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Projetos sociais e práticas culturais no circuito varzeano

Este texto integra a série especial Santa Marina, o circuito varzeano de SP e a preservação dos clubes esportivos populares, publicada na coluna Em defesa da várzea do portal Ludopédio. O principal objetivo é colocar em debate a urgência de garantir a reprodução e continuidade das práticas populares esportivas e culturais nas cidades brasileiras. Os textos, que serão publicados quinzenalmente ao longo de 2023 e 2024, apresentarão as atividades, etapas, metodologias, resultados e principais reflexões do “Mapeamento do Futebol Varzeano em São Paulo”, realizado em 2021, sob encomenda do Núcleo de Identificação e Tombamento (NIT) do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Prefeitura do Município de São Paulo, a fim de reunir subsídios para identificar práticas culturais relacionadas ao futebol de várzea e para analisar processos administrativos de proteção do patrimônio cultural. Além disso, diante de um contexto marcado por reiteradas ameaças aos espaços urbanos onde se pratica o futebol popular, esta série busca colocar em discussão o caso do Santa Marina Atlético Clube (SMAC), clube amador centenário cujo espaço de atuação vem sendo ameaçado por um pedido de reintegração de posse pela multinacional Saint-Gobain.


O presente texto, o 14º desta série, encerra nossa apresentação sobre o eixo temático eventos varzeanos, que junto aos eixos campos e coleções varzeanas, compôs a totalidade da pesquisa Mapeamento do Futebol Varzeano em São Paulo. Lembramos ao/à leitor/a que o eixo eventos, previamente apresentado em texto anterior foi dividido em campeonatos, festivais e, como última subdivisão, os projetos sociais e práticas culturais, que serão o nosso enfoque nas seções a seguir. 

Falar em projetos sociais e práticas culturais no circuito varzeano de SP e Região Metropolitana significa transcender a especificidade de cada evento (ou conjunto de eventos) que ocorrem na várzea. Num sentido mais amplo, trata-se de olhar com acuidade para múltiplas formas de sociabilidade e intencionalidades coletivas a partir das quais se desdobram diversos e numerosos eventos. Trata-se de olhar, também, para as miudezas, no sentido colocado por Simas e Rufino (2019), aqui compreendidas enquanto corriqueiras e, por vezes, singelas práticas realizadas por varzeanos/as nos campos, que acabam por potencializar o circuito no sentido identitário e afetivo, ou seja, assentam referências culturais pelas quais a várzea e os/as varzeanos/as se reconhecem mutuamente. 

Assim, os projetos sociais e as práticas culturais são demarcadores de uma verdadeira simbiose de eventos esportivos, educacionais e culturais, os quais contribuem significativamente para a permanência e resistências dos vínculos sociais e dos fazeres coletivos que potencializam a contemporaneidade da várzea em SP e RMSP.

Na seção seguinte, focada nos projetos, retomaremos o debate pontuado no texto 11, refletindo sobre o esporte como um direito social e sobre o modo diferentes instâncias organizativas e de poder, dentre elas o próprio circuito varzeano, assumem protagonismo na realização de ações coletivas de cunho social, tendo o esporte como fio condutor, permeando bairros/regiões populares e periferias. Elucidaremos tais projetos com o exemplo da Escola de Futebol Comunitária do Botafogo de Guaianases, em tópico específico.

Na última seção, enfocada nas práticas culturais, destacaremos os processos de significação desdobrados a cada encontro nos campos de várzea, bem como a expressão destes por meio de valores, afetos, códigos, gestos, linguagens, memórias, sons, imagens, entre outras possibilidades. 

Projetos sociais

Embora preterido frente a outros setores no conjunto das ações governamentais, a prática esportiva tem sido alvo de cuidado e intervenção do Estado, o que configurou, ainda no decorrer do século XX, uma parceria entre poder público e sistema esportivo (STIGGER, 2002; MANHÃES, 2002). Apresenta-se, desde a década de 1960, uma tendência para o uso do esporte enquanto direito social, o que viria a ser institucionalizado a partir da Constituição de 1988. Posteriormente, tanto na Lei federal nº 8672 de 1993 (conhecida como Lei Zico), quanto na Lei federal nº 9615 de 1998 (conhecida como Lei Pelé), o esporte como prática educativa estaria presente.

Tal articulação entre diferentes esferas vem ganhando novos contornos nas últimas três décadas, mobilizando temas como direitos sociais e as ditas políticas neoliberais (DECCACHE-MAIA, 2003; MELO, 2005). Houve a partir da década de 1990 um aumento na oferta de projetos educacionais – públicos, empresariais, ONGs ou iniciativas autogeridasvinculados às atividades artísticas e esportivas, que declaravam ter como objetivo criar novas possibilidades frente a um mundo de violência e carências (afetiva, financeira, oportunidades, de lazer, etc.) ao qual os jovens estão expostos (ZALUAR, 1994; THOMASSIM, 2006; GUEDES et al., 2006).

Cumpre pontuar que o histórico desses projetos envolvem, com recorrência,  compreensões funcionais e utilitárias, e também um discurso de inclusão social propiciada através do esporte, como possibilidade de superação das desigualdades que atravessam a estrutura social. A antropóloga Alba Zaluar, por exemplo, em sua pesquisa sobre projetos sociais para jovens cariocas nos 1980, já apontava a tendência de se classificar a prática esportiva em um sentido utilitário, quando associada às classes populares, e em um sentido ocioso e desinteressado, quando associada às classes abastadas (ZALUAR, 1994, p.59).

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Projeto social em Pirituba. Fonte: Acervo Museu do Futebol

Têm-se observado, nas últimas décadas, o desenvolvimento de projetos sociais a partir da perspectiva de entidades locais e associações comunitárias. Grupos populares e periféricos se apropriaram de saberes, léxico e formas de organização consolidados por instituições do terceiro setor e passaram a constituir seus próprios projetos de cunho social. Movimento observado, inclusive, no circuito varzeano paulistano. Muitos clubes de várzea organizaram suas próprias escolinhas de futebol” para crianças e jovens das localidades onde estão inseridos. As agremiações que dispõem de maior estrutura, principalmente da propriedade de um campo, passaram a ter “categorias de base” em seus quadros, colocando crianças e jovens das “escolinhas” para disputarem competições locais, regionais e municipais.

Relacionando tais projetos aos campeonatos e copas da várzea, destacamos que ao longo do ano são realizadas diversas competições voltadas exclusivamente para às “categorias de base”. As competições locais e regionais costumam reunir principalmente agremiações varzenas, mas também, em alguns casos, escolinhas franqueadas de clubes profissionais, como é o caso da Copa Negritude (Categoria Base) de 2019, que contou com a participação da Escola de Futebol Athletico Paranaense, localizada no bairro São Mateus (zona leste). Quando a competição é a nível municipal, como a Taça Cidade de São Paulo, clubes tradicionais, como o Pequeninos do Jockey (zona sul), e profissionais do estado de São Paulo costumam participar também.

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Projeto de base campeão da Copa Negritude 2013. Fonte: Acervo Museu do Futebol

Os clubes varzeanos, conforme aponta Spaggiari (2016), veem a escolinha de futebol como um veículo de promoção da cidadania, educação e do esporte, com ênfase nos aspectos lúdicos. Nesse sentido, para eles, as escolinhas são espaços de referência e sociabilidade para as crianças e jovens nas relações cotidianas em regiões que oferecem poucas opções de lazer. Por isso que o termo comunidade é sempre acionado nos projetos para realçar valores positivos de integração no bairro frente a aspectos negativos, como pobreza, violência, desordem etc. Nesse discurso, o esporte aparece como um instrumento pedagógico privilegiado para a transmissão de regras e valores.

Escola de Futebol Comunitária do Grêmio Botafogo de Guaianases

A Escola de Futebol Comunitária é uma das principais frentes de atuação do Grêmio Botafogo de Guaianases (SPAGGIARI, 2016). A escolinha abrange diversas categorias etárias que servem de referência para as partidas e campeonatos disputados, entre 6 e 17 anos. O clube recebe mensalmente cerca de 100 fichas de interessados em fazer parte da escolinha (incluindo meninas e meninos) e oferece atividades para cerca de 700 crianças e jovens que se inscrevem por ano. Contudo, nem todos frequentam a escolinha, desistindo ao longo do ano. As atividades são realizadas de terça a sábado, de manhã e de tarde. Os períodos e turmas são divididos por faixas etárias para atender crianças e jovens de todas as idades que estudam de manhã ou de tarde. 

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Escolinha de futebol do Botafogo de Guaianases. Foto: Enrico Spaggiari

Na proposta do Botafogo, a escolinha surge como um veículo de promoção da cidadania, educação e do esporte, com ênfase nos aspectos lúdicos da socialização de crianças e jovens. Tal concepção da escolinha como um espaço de socialização e de sociabilidade para crianças e jovens é defendida pelos diretores, para quem a Escolinha do Botafogo é um importante espaço promotor de sociabilidade comunitária. Ponto esse muito destacado no contato com as pessoas vinculadas à mídia que, de vez em quando, aparecem no Botafogo para fazer reportagens.

Em algumas reportagens realizadas no Botafogo, destacou-se também sua atuação na formação de jogadores de futebol no contexto paulistano. Para além da preocupação com as questões sociais do projeto, a diretoria do Botafogo sempre busca enfatizar que almeja também a produção de jogadores por meio deste projeto social. Portanto, a possibilidade de carreira é um dos principais objetivos do Botafogo de Guaianases, a ser alcançado, sobretudo, por meio das parcerias promovidas pelo clube. 

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Escolinha de futebol do Botafogo de Guaianases. Foto: Enrico Spaggiari

Segundo seus diretores, tal articulação entre trabalho comunitário e produção de jogadores diferencia a iniciativa ali realizada da proposta de escolinhas franqueadas e de projetos sociais do bairro. Estas duas formas de compreensão das atividades são ativadas situacionalmente conforme as práticas e interesses dos botafoguenses, que ora acionam a “escolinha de futebol”, quando querem enfatizar que se trata de um trabalho social comunitário, ora utilizam as “categorias de base”, para reforçar o envolvimento do clube no processo de captação e inserção de jogadores no mercado do sistema futebolístico, idas de garotos para avaliações em clubes, negociações com pais e mães, articulações de novas parcerias com clubes profissionais etc. Tal distinção é observada também nos modos de definir a posição daqueles que trabalham na escolinha, reconhecidos ora como “professores” da escolinha, ora como “treinadores” das categorias de base; ou na posição dos jovens, chamados de “alunos da escolinha” ou “jogadores das equipes de competição” das categorias de base, a depender do contexto em que estas denominações são acionadas.

A escolinha desponta como uma matriz relacional (SPAGGIARI, 2016), que articula os tempos vividos dentro e além desta, seja como um espaço de lazer, de competitividade, prática de atividade física, espaço de convivência familiar ou como opção para deixar os filhos em algum período do dia enquanto os familiares trabalham, dentro e fora de casa.

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Escolinha de futebol do Botafogo de Guaianases. Foto: Enrico Spaggiari

Práticas culturais 

Nosso entendimento sobre práticas culturais concerne àquilo que é significativo para as pessoas e grupos sociais na metrópole de São Paulo (SP) e que, nesse caso, tem nos campos varzeanos sua matriz. Conforme colocado na Introdução, são processos de significação desdobrados das práticas, a cada encontro nos campos de várzea. Assim, a várzea confere um sentimento identitário, que fortalece o pertencimento a determinado agrupamento – os times e clubes -, bem como ao bairro de origem – as quebradas. Em sentido amplo, tal pertencimento culmina num envolvimento maior: as pessoas que, pertencentes a essa trama, entendem-se como varzeanas. Este “ser” da várzea está assentado em práticas culturais diversas, das quais serão tecidas algumas exemplificações, relativas aos pontos nodais elencados pela pesquisa que estamos apresentando nesta série. 

Festas, sonoridades e modos de torcer

Um elemento importante dessas práticas são as festas que, periodicamente, entremeiam o cotidiano varzeano. Em todos os pontos nodais analisados, elas são realizadas, com periodicidade e temática variável. Ocorrem, sobretudo, nos espaços sociais dos campos, bem como, com menor recorrência, nas sedes sociais dos clubes ou espaços alugados especificamente para este fim. São dedicadas a datas comemorativas – como o dia das crianças, um exemplo de destaque -, bem como ao aniversário de times e clubes ou a celebração por algum trunfo, como a comemoração de título (campeonato ou copa). Em muitos casos, a realização das festas do calendário varzeano é acompanhada dos festivais de futebol, tratados em texto anterior desta série.

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Festival Rosas de Ouro no antigo campo do Fazendinha em 2012. Fonte: Acervo Museu do Futebol

As festas varzeanas podem ser compreendidas enquanto saberes e celebrações  (IPHAN, 2016), nos/pelos quais numerosos grupos de pessoas que se dedicam aos conteúdos – a música, a comida e bebida, a decoração, o convite aos “chegados” de diversos bairros e regiões da cidade, a divulgação em redes sociais, etc. Ainda mais numerosos são os grupos que “encostam” (termo utilizado pelos/as varzeanos/as), ou seja, aquelas pessoas que se mobilizam para apreciar o evento, reencontrar amizades e, em sentido amplo, curtir esse momento lúdico na metrópole, sem necessariamente estarem envolvidas com a trama que transcorre nas quatro linhas. Inclusive porque, ao final das partidas, ou quando elas nem mesmo ocorrem, todas se encontram nesse modo de festejar varzeano. 

Aprofundando os elementos da festa varzeana, destaca-se a música e, em sentido amplo, as sonoridades. A partir do diálogo com os conceitos de paisagens sonoras (SHAFER, 2001) e de narrativas sônicas (SANTOS, 2017b), a pesquisa de Santos (2021) interpretou como o som das resenhas, das torcidas, das baterias, dos grupos de samba, das discotecagens e dos sons automotivos -, confluem para potencializar os sentidos identitários da várzea. Campos que “ecoam” um repertório periférico, predominantemente voltado ao samba, RAP, reggae, funk, forró e samba-rock. 

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Roda de samba e discotecagem (ao fundo) durante o Aniversário da AA Vila Carolina (Limão) em 2017. Foto: Alberto Luiz dos Santos

Em síntese, as sonoridades varzeanas podem ser dimensionadas pela ambiência da paisagem sonora, pelo reprodução musical (aparelhos sonoros e repertórios escolhidos) e pelos fazeres musicais, ou seja, a música feita “ao vivo”, destacadamente as rodas de samba, shows (que ocorrem, principalmente, em CDC’s mais estruturados), as baterias das torcidas e as batucadas de beira de campo. 

Como no Campo da Xurupita (Jaraguá), um dos pontos nodais da pesquisa, onde numa etnografia (SANTOS, 2021), pôde-se registrar a simbiose dos sons de duas baterias dos times em campo, bem como daquela da torcida que, no momento, estava chegando ao campo, organizando seu “bonde”, com cânticos e arranjos musicais. Enquanto, simultaneamente, no bar adjacente ao campo, o repertório de forró e arrocha animava outros grupos de varzeanos/as. Noutro exemplo, caso do Complexo Campo de Marte, é recorrente escutar um certo arranjo sonoro de cada campo, dado o agrupamento de seis campos neste espaço, ora com uma roda de samba, ora com repertórios do aparelho sonoro, ora misturando-se ao som das vozes – as resenhas e incentivos aos times em campo. Também são marcantes as discotecagens que ocorrem no transcorrer de grandes eventos, como é o caso da Copa Negritude, supracitada, com “som na caixa”, ao longo das partidas. 

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Batucada do AA Pery Novo durante festival no campo do Flamenguinho. Fonte: Acervo Museu do Futebol

Pensando nos fazeres musicais, citamos outro exemplo interpretado a partir de etnografias no CDC Jardim Regina (Pirituba), junto aos ritmistas da “Pegada Monstro”, do The Wailers FC, time que atua no Centro Esportivo Oswaldo Brandão, um ponto nodal da pesquisa. A despeito de tocar, em determinados momentos, arranjos musicais voltados aos chamados “gritos de torcida”, essa bateria prioriza um repertório de sambas-enredo do carnaval de São Paulo (SP). Reunidos semanalmente no CE Oswaldo Brandão, os ritmistas que acompanham o The Wailers possuem passagem por escolas de samba e agremiações carnavalescas da cidade, principalmente da Região Norte. Assim confluem memórias dos carnavais durantes o fazer musical. São repertórios de sambas “clássicos”, convenções, breques, formas de execução e afinação que expressam um encruzamento de saberes relacionados ao “mundo do samba”. Ainda que minoritários, em relação às “baterias de torcida”, esses arranjos são presentes em muitos redutos varzeanos, expressando o legado de um histórico atrelamento entre a várzea e o carnaval na capital. 

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“Pegada Monstro” – The Wailers: repertório de “sambas clássicos” no CE Oswaldo Brandão em 2019. Foto: Alberto Luiz dos Santos

Ademais, cumpre destacar as rodas de samba que ocorrem em diversos campos varzeanos, envolvendo desde o samba feito “na hora”, um arranjo de certo modo improvisado quando ocorre presença de instrumentistas entre os frequentadores do momento, até os eventos periódicos, em datas específicas e da ampla divulgação, reunindo assim instrumentistas do bairro e de outras regiões, sambistas e entusiastas do samba em sentido amplo, conformando eventos significativos do “mundo do samba” na metrópole, como o Samba do Cruz, que ocorre nas dependências no campo do Cruz da Esperança, no Complexo Campo de Marte.

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Festival e Samba Preto contra Branco do Jardim São João Clímax. Fonte: Acervo Museu do Futebol
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Divulgação do Samba do GE Cruz da Esperança. Fonte: Redes Sociais do GE Cruz da Esperança

Também no Cruz, destacam-se os bailes de samba-rock, eventos periódicos que ocorrem desde a década de 1960 neste reduto varzeano. Os bailes, históricos arranjos de associativismo negro e da cultura popular negra de São Paulo (SP) (VALVASSORI, 2018), ocorrem em diversos lugares da metrópole, entre casas de shows e salões alugados pelos seus organizadores. A várzea também se insere nessa rede, sendo recorrente que, para além dos bailes, o samba-rock permeie o repertório das discotecagens nos campos varzeanos. No CDC Alvorada (Negritude FC), outro ponto nodal da pesquisa, ocorre a “Domingueira no Negritude Club”, com DJ’s tocando repertório dos Bailes Black e grupos de samba alternando-se nas apresentações. 

Cumpre destacar que, considerando os recentes Registros do samba paulistano e do samba-rock como patrimônios imateriais de São Paulo (SP) pelo CONPRESP (2013 e 2016, respectivamente), verifica-se como o futebol de várzea mobiliza redes de tais referências culturais, que potencializam seu entendimento enquanto patrimônio.

Formas de torcer e a questão estética

Sobre as torcidas varzeanas, cumpre destacar, para além da dimensão sonora, seus elementos estéticos e performáticos. É marcante a existência, em diversos times e clubes, de arranjos organizativos dos grupos varzeanos, que confluem para o que pode ser entendido como torcidas organizadas da várzea. Na maioria dos casos, elas possuem denominação própria e acompanham os jogos reproduzindo e ressignificando, nas arquibancadas e beiras de campo, as práticas das torcidas organizadas dos clubes de futebol profissional (SANTOS, 2021). São agrupamentos que organizam faixas, bandeiras, pirotecnias e cânticos, buscando o uníssono, ou seja, os “gritos de torcida” de incentivo aos times em campo. 

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Estética das torcidas em Vida Loka (Brasilândia) x Unidos (Jardim Brasília). Foto: Alberto Luiz dos Santos

Um elemento potente desses arranjos é o modo como entrecruzam referências de torcidas tradicionalmente “rivais”, no futebol profissional. Assim, ao apoiar determinado time varzeano, uma organizada geralmente alterna repertórios de melodias “consagradas” por diferentes times profissionais de São Paulo. A rivalidade se dilui, então, em prol do apoio ao clube de bairro. Esse elemento, do clube do bairro, tem nas organizadas varzeanas outro elemento potencializador. Pela estética e performance torcedora, o pertencimento à determinada quebrada é exaltado, fortalecendo laços históricos e recentes dos clubes de bairro. Trata-se de uma dinâmica presente em todos os pontos nodais analisados ao longo deste estudo.

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Torcida da agremiação Inajar de Souza no antigo campo do Fazendinha, na zona norte. Fonte: Acervo Museu do Futebol

Sendo notável a efervescência das “organizadas varzeanas”, também é destacável o entremeio e a permanência de outros modos de torcer (SANTOS, 2017a). Das pessoas que vão ao campo semanalmente de modo mais descompromissado, mas que não deixam de “encostar” no alambrado, entoar gritos de apoio ao time, bem como críticas aos treinadores e à arbitragem. Muitos times não mobilizam redes tão numerosas de torcedores e a torcida, então, é improvisada na hora, pelas pessoas acompanhantes, entusiastas do momento e pelos próprios organizadores, membros da diretoria e jogadores de outras categorias, como segundo quadro e veteranos, enquanto aguardam seu momento de entrar em campo. 

Resenha, churrasco e o futebol brincado

Esse escopo, mais descompromissado e fluído em relação às “organizadas”, concerne a outro elemento significativo das práticas culturais que se desdobram nos campos de várzea: as resenhas. Trata-se dos momentos “pré” e, principalmente, “pós-jogo”, em que jogadores, torcedores e entusiastas se agregam nos espaços sociais dos campos, com destaque aos bares, reverberando fatos do jogo daquele dia, bem como de precedentes e da própria “temporada”. Momentos que podem oscilar entre a alegria e o conflito, o alívio e a cobrança, sempre permeados por fronteiras tênues entre o agrupamento de cada bairro ou time, ou seja, respeitando-se os limites de um proceder varzeano. 

As resenhas mobilizam saberes e celebrações relacionadas ao que se consome nos bares. Comida e bebida comercializada, sendo majoritariamente feitas, também, por varzeanos/as. Trata-se da comida de bar, dos churrascos, petiscos e feijoadas, ora mais organizados, ora mais improvisados, guarnecendo a resenha e, em sentido amplo, o estar nos campos. Os sentidos de pertencimento, supracitados, são também fortalecidos pelos momentos da resenha, sendo que quantidade numerosa de pessoas frequenta os campos sem que, necessariamente, seja jogo de seu time. São as redes de bairros e “chegados” que atraem aos campos, lugares de sociabilidade, de entrecruzamento de memórias e práticas contemporâneas. 

Assim como as práticas anteriormente citadas, esse torcer menos organizado, bem como as resenhas de fim de semana, estão presentes em todos os pontos nodais analisados no estudo que serve de referência para os textos desta coluna. 

Finalizando as abordagens desta seção, destacam-se as dimensões lúdicas do jogo de futebol articuladas ao ensejo competitivo dos amistosos, copas e festivais varzeanos. Considerando a inerente articulação entre essas duas dimensões, para os times que atuam, bem como para as formações de base, como as escolinhas e projetos, é relevante também mencionar que um campo varzeano mobiliza o imaginário, principalmente das crianças e jovens, e é também lugar do jogo improvisado, de múltiplas “brincadeiras de bola”. 

Aqui se destacam, então, o momento em que os campos varzeanos estão em “contraturno” das atividades previamente organizadas do calendário varzeanos, ou seja, quando são ocupados pelos grupos do bairro, para “peladas” e jogos decididos no momento. Isso é notável, também, nos intervalos dos jogos, em que crianças ocupam os campos para, naquele fragmento de tempo, jogar como os times “principais”, dando fluidez à referência futebolística representada pelos seus amigos e familiares do bairro. O campo de várzea, assim, é referência para numerosos grupos que praticam futebol, de boleiros e peladeiros, passando por aquelas pessoas que almejam, simplesmente, brincar de bola. (SANTOS, 2021)

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Crianças em campo no intervalo dos Jogos durante Festival no Jardim Regina em 2017. Foto: Alberto Luiz dos Santos

*****

Os próximos textos da série abordarão os resultados da pesquisa etnográfica realizada junto com o levantamento e mapeamento, que buscou apreender a multiplicidade de narrativas, memórias e controvérsias que conferem sentido à existência e às transformações do Santa Marina Atlético Clube. Para isso, alguns eixos de análise foram elencados para levantar possíveis caminhos de entendimento e pistas explicativas: Memórias, Futebóis e Sociabilidades. Antes, contudo, serão apresentadas algumas reflexões metodológicas sobre os caminhos etnográficos trilhados.

Referências

DECACCHE-MAIA, Eline. 2003. Esporte e políticas públicas na virada do milênio: o caso de Niterói. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional-UFRJ – Rio de Janeiro. 

GUEDES, Simoni Lahud et al. Projetos sociais esportivos: notas de pesquisa. 2006. In: ENCONTRO REGIONAL DE HISTÓRIA, XII, 2006, Niterói. Anais… Rio de Janeiro: ANPUH, 2006. p. 92-92.

IPHAN. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Educação Patrimonial: Inventários participativos: Manual de aplicação. Brasília, 2016. 

MANHÃES, Eduardo Dias. Políticas de esporte no Brasil. 2.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. 

MELO, Marcelo de Paula de. Esporte e juventude pobre: a Vila Olímpica da Maré e as políticas de lazer. Campinas: Autores Associados, 2005. 224 p.

MUNHOZ, V. C. C. O lazer como direito social na prefeitura de Belo Horizonte. 2006. 115 f. Dissertação (Mestrado em Administração Pública) – Escola de Governo Professor Paulo Neves de Carvalho, Fundação João Pinheiro, Belo Horizonte, 2006.

RUFINO, Luiz; SIMAS, Luiz Antonio. Flecha no tempo. Rio de Janeiro: Mórula, 2019.

SANTOS, A. L. Torcer, sambar e batucar no futebol de várzea paulistano: O patrimônio imaterial à luz de experiências etnográficas. In: Congreso Internacional de Patrimonio Intangible, 2017, Buenos Aires. Congreso Internacional de Patrimonio Intangible – Avances y desafios, 2017a.

SANTOS, Alberto Luiz dos. O samba como patrimônio cultural em São Paulo (SP): As batucadas de beira de campo e o futebol de várzea. 2021. 322 f. Tese (Doutorado Geografia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021.

SANTOS, L. Z. Todos na produção: Etnografia de Narrativas Sônicas e Raps em Espaços Urbanos Populares. 1.ed. Jundiaí: Paco, 2017b. 

SCHAFER, Murray. A afinação do mundo. São Paulo: Ed.Unesp, 2001. 

SPAGGIARI, Enrico. Família joga bola: jovens futebolistas na várzea paulistana. São Paulo: Intermeios/FAPESP, 2016.

STIGGER, Marco P. Esporte, lazer e estilos de vida: um estudo etnográfico. Campinas: Autores Associados, CBCE, 2002. 270 p. 

THOMASSIM, Luís Eduardo Cunha. Uma alternativa metodológica para a análise dos projetos sociais esportivos. 2006. In: ENAREL, XVIII, 2006, Curitiba. Anais… Curitiba: PUCPR, 2006. 

VALVASSORI, Igor Santos. Som de Valente: Bailes Negros em São Paulo. 2018. Dissertação (Mestrado) – Departamento de Geografia, FFLCH-USP, 2018. 

ZALUAR, Alba. Cidadãos Não Vão ao Paraíso. Campinas, Ed. Unicamp, 1994.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Alberto Luiz dos Santos

Doutor em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP). Membro da Rede Paulista de Educação Patrimonial (REPEP) e do Grupo de Pesquisa Patrimônio, Espaço e Memória, vinculado ao Labur/FFLCH/USP (CNPq). Possui produção acadêmica voltada às área de Geografia Urbana e Patrimônio Cultural, desde 2012, com enfoque nas referências culturais vinculadas ao futebol de várzea, após 2016. 

Enrico Spaggiari

Mestre e doutor em Antropologia Social pela USP. Fundador e editor do Ludopédio.

Aira F. Bonfim

Mestre em História pela FGV com pesquisas dedicadas à história social do futebol praticado pelas brasileiras da introdução à proibição (1915-1941). É produtora, artista-educadora e por 7 anos esteve como técnica pesquisadora do Museu do Futebol. O futebol de várzea, os  debate sobre patrimônios e mais recentemente o boxe e o circo, são alguns temas em constante flerte...  

Como citar

SANTOS, Alberto Luiz dos; SPAGGIARI, Enrico; BONFIM, Aira F.. Projetos sociais e práticas culturais no circuito varzeano. Ludopédio, São Paulo, v. 178, n. 28, 2024.
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