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Clube “grande”, “projetos” e as escolhas que cercam o jogador brasileiro atualmente

Pietro Gesuatto Loredo 21 de fevereiro de 2024

Está cada vez mais comum no futebol brasileiro a ideia de “projetos” onde os clubes visam transparecer para a torcida e para os atletas as intenções a longo prazo. Isso pode ou não estar vinculado ao processo de transformações dos clubes que eram modelos associativos em SAFs (Sociedade Anônima do Futebol) ou clube empresas, visto que executivos  estudados assumem o papel do clube num modelo bem empresarial. A questão que quero debater é o porque cada vez mais jogadores estão escolhendo determinados “projetos” ao invés de outros? Será por dinheiro? Chance de jogar mais vezes? Bom, para exemplificar isso irei utilizar o jogador Juninho Capixaba, lateral-esquerdo do Red Bull Bragantino, que já passou por grandes clubes do país como Bahia, Grêmio, Corinthians e mais recentemente no Fortaleza, onde se destacou no Campeonato Brasileiro de 2022. No começo do ano de 2023 era normal que diversos clubes ficassem interessados no atleta e fizessem propostas visando adquirir o seu passe, dentre os interessados os candidatos mais fortes para contratá-lo foram duas equipes paulistas, o São Paulo e o Red Bull Bragantino. Juninho, que já tinha jogado em clubes “grandes”, optou pelo time do interior paulista, o Bragantino, mesmo com o salário menor e com uma briga acirrada na posição visto que o lateral-esquerdo titular na temporada passada foi Luan Cândido, destaque do time no Campeonato Brasileiro de 2022 com 11 gols e 1 assistência.

Ao procurar entender o porquê da escolha fica nítido, a tranquilidade de morar com sua família no interior e a garantia de que ia receber os salários em dia foi motivo suficiente para Juninho escolher o “Massa Bruta”. Nenhum jogador gosta de ser cobrado por torcedores na porta de sua casa ou quando está saindo do CT (Centro de Treinamento), o Bragantino, por ser um clube em ascensão no cenário nacional, está conquistando aos poucos sua torcida, com isso é muito raro acontecer esse tipo de cobrança que assustam os jogadores. Outro fato é a pressão por resultados que os clubes chamados “grandes” têm e que o Red Bull Bragantino não pode ser colocado nessa mesma estante.

Juninho Capixaba apresentado como novo jogador do Red Bull Bragantino.
Foto: Vinicios Oliveira/Red Bull Bragantino/Divulgação

Outro exemplo parecido é com o jogador Caio Alexandre, hoje volante do Bahia, que rejeitou propostas de Corinthians e Palmeiras para assinar com a equipe de Salvador. Também com ótima temporada no Fortaleza, Caio enfrentou um dilema para escolher seus próximos passos no futebol e acabou escolhendo o quase rebaixado no ano anterior Bahia. Óbvio que cada jogador vai ter os seus critérios para escolher que clubes vão jogar porém a questão que quero por em debate é o olhar de desgaste que os jogadores brasileiros têm ao modelo associativo, preferindo ingressar numa SAF ou em um clube empresa com a impressão (ou falsa impressão) de que o “projeto” das empresas vão fazer com que ele performe seu melhor futebol e que ele conquiste seus sonhos, seja jogar na Europa ou ser convocado para a Seleção Brasileira. Fica claro que hoje no Brasil não existem mais aqueles cartolas figurões no qual apareciam mais do que o próprio time, vide exemplo Eurico Miranda que contratava jogadores através das conversas e promessas no qual seriam ou não cumpridas. Hoje a maioria dos jogadores de futebol pensa em ingressar num clube estruturado e que não passe apuros no futuro, isso significa que o clube “grande” no futebol nem sempre vai contratar os principais atletas. 

Caio Alexandre
Foto: Letícia Martins/EC Bahia/divulgação

Nessa questão acerca dos chamados clubes “grandes” me pega pensando de vez em quando, para ser grande preciso de títulos? O que precisa ser feito para um clube de menor expressão se tornar grande no futuro? E lendo um texto do Arlei Damo achei uma citação que exemplifica o meu sentimento em relação aos grandes do futebol:

[…] um clube não é “grande” pelo fato de ter uma torcida numerosa ou conquistar muitos títulos. Antes, pelo contrário, é justamente por que são “grandes” que seduzem multidões e acumulam troféus. “Grande” para os torcedores é, antes de tudo, uma noção da ordem do simbólico: “grande” é um predicado atribuído ao clube na medida em que este é capaz de suscitar “grandes” emoções, “grandes” conflitos, “grandes” tradições, enfim, “grande” excitação. Por isso eles são chamados de “clubes do coração”[…](DAMO, 1998, p.40).  

Tendo em mente o que Damo coloca em sua dissertação de mestrado fica notório que os jogadores podem jogar em clubes de menor expressão e ainda assim sentirem as “grandes emoções” que um clube “grande” daria, pode ter certeza que o torcedor de futebol, seja ele de qual time for, ama o clube e vai transmitir esse sentimento ao jogador. Em resumo, resolvi escrever esse breve texto, e quem sabe aprofundar um pouco mais disso no futuro, na intenção de problematizar a ideia de “clubes grandes” e mostrar que clubes de menor expressão podem ser um atrativo para os jogadores, mesmo não tendo uma torcida gigantesca como no caso do Bragantino. A visão acerca dos “projetos” dos jogadores para com os clubes têm mudado, a preferência é nítida em relação as SAFs e clube empresas, podemos pensar que as péssimas gestões recentes em modelos associativos possam ter pintado esses modelos como “vilões”. 

Bibliografia

DAMO, Arlei Sander. Para o que der e vier: o pertencimento clubístico no futebol brasileiro a partir do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e seus torcedores. 1998. 247 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1998.

SANTOS, Irlan Simões da Cruz. A produção do clube: Poder, Negócio e Comunidade no Futebol. Rio de Janeiro: Mórula, 2023.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Pietro Gesuatto Loredo

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos com ênfase em Antropologia e Antropologia das práticas esportivas. Faço parte do grupo de pesquisa LELuS - UFScar onde estudo a torcida do Red Bull Bragantino e seu processo de empresarização. Também atuo como repórter esportivo pela Rádio Futebol Total em Bragança Paulista.

Como citar

LOREDO, Pietro Gesuatto. Clube “grande”, “projetos” e as escolhas que cercam o jogador brasileiro atualmente. Ludopédio, São Paulo, v. 176, n. 21, 2024.
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