Com a consolidação do futebol como esporte no país, diversos campeonatos foram se constituindo por diferentes cantos do Brasil. Destacam-se os campeonatos regionais ou estaduais, disputados por entidades esportivas de determinadas localidades, que durante muito tempo possuíram um enorme reconhecimento por parte dos torcedores. No caso de Belo Horizonte, os primórdios da consolidação do futebol na cidade remetem ao ano de 1904 (RIBEIRO, 2017).

Pouco a pouco, os times passaram a disputar o “Campeonato da Cidade”, contando com a presença de agremiações instituídas tanto na capital mineira quanto nas cidades próximas à metrópole. Consta que, durante os anos de 1915 a 1932, os principais rivais do Clube Atlético Mineiro eram o Villa Nova Atlético Clube e o América Futebol Clube, no período em que marca a fase amadora do futebol na cidade. Muito embora tenha sido fundado no ano de 1921, foi somente após a década de 1940 que o Cruzeiro Esporte Clube passou a ser parte mais forte do cenário futebolístico local, rivalizando com o principal adversário: o Atlético Mineiro.

Assim sendo, em 1958, o “Campeonato da Cidade” passou a ser reconhecido como Campeonato Mineiro e a construção do Estádio Governador Magalhães Pinto – Mineirão – se transformou no palco das disputas entre os dois clubes mais renomados da cidade de Belo Horizonte (1965), consolidando a rivalidade regional do futebol mineiro.

Diante das transformações sociais, políticas e econômicas vivenciadas no país, o futebol passou a ser caracterizado como um símbolo de identidade nacional (TOLEDO, 1996). Logo, no final da década de 1960, uma nova competição foi inaugurada, incorporando um maior número de clubes espalhados pelos diferentes estados do país: o Campeonato Brasileiro.

Entretanto, as competições regionais não perderam o seu caráter sociabilizador e, no caso de Minas Gerais, as disputas entre o Atlético / MG e o Cruzeiro Esporte Clube se tornaram ainda mais acirradas, denominadas de “clássicos” ou “dérbi”[1]. Porém, vale ressaltar que a “rivalidade entre Atlético e Cruzeiro, enfim, não surgiu de modo repentino, mas foi lentamente formada por meio de progressivos deslocamentos, que ampliaram o perfil sócio cultural das torcidas e deram aos dois clubes uma identidade eminentemente popular” (SILVA, 2014, p. 109).

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Atlético e Cruzeiro. Foto: Bruno Cantini/Clube Atlético Mineiro (CC BY-NC 2.0).

Contudo, é de fundamental importância questionar se os campeonatos estaduais estão “esgotados”. Vale a pena destacar que, nos dias atuais, um número grande de clubes abdica dessas competições para se dedicar aos demais campeonatos que possuem maior visibilidade no cenário nacional (Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores da América) e, consequentemente, para atender ao mercado econômico, futebolístico e pela própria dinâmica da globalização.

Isto quer dizer que os dirigentes e técnicos de clubes poupam seus jogadores para escalá-los nas competições de maior prestígio, dado que possíveis lesões ocasionadas em competições estaduais podem provocar o afastamento dos jogadores mais consagrados, impedindo as suas atuações nos campeonatos de maior reconhecimento, prejudicando, inclusive, o desempenho da equipe.

De outro lado, uma série de clubes defendem os campeonatos locais, dado que são apontados como uma “pré temporada de luxo”. Nesse sentido, os campeonatos estaduais significam uma preparação para os campeonatos nacionais e internacionais, possibilitando uma melhor atuação dos jogadores em campo e o entrosamento entre eles.

Dessa maneira, a tradição das rivalidades regionais propicia a permanência dos campeonatos estaduais, impedindo qualquer discussão sobre a extinção dessa competição. Os “clássicos” fazem parte da história da metrópole, da cultura dos torcedores e do imaginário dos habitantes, além de promover a participação de clubes com menores receitas financeiras e a oportunidade de estarem presentes na competição, visando uma possível projeção como, por exemplo, na Copa do Brasil. Mesmo que um grande número de clubes desejam “esgotar” os campeonatos regionais, essa tradição da rivalidade permanece “viva” no imaginário do torcedor, possibilitando a continuidade dos “clássicos” nos campeonatos estaduais.

Referências bibliográficas:

RIBEIRO, Raphael Rajão. Consolidação do futebol em Belo Horizonte e as conexões de seu maio esportivo. Fulia / UFMG, v. 2, n. 2, maio-ago,. 2017. pp. 6-27.

SILVA, Marcelino Rodrigues da. Quem desloca tem preferência. Mediação, Belo Horizonte/MG, v. 4, p. 23-30, 2014.

TOLEDO, Luiz Henrique de. Torcidas organizadas de futebol. Campinas: Autores Associados / Anpocs, 1996.


[1] Competição esportiva de grande destaque.

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Cristiane Nestor de Almeida

Geografia e futebol, uma mistura que deu certo. Podemos então mapear o lugar da bola.

Flávia Cristina Soares

Realiza estágio de pós-doutoramento Interdisciplinar em Estudos do Lazer na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Doutora e Mestra em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Especialista em Gestão Social pela Escola de Governo da Fundação João Pinheiro (2010). Formação em Psicanálise pelo Instituto de Psicanálise e Saúde Mental. Coordena o curso de pós-graduação em "Esporte e Sociedade: perspectivas interdisciplinares" da UNESAV; Professora de "Psicossomática", "Teorias e Técnicas de grupo" e "Psicologia aplicada à Saúde" pela Faculdade Pitágoras. Participante do Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (GEFuT) e Grupo de Estudo e Pesquisa em Políticas Públicas de Esporte e Lazer (NeoPolis) na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO) da Universidade Federal de Minas Gerais.

Como citar

ALMEIDA, Cristiane Nestor de; SOARES, Flávia Cristina. O possível esgotamento dos campeonatos regionais. Ludopédio, São Paulo, v. 109, n. 37, 2018.
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