$ 6,8 bilhões. Somando com o orçamento do Comitê Organizador, o custo total seria de US$ 12,6 bilhões. Porém, o adiamento dos Jogos para 2021 fez o custo se elevar para US$ 15,4 bilhões (e estimativas não oficiais apontam para um dispêndio total superior a US$ 25 bilhões).

Quando sediou Tóquio 1964, o Japão pretendia se tornar uma potência tecnológica e um destino turístico bastante atraente. Ou seja, numa conjuntura de prosperidade da economia japonesa, os Jogos serviriam como catalisador do crescimento econômico e reforçariam a imagem de Tóquio como uma metrópole de vanguarda.

A situação atual do Japão é bem diferente: uma economia desenvolvida, mas estagnada; uma sociedade rica e com elevado IDH. Tóquio já é considerada uma metrópole tecnológica, mas tem sofrido com a concorrência de Beijing (Pequim). Portanto, o propósito de sediar os Jogos também é diferente. Com Tóquio 2020 seria possível promover o multiculturalismo, ressaltar a hospitalidade do povo japonês e mostrar os encantos do país para reforçar a indústria do turismo. Contudo, a pandemia inviabilizou tais pretensões. Além disso, pretendiam demonstrar o uso de novas tecnologias para melhorar a qualidade de vida da população, ajudando a impulsionar a liderança de empresas japonesas de alta tecnologia. A intenção era que o público pudesse interagir com os robôs e a internet das coisas. Contudo, como isso não será mais possível nos ginásios e arenas, a alternativa é mostrar os atletas na vila olímpica.

É relevante mencionar outra frustração: o governo japonês prometeu como legado a reconstrução de áreas devastadas pelo tsunami e pelo consequente desastre nuclear de 2011. Mas o projeto de recuperação de Fukushima e o compromisso com a preservação do meio ambiente acabaram ficando em segundo plano.

A população de Tóquio foi proibida de assistir aos Jogos, ficou impossibilitada de lucrar com o turismo e despertou para a realidade de que os prejuízos financeiros causados pelos Jogos serão pagos com seus impostos. Por isso, um número crescente de residentes está questionando as autoridades: Afinal, por que devem fazer este sacrifício? E quem serão os beneficiados?

Portanto, a comparação entre as duas edições é bastante ilustrativa para entender continuidades e rupturas. Mas é crucial explicar que a transformação dos Jogos não decorreu de um desdobramento natural do seu progressivo crescimento quantitativo. Na verdade, tal crescimento provocou uma “crise de identidade” no Movimento Olímpico. Diante da necessidade de abandonar o amadorismo e o idealismo excessivo para manter a chama acesa, houve uma ruptura qualitativa na concepção e realização do megaevento.

Quando Juan Samaranch assumiu a presidência do COI, em 1980, o Olimpismo estava em crise por razões políticas e econômicas. O boicote dos EUA e alguns aliados aos Jogos Olímpicos de Moscou, certamente, seria retribuído com o boicote da URSS e seus aliados aos Jogos de Los Angeles. Além disso, o custo para sediar o megaevento havia aumentado muito (a prefeitura de Montreal ficou altamente endividada por conta dos Jogos de 1976), o que desencorajava as candidaturas. Era preciso, portanto, conseguir patrocinadores para ajudar a financiar os gastos com instalações esportivas de qualidade e infraestrutura de apoio às delegações.

Desde Pierre de Coubertin, o COI havia defendido a neutralidade das Olimpíadas no terreno das relações diplomáticas, a blindagem contra interesses econômicos e a preservação do amadorismo entre atletas e dirigentes. Inicialmente, o financiamento dos gastos para a realização das competições era provido por ricos aristocratas beneméritos, mas a progressiva expansão do número de atletas e de modalidades esportivas (exigindo maior investimento e logística) tornou necessário recorrer aos governos responsáveis pelas sedes.

Sob a liderança de Samaranch, o Olimpismo foi reinventado. A metamorfose começou com o papel assumido pelo marketing olímpico nos Jogos de Los Angeles 1984 e se completou nos Jogos de Barcelona 1992, após o fim da guerra fria, a queda do Muro de Berlim e a implosão da URSS. O “maior espetáculo esportivo do planeta” ganhou uma enorme projeção à medida que avançava a globalização econômica. Nessa nova era, foi formulado um novo discurso para legitimar as mudanças nas diretrizes que passaram a nortear a organização e realização das Olimpíadas.

A participação de atletas profissionais começou a ser liberada a partir de Seul 1988. Mas o divisor de águas veio em Barcelona 1992 com a presença do “dream team” norte-americano no basquete masculino. Era fundamental, no projeto de marketing olímpico recém-criado, a presença dos melhores atletas do mundo (na maioria das modalidades) para valorizar os espetáculos. A partir de então, os valores de patrocínio e de direito de transmissão se multiplicaram, enriquecendo o COI. Depois de reformular a Carta Olímpica e passar a ressaltar a contribuição fundamental do marketing olímpico na nova era dos Jogos, Samaranch completou a transformação do COI numa corporação internacional peculiar, administrada para expandir o poder e a riqueza de seus “controladores”.

Nessa nova era, os Jogos Olímpicos se tornaram uma superprodução midiática norteada por uma eficiente gestão econômica, que envolve complexas relações entre agentes nacionais e internacionais, exige grande capacidade de planejamento e supõe uma cooperação harmônica entre o setor público e o setor privado. No longo período de preparação da cidade-sede abre-se um espaço de interação onde se revelam conflitos de interesses e se coloca a questão da “governança”[2].

O COI aumentou as exigências e obrigações impostas aos governos que vencem a disputa para sediar os Jogos, nas últimas décadas, para assegurar a qualidade do megaevento, valorizar o espetáculo e aumentar o lucro do negócio. Evidentemente, a estratégia de valorização do patrimônio intangível do COI depende do compromisso assumido pelas prefeituras, governos regionais e governos nacionais de arcar com eventuais prejuízos que possam ser causados por acontecimentos imprevistos.

Tóquio 2020
Cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. Foto: Breno Barros/rededoesporte.gov.br.

Os impactos econômicos positivos que os Jogos de 2020 poderiam produzir foram evaporados pela pandemia que se espalhou pelo globo no ano passado. O adiamento do megaevento acarretou grande prejuízo financeiro ao Comitê Organizador (além da perda de uma receita com ingressos estimada em US$ 800 milhões, criou-se um impasse com dezenas de patrocinadores japoneses, que investiram mais de US$ 3 bilhões e agora querem desvincular sua marca) e, principalmente, para o governo metropolitano, que deve bancar o estouro do orçamento. Parcela crescente da população de Tóquio passou a rejeitar a realização dos Jogos por causa do medo da pandemia. Grande parte da opinião pública japonesa foi convencida de que o exagerado gasto público no megaevento não vai deixar um legado positivo para o país. Ninguém mais acredita que estes serão os “Jogos Olímpicos da Recuperação” ou que ajudarão a estimular a economia japonesa.

É provável que as Olimpíadas (tanto de verão como de inverno) continuem se transformando, nas próximas décadas, porque o mundo vai mudando e as sociedades vão se reinventando. Por exemplo, nesta edição, o basquete 3×3, o BMX freestyle, a escalada esportiva, o surfe e o skate foram incluídos como modalidades olímpicas. O crescimento e a maior visibilidade dos Jogos Paralímpicos é outro bom exemplo de mudança positiva. Ao mesmo tempo, com a influência crescente da racionalidade neoliberal no campo esportivo, a disputa entre nações vai aos poucos sendo sobreposta pela disputa entre grupos econômicos, e os atletas vão perdendo o sentimento de que representam uma nação para assumirem, cada vez mais, posturas autocentradas (projeção pessoal) ou para defenderem bandeiras cosmopolitas (como o combate ao racismo). De qualquer modo, não há dúvida de que o Olimpismo não é mais o mesmo e o próprio COI se converteu no oposto do que queria seu criador.


[1] Ao final do século passado, o termo “megaevento esportivo” passou a ser utilizado em referência a torneios que (1) reúnem os principais astros da respectiva modalidade, (2) possuem repercussão mundial graças à cobertura da mídia internacional, (3) são um produto altamente valorizado da indústria do entretenimento, (4) requerem planejamento sofisticado e organização complexa, e (5) deixam um legado duradouro para a cidade-sede ou o país-sede.

[2] Os megaeventos esportivos estimulam o discurso sobre a necessidade de maior sinergia entre as autoridades governamentais e grandes corporações empresariais, embora os instrumentos de regulação pública tenham perdido a capacidade de conter o poder de grupos econômicos. Falar em governança implica apreender o conjunto de instituições, mecanismos, relacionamentos e processos, formais e informais, envolvendo o Estado, entidades esportivas, patrocinadores, mídia e cidadãos, por meio dos quais os interesses coletivos são articulados, direitos e deveres são estabelecidos e diferenças são mediadas. Por isso, o debate sobre os impactos e legados de um megaevento remete para a estrutura de governança existente.

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Marcelo W. Proni

Docente do Instituto de Economia da UNICAMP.

Como citar

PRONI, Marcelo Weishaupt. A transformação dos Jogos Olímpicos: comparando Tóquio 1964 com Tóquio 2020. Ludopédio, São Paulo, v. 145, n. 45, 2021.
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