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Acervos e coleções varzeanas

Este texto integra a série especial Santa Marina, o circuito varzeano de SP e a preservação dos clubes esportivos populares, publicada na coluna Em defesa da várzea do portal Ludopédio. O principal objetivo é colocar em debate a urgência de garantir a reprodução e continuidade das práticas populares esportivas e culturais nas cidades brasileiras. Os textos, que serão publicados quinzenalmente ao longo de 2023 e 2024, apresentarão as atividades, etapas, metodologias, resultados e principais reflexões do “Mapeamento do Futebol Varzeano em São Paulo”, realizado em 2021, sob encomenda do Núcleo de Identificação e Tombamento (NIT) do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Prefeitura do Município de São Paulo, a fim de reunir subsídios para identificar práticas culturais relacionadas ao futebol de várzea e para analisar processos administrativos de proteção do patrimônio cultural. Além disso, diante de um contexto marcado por reiteradas ameaças aos espaços urbanos onde se pratica o futebol popular, esta série busca colocar em discussão o caso do Santa Marina Atlético Clube (SMAC), clube amador centenário cujo espaço de atuação vem sendo ameaçado por um pedido de reintegração de posse pela multinacional Saint-Gobain.


No texto anterior abordamos algumas questões sobre as múltiplas formas de representação de memórias e histórias dos futebóis, expressas por meio de objetos tangíveis e intangíveis que estão presentes tanto em locais de prática do esporte quanto em acervos particulares e de instituições diversas. Neste texto, o décimo da série publicada quinzenalmente no portal Ludopédio, retomamos a discussão sobre as formas e particularidades da representação de memórias e registros de narrativas do futebol varzeano da cidade de São Paulo a partir de alguns acervos e coleções mantidos e preservados por clubes e equipamentos esportivos.

Coleção da Associação Atlética Açucena

A Associação Atlética Açucena (AAA) é um time de várzea paulistano fundado em 08 de agosto de 1924, cuja história está diretamente ligada à formação do bairro do Limão, Zona Norte da cidade de São Paulo. A fundação do A. A. Açucena ocorreu um mês após a extinção do Açucena Clube, agremiação carnavalesca também conhecida como Flor do Limão formada em 1912, no bairro da Barra Funda e representada pelas cores alviverdes. Os nomes dos dois clubes homenageiam a flor de Açucena, planta robusta de coloração vermelha e branca. O time de várzea A. A. Açucena fez uso, na criação de seu fardamento, dessas cores. Também se especula que a escolha cromática está relacionada ao São Paulo F.C., clube favorito da maioria das famílias fundadoras do time.

Açucena

Itens da Coleção A A Açucena sob a posse de Dirceu Palaes. Fonte: Acervo Museu do Futebol

O Açucena era composto por negros, descendentes de imigrantes, trabalhadores, operários e comerciantes, que formaram fiéis torcedores, jogadores, entusiastas e associados – algo estimado em torno de 600 a 700 sócios ao longo de toda a sua existência. O clube liderou os principais campeonatos de futebol amador durante as décadas de 1940 a 1950. Colecionou títulos dos campeonatos de futebol amador organizados pela Federação Paulista de Futebol (FPF). Vinte caminhões de areia transportavam torcedores fanáticos do bairro do Limão na época. Ao chegar ao local onde as partidas eram realizadas, colocavam-se em coro, atrás do gol adversário.

Por décadas, o Açucena treinou no campo cedido pela Paróquia Santo Antônio, na antiga Avenida Tomaz Edson (hoje Avenida Professor Celestino Bourroul), em um terreno de pouco valor econômico, encharcado pelas extintas curvas do rio Tietê. Um terreno ocioso foi transformado na metade de um campo de futebol cuja outra parte seria completada com a anexação de um terreno particular, por meio de um acordo entre seu proprietário e a igreja, a fim de possibilitar o uso recreativo e esportivo do espaço pelos moradores do entorno.

A perda da metade do terreno particular do campo de futebol do Açucena foi narrada como o fato que marcou o fim do time. Sem lugar para jogar, as atividades e os treinos foram comprometidos no ano de 1969. O Açucena, já sem campo, viu-se obrigado a fechar sua sede social e seus troféus e diplomas foram recolhidos às casas de seus últimos diretores, entre eles: o Dr. Álvaro Simões de Souza e Florentino Carvalho de Lima. Outro terreno, na Rua Jacofer 615, onde se localiza hoje o Centro de Tradições Nordestinas (CTN), foi cedido pela prefeitura ao time. Por impedimentos burocráticos, o espaço nunca foi ocupado à época e, aos poucos, os compromissos relacionados ao clube perderam-se no esquecimento.

O clube chegou a ter sede própria, em frente à igreja, onde eram organizadas reuniões, bailes e confraternizações. Parte da memória do Açucena permaneceu por muitos anos nesse endereço – flâmulas, fardamento, fotografias, certificados e troféus -, quando, no início da década de 1970, perdeu o seu campo e foi obrigado a fechar as portas de sua sede, dividindo entre os associados o patrimônio do time.

Nos últimos anos, Dirceu Pelaes, professor de Geografia e coordenador de ensino aposentado, formado pela Universidade de São Paulo, filho de um dos últimos associados envolvidos na direção da Associação Atlética Açucena, passou a preservar as memórias e acervos do clube do Limão – apesar de nunca ter jogado na equipe de futebol. Com o falecimento do pai, Dirceu se tornou o detentor da coleção referente ao clube e também de outros vestígios históricos ligados ao AAA recolhidos com outras pessoas. Sob sua posse, estão documentos e atas, assim como relíquias na casa de sua mãe, como dois conjuntos de fardamentos usados no período final de atuação do time – possivelmente nos anos 1960.

Print da exposição virtual Futebol de Papel inaugurada em 2013 pelo Museu do Futebol na plataforma Google Cultural and Arts com a participação do material digitalizado do AAA.

Dirceu fez cópias coloridas de fotografias relacionadas ao time, que datam de 1930, e as reuniu em um grande álbum que conta também com recortes de jornais e um troféu em sua caixa original. A pasta contém matérias sobre a A.A.A., recolhidas de jornais como a Gazeta Esportiva e o extinto O Dia, com textos assinados por Basílio Spósito, conhecido pelo apelido de Babo – jornalista esportivo, especializado no futebol amador da década de 1940. Esse álbum foi organizado por Natale, um dos ex-jogadores do Açucena já falecido.

Dirceu salvou a pasta em um amontoado de jornais em via de ser consumido pelo fogão a lenha da família de Natale. Desde então, cuida desse material como se fosse um verdadeiro tesouro. Dirceu também tem em sua posse um troféu de metal muito peculiar, que imita uma pequena bola de couro com cadarços, com duas medalhas de formatos diferentes. Esse troféu é fruto de uma competição amistosa de aniversário entre o A. A. Açucena e o Nacional Atlético Clube, na data de 08 de agosto de 1965.

Dirceu também guarda medalhas conquistadas nos campeonatos organizados pela Federação Paulista de Futebol (Campeonato da Primeira Divisão de Amadores); atas de fundação, ficha de cobranças dos associados; flâmulas; desenhos de teste de fardamento e cópias de um álbum de figurinhas de futebol de várzea (times de várzea de destaque das décadas de 1940 e 1950).

O caso da coleção do A A Açucena materializa um exemplo de experiências e memórias coletivas que passam pela salvaguarda e manutenção de apenas um indivíduo. Sem uma sede ou mesmo um local para comunicar a memória de uma das mais importantes agremiações esportivas do bairro do Limão, as ações do clube caíram em esquecimento e o acesso a esses materiais estão unicamente atreladas ao contato com Dirceu Palaes.

Print da exposição virtual Futebol de Papel inaugurada em 2013 pelo Museu do Futebol na plataforma Google Cultural and Arts com a participação do material digitalizado do AAA.

Uma parte ínfima da coleção do Açucena AA, sob os cuidados de Dirceu Palaes, foram emprestadas e expostas durante a exposição temporária intitulada Futebol de Papel em 2013, no Museu do Futebol. A ocasião foi propícia para exibir e divulgar o documentário de 6” Açucena1 (2013) de Vinícius Soares. Nas suas ações, exposição e filme, foram digitalizados alguns acervos documentais relacionados ao clube. Parte desse material foi mais uma vez exibido na versão digital da mostra Futebol de Papel, também produzida pelo Museu do Futebol.

Coleção Santa Marina Atlético Clube

O Santa Marina dispõe de uma extensa coleção documental e tridimensional salvaguardados de maneira voluntária pelo clube. Com acervos de significativo valor historiográfico, essa memória traz representatividade para aspectos por vezes pouco documentados e preservados pelas esferas museais tradicionais e mais conservadoras. O conjunto material revela vestígios históricos datados desde 1920 sobre o lazer na cidade de São Paulo, a memória dos trabalhadores, bem como de registros sobre variadas modalidades esportivas como o boxe, o ciclismo e o futebol. A coleção é composta por fotografias, certificados, atas, quadros e muitos troféus. A despeito dos muitos itens antigos que foram perdidos ao longo dos anos, o acervo do clube é quantificado em mais de 1500 itens.

Trecho da tabela de catalogação dos itens de acervos do SMAC realizado em parceria com o Museu do Futebol em agosto de 2021.

Todo este conjunto material, disponibilizado de forma gratuita à comunidade, em sua sede localizada na Rua Santa Marina 883, no bairro da Água Branca, tornou-se uma rica fonte histórica para os cidadãos, com destaque a pesquisadores acadêmicos e instituições de prestígio como o Museu do Futebol e o SESC-SP.

Em 2013 o Santa Marina teve um dos seus álbuns fotográficos higienizado e exposto na mostra temporária Futebol de Papel no Museu do Futebol. O objeto, com itens históricos referentes ao período de 1940 a 1960, foi digitalizado e desde então encontra-se disponível para consulta na instituição. O time, além de ser referenciado e catalogado no banco de dados do museu, tem registros presentes nas exposições virtuais do Museu do Futebol na plataforma digital Google Arts & Culture e publicados nos catálogos Museu do Futebol: um museu experiência (2014) e Museu do Futebol, do Banco Safra (2014).

Dirigentes do SMAC durante a inauguração do CRFB e do banco de dados do Museu do Futebol com a catalogação das equipes de várzea participantes da pesquisa em 2013. Fonte: Acervo Museu do Futebol

Em 2018, o SESC-SP, através do Centro de Pesquisa de Formação, e em parceria com a programação do Museu do Futebol durante o III Simpósio Internacional de Estudos Sobre Futebol, excursionou até o endereço do clube para levar o público inscrito na atividade para conhecer de perto o espaço ocupado pelo campo e o memorial do Santa Marina. Francisco Ingegnere, presidente do clube, atuou como agente cultural mediador do potencial imaterial e material do futebol amador junto aos visitantes. No ano seguinte, em 2019, o SESC Pompeia financiou a digitalização da coleção fotográfica pugilística do clube e a representou na composição da cenografia de sua programação esportiva em homenagem ao lutador Eder Jofre, bem como na publicação “O boxe e cidade: espaços de lazer e projeto de luta”.

Expedição de memoriais esportivos promovida pelo SESC CPF ao SMAC em 2018. Foto: Cassimano

Essas parcerias, além de amplificar os sentidos de pertencimento e identidade com a cidade, tem qualificado o memorial do clube com projetos voltados à recuperação, preservação, catalogação e comunicação dessa memória para novos públicos.

Coleção Campo de Marte

O Complexo Esportivo de Lazer e Cidadania do Campo de Marte é um espaço raro na cidade de São Paulo que comporta seis campos de várzea, sendo cada um administrado por uma agremiação diferente. No local há também algumas sedes de agremiações esportivas com seus respectivos espaços sociais. O local é um exemplo de unidade, um conjunto de campos de futebol, e simultaneamente de independência, onde cada campo e suas respectivas agremiações gerem a agenda de campos e suas atividades no interior de suas sedes.

No entanto, com a perspectiva de perda dos campos mais claros a partir de 20172, todas as agremiações e dirigentes gestores passaram a articular-se de forma mais unitária em prol de um bem comum: a permanência dos campos no Complexo. Entre as muitas ações coletivas empreendidas estava a realização do “Ciclo Histórias da Várzea: o futebol amador na cidade de São Paulo”, ocorrido em três edições, entre setembro, outubro e novembro de 2017. A estratégica de parceria para o Museu do Futebol funcionava como um reforço, entre ambas as partes (instituições e agremiações), de visibilizar a importância da participação das comunidades na salvaguarda da memória do futebol amador.

Link de acesso aos encontros do Ciclo Histórias da Várzea no canal do Museu do Futebol.

Os três encontros do ‘Ciclo Histórias da Várzea: passado, presente e futuro do futebol amador na cidade de São Paulo’, em parceria com clubes de várzea de São Paulo e pesquisadores do Núcleo de Antropologia Urbana da USP, foram realizados no auditório do museu, gratuitos e abertos ao público. Convidados acadêmicos, como o antropólogo José Guilherme Magnani – coordenador do Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana da USP – e a geógrafa Simone Scifone, da Departamento de Geografia da USP, parte da equipe técnica do Condephaat que elaborou o estudo de tombamento do Parque do Povo, uniram-se a outros convidados, atores genuínos do cenário do futebol varzeano de São Paulo, a exemplo de José Gomes, do CDC Pequeninos do Jockey, Paulo Cesar Dutra, dirigente do CDC Associação Anhanguera e Otacílio Ribeiro representante do Complexo Esportivo do Campo de Marte.

Os encontros, exibidos ao vivo através do canal de Youtube do Museu do Futebol, marcaram a produção de narrativas públicas sobre as ações de defesa do Complexo Esportivo Campo de Marte com a participação dos dirigentes que produzem lazer no local há décadas.

No início daquele mesmo ano, Raphael Piva Favalli Favero, à época mestrando em Antropologia Social pela USP, e pesquisador Núcleo de Antropologia Urbana da USP, foi o proponente de um projeto cujo objetivo principal era colaborar com a criação, preservação e divulgação de materiais de pesquisa sobre o futebol de várzea na cidade de São Paulo. O objetivo era gravar entrevistas ancoradas em narrativas de histórias de vida com personagens significativos desse universo, sobretudo ligados ao Complexo de Campos de Futebol do Campo de Marte, maior espaço atualmente existente do futebol de várzea paulistano.

Por se tratar de um universo tão complexo e diretamente relacionado a diversos processos sociais mais amplos e lacunas consideráveis a serem exploradas, a iniciativa e parceria foi de grande relevância para o Museu do Futebol. Vale destacar que, frente à escassez de fontes escritas que retratam o tema, a gravação desses relatos orais e os seus respectivos subprodutos contribuiriam com a produção de dados qualitativos já existentes sobre o futebol de várzea na cidade de São Paulo. Para as gravações foram privilegiados os locais de familiaridade dos entrevistados: campos de várzea; sede social dos clubes; residência.

Foram selecionados inicialmente personagens que representassem a complexa gama de pessoas que estão envolvidas com a rotina dos campos de futebol, seja jogando, administrando, participando das atividades políticas e de lazer relacionadas ao Campo de Marte, entre eles: Otacílio Ribeiro, Nelson Bernardo, Edson Sena, Walmir Brito, Francisco “Sobrinho”, Britez, Daniel da Liga, Osvaldo Sarzano e Soraia Marques. Mesmo sem entrar dentro das quatro linhas, a migrante nordestina Soraia é uma das personagens que faz o futebol varzeano de São Paulo. Além de tocar o bar do campo do Aliança da Casa Verde, agremiação caçula entre as residentes do Campo de Marte, Soraia mantém uma equipe de mulheres, organiza festivais varzeanos e a cena musical de forró que passa pela área social do campo.

Gravação das histórias de vida dos varzeanos do Campo de Marte em 2017. Foto: Aira Bonfim.
Edição dos depoimentos de história de vida disponibilizados no canal de youtube do Museu do Futebol.
Print da organização institucional e administrativa das coleções digitalizadas no Museu do Futebol em 2018.

As entrevistas foram roteirizadas, posteriormente transcritas e encontram-se disponíveis como material de pesquisa da instituição, bem como reconhecidas como parte do acervo digital do Museu do Futebol. Três edições do material bruto coletado, em formato de curta, foram finalizadas e disponibilizadas como produtos para o canal de Youtube do Museu do Futebol. A iniciativa permitiu que cada entrevistado fosse convidado a emprestar sua coleção pessoal e documental para digitalização. Materiais como fotografias, documentos, fichas de jogo e panfletos de eventos do Campo de Marte, depois de digitalizados, foram compartilhados com seus respectivos proprietários e catalogados no banco de dados3 do Museu do Futebol. Essas coleções, além de acessíveis pela internet, encontram-se disponíveis para consulta e preservadas em alta resolução.

Print da base de acervo pública do Museu do Futebol com a catalogação dos acervos e entrevistas do projeto História da Várzea em 2013.

Coleção Botafogo de Guaianases

Falar de futebol de várzea é, muitas vezes, falar sobre um passado de uma prática esportiva, de um bairro e de uma cidade que não se reconhecem mais em um presente; é falar sobre um passado romântico e nostálgico frente ao conjunto de transformações; é falar sobre um presente assombrado pelo passado, mas ao mesmo tempo com a vantagem de o discurso de ser sempre mais moderno. Trata-se de uma prática difícil de ser recomposta por fontes oficiais, mesmo quando observada a partir dos registros dos clubes. Esse passado é revelado por fontes orais, mas também por elementos materiais, como fotografias, carteirinhas dos clubes, antigas atas de reuniões, faixas de campeão e recortes de jornal.

Os acervos futebolísticos, apresentados com orgulho, como relíquias, concentram-se nas sedes dos clubes, bares e campos, mas também se espraiam pelas residências dos varzeanos, onde os objetos de memória futebolística se amalgamam e se confundem com os registros de histórias familiares – fotografias de filhos e netos, festas de aniversário e casamento, quadros com diplomas e certificados – que decoram os cômodos das casas. É o caso do Botafogo de Guaianases, cujo acervo na sede do clube reúne apenas uma parte deste conjunto de materiais, principalmente os troféus das conquistas, recortes de jornais e fotografias de times e eventos. A antiga sede do Botafogo ficava em um espaço que foi alugado durante muitos anos. Na nova sede, adquirida em 2009 com a ajuda de políticos locais e localizada na Rua Professor Alexandre Monat, na Vila Minerva, o clube mantém, organizado entre paredes e vigas de concreto de uma espécie de garagem, um acervo de troféus, documentos, recortes de jornais e fotografias.

Memorabília na sede da equipe do Botafogo de Guaianases em 2013. Coleção Museu do Futebol.

Inicialmente pensada para ser um espaço de sociabilidade de jogadores, alunos, escolinha, torcedores e visitantes, bem como de trabalho dos diretores, com a realização de reuniões e assembleias, a sede é mais utilizada para estes fins em comemorações das conquistas das equipes do clube e em momentos de celebração (aniversário, festa de fim de ano), churrasco, cerveja e samba – a tradicional tríade do futebol varzeano. Além disso, qualquer atividade com pessoas de fora do clube, principalmente jornalistas, é realizada na sede social, em meio aos troféus e demais símbolos das conquistas botafoguenses. É na sede, também, que são guardados diversos materiais, como faixas, bandeirões, bambus, instrumentos de baterias, fardamentos e outros equipamentos esportivos.

Contudo, o espaço é utilizado principalmente para reunir e expor o acervo de troféus, medalhas e flâmulas do clube. São 36 troféus que representam a lista de conquistas do clube e participações em torneios importantes (mesmo sem títulos), indicadas na tabela abaixo. Dentre as conquistas, os títulos da Copa Kaiser de 1993 e 1997 são os momentos mais mencionados e rememorados por diretores e torcedores, de diferentes gerações, antigas e mais novas, inclusive como diferenciais do Botafogo frente aos demais clubes do bairro, pois é o único a conquistar a competição.

Tabela 3 – Troféus da Coleção Botafogo de Guaianases

Ano

Conquista/Participação

Ano

Conquista/Participação

1974

Campeão Torneio Primavera

1996

Vice Campeão Copa Botafogo/Kaiser

1976

Bicampeão Torneio Primavera

1997

Vice-Campeão II Copa Guaianases/Kaiser

1979

Tricampeão Torneio Primavera

1997

Campeão Copa Kaiser

1980

Participação no Desafio ao Galo e Super Galo

1997

Campeão Copa Botafogo/Kaiser

1982

Campeão Copa Ermelino Matarazzo/Aspirantes

1998

Vice-Campeão da Copa Botafogo/Kaiser

1984

Participação nos Desafio ao Galo e Super Galo

2001

Campeão Copa Aniversário de Guaianases

1986

Vice-Campeão Varzeano FPF

2001

Vice-Campeão Copa Botafogo/Kaiser

1987

3º Colocado Campeonato Varzeano

2002

Vice-Campeão Copa Primavera

1987

Campeão Copa Nelson Guerra

2004

4º Colocado Copa Kaiser

1989

3º Colocado Copa Concretex

2004

Campeão Copa Metropolitana Capital/Topper

1989

Seletiva do Super Galo

2004

Vice-Campeão Copa Metropolitana Geral/Topper

1989

Campeão Varzeano da FPF

2005

3º Colocado Copa Metropolitana Capital/Topper

1990

Bicampeão Varzeano da FPF

2006

Campeão Copa Metropolitana Capital/Topper

1990

Participação Copa Michelle/Kaiser

2006

Campeão Copa Metropolitana Geral/Topper

1990

Participou do 1º Campeonato Sul Americano

2010

Campeão da Copa Chabilandia Futebol Society

1990

Campeão Copa Black Power

2015

Vice-Campeão da Copa Bifarma

1990

Campeão Copa Paulinho da Farmácia

2015

Campeão Jogos da Cidade/Fase Regional

1991

Bicampeão Copa Black Power

2016

Bicampeão Jogos da Cidade/Fase Regional

1991

Vice-Campeão Varzeano

2016

Campeão Copa Anhanguera/Sede Botafogo

1992

3º Colocado Campeonato Varzeano

2017

Vice-Campeão Copa Nove de Julho

1993

Campeão Copa Gazeta/Kaiser

2017

Tricampeão Jogos da Cidade/Fase Regional

1995

6º Colocado Copa Kaiser

2017

Campeão Jogos da Cidade/Fase Geral

1996

4º Colocado Copa Kaiser

2018

Campeão Copa Negritude/Geral

(Elaboração: Edson José de Castro/Botafogo de Guaianases)

Em meio aos troféus, são expostas fotografias das principais conquistas da Copa Metropolitana, Copa Black Power, Copa Gazeta Esportiva, Copa Nelson Guerra e das participações no Desafio ao Galo e Super Galo. É possível identificar, entre as imagens, registros de encontros e entregas de camisetas do clube para figuras políticas, como a ex-prefeita Marta Suplicy, o ex-governador Geraldo Alckmin e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Assim, com parte de seu acervo preservado, é possível conhecer a história do Botafogo de Guaianases, que se justapõe a de migrantes que se instalaram na periferia de São Paulo em busca de uma vida melhor e encontraram no futebol uma opção de lazer.

Museu da Várzea Paulo Carioca – Centro Esportivo Oswaldo Brandão

Idealizado por Waldemar Oliveira Andrade, o Museu da Várzea Paulo Carioca, localizado em sala nas dependências do Centro Esportivo Oswaldo Brandão, reúne troféus, jornais esportivos antigos (A Gazeta Esportiva), acervos de camisetas dos times da região de diferentes décadas (entre times ainda ativos e aqueles com atividades interrompidas) e, sobretudo, do principal conteúdo, que são os acervos fotográficos impressos.

A ideia do Museu surgiu em 1998, quando Waldemar se atentou ao fato de presenciar varzeanos fotografando os campos, jogos e atividades locais, o que mobilizava diversos registros deste lugar do futebol popular. Já a homenagem a Paulo Carioca expressa o legado do varzeano de tantos envolvimentos organizativos no Fazendinha, conforme abordado em textos anteriores.

Com intenção de alcançar, por esses meios (acervo fotográfico e coleção de camisetas), um registro amplo das dezenas de times surgidos no bairro, e que atuaram como mandantes ou visitantes no Fazendinha, o Museu Paulo Carioca consolida-se de modo processual, tendo a figura de Waldemar como articulador na busca por fotos e camisetas antigas diretamente com as pessoas, em encontros no bairro e inclusive em suas residências.

Geralmente, Waldemar solicita aos detentores a doação das fotos, que ele mesmo cataloga e expõe no Museu. Mais recentemente, uma parcela deste material vem sendo reproduzida em formato digital e, também parcialmente, compartilhadas em redes sociais, na página oficial do Museu.

Acervo do Museu da Várzea Paulo Carioca em 2019. Fonte: Severino Augusto “Guto”.

Waldemar destaca que busca colocar o nome do Museu nas competições, como por exemplo a “1ª Copa Paulo Carioca de Futebol Feminino”, de modo a expandir a ampliar conhecimento deste acervo nas redes varzeanas. Ao falar do Museu, Waldemar menciona que “incorporou” seu Paulo Carioca e Claudio Reis, expondo assim seu sentimento identitário pela comunidade e a dificuldade que tem de realizar atividades fora do bairro, dado o comprometimento com os projetos (Museu e Grêmio Independente).

Conforme relatou Waldemar, o espaço do Museu, estruturando-se gradativamente, contribuí para que as memórias de Paulo Carioca sejam ainda mais compartilhadas entre os locais, mantendo vivo o sentimento de respeito pela trajetória do varzeano, além de demarcar a trajetória de dezenas de times e clubes da Zona Norte de São Paulo (SP), principalmente da Freguesia do Ó e Brasilândia.

*****

Nos próximos textos da série abordaremos as principais circunstâncias de encontro imbricadas na experiência do futebol de várzea na cidade de São Paulo, desde compromissos declaradamente competitivos e esportivos, como campeonatos e festivais, até outras agendas que caracterizam a ocupação das atividades das agremiações esportivas varzeanas, como projetos sociais e práticas culturais.

Notas

1 https://fb.watch/a0nGK2xKgZ/. Acesso em 18/12/2021.

O então prefeito João Dória, conjuntamente com o presidente Michel Temer, e o Ministro da Defesa, Raul Jungmann, anunciavam em 07 de agosto de 2017 a sinalização de um acordo inédito apaziguamento de dívidas entre o município de São Paulo e a União pela área do Campo de Marte, onde seriam construídos um Museu da Aeronáutica e um Parque Municipal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Aira F. Bonfim

Mestre em História pela FGV com pesquisas dedicadas à história social do futebol praticado pelas brasileiras da introdução à proibição (1915-1941). É produtora, artista-educadora e por 7 anos esteve como técnica pesquisadora do Museu do Futebol. O futebol de várzea, os  debate sobre patrimônios e mais recentemente o boxe e o circo, são alguns temas em constante flerte... 

Alberto Luiz dos Santos

Doutor em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP). Membro da Rede Paulista de Educação Patrimonial (REPEP) e do Grupo de Pesquisa Patrimônio, Espaço e Memória, vinculado ao Labur/FFLCH/USP (CNPq). Possui produção acadêmica voltada às área de Geografia Urbana e Patrimônio Cultural, desde 2012, com enfoque nas referências culturais vinculadas ao futebol de várzea, após 2016. 

Enrico Spaggiari

Mestre e doutor em Antropologia Social pela USP.Fundador e editor do Ludopédio.

Como citar

BONFIM, Aira F.; SANTOS, Alberto Luiz dos; SPAGGIARI, Enrico. Acervos e coleções varzeanas. Ludopédio, São Paulo, v. 176, n. 23, 2024.
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