173.3

Caminhos tortuosos: entre as pernas de Mané Garrincha e a voz de Elza Soares

Perolina Souza, Fabio Zoboli 3 de novembro de 2023

“Com oitenta minutos de partida, Mané ainda pode decidir um jogo. Quarenta por cento de Mané é melhor que 100% de muita gente” (Elza Soares)

A noção de “defeito” aparente nos prende ao que falta. No entanto, o que se estabelece a partir das ausências são outros 500. Por um lado, a imperfeição representa uma incompletude, uma espécie de ausência impreenchível; por outro, pode espelhar potência, fazendo do “esquisito” a mais pura tradução da criação, da novidade. O torto, o desconcertante, o marginal, o absolutamente descabido são adjetivos que facilmente se encaixam nos personagens desta crônica. Cada um deles apresenta dois lados de uma mesma moeda e por onde passaram deixaram marcas de sua arte: Mané Garrincha com os pés, Elza Soares com a voz.

Muitos podem estranhar a aparição de Garrincha aqui, em uma coluna dedicada a ídolos do Flamengo, afinal, Mané se consagrou astro no Botafogo e encantou o mundo vestindo a amarelinha, com a qual ganhou dois mundiais: 1958 e 1962. O que poucos sabem é que Garrincha teve uma curta passagem pelo Flamengo, no final da década de 1960. Sua estreia pelo Mengão ocorreu em 30 de novembro de 1968, em um jogo em que o Fla perdeu para o Vasco por 2 tentos a 0. O “anjo de pernas tortas[1]” só marcaria seu primeiro gol pelo Flamengo em 1969, no Campeonato Carioca daquele ano, ao sair do banco de reservas e marcar um belo gol de falta contra o América no empate por 2×2. Meses depois, devido a problemas físicos, mas principalmente por conta da dependência alcoólica, Garrincha deixou o Flamengo com 20 atuações e 4 gols anotados. Ao longo de sua carreira, Mané ficou marcado pelos excessos – seja de dribles, seja de álcool. Eduardo Galeano (2015), em crônica dedicada ao malabarista da bola, menciona que Garrincha era louco por cachaça e por tudo que ardia.

Manuel Francisco dos Santos (1933-1983), o nosso Mané Garrincha, nasceu em Pau Grande, distrito de Magé, no Rio de Janeiro. Cresceu em uma família de 15 irmãos[2], extremamente carente. Seu apelido, Garrincha, teria sido dado por uma de suas irmãs, homenageando um pássaro típico da região em que nasceram, e que era quase impossível de ser caçado. Foi dessa dificuldade e da possibilidade que apenas o nada é capaz de oferecer que o nosso personagem começa a jogar futebol, profissionalmente, aos 14 anos, no time da fábrica têxtil América Fabril. Aos 19 anos, casa-se com Noir, com quem teve 8 filhas e uma história que se alternou entre altos e baixos – causados por uma vida financeira descompassada e comportamentos questionáveis.

No entanto, com a bola nos pés Garrincha crescia, virava menino brincante, ousado, zombava dos adversários e fazia gracejos com as dificuldades. “Suas pernas formavam um arco. A esquerda, em que a deformação era mais notável, tinha seis centímetros mais que a outra. Já era um milagre que andasse. Inadmissível que jogasse futebol” (Mayrink, 1972, s/p). Garrincha abrigava em seu corpo uma deficiência física, o que torna sua experiência enquanto jogador de futebol algo próximo do improvável – condição que talvez também tenha proporcionado às suas pernas uma habilidade única de desconsertar adversários. Era um pobre resto de fome e de poliomielite, manco, uma coluna vertebral em S e as duas pernas tortas para o mesmo lado (Galeano, 2015). Porém, o descrédito de sua carreira não vem desse lugar, mas sim da sua vida pessoal, repleta de claudicações e erros, que nem mesmo sua exímia capacidade de raciocínio foi capaz de driblar. Sua história se confunde com ações polêmicas, muitas delas vieram a público a partir do seu relacionamento amoroso com Elza Soares da Conceição (1930-2022)[3].

Em um dos lados da moeda nutriram uma paixão avassaladora, um pelo outro e pelo Flamengo, viveram juntos um relacionamento icônico, que rompeu preconceitos e estigmas. Elza (2022) afirma que era muito feliz podendo dividir com Garrincha a torcida pelo mesmo time, quando, enfim, ele parou de jogar profissionalmente. “A passagem dele pelo Flamengo foi tão curta, tão rápida, que não deu nem para gente saborear” (Soares, 2022, p. 92-93). De paixão pelo rubro-negro Elza entende bem, toda sua família era flamenguista, tanto que seu pai, Avelino Gomes, morreu assistindo um jogo do Flamengo em 1958. Para Elza era um orgulho ser torcedora do time da Gávea.

Elza Garrincha
Foto: reprodução

Garrincha e Elza iniciaram seu relacionamento quando o jogador ainda era casado, e, por essa razão, foi julgada e condenada pelo tribunal da imprensa e da opinião pública. Em 1962, Garrincha larga sua esposa para ficar com Elza, logo após a Copa do Mundo do Chile. Um relacionamento torto, que no final se tornou abusivo pelos constantes episódios de ciúmes e violência doméstica praticados contra Elza. A cantora teve uma vida marcada por escândalos, tornando sua música mais do que um artefato artístico, uma estratégia de sobrevivência. Foi a partir de suas experiências de vida, nada românticas, que Elza se fez gigante e tornou-se um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira (MPB).

Elza (2022) afirma ter entrado no universo da música, em 1953, aos 13 anos[4], pela frequência radiofônica do Programa “Calouros em desfile”, da Rádio Tupi, apresentado pelo também flamenguista Ary Barroso. Após ouvir sua voz, ele pergunta: “De que planeta você veio, minha filha?”, questão que Elza prontamente responde: “Do mesmo planeta que você, seu Ary. Do planeta fome”. Foi do desespero da falta de meios para comprar remédios para seu filho, Carlinhos, que Elza tirou força de sua voz ardilosa para cantar. Dessa resposta nasceu o título do seu último álbum, lançado em vida, denominado Planeta Fome (2019), repleto de guitarras e corais. Esse é apenas um dos episódios que demarcam na trajetória pessoal de Elza traços de racismo e preconceito, ao mesmo tempo em que demonstram a potência de uma voz que enfrentava Deus e o mundo. Não se calava e se rasgava combatendo a discriminação e misoginia. Elza, figurou como uma mulher ingovernável que enfrentou, entre outras coisas, a Ditadura Militar. “A mulher do fim do mundo[5]” tornou-se uma das maiores amplificadoras de discursos em defesa da causa feminista e do combate à violência contra a mulher, potencializando estratégias políticas de transformação social e mostrando que “sua fome”, de fato, nunca cessou.

Recolhemos os legados dos nossos dois personagens, que para nós são faces duplas de uma mesma moeda, composta pela margem da exclusão social e pelo brilho singular de seus caminhos.  De Garrincha, o maior de todos no futebol, o que há de melhor em um jogador e de pior também. “É irônico que o maior jogador de futebol do Brasil, junto com Pelé e às vezes maior que ele, fosse justamente o anti-Pelé, em tudo” (Mayrink, 1972, s/p). De Elza, uma obra eterna, que seguiu mesmo após a sua morte, cantando até o fim. Maior prova disso é que foi lançado postumamente, em 2023, seu último álbum “No tempo da intolerância”, no qual faz um manifesto, através da sua voz, em defesa das pessoas que não são ouvidas.

Celebramos aqui, especialmente, o desencaixe. As vozes que unem uma torcida em torno da idolatria, que faz com que um jogador represente sentimentos inomináveis e relações de amor e ódio, uma paixão que pode levar à própria morte. Seja em Garrincha, com sua estética única que desenhava contornos com a bola e com suas pernas arqueadas. Seja em Elza, por entre as notas sem cabimento alcançadas por sua voz e concebidas pelo seu poder de revirar as dificuldades impostas pela realidade. Aqui, dedicamos um paraíso a Garrincha, nosso “anjo torto”. À Elza, que tirou sua força do submundo da “fome de tudo” para alcançar sua salvação, dedicamos a glória.

Notas

[1] Título do poema dedicado a Garrincha, escrito em 1962, por Vinicius de Moraes.

[2] “Mané Garrincha nasceu ali, quarto filho de uma família numerosa e marcada pela tragédia. O pai, guarda, morreu de cirrose. Uma irmã, Teresa, morreu aos 14 anos de barriga-d’água. Outra, ao cair de um caminhão num dia de festa, e o filho desta, agora com 16 anos, perdeu uma perna quando caiu de um trem” (Mayrink, 1972, s/p). Nesse aspecto, Garrincha pode ser considerado um sobrevivente. Além disso, há relatos de que ele pode ser fruto de uma relação incestuosa entre seu pai e uma de suas irmãs. No entanto, talvez a principal herança que herdou da família foi a mesma sina. Garrincha, assim como seu pai, Amaro Francisco dos Santos, morreu de cirrose hepática.

[3] Elza Soares nasceu em um subúrbio do Rio de Janeiro, atualmente denominado de Vila Vintém. A artista é filha do operário Avelino Gomes e da lavadeira Rosária Maria da Conceição.

[4] O primeiro casamento de Elza Soares aconteceu de forma forçada, em nome de sua honra, à época ela tinha apenas 12 anos de idade. Com 15 anos, Elza já tinha perdido 2 filhos, um para a fome e o outro no parto. Com seu primeiro marido, Elza teve 6 filhos. Aos 21 anos, ficou viúva. Com Garrincha, Elza teve um filho, Garrinchinha, que morreu em um acidente de carro, em 1986.

[5] Título do seu álbum lançado em 2015, que renovou sua sonoridade musical e seu público, tendo sido premiado como “Melhor Álbum de MPB” no Grammy Latino, em 2016, e considerado um dos melhores álbuns do ano, pelo jornal “The New York Times”. 

Referências

GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra. Porto Alegre: L&PM, 2015.

MAYRINK, Geraldo. A vida torta de Mané Garrincha. Veja, 1972. Disponível em: https://geraldomayrink.com.br/perfil/a-vida-torta-de-mane-garrincha/ Acesso em: 10 de out. de 2023.

SOARES, Elza. Elza Soares. In: NETO, Helcio Herbert. Conte comigo: Flamengo e Democracia. 1. ed. São Paulo: Editora Ludopédio, 2022. p. 91-94.

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Perolina Souza Teles

É professora da rede pública de ensino do estado de Sergipe. Atualmente é doutoranda em educação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e membra do "Grupo de pesquisa Corpo e política/UFS".

Fabio Zoboli

Professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe - UFS. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e política".

Como citar

SOUZA, Perolina; ZOBOLI, Fabio. Caminhos tortuosos: entre as pernas de Mané Garrincha e a voz de Elza Soares. Ludopédio, São Paulo, v. 173, n. 3, 2023.
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