145.7

Charles Miller, Friedenreich, Neco e Preguinho – biografias de jogadores do futebol brasileiro que atuaram nas primeiras décadas do século XX

Elcio Loureiro Cornelsen 5 de julho de 2021

O gênero biografia tem sido profícuo no âmbito dos esportes em geral e, sobretudo, no âmbito do futebol. Em pesquisa concluída recentemente,[1] analisamos um total de 13 biografias e 05 autobiografias de jogadores do futebol brasileiro, sendo que 17 deles atuaram ou ainda atuam (no caso de Neymar Jr.) na Seleção Brasileira. Mas esse número de obras de cunho memorialístico enfocando jogadores do futebol brasileiro é muito maior, conforme nos informam Domingos Antonio D’Angelo e Ademir Takara no brilhante estudo intitulado Bibliofut: a literatura do futebol brasileiro (2019), no qual catalogam mais de 250 obras de caráter biográfico (D’ÂNGELO; TAKARA, 2019, p. 182-205). Aliás, Pelé é o recordista de textos memorialísticos sobre sua pessoa, com mais de 20 biografias (D’ANGELO; TAKARA, 2019, p. 197-198).

Inicialmente, abordar o gênero biografia pressupõe, necessariamente, a interseção entre os campos da Literatura e da História: “[a]lguns eixos temáticos dominam os debates: a narrativa, a imaginação, o ficcional, o real, a memória, o gênero etc.” (CORNELSEN, 2020, p. 112) Ao enfocarmos, especificamente, os gêneros textuais, constatamos que a chave da relação entre Literatura e História seria “o passado e seu tratamento em ambos os âmbitos, e este pode encontrar em determinados gêneros textuais seu espaço de representação: relatos de testemunho, biografias, autobiografias, diários, romances, poemas, contos, crônicas etc.” (CORNELSEN, 2020, p. 112).

O próprio termo “biografia”, de origem etimológica grega, é composto pelos termos graphein (escrita) e bios (vida). De acordo com o teórico francês François Dosse (2009, p. 55), a “biografia” seria a escrita da vida do outro, apresentada como “história de vida”, um “gênero híbrido”, que se moveria entre verdade e imaginação.

Outro nome de suma importância para os estudos de textos memorialísticos na contemporaneidade é o da teórica argentina Leonor Arfuch. Baseada no teórico francês Philippe Lejeune (2008), uma das principais referências para o estudo de autobiografias, Leonor Arfuch adota a noção de “espaço biográfico” (ARFUCH, 2009, p. 113), a fim de dilatá-lo para além do gênero “biografia”. Nesse sentido, para além dos gêneros memorialísticos tradicionais – “biografias, autobiografias, memórias, diários íntimos, correspondências, testemunhos, histórias de vida” (ARFUCH, 2009, p. 114), “escritas das margens” também seriam consideradas – “rascunhos, cadernos de anotações, de viagens, de anotações de cursos, lembranças de infância” (ARFUCH, 2009, p. 114). Trata-se, pois, de um aspecto fundamental para aquele que realize uma pesquisa historiográfica de caráter documental para compor uma biografia.

Para este breve estudo, selecionamos as obras Charles Miller: o pai do futebol brasileiro (2005), de John Mills, Friedenreich – a saga de um craque nos primeiros tempos do futebol brasileiro (2012), de autoria do jornalista Luiz Carlos Duarte, Neco – o primeiro ídolo (2001), de Antonio Roque Citadini, e Preguinho: confissões de um gigante (2013), de Waldyr Barbosa Júnior e Waléria Barbosa. Como constataremos a seguir, essas quatro obras, que cobrem o período dos primórdios do futebol no Brasil até o início dos anos 1930, se enquadram na categoria “biografia heróica”, de acordo com a tipologia proposta pelo historiador italiano Giovanni Levi (1996, p. 172), que garante um sentido edificante em relação à vida e à persona do biografado.

Biografias
Imagens das capas das biografias de Charles Miller, Arthur Friedenreich, Neco (Manuel Nunes) e Preguinho (João Coelho Netto)

A escolha dessas quatro obras se orientou pelo seguinte motivo: as biografias de Charles Miller, Neco (Manuel Nunes), Arthur Friedenreich e Preguinho (João Coelho Netto) foram eleitas devido à relevância que cada jogador teve na história do futebol brasileiro: “Charles Miller por auxiliar na organização do futebol em São Paulo, Neco e Arthur Friedenreich por terem se destacado no período em que foi criada a Seleção Brasileira, e Preguinho por ter integrado a Seleção Brasileira que disputou o primeiro campeonato mundial em 1930, no Uruguai.” (CORNELSEN, 2020, p. 137)

Charles Miller ou a paternidade do futebol brasileiro

Ao ingressar como associado do São Paulo Athletic Club (SPAC), clube cuja história é marcada pela atuação de Charles Miller, John Mills interessou-se por biografar aquele que desempenhou um papel fundamental para a prática do futebol em seus primórdios no país. Filho de pai escocês e mãe brasileira, Charles William Miller (1874-1953) nasceu em São Paulo, no bairro do Brás. Como era de costume na colônia britânica, Charles Miller foi enviado por seus pais em 1885, aos 10 anos de idade, para estudar na Inglaterra. Ao retornar de lá em 1894, apaixonado pelo futebol, Charles Miller trouxe material esportivo e um livro de regras. Tornou-se funcionário da São Paulo Railway Company, companhia britânica responsável pela construção da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, onde passou a difundir entre os trabalhadores a prática do futebol.

Além disso, Charles Miller foi uma das figuras chave para a criação da Liga Paulista de Futebol e para a organização do São Paulo Athletic Club, onde jogou até 1910, tendo sido artilheiro de torneios paulistas e tri-campeão (1902, 1903 e 1904), e, após o encerramento da carreira no SPAC, atuou também com árbitro de futebol.

Charles Miller
Charles Miller em 1893 no St. Mary’s (Southampton F.C.). Foto: Wikipédia

A biografia de Charles Miller possui algumas peculiaridades. No capítulo “O missionário da bola” (MILLS, 2005, p. 63-76), a relação entre micro e macro-história se estabelece através da menção de fatos ocorridos no período em que o futuro pioneiro do futebol brasileiro esteve estudando na Inglaterra. John Mills “historiciza” sua narrativa através do emprego de paratextos (fotografias, mapas etc.), citações, evidenciando o trabalho de pesquisa das fontes, traço comum no gênero biográfico.

Todavia, elementos ficcionalizantes também aparecem em alguns momentos do texto, como se o narrador autoral fosse onisciente e, com isso, tivesse acesso aos sentimentos e pensamentos do biografado, como na seguinte passagem do capítulo “O missionário da bola”:

De novo instalado na Paulicéia, terra que o tinha visto nascer, e após as festividades natalinas daquele ano junto à família, Charles associou-se ao SPAC, já há seis anos em atividade. Estranhou um pouco não ver nada de ‘football’, pois nessa época o clube estava todo voltado para o críquete.

A idéia fixa em sua cabeça era difundir aqui o futebol que ele tanto havia apreciado na Inglaterra em partidas memoráveis, […]. (MILLS, 2005, p. 65)

Outro elemento ficcionalizante empregado por John Mills é a alteração no eixo temporal através do recurso de flashback. E em alguns momentos, o foco narrativo desvia-se da personagem biografada. Ao final do capítulo, o biógrafo atribui a Charles Miller a imagem de “missionário” e “catequizador”, citando a Carta de Pero Vaz Caminha por ocasião do Descobrimento do Brasil: “Esta primeira descrição da abundância no Brasil foi popularmente rebatizada como ‘em se plantando tudo dá’. O Missionário tinha feito o seu trabalho inicial de catequizador. A primeira semente tinha sido bem plantada, e os frutos estariam logo a brotar.” (MILLS, 2005, p. 76)

Neco – o primeiro ídolo da fiel torcida

O livro Neco – o primeiro ídolo, de autoria do dirigente de futebol Antonio Roque Citadini, foi publicado em 2001 pela Geração Editorial, de São Paulo. Trata-se de uma biografia de Manuel Nunes (1895-1977), o Neco, craque dos anos 1910 e 1920, que atuou de 1913 a 1930 no Sport Club Corinthians Paulista, tendo uma breve passagem também pela Associação Atlética Mackenzie Club em 1915. Neco também teve passagens pela Seleção Brasileira, de 1917 a 1922, com destaque para o Campeonato Sul-Americano de 1919, primeira conquista internacional na história do selecionado.

Assim como outras biografias, o livro Neco – o primeiro ídolo apresenta uma série de paratextos: além dos “Agradecimentos” e da “Bibliografia”, uma “Introdução” (CITADINI, 2001, p. 7-8), de Antonio Roque Citadini, na qual o autor evidencia que contou com a colaboração de um profissional da área de História para poder reunir materiais e escrever a biografia do primeiro craque na história do alvinegro do Parque São Jorge: “A Leandro Antonio Gatti quero deixar aqui o merecido agradecimento pelo eficiente trabalho de pesquisa com que, superando as deficiências do tempo e dos precários registros, conseguiu resgatar preciosos fatos e dados da vida de Neco” (CITADINI, 2001a, p. 8). O livro também é fartamente ilustrado com fotografias e reproduções de documentos, sendo um dos mais belos projetos gráficos em termos de biografias de jogadores de futebol.

Quanto à estrutura, a biografia de Neco segue um eixo cronológico, de seu nascimento em 1895 até sua despedida dos gramados em 1930, quando sagrou-se tricampeão paulista pelo Corinthians. A biografia traz, ainda, um capítulo final intitulado “Encerra-se a carreira, cresce o mito”, no qual, entre outras informações, seu biógrafo aponta para uma homenagem significativa ao craque:

Sua grande contribuição para o futebol brasileiro ficou registrada nas inúmeras homenagens que recebeu, como, por exemplo, a placa colocada em sua homenagem no Estádio das Laranjeiras, Campo do Fluminense, que perpetua a memória da histórica conquista do sul-americano de 1919 (CITADINI, 2001b, p. 181)

Um dos aspectos mais interessantes na biografia de Neco é que sua história se confunde com a própria história do clube em seus primórdios:

Primeiro ídolo do Corinthians, [Neco] rompeu as barreiras do preconceito que marcavam os times de periferia. Foi requisitado pela seleção paulista e imortalizado na inesquecível vitória do selecionado brasileiro em 1919, primeiro grande título internacional do futebol brasileiro. (CITADINI, 2001b, p. 177)

Neco
Foto: Wikipédia

A biografia de Neco é farta também em informações sobre o contexto em que vivera e atuara pelo Corinthians e pela Seleção. Um desses momentos é a pandemia de gripe espanhola que atingiu o Brasil em 1918, que culminaria com a paralisação do campeonato paulista: “A gripe espanhola apavora a população no segundo semestre do ano, ocasião em que os paulistas vencem os cariocas. Neco joga bem, marca um dos gols, mas torce o pé” (CITADINI, 2001b, p. 78).

Na “Introdução” do livro, Citadini resume a construção do mito em torno de Neco, em relatos passados de geração em geração: “Ouvi dos mais velhos corinthianos relatos apaixonados sobre Neco. Seus gols decisivos, a valentia de suas brigas com cinta e a defesa intransigente do alvinegro passaram de boca em boca, numa corrente que não deixa morrer o ídolo” (CITADINI, 2001a, p. 7)

“El Tigre”, um “guerreiro” dentro e fora de campo

A biografia de “El Tigre”, intitulada Friedenreich – a saga de um craque nos primeiros tempos do futebol brasileiro, de Luiz Carlos Duarte, lançada em 2012 pela Casa Maior Editorial, enfoca um dos primeiros craques do futebol brasileiro, Arthur Friedenreich. Vários mitos envolvem a figura desse primeiro ídolo das massas, ainda nos tempos do amadorismo. O principal deles reza que Fried, como era carinhosamente chamado, teria marcado mais de 1.200 gols, mais que Pelé. Todavia, estudos recentes demonstram que, em partidas oficiais, foram menos de 600 gols, mesmo assim, uma marca significativa. Além disso, Friedenreich é constantemente lembrado por ter sido o autor do gol da vitória na partida disputada contra a seleção do Uruguai em 29 de maio de 1919, quando a Seleção Brasileira sagrou-se Campeã Sul-Americana de Futebol. Além de ter jogado por clubes como o Germânia (atual Clube Pinheiros) e Club Athletico Paulistano, Fried defendeu as cores da Seleção Brasileira entre 1914 e 1930.

Arthur Friedenreich
Foto: Wikipédia

Arthur Friedenreich nasceu em 18 de julho de 1892, na cidade de São Paulo, filho do arquiteto e engenheiro Oscar Friedenreich, de origem alemã, e de Mathilde de Moraes e Silva, descendente de escravos que, desde 1894, atuava como professora na rede de ensino público. “El Tigre”, apelido que o tornaria famoso no futuro como exímio atacante, foi um dos primeiros jogadores mulatos a atuar em clubes de futebol da época, quando a segregação sócio-racial já imperava em equipes paulistas e cariocas. De acordo com o biógrafo de Fried, Luiz Carlos Duarte,

[a] convivência dentro da comunidade germânica o protegia de eventuais restrições por conta de sua cor, embora sua condição seja motivo de diferentes interpretações ao longo destes anos. Há quem considere que ele era tido e aceito como um branco por causa de sua família e respectiva posição social. Outros sustentam que ele não era imune às manifestações de origem racista, fossem veladas ou escancaradas. (DUARTE, 2012, p. 30)

Por sua vez, seu gol antológico, assinalado contra a Seleção Uruguaia na partida final do Campeonato Sul-Americano de 1919, há cem anos, é assim representado no relato de Luiz Carlos Duarte:

[…] Quase em cima da linha de fundo, o corintiano [Neco] cruza alto para a área. Friedenreich, mais adiantado, salta, mas não alcança a pelota. Heitor, logo atrás, acerta a cabeçada, que é defendida parcialmente pelo goleiro Saporiti. A bola pinga na frente de Friedenreich, que chuta de esquerda em direção à meta e conquista o tão esperado gol. (DUARTE, 2012, p. 96)

Tal triunfo foi um dos primeiros momentos da história vitoriosa da Seleção Brasileira desde sua criação, em 1914, que já despertava emoções na multidão: “A festa provocou um colapso sem precedentes no trânsito da região central [da capital paulista], com um congestionamento de bondes, automóveis e tílburis, em meio às passeatas que entoavam cânticos e hinos” (DUARTE, 2012, p. 97): Fried se tornaria, pois, o craque daquela geração dos primórdios do futebol brasileiro, na passagem de uma modalidade esportiva praticada por segmentos da elite política e econômica no país para um esporte de massas:

“El Tigre” é considerado um dos primeiros elos na cadeia que se forma em torno do mito do “futebol arte”: “Primordial, pioneiro e essencial, Friedenreich fez história. Com suor, engenho e arte, ele e demais jogadores de sua geração fundaram um estilo brasileiro de jogar futebol” (DUARTE, 2012, p. 234).

Mas Fried também protagonizou, no âmbito do esporte, um evento histórico em 1932: o craque foi um dos principais nomes do chamado Batalhão Esportivo, que combateu na Revolução Constitucionalista pelas tropas paulistas. Segundo Luiz Carlos Duarte, Fried chegou a doar seus troféus e medalhas para a campanha militar e conclamou esportistas a se alistarem, através de pronunciamentos no rádio e na imprensa, ou mesmo viajando por várias cidades no interior do Estado. Ao todo, 1.400 homens se apresentaram voluntariamente, e 800 formaram o 1º Batalhão Esportivo, após duas semanas de treinamento militar. Por suas atuações na frente de batalha, na divisa de São Paulo com Minas Gerais, Friedenreich foi promovido de patente, conforme despacho assinado pelo Major Antônio Bayma, citado por Luiz Carlos Duarte na biografia do jogador:

“Tenho satisfação em comunicar-vos que foi promovido a 2º tenente o sargento Arthur Friedenreich pela sua atuação brilhante nos últimos combates em Eleutério, onde com muita dificuldade pôde distinguir-se entre seus companheiros dos batalhões Esportivo e Nove de Julho, pois todos se batem como verdadeiros guerreiros” (BAYMA apud DUARTE, 2012, p. 207)

Para um universo que, em sua maioria, se apresenta como “apolítico”, que pode significar um alheamento aos acontecimentos que atingem o país ao longo de sua história republicana, a biografia de Arthur Friedenreich revela um “guerreiro” dentro e fora de campo.

Preguinho – um “gigante” das Laranjeiras

O livro Preguinho: confissões de um gigante, de autoria do escritor Waldyr Barbosa Jr. em colaboração com Waléria Barbosa, foi publicado em 2013 pela editora Edição do Autor, do Rio de Janeiro. Trata-se de uma biografia do jogador Preguinho – João Coelho Netto –, jogador do Fluminense e também da Seleção Brasileira na década de 1920 e início da década de 1930.

A obra sobre Preguinho, aliás, é sui generis em sua concepção e autoria, pois ela se baseia em depoimentos concedidos pelo ex-jogador ao jornalista Waldir Barbosa, de 1974 a 1977, ano em que o jornalista faleceu prematuramente. Assim, seu filho, Waldir Barbosa Júnior, contando com a colaboração da esposa, Waléria Barbosa, assumiu a tarefa de editar os depoimentos e construir a biografia do jogador, integrando também materiais de arquivo do clube.

Dentre os paratextos que compõem o livro Preguinho: confissões de um gigante, dois deles chamam à atenção. Primeiramente, há um texto intitulado “Algumas considerações sobre o idealizador do projeto” (BARBOSA JÚNIOR; BARBOSA, 2013, p. 13-14), assinado por Waldir Barbosa Jr. e Waléria Barbosa, na qual narram sobre o jornalista Waldir Barbosa e o projeto idealizado pelo jornalista no sentido de escrever a biografia de Preguinho, e sobre a tentativa de fazer jus a esse projeto. Conforme relata Waldir Barbosa Jr., sua esposa e ele trabalharam na reelaboração do texto deixado por seu pai, “até que encontrássemos um veio que nos parecesse honesto, que não descaracterizasse os relatos de João Coelho Neto a meu pai, mas que simultaneamente o tornasse se não de entendimento fácil, ao menos prazeroso de ler” (BARBOSA JÚNIOR; BARBOSA, 2013, p. 14).

Por sua vez, o segundo paratexto que chama à atenção no livro Preguinho: confissões de um gigante são os “Comentários do idealizador sobre a personagem” (BARBOSA, 2013, p. 15-18), texto assinado pelo jornalista Waldir Barbosa, que colhera os depoimentos do craque em meados dos anos 1970, e que não teve tempo de vida para concluir seu projeto, levado adiante por seu filho, Waldir Barbosa Jr., quase 40 anos depois. Assim relatava Waldir Barbosa sobre a ilustre “personagem” do tricolor carioca:

A convivência com Preguinho foi fundamental para que concretizasse o que me propus, sua memória é prodigiosa, seu senso de equilíbrio ao emitir suas opiniões é invejável e fiz questão de lhe revelar esta impressão sempre que possível, ao mesmo tempo em que me queixava por ele a respeito de meus colegas de imprensa, que relegavam a um ostracismo estúpido e injusto um dos baluartes do esporte brasileiro […] (BARBOSA, 2013, p. 17)

Preguinho se criara nas Laranjeiras. Era filho do famoso escritor Henrique Maximiano Coelho Netto, fundador da Cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Letras, figura proeminente na diretoria do tricolor carioca e um dos cronistas mais ilustres que defendiam o esporte bretão na década de 1910, atribuindo-lhe um “pedigree” que lhe associava com a Grécia Antiga, berço do esporte mundial na tradição ocidental. Aliás, Coelho Netto protagonizaria com Lima Barreto um verdadeiro debate sobre o futebol nos salões literários do Rio de Janeiro, muito bem documentado na obra Lima Barreto versus Coelho Neto: um Fla-Flu literário (2010), de Mauro Rosso. Na epígrafe do livro Preguinho: confissões de um gigante, essa relação do jogador com o time de coração da família Coelho Netto é expressa de modo evidente: “Eu nem sabia falar direito e o Fluminense já estava em minha alma, em meu coração e em meu corpo” (BARBOSA JÚNIOR; BARBOSA, 2013, p. 7).

Dentre os 20 capítulos de compõem a obra, recheada de fotografias e de informações sobre a história do clube das Laranjeiras e as façanhas de Preguinho, selecionamos um deles, intitulado “Conselho aos moços”, em que é reproduzida uma mensagem de Preguinho endereçada aos jovens:

“O esporte é a maior fonte de energia para o organismo humano, posso afirmar isto porque pratiquei diversas modalidades com amor e abnegação, como amador que fui durante mais de duas décadas; convoco todos os jovens brasileiros a seguirem o meu exemplo, pois somente terão a ganhar com isso, não é apenas o prazer da conquista, de ser campeão, isso visto isoladamente não satisfaz. O que conforta é disputar, participar, formar um corpo forte e uma mente sã” (COELHO NETTO apud BARBOSA JÚNIOR; BARBOSA, 2013, p. 121).

Preguinho
Foto: Wikipédia

Certamente, a biografia de Preguinho atesta o espírito de um autêntico sportsman de seu tempo, que via na prática esportiva um modo de vida pautado pelo aprimoramento físico aliado a valores edificantes. Ao longo da carreira, o atleta honrou as cores de seu clube ao atuar em 10 modalidades diferentes: futebol, basquete, voleibol, hóquei sobre patins, atletismo, natação, saltos ornamentais, pólo aquático, remo, e canoagem (BARBOSA JÚNIOR; BARBOSA, 2013, p. 126-133). Seu nome e o de seus familiares se confundem com a história do Fluminense: além do pai, autor do Primeiro Hino do Tricolor das Laranjeiras, lançado em 1915, os irmãos Paulo, Emmanuel – conhecido pelo apelido de Mano, falecido precocemente em setembro de 1922, em decorrência de complicações causadas por uma lesão no abdômen, em partida disputada contra o São Cristóvão – e Georges também figuram no hall daqueles que integraram os quadros do clube em uma fase em que, gradativamente, se intensificava o processo rumo à popularização do futebol nos anos 1930.

A biografia de Preguinho nos traz a atmosfera de certa “aristocracia” social da então capital do país, de uma família que respirava o futebol nas primeiras décadas do século XX: “pela vista do sobrado onde moravam os Coelho Netto dava para assistir melhor do que no campo, a família  com frequência presenciava os espetáculos esportivos de um dos quartos” (BARBOSA JÚNIOR; BARBOSA, 2013, p. 25).

Escritas da vida de jogadores nos primórdios do futebol brasileiro – a guisa de conclusão

O estudo dessas quatro obras que enfocam as vidas e as carreiras dos jogadores Charles Miller, Neco, Friedenreich e Preguinho, nos permitiu reunir vários elementos para traçar uma análise das memórias sobre o futebol brasileiro em seus primórdios. São obras que nos possibilitam analisar a representação, de cunho memorialístico, acerca do referido período, com as transformações no âmbito social e político do país, vistas em sua relação com o futebol, pela chegada de um “Missionário da bola” (MILLS, 2005b, p. 63) em 1894, o advento de um “esporte para poucos” (CITADINI, 2001b, p. 17) em fields de clubes de elite, o Brasil se instituindo em “uma nova escola de futebol” (DUARTE, 2012, p. 83) em 1919, com a conquista do Campeonato Sul-Americano, e os obstáculos encontrados pela Seleção Brasileira no primeiro mundial em 1920, no Uruguai, nas palavras de Preguinho: “a torcida, o frio inclemente – seis graus abaixo de zero, a desorganização de nosso selecionado” (BARBOSA JÚNIOR, 2013, p. 57).

Duas dessas biografias desafiam a definição de autoria do texto. Neco – o primeiro ídolo, de Antonio Roque Citadini, contou com a colaboração de Leandro Antônio Gatti para a pesquisa historiográfica, sendo que seu nome consta apenas na “Introdução” (CITADINI, 2001a, p. 8), não sendo possível, portanto, avaliar em que medida o historiador, ao investigar a documentação, também interferiu no próprio texto de autoria do dirigente; Preguinho: confissões de um gigante, de Waldyr Barbosa Jr., obra bem mais complexa, resultou de coleta de depoimentos do jogador Preguinho, concedidos pelo craque das Laranjeiras ao jornalista Waldyr Barbosa, que falecera sem concluir seu projeto de publicar o livro, cabendo ao filho, Waldyr Barbosa Jr., essa tarefa, que contou também com a colaboração de Waléria M. P. Barbosa, sua esposa.

Sem dúvida, a leitura das biografias de Charles Miller, Fried, Neco e Preguinho é, ao mesmo tempo, um passeio histórico pela Primeira República (1889-1930), nos caminhos de uma nação que se inseria na modernidade, mas que carregaria por décadas um lastro de vicissitudes que impediriam a busca por uma verdadeira justiça social.

Nota

[1] A pesquisa Memória e Futebol no Brasil: escritas da vida de jogadores brasileiros foi iniciada em 2017 e concluída em 2020, e financiada pelo CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

Referências Bibliográficas

ARFUCH, Leonor. O espaço biográfico na (re)configuração da subjetividade contemporânea. In: GALLE, Helmut et al. (orgs.). Em primeira pessoa: abordagens de uma teoria da autobiografia. São Paulo: Annablume/FFLCH-USP, 2009, p. 113-121.

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BARBOSA JÚNIOR, Waldir; BARBOSA, Waléria. Preguinho: confissões de um gigante. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2013.

CITADINI, Antonio Roque. Introdução. In: CITADINI, Antonio Roque. Neco – o primeiro ídolo. São Paulo: Geração Editorial, 2001a, p. 7-8.

CITADINI, Antonio Roque. Neco – o primeiro ídolo. São Paulo: Geração Editorial, 2001b.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Estudos Literários e História do Esporte. In: MELO, Victor Andrade de et al. (orgs). História do Esporte: diálogos disciplinares. Rio de Janeiro: 7Letras/Faperj, 2020, p. 112-121.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Memória e futebol no Brasil: escritas da vida de jogadores brasileiros. História: Questões & Debates. Curitiba, v. 68, n. 37, p. 133-159, jul./dez. 2020. Acesso em: 21 jun. 2021.

D’ANGELO, Domingos Antonio; TAKARA, Ademir. Bibliofut: a literatura do futebol brasileiro. Jundiaí, SP; Ed. In House, 2019.

DOSSE, François. O desafio biográfico: escrever uma vida. Trad. Gilson César Cardoso de Souza, São Paulo: Edusp, 2009.

DUARTE, Luiz Carlos. Friedenreich: a saga de um craque nos primeiros tempos do futebol brasileiro. São Caetano do Sul, SP: Casa Maior Editorial, 2012.

LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à Internet. Trad. Jovita Maria Gerheim Noronha e Maria Inês Coimbra Guedes, Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.

LEVI, Giovanni. Usos da biografia. In: AMADO, Janaína; FERREIRA, Marieta de M. (orgs.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV, 1996, p. 167-182.

MILLS, John. Charles Miller – o pai do futebol brasileiro. São Paulo: Panda Books, 2005.

ROSSO, Mauro. Lima Barreto versus Coelho Neto: um Fla-Flu literário. Rio de Janeiro: Record, 2010.

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Elcio Loureiro Cornelsen

Coordenador do FULIA - Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes, da UFMG.

Como citar

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Charles Miller, Friedenreich, Neco e Preguinho – biografias de jogadores do futebol brasileiro que atuaram nas primeiras décadas do século XX. Ludopédio, São Paulo, v. 145, n. 7, 2021.
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